17th of February

Pior que “fake news” é “fake knowledge”


Quem já consumiu muita notícia deve ter tido uma sensação que pode ser descrita como ‘ressaca informacional moral’. É aquela sensação de que você está adquirindo um monte de informações que em última análise em pouco ou nada afetarão a sua vida, além da rara ocasião em que te ajudam a ter assuntos para discutir em mesa de bar. E daí se Donald Trump foi pego desprevenido fazendo comentários desrespeitosos sobre mulheres? Só dá para imaginar que isso terá algum impacto na sua vida se você passar um tempo especulando sobre causalidades indiretas, do tipo improvável. Até notícias com aparência de extrema importância, como a escolha de um ministro do Supremo Tribunal Federal que tem conflito de interesses com a operação Lava Jato, dificilmente têm claras linhas causais que afetarão a sua vida em particular, mais que as vidas dos outros 200 milhões de brasileiros. E não é só isso: mesmo se afetasse, o seu poder de alterar alguma coisa é mínimo, quase nulo. E é aí que reverbera o conselho estóico de não gastar energia mental se preocupando com o que você não pode mudar. A ressaca informacional também é moral porque você se vê desperdiçando seu tempo aprendendo fatos inúteis ou inalcançáveis em vez de aprender o que pode melhorar a sua vida ou, no mínimo, ao menos te entreter.

Há uma natureza passageira, quase desesperadora, no ritmo das notícias. Vêm e vão. As pessoas se preocupam, protestam, depois esquecem. Alguns políticos até aprenderam que tudo o que têm que fazer para escapar da ira da opinião pública é esperar pelo próximo assunto que capturará a atenção coletiva. Esse ritmo não existe na produção de conhecimento. Talvez por isso é tão difícil achar seção de notícias sobre ciências que satisfaça a cientistas: enquanto os jornais querem fatos noticiosos, os cientistas querem fatos perenes. Por isso quase toda manchete dos jornais alegando que determinado fóssil revolucionou a teoria da evolução é falsa.

Se há um lado bom na efemeridade das notícias, é que, tanto quanto as notícias verdadeiras, as falsas acabam tendo, também, um impacto limitado. Não é o caso quando a falsidade está não nos fatos noticiosos, mas nos fatos aceitos como perenes. Aqui vai uma pequena lista de “fake knowledge” (conhecimento falso) cujo impacto é bem pior que qualquer “fake news” (notícia falsa):

  • Pareceres de “especialistas em problemas sociais” que fazem “sociologia normativa“, livre de dados. Esses especialistas estão virando figura frequente na TV. Se houve um problema específico com um grupo social específico, a resposta dogmática é sempre discriminação injusta e preconceito. Como eles sabem disso? Não pergunte. Se você perguntar, você aprova a discriminação injusta e o preconceito.
  • A aceitação comum da astrologia como, se não uma ciência do comportamento humano, ao menos um entretenimento inocente. Não importa que já tenha sido demonstrado que, em condições controladas, mapas astrais e horóscopos erram feio. Duvidar da astrologia deve ser coisa de leonino com ascendente em escorpião. A astrologia está até nas TVs do metrô de São Paulo. Não ocorre a ninguém que, se o metrô está investindo em astrologia, está usando um recurso limitado que poderia ser aplicado em, por exemplo, alguma produção artística local ou em algum programa informativo?
  • Conselhos de psicólogos e terapeutas que se baseiam em teorias obsoletas ou especulações sem base. Não importa o quanto se mostre os problemas teóricos da psicanálise, ela continua sendo tratada como um conhecimento sério nas graduações em psicologia. Outras áreas alternativas e agressivamente contrárias à psicanálise, como o behaviorismo, não se saem muito melhor em base teórica. Os behavioristas, ao menos os radicais, alegam que termos como “vontade”, “escolha” e “querer” são “mentalismos”, ou seja, ilusões coletivas de eras pré-científicas, que um dia serão substituídas todas por explicações em termos de comportamentos. “Penso, logo existo”? Que nada, duvide da experiência de realidade aparente mais imediata, substitua por “me comporto, logo existo”. Mas os behavioristas com suas bases controversas, embora com aplicação prática de maior sucesso que a psicanálise, nem se comparam aos vendedores de best-sellers de especulações psicológicas, como Augusto Cury e sua “teoria (sic) da inteligência multifocal” jamais publicada em periódicos revistos por pares.
  • Modas populares sobre tratamentos de saúde baseadas em apelos a autoridades e outras falácias, bem distantes de qualquer avaliação das evidências. Aqui há vários exemplos, dos defensores da fosfoetanolamina (desastrosamente apelidada de “pílula do câncer” pela imprensa) como “cura do câncer” aos defensores da homeopatia, que apesar de bater recordes em contradizer um número enorme de ciências estabelecidas – física, química, biologia – é reconhecida como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina, não por acaso desde a época da Ditadura Militar. Essas modas populares são praticamente inevitáveis, dado o analfabetismo da população sobre como funciona a descoberta de novos tratamentos e qual é a cara da evidência de eficácia. Essas modas sempre surgem acompanhadas de anticorpos: se alguém duvida que uma nova coisa é finalmente a cura milagrosa, é porque está sob influência de alguma conspiração da indústria farmacêutica.
  • A ideia de que não existem transtornos psiquiátricos, só “tipos diferentes de ser humano”, e que a psiquiatria só classifica certos comportamentos ou características mentais como transtornos porque, adivinhe só, tem interesse em lucrar com a indústria farmacêutica. Há evidência circunstancial de que nos EUA, por exemplo, há um diagnóstico excessivo de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) entre crianças, talvez motivado, sim, por interesses econômicos. Mas, para azar dos conspiracionistas, a genética do comportamento, que não sofre nenhuma crise de replicação de resultados (diferente de boa parte da psicologia feita com mais rigor), encontrou consistentemente que o TDAH é uma das características comportamentais (ou conjunto delas) com a maior herdabilidade já encontrada entre humanos, acima de 70%. Esse valor indica uma participação majoritária dos genes na determinação do transtorno. O problema do diagnóstico excessivo, ou na verdade medicalização excessiva, é que ignora que crianças frequentemente têm fenótipos psiquiátricos que se resolvem com o tempo. Um exemplo disso é a disforia (a sensação de se estar no corpo de sexo errado), que se resolve na maioria das crianças que a manifestam sem necessidade de transição entre gêneros.
  • Especulação. Talvez não é necessário dizer, mas o digamos por cautela: especulação não é conhecimento. Se a Scientific American (uma boa revista) especula que nos próximos 15 anos teremos toda a tecnologia necessária para colonizar Marte, não significa que sabemos disso. Bons divulgadores como Carl Sagan deixam claro quando estão divulgando o que está justificado suficientemente por evidências, e quando estão especulando. Com frequência, essa distinção importante é esquecida por outros.
23rd of May

Profetas da parcialidade e da irracionalidade no mundo do jornalismo Respondendo a modas irracionalistas no mundo da comunicação


Começou em 2012, talvez antes, numa palestra a que assisti. Segundo o palestrante, era “ingênua” a ideia de que o jornalismo pode ser imparcial. Naquele momento não vi muito motivo para objetar: “o especialista é ele”, pensei. Voltei a ouvir versões disso nos anos seguintes, e muitas vezes da boca de profissionais de comunicação.

Quando pressionados, alguns reformam a afirmação para dizer que jornalistas em particular é que não podem ser imparciais, em vez de varrer o jornalismo inteiro para a parcialidade inescapável. Mas isso não resolve muita coisa. Se você acredita que nenhum jornalista pode ter sucesso em ser imparcial ao menos em parte do que faz, então o jornalismo como um todo está condenado a uma disputa partidária sem fim, em que ninguém sabe se ao menos parte das notícias são verdadeiras. Aparentemente, a coisa rara de se ver nos debates públicos a respeito é quem defenda, destemidamente, a imparcialidade como algo a ser perseguido, e, mais raro ainda de se ver, quem defenda que é atingível, se estivermos dispostos a tirar a aura de santidade em torno da ideia e vê-la em coisas pequenas.

Pensemos em um fato noticioso: ou é verdade que aviões atingiram as torres gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001, ou não é verdade. Um jornalista que afirma que isso aconteceu, porque viu com os próprios olhos ou teve acesso a fontes primárias, está sendo imparcial e verdadeiro, se a informação é verdadeira. Um jornalista que diz que o ataque aconteceu não porque fez investigação, mas porque odeia os Estados Unidos da América e teria prazer em vê-los sofrendo, está sendo verdadeiro ao noticiar o ataque, mas é parcial (ou seja, ele está certo por acidente). Se a notícia do ataque fosse falsa, no entanto, aqueles jornalistas que nos dissessem que o ataque aconteceu estariam dizendo inverdades, mas seu engano poderia ser um engano imparcial (após uma investigação errônea, mas desinteressada) ou um engano parcial (poderiam, por exemplo, estar dando essa notícia falsa por interesse de vender jornais). Ser imparcial, portanto, não significa ter sempre a verdade. Nós todos, incluindo jornalistas, somos seres falíveis e erramos. Mas podemos errar por interesse, desinteressadamente (imparcialmente), e por motivos que nada têm a ver com interesse ou desinterresse (como erros de digitação).

É aqui que fica clara a similaridade entre a investigação jornalística e a investigação científica. A cientista é um ser falível, mas ela deve buscar ser objetiva. Ela precisa estar alerta para suas próprias fontes de viés, e resistir contra elas. Se soa absurdo que um órgão regulador ou financiador de pesquisas científicas aconselhe aos cientistas que a objetividade é impossível e que não vale a pena buscá-la, é igualmente absurdo aconselhar jornalistas a desistir da tentativa de serem imparciais ao noticiar fatos. Para opiniões, já existem editoriais e artigos de colunas de opinião. Mas o propósito central do jornalismo é, sim, noticiar fatos, e jornalistas deveriam ver com certa vergonha quem acha que para ser um bom jornalista é preciso em primeiro lugar assumir um alinhamento político e buscar um veículo de alinhamento similar que publique suas notícias parciais. Quem perde com esse entrincheiramento ideológico é o público que deseja ser informado, em vez de doutrinado ideologicamente ou tratado com condescendência como se quisesse sempre ver sua cartilha e suas crenças sendo repetidas de volta para si.

Chafurdar na parcialidade é um beco sem saída. Qualquer tentativa de mostrar que alguém ou alguma instituição foram parciais em um assunto específico obriga o acusador a pelo menos tentar fazer uma avaliação imparcial da parcialidade. Do contrário, vira um jogo infinito de acusação interessada, o que parece se encaixar na “metafísica dialética” de alguns. Mas o fetiche de alguns com conflitos infindáveis não deve ser confundido com uma avaliação racional de como as coisas devem ser, ou com uma descrição de como elas são. E mesmo se a tal “dialética” for uma descrição de como as coisas são (parece que há aqui um elemento de profecia autocumprida: quem espera que discussões de ideias sejam conflitos irracionais de interesses, algo como quedas de braço de retórica, age de forma a deixar as coisas exatamente assim), isso de modo algum equivale a estabelecer que devem ser assim.

Imparcialidade, objetividade, esforço para encontrar a verdade são facetas da racionalidade. Os profetas da parcialidade, da subjetividade e do dadaísmo epistemológico são irracionalistas, e alegam estar esposando a irracionalidade em nome de si próprios, ou dos mais fracos, ou às vezes até dos mais fortes. Trasímaco, um sofista da Grécia antiga, dizia que a justiça é a perseguição dos interesses dos mais fortes. Trasímacos reversos, como Paulo Freire, alegam que a justiça está no abandono da imparcialidade e na busca dos interesses dos mais fracos – por isso alegam (por interesse?) que imparcialidade é impossível. São ambas posições absurdas e auto-refutantes: se você está sendo imparcial ao alegar que a imparcialidade é impossível, então a imparcialidade não é impossível. Se você está sendo  parcial ao alegar que a imparcialidade é impossível, sua afirmação está sendo feita por interesse e é destacada da verdade. Portanto, a imparcialidade é, sim, possível.

A falácia cometida pelos profetas da parcialidade é a “falácia do Nirvana”: que, se não há forma perfeita de fazer uma coisa, então não vale a pena nem tentar, ou não existe quem faça melhor que outros. Se marceneiros acreditassem nisso, passariam a vida sonhando com uma cadeira perfeita impossível de fazer, com ângulos e cilindros matematicamente elegantes impossíveis de atingir com toras, serras, lixadeiras etc, em vez de fazer as melhores cadeiras que pudessem. Por que então alguns especialistas em comunicação e jornalismo convenceram a si mesmos que não devem nem tentar fazer as peças mais imparciais possíveis de jornalismo? Ou que podem, sim, atingir a imparcialidade em coisas triviais como anunciar, após a melhor investigação possível, que a inflação subiu, ou que o desemprego caiu, etc.?

O que bota um proverbial último prego na tampa do caixão dessa opinião incoerente a favor da parcialidade é que a parcialidade é uma amiga da onça. Se você vai defender os oprimidos apenas por interesse, qualquer um com interesse oposto dirá que não há força nos seus argumentos para defender os pobres, que são baseados nos seus delírios pessoais e ganhos pessoais ao dizer isso, e não em razões desinteressadas. E se você pode agir de forma parcial, por que os outros, com interesses opostos, não fariam o mesmo? Qualquer defesa eficaz de oprimidos passa pela avaliação imparcial de sua opressão, para determinar que sua sina é real e não inventada, o que é um misto de investigação da verdade e argumentação ética para asseverar que essa verdade é injusta e deve ser mudada.

O resto é interesse. Ingênuo é quem acha que ser conivente ou cantar loas à parcialidade, à subjetividade e à bullshit* é algo que promoverá justiça no mundo, ou que especialistas parciais, subjetivistas e cheios de bullshit são especialistas dignos do nome. As pessoas têm interesses? Sim. As instituições têm interesses? Sim. Às vezes esses interesses ficam na frente do compromisso de ser honesto, verdadeiro, imparcial? Claro que sim. Mas até para mostrar quando e como isso acontece é preciso que quem investiga a mentira, a parcialidade e a injustiça seja alguém com interesse de buscar e atingir a verdade, a imparcialidade, e a justiça. Porque enquanto somos seres capazes de interesses, também somos capazes de pensar e proceder de formas racionais.

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* O uso da palavra bullshit (literalmente “merda de touro”, em inglês) não é para ser pedante, mas uma referência à exposição que o filósofo Harry Frankfurt fez dessa categoria de engano em um livro homônimo. Enquanto quem mente engana duas vezes: quanto ao conteúdo do que diz, e quanto ao próprio mentiroso acreditar no que está dizendo; quem “fala merda” (de touro?) não se importa se o conteúdo do que diz é falso ou verdadeiro.