5th of June

Identidade de gênero e orientação sexual: militância versus evidência


O que diz a militância:
 
Identidade de gênero e orientação sexual são coisas completamente separadas. Identidade de gênero é como a pessoa se vê (se homem, mulher, ou nenhum dos dois), orientação sexual é por quem a pessoa se atrai. Dessa forma, identidade de gênero e orientação sexual variam independentemente.
 
O que dizem as evidências:
 
Os fatores que causam a orientação sexual e a identidade de gênero são intimamente relacionados. Se não são os mesmos, ao menos a intersecção entre os dois conjuntos de fatores causais é grande. De outra forma não se poderia explicar por que, através das culturas, a maioria (90% ou mais) das pessoas são heterossexuais e mais de 99% não sofre disforia de gênero nem é intersexo.
 
Disforia é a sensação de sofrimento psíquico por crise identitária de quem não se conforma ao gênero com que foi rotulado ao nascer. Nos casos mais severos, manifesta-se bem cedo em crianças e pode levar à automutilação.
 
Pessoa intersexo era conhecida antes pelo termo “hermafrodita”, um termo bonito, que vem dos deuses gregos Hermes e Afrodite, termo que o politicamente correto – sisudo e sem poética – condenou ao ostracismo. 1 em 2000 pessoas são intersexo, apresentando variados graus de ambiguidade de características sexuais primárias e secundárias.
 
Claramente identidade de gênero é relacionada à orientação sexual também porque uma parte substancial (quiçá a maioria) de pessoas homossexuais apresentam alguma não-conformidade de gênero na infância e adolescência (em outras palavras: muitos homens gays foram meninos que já usaram vestidos, sapatos e maquiagem da mãe – é um indicativo, não uma sentença). Além disso, a maioria, entre 50 e 88%, das crianças que manifestam disforia a resolvem com o tempo sem transição para outro gênero. Isso sugere que a transição só é terapêutica para uma minoria das crianças que manifestam disforia. A maioria, que não cresce trans, geralmente é gay. Novamente: identidade de gênero e orientação sexual são intimamente relacionadas.
 
Isso contradiz a insistência de que tudo o que é necessário para considerar uma criança “trans” é que ela manifeste disforia. Na verdade, a probabilidade maior é que não seja trans, mas gay. Também contradiz a noção de que basta uma criança dizer que é de outro gênero para aceitar que é mesmo. Não é transfóbico pensar que há uma probabilidade substancial de ela não ser: é o resultado mais provável. Isso, obviamente, não é desculpa para forçar a minoria que cresce para ser trans a não ser trans: estamos falando aqui do resultado mais terapêutico para seu desenvolvimento, e repito que para 12 a 50% dos casos o melhor curso de ação é a transição. Se você acha que uma pessoa trans sofre (e geralmente sofre, disforia é horrível), imagine então como sofre uma pessoa que fez transição, retirou mamas, tomou hormônios, porque ouviu que essa era a sua única opção, e depois se descobre não-trans e tem que viver com resultados permanentes de uma decisão tomada sem clareza suficiente sobre quem ela é. É a minoria de transicionados, mas existem (a idéia não é proteger minorias?).
 
Disforia está correlacionada com outros trantornos psiquiátricos. Não se pode atribuir todos os problemas psíquicos das pessoas trans à resistência da sociedade à sua transição. Sim, há muita transfobia e sofrimento causado por ela. Mas há mais coisas. A narrativa de “nasceu no corpo errado” não se aplica a todas as pessoas trans.
 
Finalmente, para botar um último prego no caixão da idéia de que identidade de gênero e orientação sexual são totalmente distintas e não relacionadas, vou falar de um tipo de transexualidade que essencialmente é uma orientação sexual. Trata-se da autoginecofilia. Autoginecófilas são mulheres trans (nascidas com sexo masculino) que têm atração sexual por si mesmas como mulheres. O conceito é um pouco difícil de entender quando se ouve falar nele pela primeira vez, mas existe e já foi descrito pelo cientista do sexo Ray Blanchard em detalhes. As autoginecófilas, como as outras trans (estas mais próximas de “nascidas no corpo errado”), podem fazer a transição hormonal e genital como terapia. Não é um fetiche, mas uma orientação-sexual-identidade-de-gênero que é parte fundamental de quem elas são. Alice Dreger, estudiosa da intersexualidade e de conflitos entre pesquisadores e ativistas, descreve o caso de uma mulher trans autoginecófila que chegou a raspar cirurgicamente o osso acima da sobrancelha, e conta que teve uma sensação de êxtase quando, depois da cirurgia, nos banhos o xampu passou a escorrer dos cabelos e chegar aos olhos, irritando-os. Porque tomar banho com um “guarda-chuva natural” acima da sobrancelha formado por esse osso seria coisa de homem. Alice, que é mulher nascida com vagina, diz que em toda a sua vida como mulher nunca tinha pensado nisso. Conto a história não para apontá-la como bizarra, mas para apontar o quão profunda é a identidade feminina para uma trans autoginecófila, tanto quanto para outras trans. (Outra evidência de que há ao menos esses dois tipos de mulheres trans é que as autoginecófilas tendem a gostar de mulheres e as outras tendem a gostar de homens.)
 
Portanto, enquanto ainda há muita ignorância sobre as origens tanto da orientação sexual quanto da identidade de gênero, está claro o suficiente que os dois conceitos são separados apenas para facilitar a compreensão de certas questões (ou por dogmatismo de ativistas), mas o mundo em si não os separa tão bem assim. Se engana quem pensa que não têm nada a ver com biologia, ou quem pensa que têm a ver apenas com biologia – os mais astutos devem ter percebido que a mulher trans de uma cultura pode ser o homem gay de outra.
 
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Referências
 
Sobre a provável maioria das crianças disfóricas não transicionar, vide Associação Psicológica Americana. https://www.apa.org/practice/guidelines/transgender.pdf
 
Sobre a proporção de intersexos na população, sobre histórias cabeludas de ativistas atrapalhando o avanço da ciência nessas questões, vide Alice Dreger: Galileo’s Middle Finger. https://g.co/kgs/oiUoOU
 
Sobre mulheres nascidas com pênis se assemelharem no cérebro a mulheres nascidas com vagina, e sobre homossexuais manifestarem não-conformidade de gênero, vide Bao & Swaab 2011. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21334362
 
Sobre disforia estar correlacionada a outros transtornos, ver este estudo escandinavo que relatou que ela é geralmente precedida por outros transtornos e que é muito comum o autismo: https://capmh.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13034-015-0042-y
17th of May

Conselhos a LGBT no dia de combate à homofobia #LoveIsLove


Hoje é Dia Internacional de Combate à Homofobia. Eis os meus comentários como um gay que atacou essa questão com ciência e argumento.

– Nós já conquistamos o que era legalmente relevante. Eu lamento pelos métodos: ativismo judiciário em vez de decisão de representantes democráticos, como fez a Argentina. Lamento porque o potencial desses métodos é deixar a homofobia inercial da cultura supurar e fermentar, levando muitos a querer revanche.

– Há muita homofobia (que eu chamei de inercial porque penso que está refreando) na cultura brasileira, mas isso é largamente um resultado da escolaridade baixa e mal aplicada educação. Há uma correlação entre nível educacional e abandono da homofobia. Portanto, os LGBT deveriam estar mais interessados em propor reformas à educação do que em reclamar da última celebridade que disse “viado” (se é que sobrou alguma, dado o sucesso da mordaça politicamente correta). Eu não acho que a solução para a educação no Brasil é enfiar mais dinheiro nela, ao menos não sem um plano detalhado de como será aplicado. Se for simplesmente enfiar dinheiro, é um buraco negro de dinheiro que continuará devolvendo pouco.

– A insistência de criminalizar o que chamam de “discurso de ódio” tem mais potencial de aumentar a hostilidade aos LGBT e ativistas da questão do que de ajudar a resolver o problema. “Discurso de ódio” é um termo mal definido, as pessoas têm uma tendência a quererem expandir conceitos (especialmente os mal definidos) para calarem a boca de seus desafetos. Como é um fato que os cidadãos tendem a errar a favor do autoritarismo e da censura, a margem de erro das autoridades deve favorecer a liberdade, contra a maré da população. Eu testemunhei o erro de boa parte ou de uma maioria de ativistas ao tentarem calar a boca de Silas Malafaia e Levy Fidélix, fazendo malabarismo interpretativo para transformar o que disseram em incitação à violência (limite justo e legal da expressão), por pura conveniência, para calar a boca de dois desafetos. Isso é uma mancha na história do ativismo LGBT brasileiro, deve ser visto como tal por qualquer pessoa defensora de direitos humanos, dos quais a liberdade da expressão é um dos mais importantes, se não o mais importante (como saberemos se o direito à vida foi violado, por exemplo, sem termos liberdade de comunicar o fato?). Meu conselho aqui é de desistir da criminalização do “discurso de ódio” contra LGBT, até porque isso não faz absolutamente nada para mostrar erradas as idéias veiculadas por esse tal “discurso de ódio”, é apenas uma tentativa de varrê-las para debaixo do tapete. O problema de idéias perniciosas varridas para debaixo do tapete é que o ambiente sob o tapete é escurinho, úmido e quente, ou seja, propício para seu fortalecimento e proliferação.

– Despolitizem e despartidarizem a questão LGBT. Cada gay de direita que aparece é um sinal de progresso, não uma trombeta do Apocalipse. Parem de pensar que a esquerda é reduto obrigatório de LGBT, a esquerda não foi justa conosco, e as conquistas sob o último governo foram todas resultado de ativismo judiciário, não de “vontade política” (essa quimera) de líderes das tribos políticas que os ativistas mais amam.

– Você, jovem LGBT, não se deixe tribalizar por ser LGBT. Não ache que você faz parte de uma “cultura” especial por ser LGBT. As pessoas ainda devem ser julgadas por seu caráter, e se é para ser membro de grupos, que seja em função de interesses e idéias em comum, não em função de acidentes de nascença. Os grupos identitários só vão te ensinar a se ver como vítima e atrasar o seu desenvolvimento como pessoa.

– Rejeite “teoria queer” e alegações de “construção social” da sexualidade onde quer que as encontrar, são tão pseudocientíficas e desinteressadas do conhecimento quanto a homeopatia.

#LoveIsLove

(Arte: cálice romano retratando sexo gay, atualmente no Museu Britânico, conhecido como “Warren Cup”. Foto por Ashley Van Heaften.)

9th of March

Pior jogada LGBT: tentar obrigar confeiteiros homofóbicos a fazer bolo de casamento gay Casal de confeiteiros do Oregon alega liberdade religiosa para defender a recusa de fazer bolo de casamento para casal de lésbicas


Melissa e Aaron Klein, donos da confeitaria “Sweet Cakes” em Oregon, foram condenados em primeira instância a pagar 135 mil dólares por se recusarem a fazer o bolo de casamento das lésbicas Rachel e Laurel Bowman-Cryer. O casal Klein alega objeção de consciência por crença religiosa, recorreu da decisão, e hoje foi ouvido por uma corte de apelações. Eles dizem também que a batalha judicial os levou à falência, e que tiveram de fechar a confeitaria devido a ameaças. Enquanto isso, o casal Bowman-Cryer alega que o caso dificultou sua vida e a criação de suas duas filhas adotivas com deficiência.

A defesa dos Klein alega que a manufatura do bolo é arte, e, portanto, também expressão, sendo protegida como uma liberdade inalienável pela primeira emenda da constituição americana.

O efeito dessa alegação é meio divertido. Ao contrário dos conservadores, o grupo político mais afeito a defender os direitos LGBT (ou a querer ser visto como se defendesse mais que os outros, fazendo muito barulho no processo) costuma também defender definições extremamente amplas de arte, em que qualquer coisa pode ser arte, uma vez eleita pela vontade de um artista e aprovada pela elite artística, como no exemplo histórico do mictório escolhido por Marcel Duchamp (e apelidado de “A Fonte”). Nos últimos anos tenho visto um crescimento na incidência de “arte” contemporânea e “expressiva” no Brasil, do tipo que parece feita sob encomenda para ofender a vovó: numa peça de teatro em São Paulo, dois atores injetaram vinho em seus ânus e expeliram no palco. Num evento sobre gênero numa universidade federal, uma pessoa transexual e obesa, nua, se cobriu de óleo de dendê (a “performance” se chama “gordura trans”), e uma moça, aparentemente tentando representar o status da mulher na sociedade brasileira, pôs chifres na cabeça e uma sela nas costas e engatinhou, nua, cercada de espectadores, atuando como uma vaca. Mais recentemente, neste ano, outra moça se cobriu de tinta preta e se prostrou no chão para seu parceiro de expressão “artística” urinar em seu corpo. Não esqueçamos uma “peça” notória chamada “Macaquinhos”, em que um grupo de atores faziam uma ciranda nus, cada um com um dedo no ânus do próximo. Numa entrevista, os artistas responsáveis pela peça explicaram que sua arte representa o domínio do hemisfério norte sobre o sul. Se cada uma dessas coisas é “arte” e por isso é protegida como liberdade de expressão (concordo com a proteção, mas não com o diagnóstico), por que assar – ou recusar-se a assar – um bolo de casamento não poderia ser a mesma coisa? Está abolida a livre expressão que irrite ou chateie pessoas LGBT? Somente o que irrita e chateia a vovó (e entendia a juventude cansada de ver pornografia) pode ser arte?

Se a defesa está certa, então a decisão de primeira instância foi injusta e inconstitucional, pois o Estado americano não pode compelir a expressão dos cidadãos, ou seja, forçá-los a expressar o que não necessariamente está em conformidade com suas crenças. Um argumento melhor que a alegação de que o bolo era arte é que fazer um bolo de casamento é participar, mesmo que indiretamente, de uma cerimônia de casamento, e no caso sua crença cristã (fundamentalista?) não concorda que duas mulheres possam se casar e os confeiteiros não podem ser obrigados a participar da cerimônia. O caso poderá terminar na Suprema Corte dos Estados Unidos. Até lá, com prováveis novas nomeações de juízes conservadores por parte de Donald Trump, é possível que a decisão de primeira instância seja revertida.

A discussão na corte sobre o apelo do casal Klein não pôde ser um debate completo, pois é uma discussão que precisa seguir as leis do estado de Oregon, que proíbem a discriminação pela negação de serviço com base em categorias protegidas (raça, orientação sexual, gênero, religião). Então, ao ouvir a discussão no tribunal, algo que está ausente é o questionamento de que é mesmo justo que exista a lei anti-discriminação, que impede pessoas preconceituosas de agir de acordo com seus preconceitos em seus próprios negócios.

Creio que recusar-se a atender clientes gays num negócio de bolos de casamento é, sim, discriminação injusta nascida no preconceito, e que crenças religiosas são uma desculpa frágil para essa atitude. Na verdade, crenças religiosas são quase sempre uma base fraca para justificar qualquer atitude, de guardar o sábado à mutilação genital. Mas essas crenças preconceituosas e essa atitude discriminatória em torno do caso deveriam estar contempladas pelas liberdades legais. Nem tudo o que é imoral deve ser ilegal, e eu não penso que a imoralidade de ser um empreendedor confeiteiro preconceituoso com seus clientes seja algo que justifique conjurar o poder do Estado para proibi-lo de sê-lo. Uma sociedade saudável para com as minorias é aquela em que as ideias preconceituosas contra elas encontram resistência suficiente para haver outros confeiteiros que façam seu bolo de casamento. É aquela em que os casais gays podem simplesmente elevar a concorrência não preconceituosa, sendo clientes e propagandistas, em vez de se engajar em batalhas judiciais para fazer os confeiteiros preconceituosos pararem de agir como preconceituosos. Se a intenção é diminuir ou combater o preconceito, não é o efeito esperado dessa batalha. Na verdade, o que se espera nesse tipo de batalha é a escalada do despeito, em que ninguém reexamina o que acredita nem se o que está fazendo em nome dessas crenças é correto, focando-se, em vez disso, em sua liberdade de poder acreditar em qualquer porcaria, da homofobia ao igualmente tolo autoritarismo contra a expressão da homofobia.

Interferir injustamente na liberdade de religiosos preconceituosos é uma má estratégia para qualquer defensor dos direitos LGBT. Não é coerente defender direitos pisando em um dos direitos mais importantes de todos, que é a liberdade de expressão. E se assar um bolo não for expressão, estamos falando de liberdade de escolher clientes, mesmo com base em crenças torpes como a homofobia, o racismo ou a misoginia. Numa sociedade em que o preconceito genuinamente está perdendo, donos de negócios preconceituosos lucram pouco ou vão à falência.

 

15th of January

BBC toca no tema explosivo de crianças transexuais


Este tema, como outros, está cada vez mais intratável por causa da politização. Quando se politiza um tema, as pessoas passam a vê-lo como uma disputa tribal, e defenderão com unhas e dentes suas posições independentemente das evidências. Não foi surpresa, portanto, quando saiu um estudo recentemente mapeando padrões cerebrais relacionados ao posicionamento político aos mesmos relacionados à afiliação religiosa.*

Fiquei positivamente surpreso com a qualidade do documentário “This World: Transgender Kids”** que saiu na BBC há dois dias, é muito informativo e corajoso. O documentário comenta alguns dados importantíssimos. De todas as crianças que manifestam disforia de gênero (o sentimento de estar “no corpo errado” para seu gênero), 80% se resolvem e desistem de transicionar para outro sexo, vindo a aceitar o sexo com que nasceram. A maioria dessas crianças cresce para ser gay, lésbica ou bissexual.

O ativismo na área se foca em casos em que a disforia não se resolve e, por isso, a transição de um sexo para outro se faz terapeuticamente necessária. Apaixonados por ideias de destruir papéis de gênero, alguns ativistas simplificam demais a questão, culpando expectativas sociais de papel de gênero que crianças mal entendem por todos os casos de suicídio entre crianças com disforia de gênero. No entanto, é importante apontar que está longe de claro que as expectativas sociais são tudo o que há por trás da ansiedade e ideação suicida de uma fração preocupante dessas crianças. Alguns pais resistiram à afirmação de gênero de suas crianças, persistiram durante anos com terapeutas, e ao fim desse processo encontraram que suas crianças se encaixam no grupo da maioria que não era “realmente” trans, mas “apenas” gay.

Um dos terapeutas que ajudavam pais nessa direção era Ken Zucker. Por causa do lobby de ativistas com sua narrativa simplificada, ele perdeu o emprego e teve sua clínica fechada, acusado de tentar “terapia de conversão”. O problema nisso é que, como ele mesmo diz no documentário, a razão pela qual alguns pais insistem que suas crianças tomem hormônios e façam cirurgias genitais é justamente porque não querem que elas sejam gays. Então, em muitos casos, é a própria narrativa simplificadora dos ativistas que está facilitando “cura gay”, em que se produz uma menina hétero transicionada em vez de um menino gay afeminado.

O assunto é muito difícil, e diante da ignorância parece que alternativa mais cautelosa é acompanhar as crianças em sua descoberta de identidade até que elas estejam preparadas, especialmente depois de crescerem e terem acesso a terapia, a decidirem sem risco de se arrependerem depois. Acima de qualquer coisa, é muito decepcionante ver que ativismos tão importantes para fazer avançar a liberdade individual nas décadas recentes estejam agora começando a se perder aceitando que devemos levar a sério tudo o que sai da boca das crianças, que a única forma de cuidar de uma criança é dando o que ela quer. Crescer LGBT sob a autoridade de pais que claramente te rejeitam é ruim, mas crescer sob autoridade nenhuma de pais seduzidos por ideias simplistas que não põem ordem alguma no seu mundo pode ser igualmente ruim. A identidade não é simplesmente um sentimento que brota espontaneamente de dentro. Ela é também um resultado do que negociamos com quem divide a existência conosco, e do que aprendemos sobre nós mesmos (introspecção não é o mesmo que se deixar levar por qualquer sentimento). Pessoas trans merecem os mesmos direitos que pessoas não-trans, mas não é fazendo crianças de cobaias que se chega à justiça. E, como provam transtornos psiquiátricos diversos, às vezes nós precisamos de ajuda para lidar com nossa própria identidade, e afirmá-la porque soa inclusivo não é tudo o que há para a questão.

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* Kaplan, J. T., Gimbel, S. I., & Harris, S. (2016). Neural correlates of maintaining one’s political beliefs in the face of counterevidence. Scientific Reports, 6, 39589. https://doi.org/10.1038/srep39589

** Transgender Kids: Who Knows Best? (2017). British Broadcast Corporation. http://www.bbc.co.uk/iplayer/episode/b088kxbw/transgender-kids-who-knows-best

25th of August

O embate entre fundamentalistas e LGBT é mais interessante do que parece


Tratar esta celeuma entre LGBT e evangélicos como apenas embate político é um erro. Mesmo que muitas vezes de fato seja, o que está no fundo, e nem mesmo escondido com frequência, é um embate de metafísica e epistemologia. Metafísica é a área da filosofia dedicada a estudar o que existe, do que a realidade é feita, se há alguma. Epistemologia, por sua vez, é o estudo do conhecimento – de como sabe…mos o que sabemos, do que dá justificação ao que sabemos, e o que é saber.

Mesmo que em ambos os campos haja muitas opiniões “naïve”, isso se torna claro quanto se fala em escolhas (livre arbítrio) e comportamento “inato”. Evangélicos mainstream como Marina Silva acreditam que na essência da homossexualidade há alguma decisão moral, de quem poderia ter decidido diferente: ou a própria pessoa gay poderia ter decidido não sê-lo, ou quem causou que ela fosse gay poderia ter escolhido não ter feito isso (não expor crianças a ver carícias entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo), ou, no nível mais profundo, a humanidade poderia ter escolhido não ter optado pela queda original no Éden (sendo ou não literal o mito de Adão e Eva). Essas pessoas crêem num “saber pela fé” de que alguma dessas versões de voluntarismo de comportamento afetivo-sexual é verdade. Vivem numa realidade com espaço para o sobrenatural, em que revelação “mágica” é uma forma de obter conhecimento.

No campo dos ativistas, embora ainda haja alguns que estejam abertos à possibilidade do voluntarismo (por alegada irrelevância moral dessa escolha, caso seja escolha), há uma concentração maior de explicações essencialistas, e entre elas as inatistas. As inatistas, como mencionei no passado, são equivocadas, e lembram de alguma forma um certo pensamento mágico, pois atribuem um poder causal excepcional ao ato de nascer, sem qualquer consideração ao desenvolvimento. Do meu ponto de vista, dizer “eu nasci assim” como diz a Lady Gaga soa tão mágico quanto “Deus quis assim”, pois faz-se um apelo obscuro a uma agência causal muito mal explicada. Mas nem todo essencialismo é inatismo. E eu não desconsideraria um componente importante desse inatismo, que é a reflexão autobiográfica de cada uma dessas pessoas. Relatos autobiográficos essencialistas sobre orientação sexual são encontrados ao longo dos séculos, Rictor Norton documentou alguns do século XVII e XVIII na Grã-Bretanha. Pode-se dizer quem uma “consiliência de autobiografias” dá força a esse essencialismo intuitivo, mesmo que às vezes seja expressado na forma equivocada do inatismo.

Estou simplificando exageradamente, evidentemente, mas há, em geral, um padrão aqui. A segunda visão, tendendo a essencialista, posso alegar ser mais simpática para o fazer científico. Para o bem ou para o mal, o bloco intelectual de filósofos e cientistas costuma ver com suspeita hipóteses fundadas em conceitos problemáticos como livre-arbítrio e fé (tendo a ser cético com bobagens ditas por alguns neurocientistas quanto a livre-arbítrio, mas honestamente qualquer crítica intelectual que se faça à fé não é difícil de ser convincente). Há uma maioria de mais de 70% de filósofos e cientistas que não têm qualquer confiança em epistemologias e metafísicas baseadas em fé e revelação. Isso não é suficiente para bater o martelo pela inverdade dessas últimas, mas ajuda a entender por que o embate não é apenas político e/ou moral. Há uma analogia interessante entre essa consiliência de autobiografias a que fiz referência e a consiliência de induções que, a despeito do positivismo lógico, ainda faz bastante sentido em epistemologia da ciência. Em outras palavras: o bloco intelectual tendendo ao essencialismo é mais simpático às ideias pró-LGBT porque põe um peso de autoridade epistêmica maior sobre a análise do conjunto dos “pequenos casos” do que ao “grande caso” de uma visão de mundo fundada sobre a autoridade da fé e da revelação. Cientistas afinal frequentemente são vistos como tolos por “perder seu tempo” com moscas de laboratório, enquanto praticamente não há teologia que não parta do já percebido como grandiloquente e hiperimportante.

Ter ciência de que o embate chega a esse nível de profundidade de assunto (mesmo que tratado superficialmente na maioria dos casos) é reconhecer o quanto é um assunto mais intelectualmente estimulante e genuinamente contencioso do que os bate-bocas do ativismo deixam transparecer.

25th of July

In Dubio Pro Hell: dois erros do ativismo LGBT


Ocasiões em que o movimento LGBT errou no Brasil, na minha opinião:
– Quando a maioria concordou que Levy Fidélix incitou a violência. Eu tive discussões épicas sobre isso com gente que respeito muito, mas que continuo acreditando que está errada. O que Fidélix disse naquele debate de candidatos à presidência foi homofobia, foi ódio, foi tudo de feio, mas não foi incitação à violência. Eu vi de tudo para forçar a barra nesse sentido, o que eu achei mais alarmante foi uma tentativa de alargar o conceito de “violência” do senso comum para algo que inclua palavras desagradáveis. Sabe como isso parece para um observador não envolvido? Que o movimento LGBT, quando é conveniente, muda o sentido das palavras, com o propósito de, na ausência de lei criminalizando discurso homofóbico, punir discurso homofóbico pintando-o como outra coisa: incitação à violência. Contei este caso para a filósofa Susan Haack, que recentemente publicou um livro em filosofia do direito (“Evidence Matters”). Ela concordou: o que é contemplado pela lei é violência física, é incitação a socos, linchamentos, pontapés, e num país em que linchamentos ainda são um problema é muito importante que a lei coíba isso. Esticar o conceito de “violência” para incluir palavras preconceituosas é uma estratégia ruim.
– O exemplo a seguir eu jamais dei em público. Eu guardei pra mim. O que eu tenho feito ultimamente, no entanto, é não guardar mais pra mim, pois isso é autocensura. Eu não posso aplicar um princípio ético para meus adversários e outro para meus confrades e comadres, o nome disso é sim hipocrisia. Vamos ao caso então:
Há uns dois anos atrás Silas Malafaia (meu queridinho) reagiu ao uso de fotos de modelos posando de forma similar a santos católicos na parada LGBT dizendo que era para os católicos “caírem de pau em cima deles [ativistas LGBT]”. No contexto está óbvio: o “cair de pau” era força de expressão. O próprio Malafaia se defendeu assim: disse que ele é um carioca que usa muitas gírias (meu caso favorito é quando ele disse que iria “funicar” o presidente da ABGLT, o que soa perigosamente próximo de “fornicar”), que não estava dizendo para ninguém literalmente bater em ninguém. Não era “ato falho”, era metáfora, força de expressão. E qualquer generosidade interpretativa vai corroborar isso. Mais uma vez, uma boa parte dos ativistas (não sei se foi maioria, pois não vi resistência a essa interpretação) alegou que Malafaia estava incitando a violência e deveria ser punido.
Generosidade interpretativa é outra coisa que não devemos aplicar apenas a nossos confrades e comadres. Uma coisa que eu vejo muito entre ativistas é que, em vez de analisar o caso, fazer um “menu mental” de interpretações e considerar quais delas são mais plausíveis, a estratégia é a seguinte: escolhe-se a pior interpretação possível, descarta-se irracionalmente e dogmaticamente qualquer interpretação alternativa, e parte-se para briga com qualquer pessoa que discordar. Eu já fui alvo disso: uma vez postei uma piadinha para divertir amigas lésbicas em que duas mulheres quase se beijavam e a legenda dizia “nessa ceia não vai ter peru”. Uma piadinha de natal. (E sim minhas amigas gostaram.) Imediatamente uma amiga trans caiu em cima, e mais ativistas trans foram se juntando a ela para insistir que a única interpretação possível da piada é que o propósito dela era afirmar que mulheres nascidas com pênis não são mulheres, e que portanto eu era transfóbico por publicá-la. Como eu disse: escolhe-se a pior interpretação possível, e parte-se para a briga contra qualquer outra interpretação, especialmente as mais plausíveis. Eu chamo essa estratégia de “in dubio pro hell”.
Eu também já fiz isso. Uma vez, eu interpretei uma notícia como sexista contra Dilma Rousseff. Amigos e amigas apareceram para criticar a minha interpretação. Eu li as críticas e as aceitei, e reconheci que eu estava saltando à pior interpretação possível sem estar justificado. Eu li e refleti sobre as críticas sem considerar primeiro qual era o gênero, a orientação sexual, a cor etc. de quem estava me criticando, mas considerando apenas se o que estavam dizendo era bom argumento, se era plausível, se era verdadeiro. Coisa que está infelizmente cada vez mais fora de moda. Se não fossem essas pessoas, e se não fosse eu ter alguma (mesmo que às vezes pouca) abertura para críticas, hoje talvez eu seria um ativista “justiceiro social” dão doido quanto os que eu costumo criticar.
26th of December

Óvulos e espermatozoides humanos rudimentares produzidos a partir de células-tronco


Por David Cyranoski, Nature News. Tradução de Eli Vieira

Um feito atingido pela primeira vez em humanos poderia ser um passo na direção da cura da infertilidade.

Pesquisadores israelenses e britânicos criaram espermatozoides e células precursoras de óvulos numa placa a partir das células da pele de uma pessoa. A façanha é um pequeno passo na direção de um tratamento para a  infertilidade, embora possa enfrentar controvérsias significativas e empecilhos regulatórios.
O experimento, publicado online na revista Cell em 24 de dezembro¹, recria em humanos parte dos procedimentos primeiro desenvolvidos em camundongos, nos quais células chamadas de células-tronco pluripotentes induzidas (iPS) — células ‘reprogramadas’que podem se diferenciar em quase qualquer tipo de célula — são usadas para criar espermatozoides ou ovócitos que são subsequentemente manipulados para produzir embriões por fecundação in vitro.
Em 2012, o biólogo especialista em células-tronco Mitinori Saitou, da Universidade de Kyoto, Japão, junto a seus colaboradores, criou as primeiras células germinativas primordiais artificiais (PGC’s)². Essas são células especializadas que emergem durante o desenvolvimento embrionário e mais tarde dão origem a espermatozoides ou ovócitos. Saitou os fez numa placa, começando com células da pele reprogramadas para um estado similar ao embrionário através da tecnologia de células iPS. Os cientistas também conseguirem atingir o mesmo resultado começando com células-tronco embrionárias.
Embora suas células não pudessem se desenvolver além desse estágio precursor na placa, Saito descobriu que se as colocasse em testículos de camundongo elas se maturariam em espermatozoides, e, se as colocasse em ovários, maturar-se-iam em ovócitos funcionais. Ambos espermatozoides e ovócitos poderiam ser usados para fertilização in vitro.
Esforços para projetar gametas similarmente funcionais em humanos produziram células parecidas com PGC’s, mas com tal baixa eficiência — taxa de sucesso em transformar células-tronco em gametas — que era difícil para outros tentarem expandir o trabalho. Esforços anteriores também demandavam a introdução de genes que poderiam tornar as células inúteis para o ambiente clínico.
Agora uma equipe liderada por Azim Surani, da Universidade de Cambridge, Reino Unido, e Jacob Hanna, do Instituto Weizmann de Ciência em Rehovot, Israel, replicou a parte in vitro — a “primeira metade”, diz Hanna — dos esforços de Saitou em humanos.

Alta eficiência

A chave para o sucesso dos biólogos foi encontrar o ponto de partida correto. Uma grande dificuldade em repetir o feito em humanos era o fato de que as células-tronco de camundongos e as de humanos são fundamentalmente diferentes. Células-tronco de camundongos são ‘ingênuas’ — fáceis de influenciar para qualquer trajetória de diferenciação — enquanto células-tronco humanas são ‘preparadas’ de uma forma que as torna menos adaptáveis.
Mas Hanna percebeu que essas diferenças poderiam ser superadas por ajustes nas células, como ele e seus colaboradores relataram em 2013.³ Ele e sua equipe desenvolveram um modo de fazer células-tronco humanas que eram ingênuas como as dos roedores. “Na primeira vez que usamos aquelas células com o protocolo de Saitou — bum! Conseguimos PGC’s com alta eficiência”, diz ele.
Trabalhando juntos, Surani e Hanna conseguiram usar células-tronco embrionárias e células iPS, tanto de homens quanto de mulheres, para fazer células precursoras de gametas com 25-40% de eficiência.
“É estimulante que os laboratórios de Surani e Hanna tenham encontrado uma forma de gerar células da linha germinativa com a mais alta eficiência já relatada”, diz Amander Clark, uma especialista em biologia reprodutiva na Universidade da Califórnia, Los Angeles.
As células têm muitas das características de células germinativas primordiais. Em particular, seu padrão ‘epigenético’ — [o padrão de] modificações químicas aos cromossomos que afetam a expressão gênica — era similar aos de células germinativas primordiais. A equipe comparou marcadores protéicos em PGC’s artificiais com os de PGC’s reais coletadas de fetos abortados e descobriu que eram muito semelhantes.
“São tão similares às PGC’s humanas quanto as PGC’s [artificiais] de Saitou são às PGC’s reais de camundongo”, diz Hanna.

Saitou diz que os insights sobre mecanismos oferecidos pelo artigo provavelmente vão estimular os esforços para entender mais a fundo e controlar esse processo. Particulamente em humanos, uma proteína chamada SOX17 parece ter um papel-chave que em camundongos é desempenhado por uma proteína diferente chamada Sox2.
Saitou, que também está trabalhando para desenvolver PGC’s humanas em placa, chama a descoberta de “interessante” e diz que, no geral, o processo de criar tais células “é muito mais claramente definido comparado ao trabalho anterior, mais ambíguo, e portanto será um bom fundamento para investigações futuras”. Clark concorda: “É um insight mecanístico especial sobre o desenvolvimento da linha germinativa humana que torna este artigo singular”, diz ela.

Muitas incógnitas

Em camundongos, o próximo passo é introduzir as PGC’s projetadas em testículos ou ovários, para completar a ‘segunda metade’ do processo de Saitou, seu desenvolvimento em espermatozoides e ovócitos funcionais.

Mas Hanna diz que ele e seus colaboradores “não estão prontos para tentar isso” em humanos, e outros concordam que há ainda muitas incógnitas para introduzir as PGC’s artificiais em humanos.

Ele diz que os cientistas estão também considerando injetar as PGC’s artificiais humanas em testículos ou ovários de camundongos e outros animais, ou tentar o experimento como um todo em primatas não-humanos. Ele diz que os esforços contínuos de Saitou e outros para completar o processo do desenvolvimento de espermatozoides e ovócitos de camundongos in vitro poderia levar a uma receita que pode ser adaptada para humanos.

“Ainda estou organizando meus pensamentos. Veremos depois que o artigo for publicado o que a comunidade [científica] pensará”, diz Hanna.

Clark diz que reguladores devem dar caminho para os experimentos humanos que serão necessários para levar a tecnologia para as clínicas e potencialmente permitir que alguns homens e mulheres estéreis tenham filhos. Nos Estados Unidos, por exemplo, a lei proíbe o financiamento federal da criação de embriões humanos para propósitos de pesquisa, algo que seria necessário para testar a nova tecnologia. As restrições “precisam ser revogadas e substituídas por regras universais sobre como fazer essa pesquisa de forma ética e segura”, diz ela.

Em princípio, o processo poderia até mesmo ser usado para gerar óvulos do corpo de um homem. Esses poderiam ser fertilizados in vitro pelo espermatozoide de outro homem e o embrião resultante poderia então ser implantado numa mãe substituta — permitindo a dois homens ter um filho biológico juntos. Mas as dificuldades técnicas seriam formidáveis: em particular, homens não têm ovários nos quais as células precursoras poderiam ter a chance de maturar em óvulos. Além disso, a ideia com certeza enfrentaria polêmica.

“É muito importante enfatizar que enquanto esse cenário poderia ser tecnicamente possível e factível, é remoto neste estágio [da pesquisa] e muitos desafios precisam ser superados”, diz Hanna. Permitir que duas mulheres tenham um filho biológico juntas parece ainda mais remoto, acrescentam os autores, porque apenas homens têm o cromossomo Y, que é essencial para a produção de espermatozoides.

[N. do T.: utilizei alternativamente “óvulo” e “ovócito” como tradução para “egg”. A convenção é que o gameta feminino antes da fecundação seja chamado de “ovócito (II)”.]

Referências

  1. Irie, N. et al. Cell http://dx.doi.org/10.1016/j.cell.2014.12.013(2015).
  2. Kee, K., Angeles, V. T., Flores, M., Nguyen, H. N. & Reijo Pera, R. A. Nature 462, 222–225 (2009).
  3. Gafni, O. et al. Nature 504, 282–286 (2013).
23rd of August

Sobre quem “discorda” de orientação sexual


Qualidade é variável em muita coisa: de pastel de beira de estrada (“quando mais sórdido melhor”, segundo o LF Verissimo) a ideias. Tem gente que é mais exigente com a qualidade do pastel que come do que com a qualidade de suas ideias.

Entre muitas ideias populares mais difíceis de tragar que aquele de palmito da rodoviária, está a ideia de que “discordar de orientação sexual” é um direito ou ao menos algo que faz algum sentido.

Pois não faz. Não faz sentido algum. E mostro por quê. Comecemos com a parte do “discordar”: concordância ou discordância se expressa em relação a crenças, posições, opiniões, conclusões. A orientação sexual de uma pessoa não se encaixa em nada disso. Bentinho sente tesão em Capitu não é porque na opinião dele a Capitu é gostosa. Isso é inverter a ordem das coisas: porque se sente atraído pela Capitu é que Bentinho tem a opinião de que ela é gostosa. Você pode discordar do Bentinho quanto a ela ser gostosa, pois é uma opinião dele. Mas não faria sentido algum você “discordar” do Bentinho se sentir atraído pela Capitu – é uma coisa que acontece dentro do Bentinho, que ele sente quando olha para a Capitu, não que ele conclui depois de fazer uma lista de atributos da Capitu. Os atributos são levados em consideração, mas inconscientemente, pelos critérios que só um cérebro heterossexual como o do Bentinho, e talvez apenas o cérebro dele, faria.

“Discordar” da atração de Bentinho por Capitu é como “discordar” da expansão de volume da água no congelamento. Você pode até ser um sujeito que tem interesse em evitar que o Bentinho faça qualquer coisa em função de sua atração pela Capitu, mas se disser que “discorda da orientação sexual” dele, ou você não sabe o que é “discordar”, ou não sabe o que é “orientação sexual”.

Mas eu não acho que as pessoas que usam esse oxímoro realmente têm o órgão da análise quebrado. Tenho minha própria hipótese sobre isso: é que é feio, hoje em dia, falar “malditos viados e sapatas, não quero que vocês existam”. Não, você quer ser intolerante e preconceituoso, mas não quer *parecer* ignorante e preconceituoso. Então escolhe um eufemismo: “discordar”. Você não “odeia”, não “tem nojo”, não, esses seriam motivos irracionais demais para apresentar para tentar excluir uns 10% das pessoas do convívio social, do acesso às mesmas coisas que as outras pessoas têm. Afinal de contas, se nojinho fosse motivo suficiente para justificar alguma coisa, o nojo das crianças do gosto do xarope seria suficiente para não tomarem o remédio. Você quer parecer ser uma pessoa interessada em debater, de mente aberta, uma pessoa que analisa as coisas antes de concordar, ou melhor, *parece* analisar. Por isso, você não é homofóbico: você “discorda” da orientação sexual de Fulana ou Cicrano.

E eu “discordo” de palmito.

28th of April

Sobre as difamações


Sobre constantes difamações a mim nas redes sociais, me perguntar não ofende nem um pouco. Mas lembrem-se que os responsáveis por nossas próprias crenças somos nós mesmos, e quem adota crenças (sobre pessoas ou causas ou coisas) com evidência insuficiente, pouco argumento e muita irritação coletiva, sofre as consequências de sua própria falta de pensamento crítico. Meus textos falam por mim.

Prints descontextualizados e tentativas de assassinato de reputação por seguidores dogmáticos de ideologia, não. Um exemplo: quando soube que a Lei João Nery será o tema da parada LGBT, comentei “oba! Funcionou [a petição]!”. Usaram exatamente esse comentário meu para me acusar de ser transfóbico. É evidência suficiente? Outra pessoa, afiliada ideologicamente à “teoria queer” (da qual discordo simplesmente porque é fundada em determinismo cultural), irritou-se porque, quando eu pedi que ela desse um exemplo de sociedade com um número alto de gêneros, tipo dez ou mais, ela alegou que essa sociedade era o Brasil. Extasiado diante da hilariedade dessa alegação, eu fiz uma lista de falsos gêneros brasileiros além dos já conhecidos, incluindo “Chico Buarque” (não sei vocês, mas eu adoraria ser do gênero Chico Buarque). A pessoa falhou em me dar um exemplo histórico de cultura com um número exorbitante de gêneros. Se o número de gêneros não é exorbitante em todas as culturas já estudadas, então há limites para o número de gêneros que os humanos podem desenvolver em suas culturas, e alegarei que parte desses limites são biológicos. Ou seja, é plausível um número bem maior que dois gêneros, só que esse número não pode ser infinito. Pois, se for alegado que pode ser infinito, na minha opinião isso esvazia o conceito de “gênero” como categoria social, ou seja, altera o sentido do termo sem qualquer justificação, tornando-o mais próximo de “personalidade”.

Portanto, uma discordância de ideias foi o motivador de um desses prints para tentar me difamar. Outro print, em que falo da “seita dos batatinhas” é explicitamente uma referência a seguidores dessa ideologia, e não pessoas trans em geral. Basta procurar no Google e verão quem está usando o termo e para quê.

De onde tiro essas ideias? Uma das minhas fontes é a acadêmica feminista Martha Nussbaum e suas críticas à Judith Butler. Já traduzi alguns parágrafos de um artigo dela e postei no Facebook. Estou tentando passar meu “academicismo” em cima da “vivência das mulheres” e da “vivência das pessoas trans”? Não, estou exercendo minha liberdade individual de julgar ideias por seus méritos. Ademais, e a vivência da Martha Nussbaum, como mulher e filósofa, vão jogar no lixo? Responsabilizem-se pelas consequências problemáticas de suas ideias injustificadas. Beijinho no ombro.

6th of April

Por que pedofilia é doença e homossexualidade não é


A humanidade é um fenômeno natural. Como uma cachoeira ou uma árvore também são. E, como elas, é intrigante e suscita curiosidade sobre seu funcionamento, suas partes, sua variação, seu comportamento ao longo do tempo. Mas, diferente de como agimos ao pensar sobre uma cachoeira ou uma árvore, quando elaboramos ideias para responder às nossas curiosidades sobre a humanidade precisamos tratar de certas consequências morais de carregar essas ideias, pois nós podemos sofrer e temos interesses sobre nossas próprias vidas e as vidas de nossos semelhantes, o que não é o caso de cachoeiras e árvores.
A humanidade tem uma origem, alguns futuros previsíveis (outros imprevisíveis), pode ser descrita com tendências centrais e uma variação em torno dessas tendências centrais. Para entender completamente um fenômeno natural como a humanidade, compreender tendências centrais é importante, mas só teremos uma boa imagem do que ela é, e também um julgamento do que é positivo a seu respeito, considerando a variação. Como o assunto aqui é homossexualidade e pedofilia, falemos da variação.
Na variação do que é humano, há a parte normal e a parte patológica (ou seja, relacionada a doenças). Há ambiguidades nos dois lados desta distinção. Primeiro, “normal” pode ser “semelhante às tendências centrais observadas” e “comum”, ou também pode ser sinônimo de “aceitável” e “inofensivo”. Homossexualidade é incomum (estimativas diferentes giram em torno de menos de 10% da população), aceitável e inofensiva; pedofilia também é incomum (estimada em menos de 5% dos homens, e dez vezes menos entre mulheres) mas inaceitável e ofensiva.
Outra parte da variação humana é patológica. A homossexualidade já foi considerada parte dessa variação patológica, e a pedofilia atualmente é. Aqui, é necessário analisar o que consideramos doença. Ser inaceitável e ofensivo é algo que faz da pedofilia uma doença? Não necessariamente: sonegar impostos é inaceitável e ofensivo, mas não é uma doença. Há coisas que são claramente doenças: portar um gene que no começo da idade adulta degenerará seu cérebro até a completa incapacidade e a morte é com toda certeza uma doença (coreia de Huntington). Para afirmar que certa parte da variação humana é doença, outras considerações são necessárias: considerações sobre sofrimento e interesses. 
A pedofilia é mais rara do que se imagina, pois muitos abusadores de crianças não se sentem de fato atraídos por crianças e abusam por outros motivos, assim como muitos estupradores estupram mais para expressar desprezo do que para dar vazão a uma libido incontrolável. Ou seja: quem comete abuso sexual contra crianças não é necessariamente pedófilo. E essa parte dos abusadores não deve ser vista como doente, mas como na categoria dos sonegadores de impostos: criminosos. A outra parte dos abusadores sexuais de crianças que é de fato pedófila é, além de criminosa, doente. Por que doente? Porque sua condição, atração sexual por crianças, leva inevitavelmente a certa classe de consequências similares às consequências de portar o alelo da doença de Huntington. 
Como a pedofilia leva (1) ao sofrimento psicológico de alguns pedófilos que sabem que sexo com crianças é errado, por terem de resistir a um impulso interno a cometer abusos; (2) ao sofrimento das crianças vítimas de outros pedófilos que cedem a seus impulsos sexuais se tornando abusadores; e/ou (3) a uma desconsideração da incapacidade de consentir de uma criança; então faz todo sentido que seja classificada como doença: as fontes de sofrimento são todas consequências quase inevitáveis da pedofilia.
Portadores de um alelo de degeneração cerebral como o citado sabem que têm cerca de 20 anos para viver. Boa parte de seu sofrimento é de natureza psicológica, como é o sofrimento de pedófilos e suas vítimas. Enquanto uma doença interfere no interesse de um jovem adulto de ter uma vida plena e mais longa, a outra interfere no interesse de uma criança de não ser abusada sexualmente e ter um desenvolvimento afetivo livre das consequências do abuso.
Sentir-se atraído por pessoas adultas do mesmo sexo e agir de acordo com isso, por sua vez, nada tem das consequências similares a essas doenças, não ao menos na origem dessas consequências. Se uma pessoa homossexual sofre por ser homossexual, não é de fato “por ser homossexual” mas por entender como ela é vista por outras pessoas e temer não ser aceita por elas. É mais semelhante ao sofrimento de pessoas que se acham feias ou são vistas como tal, que temem uma vida solitária, desaprovação social, etc. Se ser homossexual fosse doença, ser feio também precisaria ser, se formos julgar pelas consequências objetivas das duas coisas. Quem ama o feio, bonito lhe parece e quem ama o mesmo gênero, normal lhe parece.
Adultos poderem fazer o que bem entendem, consensualmente, na sua intimidade é uma marca da liberdade. Quase toda liberdade que deve ser protegida é um interesse que incomoda a outrem: o interesse de um país em se manter territorialmente íntegro incomoda o interesse de países expansionistas. O interesse das pessoas negras em serem tratadas com igualdade incomoda os interesses dos racistas explícitos. E o interesse dos homossexuais em viver sua afetividade incomoda aos homofóbicos. Os sentimentos associados à atração sexual mútua entre adultos são louvados na nossa cultura por razões óbvias: nos emancipam, nos tornam pessoas melhores, nos aliviam, nos distraem frente aos problemas, tornam a existência algo mais leve – e não há razão convincente para negar isso a pessoas homossexuais. Portanto, a homossexualidade não apenas não faz sentido sob a classificação de doença, como vivê-la é uma verdadeira cura para quem é gay: cura de sofrimentos.
É compreensível que, por homossexualidade e pedofilia serem incomuns, algumas pessoas pensem que ambas são repugnantes. Porém, como pretendi defender, algumas de nossas reações emocionais às variedades raras da humanidade têm âncora em argumentos, enquanto outras não têm. O nojo da pedofilia tem amplo apoio racional, mas a aversão à homossexualidade não tem, assim como a aversão a pessoas anãs, albinas, muito altas, gagas, disléxicas, com sardas, canhotas etc.
Quando temos interesse em aprender mais sobre a humanidade, nossos gostos sobre as raridades têm oportunidade de serem moldados pelos nossos conhecimentos. Como os gostos dos apreciadores de cachoeiras raras e árvores raras, que ao saber mais sobre cachoeiras e árvores têm mais interesse – e argumentos – para defendê-las, recomendá-las e estarem precavidos diante daquelas que forem uma ameaça.