9th of March

Pior jogada LGBT: tentar obrigar confeiteiros homofóbicos a fazer bolo de casamento gay Casal de confeiteiros do Oregon alega liberdade religiosa para defender a recusa de fazer bolo de casamento para casal de lésbicas


Melissa e Aaron Klein, donos da confeitaria “Sweet Cakes” em Oregon, foram condenados em primeira instância a pagar 135 mil dólares por se recusarem a fazer o bolo de casamento das lésbicas Rachel e Laurel Bowman-Cryer. O casal Klein alega objeção de consciência por crença religiosa, recorreu da decisão, e hoje foi ouvido por uma corte de apelações. Eles dizem também que a batalha judicial os levou à falência, e que tiveram de fechar a confeitaria devido a ameaças. Enquanto isso, o casal Bowman-Cryer alega que o caso dificultou sua vida e a criação de suas duas filhas adotivas com deficiência.

A defesa dos Klein alega que a manufatura do bolo é arte, e, portanto, também expressão, sendo protegida como uma liberdade inalienável pela primeira emenda da constituição americana.

O efeito dessa alegação é meio divertido. Ao contrário dos conservadores, o grupo político mais afeito a defender os direitos LGBT (ou a querer ser visto como se defendesse mais que os outros, fazendo muito barulho no processo) costuma também defender definições extremamente amplas de arte, em que qualquer coisa pode ser arte, uma vez eleita pela vontade de um artista e aprovada pela elite artística, como no exemplo histórico do mictório escolhido por Marcel Duchamp (e apelidado de “A Fonte”). Nos últimos anos tenho visto um crescimento na incidência de “arte” contemporânea e “expressiva” no Brasil, do tipo que parece feita sob encomenda para ofender a vovó: numa peça de teatro em São Paulo, dois atores injetaram vinho em seus ânus e expeliram no palco. Num evento sobre gênero numa universidade federal, uma pessoa transexual e obesa, nua, se cobriu de óleo de dendê (a “performance” se chama “gordura trans”), e uma moça, aparentemente tentando representar o status da mulher na sociedade brasileira, pôs chifres na cabeça e uma sela nas costas e engatinhou, nua, cercada de espectadores, atuando como uma vaca. Mais recentemente, neste ano, outra moça se cobriu de tinta preta e se prostrou no chão para seu parceiro de expressão “artística” urinar em seu corpo. Não esqueçamos uma “peça” notória chamada “Macaquinhos”, em que um grupo de atores faziam uma ciranda nus, cada um com um dedo no ânus do próximo. Numa entrevista, os artistas responsáveis pela peça explicaram que sua arte representa o domínio do hemisfério norte sobre o sul. Se cada uma dessas coisas é “arte” e por isso é protegida como liberdade de expressão (concordo com a proteção, mas não com o diagnóstico), por que assar – ou recusar-se a assar – um bolo de casamento não poderia ser a mesma coisa? Está abolida a livre expressão que irrite ou chateie pessoas LGBT? Somente o que irrita e chateia a vovó (e entendia a juventude cansada de ver pornografia) pode ser arte?

Se a defesa está certa, então a decisão de primeira instância foi injusta e inconstitucional, pois o Estado americano não pode compelir a expressão dos cidadãos, ou seja, forçá-los a expressar o que não necessariamente está em conformidade com suas crenças. Um argumento melhor que a alegação de que o bolo era arte é que fazer um bolo de casamento é participar, mesmo que indiretamente, de uma cerimônia de casamento, e no caso sua crença cristã (fundamentalista?) não concorda que duas mulheres possam se casar e os confeiteiros não podem ser obrigados a participar da cerimônia. O caso poderá terminar na Suprema Corte dos Estados Unidos. Até lá, com prováveis novas nomeações de juízes conservadores por parte de Donald Trump, é possível que a decisão de primeira instância seja revertida.

A discussão na corte sobre o apelo do casal Klein não pôde ser um debate completo, pois é uma discussão que precisa seguir as leis do estado de Oregon, que proíbem a discriminação pela negação de serviço com base em categorias protegidas (raça, orientação sexual, gênero, religião). Então, ao ouvir a discussão no tribunal, algo que está ausente é o questionamento de que é mesmo justo que exista a lei anti-discriminação, que impede pessoas preconceituosas de agir de acordo com seus preconceitos em seus próprios negócios.

Creio que recusar-se a atender clientes gays num negócio de bolos de casamento é, sim, discriminação injusta nascida no preconceito, e que crenças religiosas são uma desculpa frágil para essa atitude. Na verdade, crenças religiosas são quase sempre uma base fraca para justificar qualquer atitude, de guardar o sábado à mutilação genital. Mas essas crenças preconceituosas e essa atitude discriminatória em torno do caso deveriam estar contempladas pelas liberdades legais. Nem tudo o que é imoral deve ser ilegal, e eu não penso que a imoralidade de ser um empreendedor confeiteiro preconceituoso com seus clientes seja algo que justifique conjurar o poder do Estado para proibi-lo de sê-lo. Uma sociedade saudável para com as minorias é aquela em que as ideias preconceituosas contra elas encontram resistência suficiente para haver outros confeiteiros que façam seu bolo de casamento. É aquela em que os casais gays podem simplesmente elevar a concorrência não preconceituosa, sendo clientes e propagandistas, em vez de se engajar em batalhas judiciais para fazer os confeiteiros preconceituosos pararem de agir como preconceituosos. Se a intenção é diminuir ou combater o preconceito, não é o efeito esperado dessa batalha. Na verdade, o que se espera nesse tipo de batalha é a escalada do despeito, em que ninguém reexamina o que acredita nem se o que está fazendo em nome dessas crenças é correto, focando-se, em vez disso, em sua liberdade de poder acreditar em qualquer porcaria, da homofobia ao igualmente tolo autoritarismo contra a expressão da homofobia.

Interferir injustamente na liberdade de religiosos preconceituosos é uma má estratégia para qualquer defensor dos direitos LGBT. Não é coerente defender direitos pisando em um dos direitos mais importantes de todos, que é a liberdade de expressão. E se assar um bolo não for expressão, estamos falando de liberdade de escolher clientes, mesmo com base em crenças torpes como a homofobia, o racismo ou a misoginia. Numa sociedade em que o preconceito genuinamente está perdendo, donos de negócios preconceituosos lucram pouco ou vão à falência.

 

17th of February

Pior que “fake news” é “fake knowledge”


Quem já consumiu muita notícia deve ter tido uma sensação que pode ser descrita como ‘ressaca informacional moral’. É aquela sensação de que você está adquirindo um monte de informações que em última análise em pouco ou nada afetarão a sua vida, além da rara ocasião em que te ajudam a ter assuntos para discutir em mesa de bar. E daí se Donald Trump foi pego desprevenido fazendo comentários desrespeitosos sobre mulheres? Só dá para imaginar que isso terá algum impacto na sua vida se você passar um tempo especulando sobre causalidades indiretas, do tipo improvável. Até notícias com aparência de extrema importância, como a escolha de um ministro do Supremo Tribunal Federal que tem conflito de interesses com a operação Lava Jato, dificilmente têm claras linhas causais que afetarão a sua vida em particular, mais que as vidas dos outros 200 milhões de brasileiros. E não é só isso: mesmo se afetasse, o seu poder de alterar alguma coisa é mínimo, quase nulo. E é aí que reverbera o conselho estóico de não gastar energia mental se preocupando com o que você não pode mudar. A ressaca informacional também é moral porque você se vê desperdiçando seu tempo aprendendo fatos inúteis ou inalcançáveis em vez de aprender o que pode melhorar a sua vida ou, no mínimo, ao menos te entreter.

Há uma natureza passageira, quase desesperadora, no ritmo das notícias. Vêm e vão. As pessoas se preocupam, protestam, depois esquecem. Alguns políticos até aprenderam que tudo o que têm que fazer para escapar da ira da opinião pública é esperar pelo próximo assunto que capturará a atenção coletiva. Esse ritmo não existe na produção de conhecimento. Talvez por isso é tão difícil achar seção de notícias sobre ciências que satisfaça a cientistas: enquanto os jornais querem fatos noticiosos, os cientistas querem fatos perenes. Por isso quase toda manchete dos jornais alegando que determinado fóssil revolucionou a teoria da evolução é falsa.

Se há um lado bom na efemeridade das notícias, é que, tanto quanto as notícias verdadeiras, as falsas acabam tendo, também, um impacto limitado. Não é o caso quando a falsidade está não nos fatos noticiosos, mas nos fatos aceitos como perenes. Aqui vai uma pequena lista de “fake knowledge” (conhecimento falso) cujo impacto é bem pior que qualquer “fake news” (notícia falsa):

  • Pareceres de “especialistas em problemas sociais” que fazem “sociologia normativa“, livre de dados. Esses especialistas estão virando figura frequente na TV. Se houve um problema específico com um grupo social específico, a resposta dogmática é sempre discriminação injusta e preconceito. Como eles sabem disso? Não pergunte. Se você perguntar, você aprova a discriminação injusta e o preconceito.
  • A aceitação comum da astrologia como, se não uma ciência do comportamento humano, ao menos um entretenimento inocente. Não importa que já tenha sido demonstrado que, em condições controladas, mapas astrais e horóscopos erram feio. Duvidar da astrologia deve ser coisa de leonino com ascendente em escorpião. A astrologia está até nas TVs do metrô de São Paulo. Não ocorre a ninguém que, se o metrô está investindo em astrologia, está usando um recurso limitado que poderia ser aplicado em, por exemplo, alguma produção artística local ou em algum programa informativo?
  • Conselhos de psicólogos e terapeutas que se baseiam em teorias obsoletas ou especulações sem base. Não importa o quanto se mostre os problemas teóricos da psicanálise, ela continua sendo tratada como um conhecimento sério nas graduações em psicologia. Outras áreas alternativas e agressivamente contrárias à psicanálise, como o behaviorismo, não se saem muito melhor em base teórica. Os behavioristas, ao menos os radicais, alegam que termos como “vontade”, “escolha” e “querer” são “mentalismos”, ou seja, ilusões coletivas de eras pré-científicas, que um dia serão substituídas todas por explicações em termos de comportamentos. “Penso, logo existo”? Que nada, duvide da experiência de realidade aparente mais imediata, substitua por “me comporto, logo existo”. Mas os behavioristas com suas bases controversas, embora com aplicação prática de maior sucesso que a psicanálise, nem se comparam aos vendedores de best-sellers de especulações psicológicas, como Augusto Cury e sua “teoria (sic) da inteligência multifocal” jamais publicada em periódicos revistos por pares.
  • Modas populares sobre tratamentos de saúde baseadas em apelos a autoridades e outras falácias, bem distantes de qualquer avaliação das evidências. Aqui há vários exemplos, dos defensores da fosfoetanolamina (desastrosamente apelidada de “pílula do câncer” pela imprensa) como “cura do câncer” aos defensores da homeopatia, que apesar de bater recordes em contradizer um número enorme de ciências estabelecidas – física, química, biologia – é reconhecida como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina, não por acaso desde a época da Ditadura Militar. Essas modas populares são praticamente inevitáveis, dado o analfabetismo da população sobre como funciona a descoberta de novos tratamentos e qual é a cara da evidência de eficácia. Essas modas sempre surgem acompanhadas de anticorpos: se alguém duvida que uma nova coisa é finalmente a cura milagrosa, é porque está sob influência de alguma conspiração da indústria farmacêutica.
  • A ideia de que não existem transtornos psiquiátricos, só “tipos diferentes de ser humano”, e que a psiquiatria só classifica certos comportamentos ou características mentais como transtornos porque, adivinhe só, tem interesse em lucrar com a indústria farmacêutica. Há evidência circunstancial de que nos EUA, por exemplo, há um diagnóstico excessivo de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) entre crianças, talvez motivado, sim, por interesses econômicos. Mas, para azar dos conspiracionistas, a genética do comportamento, que não sofre nenhuma crise de replicação de resultados (diferente de boa parte da psicologia feita com mais rigor), encontrou consistentemente que o TDAH é uma das características comportamentais (ou conjunto delas) com a maior herdabilidade já encontrada entre humanos, acima de 70%. Esse valor indica uma participação majoritária dos genes na determinação do transtorno. O problema do diagnóstico excessivo, ou na verdade medicalização excessiva, é que ignora que crianças frequentemente têm fenótipos psiquiátricos que se resolvem com o tempo. Um exemplo disso é a disforia (a sensação de se estar no corpo de sexo errado), que se resolve na maioria das crianças que a manifestam sem necessidade de transição entre gêneros.
  • Especulação. Talvez não é necessário dizer, mas o digamos por cautela: especulação não é conhecimento. Se a Scientific American (uma boa revista) especula que nos próximos 15 anos teremos toda a tecnologia necessária para colonizar Marte, não significa que sabemos disso. Bons divulgadores como Carl Sagan deixam claro quando estão divulgando o que está justificado suficientemente por evidências, e quando estão especulando. Com frequência, essa distinção importante é esquecida por outros.
15th of January

Algumas idéias são tão absurdas que somente intelectuais acreditariam nelas


Exemplo: “o pessoal é político” e “tudo é político”.

Há vários comportamentos nossos que não parecem políticos em nenhum sentido. Nós investigamos coisas, de crimes a sequências de DNA. Investigação não parece política. Inventamos receitas, praticamos esportes, criamos e consumimos arte, escrevemos e lemos sobre história, buscamos parceiros românticos. Nada disso parece necessariamente político.

Cada uma dessas coisas pode ser *politizada*, e o verbo “politizar” sugere que as transformamos em política quando originalmente não o eram.

Talvez é isso o que se quer com a afirmação de que tudo é político: politizar coisas porque quem afirma isso está obcecado com política – e para quem só pensa em martelo, tudo é prego. Assim, quem tem pouco interesse em investigar, cozinhar, assistir a jogos, em arte pela arte em vez de “arte de protesto”, história e romance pode tornar essas coisas interessantes para si, politizando-as.

Mas isso tem um preço. Quando se investiga algo por interesse político, frequentemente a politização atrapalha na isenção da investigação. Quando politizam seu time de futebol, querem frequentemente o voto da torcida, não necessariamente vê-lo ganhando. Quando toda arte que se faz é para “lacrar” na mensagem ativista ou dar uma lição nas feministas, quem perde é a arte, pela limitação de tema.

Quem perde com essa história absurda de que tudo é política somos todos nós, que quando adotamos a idéia passamos a valorizar menos outras coisas pelo seu valor intrínseco e mais pela sua utilidade política.

Felizmente, é mesmo absurdo. As afirmações acima são tão inteligíveis quanto “o pessoal é científico” ou “tudo é culinária”. Claro, apesar de ser absurdo está muito popular. Mas não esqueçamos que já foi popular na comunidade médica européia que para salvar uma pessoa de afogamento o melhor método é soprar fumaça em seu ânus.

CLEMENS, Samuel Langhorne (alias Mark Twain). 1883. Life on the Mississippi. p. 369 .
10th of December

Falta de cortesia como defesa para ideias frágeis


Alguns estão notando que está ficando “normal” entre certos tipos de ativismo atacar quem diz qualquer coisa que não interessa aos ativistas com palavras de baixo calão. Mandar tomar naquele lugar, chamar de todo tipo de nome criativo envolvendo sexo, habilidade mental, digestão e religião. Interessantemente, xingamentos religiosos estão em queda – eu por exemplo cresci numa cultura em que “excomungado” era um nome muito feio. Hoje no máximo é regionalismo mineiro.

Diz-se que certa vez o filósofo Ludwig Wittgenstein, segundo alguns relatos, num debate acalorado com Karl Popper, catou um atiçador de lareira e começou a balançá-lo ameaçadoramente no ar enquanto defendia algum ponto.* Talvez estivesse só sendo teatral ou distraído. Mas talvez estava perdendo a compostura, e não seria a primeira vez que filósofos originais, acostumados à disputa, caem nessa.

Quando se reage a algum ponto de vista discordante assim, talvez porque o interlocutor está sendo teimoso, primeiro está-se revelando uma faceta da nossa natureza de macaco pelado. Nenhuma quantidade de gritinhos de chimpanzé, que são a forma mais rudimentar das nossas respostas sarcásticas, ataques pessoais sem relevância e xingamentos, quando não brandimentos de atiçadores, serve para mostrar onde está a verdade na discussão. Mas o caso é que nós ainda temos que discutir com meta na verdade, mesmo se estamos mal equipados com nosso cérebro. Se os filósofos podem ser presa desse comportamento, as pessoas menos treinadas em investigar intelectualmente são ainda mais propensas, especialmente se estão no momento ouvindo insinuações sobre a mãe alugar o corpo (o efeito da irritação pode ser observado até em quem não vê nada de errado nisso).

Tudo isso é para dizer que há justificação para a civilidade. Mas as pessoas estão tão mal acostumadas com isso, acham tanto que debate tem meta em humilhação e triunfo de macaco contra macaco, que reclamam quando eu propositalmente faço um vídeo criticando a opinião do Olavo de Carvalho sobre evolução enquanto o chamo de “professor” (que é a profissão dele, mesmo que talvez seja mal conduzida).

Eu acho que às vezes a incivilidade é proposital. Ao irritar quem discorda, quem insulta pode estar tentando evitar que o insultado tenha naquele momento pleno acesso às melhores ferramentas de seu próprio cérebro, sendo dominado pelas amígdalas temporariamente porque sugeriram que ele introduza alguma coisa no ânus. Quem acredita em falsidades, portanto, tem interesse em ser mal educado e boca suja. É uma ferramenta que simplesmente funciona para transformar gente em babuíno.

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* Edmonds, David, and John Eidinow. Wittgenstein’s poker. Faber & Faber, 2014.