5th of June

Identidade de gênero e orientação sexual: militância versus evidência


O que diz a militância:
 
Identidade de gênero e orientação sexual são coisas completamente separadas. Identidade de gênero é como a pessoa se vê (se homem, mulher, ou nenhum dos dois), orientação sexual é por quem a pessoa se atrai. Dessa forma, identidade de gênero e orientação sexual variam independentemente.
 
O que dizem as evidências:
 
Os fatores que causam a orientação sexual e a identidade de gênero são intimamente relacionados. Se não são os mesmos, ao menos a intersecção entre os dois conjuntos de fatores causais é grande. De outra forma não se poderia explicar por que, através das culturas, a maioria (90% ou mais) das pessoas são heterossexuais e mais de 99% não sofre disforia de gênero nem é intersexo.
 
Disforia é a sensação de sofrimento psíquico por crise identitária de quem não se conforma ao gênero com que foi rotulado ao nascer. Nos casos mais severos, manifesta-se bem cedo em crianças e pode levar à automutilação.
 
Pessoa intersexo era conhecida antes pelo termo “hermafrodita”, um termo bonito, que vem dos deuses gregos Hermes e Afrodite, termo que o politicamente correto – sisudo e sem poética – condenou ao ostracismo. 1 em 2000 pessoas são intersexo, apresentando variados graus de ambiguidade de características sexuais primárias e secundárias.
 
Claramente identidade de gênero é relacionada à orientação sexual também porque uma parte substancial (quiçá a maioria) de pessoas homossexuais apresentam alguma não-conformidade de gênero na infância e adolescência (em outras palavras: muitos homens gays foram meninos que já usaram vestidos, sapatos e maquiagem da mãe – é um indicativo, não uma sentença). Além disso, a maioria, entre 50 e 88%, das crianças que manifestam disforia a resolvem com o tempo sem transição para outro gênero. Isso sugere que a transição só é terapêutica para uma minoria das crianças que manifestam disforia. A maioria, que não cresce trans, geralmente é gay. Novamente: identidade de gênero e orientação sexual são intimamente relacionadas.
 
Isso contradiz a insistência de que tudo o que é necessário para considerar uma criança “trans” é que ela manifeste disforia. Na verdade, a probabilidade maior é que não seja trans, mas gay. Também contradiz a noção de que basta uma criança dizer que é de outro gênero para aceitar que é mesmo. Não é transfóbico pensar que há uma probabilidade substancial de ela não ser: é o resultado mais provável. Isso, obviamente, não é desculpa para forçar a minoria que cresce para ser trans a não ser trans: estamos falando aqui do resultado mais terapêutico para seu desenvolvimento, e repito que para 12 a 50% dos casos o melhor curso de ação é a transição. Se você acha que uma pessoa trans sofre (e geralmente sofre, disforia é horrível), imagine então como sofre uma pessoa que fez transição, retirou mamas, tomou hormônios, porque ouviu que essa era a sua única opção, e depois se descobre não-trans e tem que viver com resultados permanentes de uma decisão tomada sem clareza suficiente sobre quem ela é. É a minoria de transicionados, mas existem (a idéia não é proteger minorias?).
 
Disforia está correlacionada com outros trantornos psiquiátricos. Não se pode atribuir todos os problemas psíquicos das pessoas trans à resistência da sociedade à sua transição. Sim, há muita transfobia e sofrimento causado por ela. Mas há mais coisas. A narrativa de “nasceu no corpo errado” não se aplica a todas as pessoas trans.
 
Finalmente, para botar um último prego no caixão da idéia de que identidade de gênero e orientação sexual são totalmente distintas e não relacionadas, vou falar de um tipo de transexualidade que essencialmente é uma orientação sexual. Trata-se da autoginecofilia. Autoginecófilas são mulheres trans (nascidas com sexo masculino) que têm atração sexual por si mesmas como mulheres. O conceito é um pouco difícil de entender quando se ouve falar nele pela primeira vez, mas existe e já foi descrito pelo cientista do sexo Ray Blanchard em detalhes. As autoginecófilas, como as outras trans (estas mais próximas de “nascidas no corpo errado”), podem fazer a transição hormonal e genital como terapia. Não é um fetiche, mas uma orientação-sexual-identidade-de-gênero que é parte fundamental de quem elas são. Alice Dreger, estudiosa da intersexualidade e de conflitos entre pesquisadores e ativistas, descreve o caso de uma mulher trans autoginecófila que chegou a raspar cirurgicamente o osso acima da sobrancelha, e conta que teve uma sensação de êxtase quando, depois da cirurgia, nos banhos o xampu passou a escorrer dos cabelos e chegar aos olhos, irritando-os. Porque tomar banho com um “guarda-chuva natural” acima da sobrancelha formado por esse osso seria coisa de homem. Alice, que é mulher nascida com vagina, diz que em toda a sua vida como mulher nunca tinha pensado nisso. Conto a história não para apontá-la como bizarra, mas para apontar o quão profunda é a identidade feminina para uma trans autoginecófila, tanto quanto para outras trans. (Outra evidência de que há ao menos esses dois tipos de mulheres trans é que as autoginecófilas tendem a gostar de mulheres e as outras tendem a gostar de homens.)
 
Portanto, enquanto ainda há muita ignorância sobre as origens tanto da orientação sexual quanto da identidade de gênero, está claro o suficiente que os dois conceitos são separados apenas para facilitar a compreensão de certas questões (ou por dogmatismo de ativistas), mas o mundo em si não os separa tão bem assim. Se engana quem pensa que não têm nada a ver com biologia, ou quem pensa que têm a ver apenas com biologia – os mais astutos devem ter percebido que a mulher trans de uma cultura pode ser o homem gay de outra.
 
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Referências
 
Sobre a provável maioria das crianças disfóricas não transicionar, vide Associação Psicológica Americana. https://www.apa.org/practice/guidelines/transgender.pdf
 
Sobre a proporção de intersexos na população, sobre histórias cabeludas de ativistas atrapalhando o avanço da ciência nessas questões, vide Alice Dreger: Galileo’s Middle Finger. https://g.co/kgs/oiUoOU
 
Sobre mulheres nascidas com pênis se assemelharem no cérebro a mulheres nascidas com vagina, e sobre homossexuais manifestarem não-conformidade de gênero, vide Bao & Swaab 2011. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21334362
 
Sobre disforia estar correlacionada a outros transtornos, ver este estudo escandinavo que relatou que ela é geralmente precedida por outros transtornos e que é muito comum o autismo: https://capmh.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13034-015-0042-y
24th of March

Resumidíssimo: por que gênero não é construção social Explicado em menos de 2600 caracteres, publicado originalmente no jornal O Tempo, 24 de março de 2017.


No livro “The Social Construction of What?”, Ian Hacking lista mais de 50 coisas que já se alegou que são construções sociais: emoções, sexualidade, doença, quarks etc., até fatos, realidade e conhecimento. É moda alegá-lo sem provas. Algo construído não estava ali para ser descoberto, e socialmente construído é algo que foi feito por uma sociedade e não por qualquer outra coisa. Alega-se que gêneros são também construídos socialmente. Esta é uma alegação determinista cultural sobre o gênero, uma inversão de determinismos biológicos igualmente equivocados, como o cromossômico. Já no berço, antes de aprender qualquer cultura, meninas já diferem de meninos no tempo em que olham para móbiles ou faces.

Se gênero fosse construção social, sob o igualitarismo homens e mulheres se aproximariam em escolhas de carreira. Ocorre o oposto: quanto mais igualitárias as sociedades, maior a diferença na escolha de carreira entre gêneros. A preferência masculina por carrinhos e feminina por bonecas vai além da espécie humana, macacos também a manifestam. Não parece ser o caso com preferência por azul ou rosa, que depende da cultura.

A maior descoberta da genética do comportamento é que nenhum comportamento é destituído de biologia. Outra é que nenhum comportamento é livre de ambiente. A dicotomia “natureza vs. cultura” é obsoleta, temos “natureza e cultura”. Somos culturalmente moldados na nossa natureza: sem a cultura do fogo, a savana em que evoluímos não teria energia suficiente para suprir o cérebro. Somos também biologicamente propensos à cultura: somente nossos filhotes ensinam já no início da infância. O gênero é feito de um cerne natural fruto da evolução ao qual são adicionados acessórios que são construções sociais. Gênero é o sexo que está entre as orelhas.

Contraste o gênero com uma categoria que é construída: a casta indiana. As castas começaram com uma invasão, e chegaram a milhares em poucos milênios. Não é o caso do gênero: não há cultura em que o número de gêneros tenha sequer chegado a dez, mesmo com gêneros precedendo castas. O que temos são culturas com categorias como “homem”, “mulher” e “fa’afafine” (em Samoa). O número de gêneros tem um limite inferior ao das castas, dado pela biologia. Há dimorfismo anatômico e comportamental, orientações sexuais, características que culturas lêem como essenciais às suas categorias de gênero.

Quem tem medo desses fatos confunde o projeto ético da igualdade de direitos e oportunidades com a engenharia social de forçar paridades. Além de tratar pessoas diferentes com igualdade, também devemos contar-lhes a verdade.

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Para referências, leia este texto do Dr. Larry Cahill.

15th of January

BBC toca no tema explosivo de crianças transexuais


Este tema, como outros, está cada vez mais intratável por causa da politização. Quando se politiza um tema, as pessoas passam a vê-lo como uma disputa tribal, e defenderão com unhas e dentes suas posições independentemente das evidências. Não foi surpresa, portanto, quando saiu um estudo recentemente mapeando padrões cerebrais relacionados ao posicionamento político aos mesmos relacionados à afiliação religiosa.*

Fiquei positivamente surpreso com a qualidade do documentário “This World: Transgender Kids”** que saiu na BBC há dois dias, é muito informativo e corajoso. O documentário comenta alguns dados importantíssimos. De todas as crianças que manifestam disforia de gênero (o sentimento de estar “no corpo errado” para seu gênero), 80% se resolvem e desistem de transicionar para outro sexo, vindo a aceitar o sexo com que nasceram. A maioria dessas crianças cresce para ser gay, lésbica ou bissexual.

O ativismo na área se foca em casos em que a disforia não se resolve e, por isso, a transição de um sexo para outro se faz terapeuticamente necessária. Apaixonados por ideias de destruir papéis de gênero, alguns ativistas simplificam demais a questão, culpando expectativas sociais de papel de gênero que crianças mal entendem por todos os casos de suicídio entre crianças com disforia de gênero. No entanto, é importante apontar que está longe de claro que as expectativas sociais são tudo o que há por trás da ansiedade e ideação suicida de uma fração preocupante dessas crianças. Alguns pais resistiram à afirmação de gênero de suas crianças, persistiram durante anos com terapeutas, e ao fim desse processo encontraram que suas crianças se encaixam no grupo da maioria que não era “realmente” trans, mas “apenas” gay.

Um dos terapeutas que ajudavam pais nessa direção era Ken Zucker. Por causa do lobby de ativistas com sua narrativa simplificada, ele perdeu o emprego e teve sua clínica fechada, acusado de tentar “terapia de conversão”. O problema nisso é que, como ele mesmo diz no documentário, a razão pela qual alguns pais insistem que suas crianças tomem hormônios e façam cirurgias genitais é justamente porque não querem que elas sejam gays. Então, em muitos casos, é a própria narrativa simplificadora dos ativistas que está facilitando “cura gay”, em que se produz uma menina hétero transicionada em vez de um menino gay afeminado.

O assunto é muito difícil, e diante da ignorância parece que alternativa mais cautelosa é acompanhar as crianças em sua descoberta de identidade até que elas estejam preparadas, especialmente depois de crescerem e terem acesso a terapia, a decidirem sem risco de se arrependerem depois. Acima de qualquer coisa, é muito decepcionante ver que ativismos tão importantes para fazer avançar a liberdade individual nas décadas recentes estejam agora começando a se perder aceitando que devemos levar a sério tudo o que sai da boca das crianças, que a única forma de cuidar de uma criança é dando o que ela quer. Crescer LGBT sob a autoridade de pais que claramente te rejeitam é ruim, mas crescer sob autoridade nenhuma de pais seduzidos por ideias simplistas que não põem ordem alguma no seu mundo pode ser igualmente ruim. A identidade não é simplesmente um sentimento que brota espontaneamente de dentro. Ela é também um resultado do que negociamos com quem divide a existência conosco, e do que aprendemos sobre nós mesmos (introspecção não é o mesmo que se deixar levar por qualquer sentimento). Pessoas trans merecem os mesmos direitos que pessoas não-trans, mas não é fazendo crianças de cobaias que se chega à justiça. E, como provam transtornos psiquiátricos diversos, às vezes nós precisamos de ajuda para lidar com nossa própria identidade, e afirmá-la porque soa inclusivo não é tudo o que há para a questão.

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* Kaplan, J. T., Gimbel, S. I., & Harris, S. (2016). Neural correlates of maintaining one’s political beliefs in the face of counterevidence. Scientific Reports, 6, 39589. https://doi.org/10.1038/srep39589

** Transgender Kids: Who Knows Best? (2017). British Broadcast Corporation. http://www.bbc.co.uk/iplayer/episode/b088kxbw/transgender-kids-who-knows-best

17th of December

Os novos carolas Como ativistas irracionais prejudicam suas causas


Uma moça foi contratada para posar de maiô junto a móveis de aço inoxidável, na publicidade de uma empresa que os vende. Em resposta, por considerarem isso errado, muitos ativistas atacaram a página em bando, chamando por avaliações baixas para a página e em consequência a empresa inteira. A empresa, muito espertamente, fez uma campanha nova oferecendo doar somas cada vez maiores a uma associação de deficientes conforme a avaliação de sua página subir, em reação às avaliações dos ativistas.

Algo similar aconteceu em Londres, quando em 2015 uma empresa que vende shakes de proteína botou no metrô uma campanha com uma modelo usando um biquíni amarelo, acompanhada de uma pergunta: “você está com o corpo pronto para a praia?”. Centenas de reclamações choveram sobre a autoridade responsável por regular anúncios no metrô, e o anúncio acabou sendo retirado por isso. Em resposta, a empresa foi a um país com mais liberdade de expressão publicitária, Estados Unidos, e simplesmente botou o mesmo anúncio na Times Square. A empresa ganhou popularidade e suas vendas aumentaram. Algumas outras marcas, também espertas, embarcaram na controvérsia, com imitações mais simpáticas às crenças dos ativistas. Mas a estrela acabou sendo a empresa que provocou a ira dos ativistas.

Muitos desses ativistas são incapazes de articular o que exatamente está errado, e são só seguidores de uma onda ideológica que se analisada de perto por sociólogos pode revelar como surgem novos tabus (religiosos), como o tabu bíblico contra tecer panos misturando fibras diferentes. Alguns poucos, no entanto, tentam explicar seu ultraje. Alguns dizem que diz respeito à imagem corporal, que há pessoas cuja auto-imagem depende bastante do que está na mídia popular, e que falta de sensibilidade com essas pessoas pode criar ou piorar problemas como a anorexia nervosa. Já ouvi também a alegação de que se trata de “objetificação” sexista, que causa ou piora o estereótipo de que mulheres devem ser valorizadas pela aparência acima de tudo.

Embora haja um ou outro ponto justo nisso, há pouca coisa que se aproveite nessas tentativas de justificação. Quem acha que a responsabilidade do cuidado a anoréxicos, bulímicos e vigoréxicos está na mídia é culpado de futilidade. O problema das pessoas que se deixam influenciar tão profundamente por mídia popular é principalmente falta de repertório cultural, falta de desligar a TV e deslogar do Facebook. É de impressionar como hoje as pessoas ficam comentando assuntos superficiais, como Tilda Swinton ser escalada para interpretar um personagem que nos quadrinhos é um homem asiático velho e sábio (outro estereótipo), como se estivessem libertando Mandela da cadeia ou repetindo o feito heroico de Rosa Parks. Desculpem-me os ativistas (ingenuidade minha achar que está sobrando nuance para me desculparem por qualquer coisa, eu que já sou difamado com todo tipo de adjetivo), mas eles deveriam baixar a bola: estão apenas comentando assuntos que em última análise são apenas passatempos para a maioria das pessoas, em que elas se engajam por futilidade. Se isso é ativismo, é uma forma inferior de ativismo.

É estranho também dar o nome “objetificação” ao problema, quando é fato que nossos corpos são objetos e o tempo todo fazemos uso desse objeto: se você utiliza os serviços de um motorista do Uber, você está “objetificando” o corpo dele para se deslocar de um ponto ao outro. Mulheres não são crianças, se elas trabalham o próprio corpo ao ponto de alugá-lo para a publicidade (e por mais que seja irracional, funciona), estão “objetificando” a si mesmas, e todos os envolvidos estão ganhando alguma coisa: elas estão sendo pagas, as empresas estão fazendo sua publicidade. Nada que ativistas disserem vai reduzir a soberania de mulher bonita ou homem sarado nenhum sobre seus próprios corpos, e corpos são objetos. Negar a realidade alegando que não existe atratividade intrínseca em certos tipos de corpos mais que em outros só piora a mensagem e só faz com que pareçam mais loucos ainda. A mídia existe por causa da sociedade e por causa do que as pessoas são, há muito pouco que a mídia de fato pode fazer para mudar o que as pessoas já consideram atraente. No máximo, ondas ideológicas podem convencer um certo setor da população a se engajar em ilusão coletiva alegando que obesidade mórbida é tão atraente quanto a média dos corpos.

Muitos dos ativistas não estão vendo, mas já são os novos carolas. São os novos moralistas que, devido a seus tabus injustificados, mais e mais pessoas consideram divertido ofender (e é tão fácil ofendê-los!). Muita gente fã de telenovelas adora ver a personagem carola se dando mal: da Perpétua em “Tieta” ao inquisidor em “A Muralha”. Continuem assim, que logo a cultura vai usar o arquétipo do ativista irracional, ofendido por tudo, nas novelas, séries e filmes brasileiros (se é que já não usaram – eu lembro de rir em “Tropa de Elite” dos estudantes rococós pomposos falando de Foucault). Estereótipos não surgem do nada. Se ativistas estão sendo estereotipados assim, é porque mais e mais ativistas que se comportam assim são visíveis. E, como já sugerido em pesquisa empírica*, o estereótipo do ativista raivoso e irracional, que nem mesmo explica o porquê de tanta ira, serve para prejudicar as próprias causas que ativistas tentam defender. Tentam, mas falham frequentemente, tudo porque sucumbem ao pensamento de manada, e estão mais interessados em abusar da ferramenta de avaliação do Facebook do que em discutir adequadamente ou ensinar alguma coisa. O caso é que não se pode ensinar o que não se sabe. Tabu e ultraje moral estão correlacionados com ignorância, não com conhecimento.

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* Bashir, Nadia Y., et al. “The ironic impact of activists: Negative stereotypes reduce social change influence.” European Journal of Social Psychology 43.7 (2013): 614-626.

The Androgynous Form of Shiva and Parvati (Ardhanarishvara). India, Uttar Pradesh, Mathura, 2nd-3rd century sculpture. Mottled red sandstone. Los Angeles County Museum of Art.
11th of July

Por que gênero NÃO É construção social


Embora a alegação de que várias propriedades humanas são “construção social” tenha se tornado moda em setores das humanidades e ciências sociais, geralmente pouca evidência é fornecida para justificar alegações de construção social. O próprio conceito de “construção social” é frequentemente ambíguo demais. Depois de remover as maiores ambiguidades, o filósofo Paul Boghossian providenciou uma definição de construção social mais clara e mais alinhada com os próprios interesses dos acadêmicos do ramo. A definição dele pode ser parafraseada assim: o que se quer dizer quando se alega que uma coisa é socialmente construída é que ela foi criada intencionalmente por uma sociedade em particular para atender a seus próprios interesses, e é contingente aos caprichos dessa sociedade de tal forma que essa coisa não existiria de outro jeito (não existiria, por exemplo, se essa sociedade tivesse interesses diferentes, ou se a construção tivesse sido feita por uma sociedade diferente).

Algumas coisas socialmente construídas ocorrem através de diferentes culturas. O dinheiro, por exemplo, foi construído independentemente por algumas sociedades para fazer a troca de bens, e porque a maioria das sociedades de hoje está interessada em trocar bens eficientemente, o dinheiro se tornou quase universal. Mas se as sociedades que usam dinheiro tivessem interesses diferentes, o dinheiro poderia nunca ter existido. Então é claro o bastante que o dinheiro é construção social.

Mas e as categorias de gênero como “homens”, “mulheres” e “fa’afafine” (uma categoria de Samoa que se aproxima do que chamamos de homens gays afeminados)? São construção social? Eu penso que não. Pelas seguintes razões:

  • As culturas são criativas, então coisas socialmente construídas costumam ser diversas e numerosas, como as diferentes moedas que o mundo teve na história. Pense também em castas indianas. Há 3000 castas diferentes na Índia, e ainda mais subcastas. Comparado a castas e moedas, o número de categorias de gênero parece ser tediosamente baixo – duas no Brasil, três em Samoa, com nenhuma sociedade tendo atingido números de dois dígitos, até onde sei. As castas indianas parecem ser mais prováveis de serem construções sociais, ao ponto de ser possível explicar sua existência com base em fatos históricos conhecidos sobre as culturas indianas.
  • As culturas têm certo poder de decisão sobre com quais categorias de gênero trabalharão e quantas existirão. Mas as razões pelas quais elas têm categorias de gênero não são construção social. São elas: (1) o dimorfismo sexual dos corpos humanos, seguido estritamente por todos os corpos com exceção de um pequeníssimo número deles; (2) um número limitado de orientações sexuais que ocorrem naturalmente e que existem por causa do dimorfismo sexual dos corpos (homossexualidade, heterossexualidade e bissexualidade) – a herdabilidade da orientação sexual é de moderada a alta e algumas das regiões genômicas envolvidas nisso já foram mapeadas; (3) agregados de comportamento que ocorrem naturalmente (além das orientações sexuais), alguns dos quais têm origem evolutiva e são associados a organismos com base em se eles produzem uma abundância de gametas ou se têm poucos gametas e são responsáveis por abrigar o desenvolvimento de fetos.

  A pesquisa sobre essas últimas razões está em andamento e as alegações sobre quais exatamente são essas diferenças de comportamento (previstas por causa da evolução) são altamente contestadas. Alguns resultados são consistentes, no entanto: homens tendem a se sair melhor na tarefa de rotacionar mentalmente objetos 3D, enquanto mulheres parecem ter uma vantagem em tarefas relacionadas à empatia, como ler as emoções de alguém. Mas mesmo se diferenças de gênero apontadas no passado se revelarem falsas, podemos ter confiança de que, enquanto foi detalhista ao moldar corpos, a evolução provavelmente não parou acima do pescoço em relação a sexo no cérebro.

É inteiramente possível que, enquanto o gênero em si não é construção social – porque culturas diferentes chegam a categorias similares de gênero com base em diferenças naturais no corpo e no comportamento – algumas coisas associadas como papéis e expressões de gênero provavelmente sejam constructos sociais, ao menos exemplos delas como a cor que meninas e meninos supostamente preferem, quem é responsável por iniciar flerte, etc. Há evidência de que homens e mulheres fazem em média decisões de carreira diferentes, mesmo em sociedades igualitárias – o que conta como evidência de que essas categorias não são construção social, enquanto não significa, evidentemente, que um indivíduo em particular devesse ser discriminado por fazer escolhas de carreira atípicas de seu gênero.

É importante reconhecer a diferença entre o cerne não socialmente construído do gênero e suas propriedades auxiliares socialmente construídas, de modo que políticas e decisões morais baseadas em gênero sejam mais justas. Isso ficou claro na medicina, em que há resultados mostrando que cérebros masculinos e femininos podem responder de forma diferente ao mesmo medicamento. Agora a falha da hipótese da construção social do gênero deve ser reconhecida nos debates culturais também. Muitos ativistas saltam à acusação de sexismo ao menor sinal de que as pessoas estão se comportando de forma típica para seu gênero, revelando uma esperança ilusória e fora de lugar de que seja possível erradicar categorias de gênero da existência. Para evitar bater de frente com a ciência ainda mais, esses ativistas têm de reconhecer que a ação para mitigar a discriminação injusta não deveria ser acoplada a uma esperança de atingir uma paridade de gênero em tudo. Forçar as pessoas a se comportarem do mesmo jeito onde elas naturalmente divergem não é ativismo, é engenharia social utópica. Pessoas livres precisam apenas de igualdade de oportunidades para perseguir seus interesses diversos. Homens e mulheres (e fa’afafine etc. onde aplicável), incluindo os que são trans, apreciam-se entre si e uns aos outros sem necessidade de paladinos morais que tentam forçá-los a ser o que não são. E certamente não precisam de falsidades propagandeadas como o único caminho para a justiça – pois a justiça prefere a verdade.

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Referências comentadas

As pessoas interessadas no assunto devem estar cientes de que há um pequeno número de grupos de pesquisa dentro da neurociência que tem interesse ideológico de alegar que todas as diferenças no cérebro e no comportamento encontradas por outros pesquisadores são falsas ou infinitesimais. Há também um grupo menor ainda, rejeitado por todos, de cientistas conservadores com papéis de gênero que se apressam em aprovar qualquer diferença biológica alegada, independentemente da qualidade das evidências. Então, às vezes, a revisão por pares falha e estudos de baixa qualidade são publicados e publicizados como verdade revelada por blogs e veículos de mídia interessados em confirmar suas narrativas. Cientistas como Melissa Hines, Simon-Baron Cohen e Larry Cahill, que estudam gênero cerebral, evidentemente afirmam que as diferenças existem com base em evidências (no caso de Baron-Cohen, também porque tem a ver com autismo, muito mais comum em meninos que em meninas). Em oposição a esses há Cordelina Fine,  Daphna Joel e seus colaboradores, que parecem estar interessados em negar as diferenças ou reinterpretá-las como um “mosaico cerebral” inclassificável como masculino ou feminino, em que todas as pessoas são vistas como “intersexuais” no cérebro. Recomendo lê-los todos e decidir por si quais estão amparados em evidências.

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Boghossian, Paul. “What is social construction?.” (2001).

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Cahill, L. (2006). Why sex matters for neuroscience. Nature Reviews Neuroscience, 7(6), 477–484. http://doi.org/10.1038/nrn1909
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Araujo-Jnr, E. V. (trad.), Cahill, L. (2015). Diferenças de Sexo no Cérebro Humano. Xibolete | Cerebrum, 5. Disponível aquihttp://xibolete.uk/sexo-cerebral/
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Hines, Melissa. Brain gender. Oxford University Press, 2005.
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Bao, A.-M., & Swaab, D. F. (2011). Sexual differentiation of the human brain: relation to gender identity, sexual orientation and neuropsychiatric disorders. Frontiers in Neuroendocrinology, 32(2), 214–226. http://doi.org/10.1016/j.yfrne.2011.02.007
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Sanders, A. R., Martin, E. R., Beecham, G. W., Guo, S., Dawood, K., Rieger, G., … Bailey, J. M. (2014). Genome-wide scan demonstrates significant linkage for male sexual orientation. Psychological Medicine, 1–10. http://doi.org/10.1017/S0033291714002451
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Resenha crítica do livro de Cordelia Fine:
Araujo-Jnr, E. V. (trad.), Baron-Cohen, Simon. “‘Neurossexismo’: Homens não são de Marte, Mulheres não são de Vênus e Cordelia Fine não faz jus à neurociência”. Xibolete (2015) | The Psychologist 23.11 (2010): 904-905. Disponível aquihttp://xibolete.uk/neurossexismo/
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Artigo mais recente de Joel et al. alegando que não é possível prever o gênero de uma pessoa com base em características cerebrais:
Joel, Daphna, et al. “Sex beyond the genitalia: The human brain mosaic.”Proceedings of the National Academy of Sciences 112.50 (2015): 15468-15473. Disponível aqui.
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Respostas a Joel et al. mostrando que estão errados em alegar que cérebros humanos não podem ser categorizados em masculino e feminino:
Del Giudice, Marco, et al. “Joel et al.’s method systematically fails to detect large, consistent sex differences.” Proceedings of the National Academy of Sciences 113.14 (2016): E1965-E1965. Disponível aqui.
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Rosenblatt, Jonathan D. “Multivariate revisit to” sex beyond the genitalia”.”Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (2016). Disponível aqui.
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Chekroud, Adam M., et al. “Patterns in the human brain mosaic discriminate males from females.” Proceedings of the National Academy of Sciences113.14 (2016): E1968-E1968. Disponível aqui.
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Imagem: Forma andrógina de Shiva e Parvati (Ardhanarishvara). Índia, Uttar Pradesh, Mathura, escultura do século II ou III. Em arenito vermelho manchado. Los Angeles County Museum of Art.
The Androgynous Form of Shiva and Parvati (Ardhanarishvara). India, Uttar Pradesh, Mathura, 2nd-3rd century sculpture. Mottled red sandstone. Los Angeles County Museum of Art.
11th of July

Why gender is NOT socially constructed


Though claiming that various features of humans are “socially constructed” has become something of a fad in sectors of the humanities and social sciences, usually not a lot of evidence is provided to justifiy social construction claims. “Social construction” itself is often too ambiguous a concept. After weeding out ambiguities, Paul Boghossian has come up with a definition of social construction that is more in line with the interests of social construction scholars themselves. I’ll paraphrase his definition thus: what is meant by saying that a thing is socially constructed is that it was created intentionally by a particular society to address its interests, and is contingent upon the whims of that society in such a way that it wouldn’t have come about otherwise (e.g., if that society had different interests, or if another, different society had done the construction). Some socially constructed things are cross-cultural. Money, for instance, was constructed independently by some societies to exchange goods, and because most societies today have an interest in exchanging goods efficiently, money has become almost universal. But if the money-using societies had different interests, money could have never come into existence. So it is clear enough that money is socially constructed.

But are gender categories like “men”, “women” and “fa’afafine” (the Samoan gender category close to what we would call effeminate gay men) socially constructed? I don’t think so. For the following reasons:

– Cultures are creative, so socially constructed things tend to be diverse and numerous, like the different currencies the world has had in history. Think also of Indian castes. There are about 3000 different castes in India, and even more subcastes. Compared to castes and currencies, gender category numbers across cultures seem to be boringly low – two in Brazil, three in Samoa, with no society as far as I know achieving two digit numbers. Indian castes seem to have a better claim at being socially constructed, to the point where it is possible to explain their existence by known historical facts of the Indian subcontinent cultures.

– Cultures do have a say on what gender categories they’ll work with and how many they’ll be. But the reasons why they have gender categories at all are not socially constructed themselves. They are (1) sexual dimorphism of human bodies strictly followed by all but a tiny minority of bodies; (2) a limited number of naturally occurring sexual orientations that exist because of the sexual dimorphism of bodies (homosexuality, heterosexuality and bisexuality) – heritability for sexual orientation is moderate to high and some of the genome regions involved have been mapped; (3) naturally occurring aggregates of behaviour (besides sexual orientation) that tend to follow sex dimorphic lines (apparently less rigidly than bodies), some of which have evolutionary origins and are attached to organisms based on whether they produce an abundance of gametes or are scarce in gametes and responsible for foetus rearing.

Research on the latter reasons is ongoing and claims as to what exactly are these (evolutionary predicted) differences are highly contested. Some results are consistent, however: males tend to be better at rotating 3D objects mentally, while females seem to have an advantage on empathy-related tasks like reading someone’s emotions. But even if previously appointed gender differences in behaviour end up being shown to be false, we should be fairly confident that, while observant of bodies, evolution probably did not stop above the neck when it comes to sex in the brain.

It’s entirely possible that, while gender itself is not a social construct – for different cultures will end up categorising individuals similarly, on the basis of natural differences in body and behaviour – some associated things like gender roles or expressions probably are social constructs, at least instances of them like what colour is supposed to be preferred by boys or girls, who is thought to be responsible for initiating sexual advances, etc. There’s evidence men and women make on average different career choices, even in very egalitarian societies, what counts as evidence these categories are not socially constructed, while not at all means that a particular individual should have to face discrimination for making gender-atypical career choices.

It is important to recognise the difference between the non-socially constructed core of gender and its socially constructed auxiliary features, so policies and moral decisions based on gender are fairer. This has been made clear within medicine, by results on how brains sitting on female or male bodies may respond differently to the same drug. Now the failure of the social construction hypothesis must be recognised in cultural debates too. Activists are only too prone to accuse sexism where people are behaving as typical members of their genders, revealing a misplaced and delusional hope of eradicating gender categories from existence. Now, to avoid clashing with science even more, they’ll have to recognise that action to stop unfair discrimination should not be coupled with a hope of achieving a 50/50 gender parity in everything (in societies with 2 genders, of course). Forcing people to behave in the same way where they naturally are diverse is not activism, it’s utopian social engineering. Free people just need equality in opportunity to pursue their own diverse interests. Men and women (and fa’afafine etc. where applicable), including the trans men and women, appreciate themselves and each other without moral crusaders trying to force them to be what they know they are not. And they certainly do not need falsehood parroted as the only way to justice – justice prefers truth.

Commented References

One should be aware that there is a small number of research groups within neuroscience that are ideologically committed to claiming all differences in brain and behaviour found by other researches are false or negliglibly small. Abhorred by everyone are an even smaller minority of gender role-conservative scientists who will jump at any claim of biological difference to defend it regardless of the quality of evidence. So sometimes peer-review will fail and substandard studies will be tooted as revealed truth by blogs and narrative-driven media outlets. Scientists like Melissa Hines, Simon Baron-Cohen and Larry Cahill, who study brain gender and of course assert its existence based on evidence (in the case of Baron-Cohen, because it has something to do with autism, which is much more common in males than in females), will be often opposed by Cordelia Fine, Daphna Joel & their collaborators, who seem to be interested in denying differences or reinterpreting them as a “brain mosaic” unclassifiable as male or female where most people are “brain intersex”. I recommend reading all of them and deciding for yourself who’s backed by evidence.

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Boghossian, Paul. “What is social construction?.” (2001).

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Cahill, L. (2006). Why sex matters for neuroscience. Nature Reviews Neuroscience, 7(6), 477–484. http://doi.org/10.1038/nrn1909
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Cahill, L. (2014). Equal ≠ the same: sex differences in the human brain. Cerebrum, 5. Available here.
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Hines, Melissa. Brain gender. Oxford University Press, 2005.
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Bao, A.-M., & Swaab, D. F. (2011). Sexual differentiation of the human brain: relation to gender identity, sexual orientation and neuropsychiatric disorders. Frontiers in Neuroendocrinology, 32(2), 214–226. http://doi.org/10.1016/j.yfrne.2011.02.007
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Sanders, A. R., Martin, E. R., Beecham, G. W., Guo, S., Dawood, K., Rieger, G., … Bailey, J. M. (2014). Genome-wide scan demonstrates significant linkage for male sexual orientation. Psychological Medicine, 1–10. http://doi.org/10.1017/S0033291714002451
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Review of Cordelia Fine’s “Delusions of Gender”:
Baron-Cohen, Simon. “Delusions of gender—’neurosexism’, biology and politics.” The Psychologist 23.11 (2010): 904-905. Available here.
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Latest paper by Joel et al. claiming you can’t predict a person’s sex (and gender) from brain features:
Joel, Daphna, et al. “Sex beyond the genitalia: The human brain mosaic.”Proceedings of the National Academy of Sciences 112.50 (2015): 15468-15473. Available here.
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Replies to Joel et al. showing they are wrong to claim human brains cannot be naturally categorised as male and female:
Del Giudice, Marco, et al. “Joel et al.’s method systematically fails to detect large, consistent sex differences.” Proceedings of the National Academy of Sciences 113.14 (2016): E1965-E1965. Available here.
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Rosenblatt, Jonathan D. “Multivariate revisit to” sex beyond the genitalia”.”Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (2016). Available here.
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Chekroud, Adam M., et al. “Patterns in the human brain mosaic discriminate males from females.” Proceedings of the National Academy of Sciences113.14 (2016): E1968-E1968. Available here.
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Image: The Androgynous Form of Shiva and Parvati (Ardhanarishvara). India, Uttar Pradesh, Mathura, 2nd-3rd century sculpture. Mottled red sandstone. Los Angeles County Museum of Art.
9th of April

“Objetificação” não faz sentido O conceito usado frequentemente no ativismo como justificação de tentativas de censura não resiste à análise


Ouve-se com frequência a queixa de que o emprego de mulheres com pouca roupa em peças de mídia, especialmente obras de arte popular e publicidade, seria “objetificação”. E que essa “objetificação” seria discriminação injusta do tipo sexista, por vários motivos. O termo sugere que um desses motivos é que isso desumaniza as mulheres e as transforma em objetos, ou que a objetificação incentiva que sejam tratadas como objetos. Exibir mulheres como seres sensuais seria, portanto, algo problemático.

Um exemplo comum dessas peças de mídia é a propaganda de cerveja, em que a mulher sexy é vista tomando ou servindo a cerveja. Enquanto isso, os homens são mostrados como os “agentes” da situação, os seres com quem os espectadores devem se identificar, em oposição ao ser que devem desejar junto com a cerveja. Ao menos essa é a interpretação dos críticos.

Em primeiro lugar, é importante lembrar que mulheres ganharem fama e dinheiro por serem “gostosas” é algo pelo que elas tiveram que lutar também, especialmente contra conservadores antigos, estilo beata de igreja, que acham que mulher deve ser “pura” (leia-se destituída de sinais explícitos de interesse em sexo). Esta é uma opinião comum e ainda praticada por religiosos ao redor do mundo, inclusive os que fazem pressão para que elas se escondam com véus e burcas. Uma opinião que está errada, pois termina por violar os interesses daquelas mulheres que querem dar vazão às suas libidos e às suas preferências estéticas sobre a própria aparência.

A alegação é que ser “objetificada” é pouco “empoderador”, ou seja, uma coisa que pouco contribui para que mulheres sigam seus próprios interesses livremente. Mas poucas pessoas são mais “empoderadas” que a “gostosa” famosa do momento. Se ela, uma pessoa adulta, entende a que tipo de risco está se expondo por sua escolha de carreira, mas decidiu mesmo assim aceitar o dinheiro e mostrar um pouco de decote e glúteos, por que ela deveria dar ouvidos às carolas da igreja ou às pessoas que combatem a “objetificação”? A reclamação é que não há tantos homens que se submetem a isso? Que a pressão sobre a aparência das mulheres é maior? Se ambas alegações forem verdade, é relevante notar que há profissões insalubres em que há mais homens que mulheres, e eles também aceitaram certos riscos em troca dos benefícios. Fica difícil ver, portanto, como esses problemas têm a ver com uma “objetificação”, quando boa parte das profissões que pagam bem envolvem riscos ao corpo e à imagem, e as pessoas que entram nessas profissões têm liberdade de fazê-lo, como pessoas que são, não como “objetos”.

E é estranho que o nome do suposto problema seja “objetificação”. Em primeiro lugar, quase ninguém realmente prefere um objeto a uma pessoa para sexo. São relativamente raras as pessoas que estão dispostas a ignorar completamente os atributos psicológicos das pessoas com quem querem transar, especialmente se for mais de uma vez. Pense no sadomasoquismo, por exemplo: o que excita seus adeptos são quase que completamente atributos psicológicos: há aqueles que são dominantes e aqueles que são submissos – os apetrechos são só acessórios orbitando em torno dessa atmosfera psicológica. Mesmo se as tais bonecas de sexo ficarem impossíveis de distinguir na aparência de mulheres de verdade, eu duvido que os homens heterossexuais vão preferir as bonecas a mulheres de verdade (se realmente puderem optar). A atração sexual, além de ter o elemento psicológico (automaticamente personalizante, e não objetificador), também envolve elementos inconscientes chamados popularmente de “química” (o cheiro, a atitude etc.). Levando tudo isso em conta, é falso dizer que o uso publicitário da libido masculina heterossexual em direção à figura feminina sensual é uma “objetificação”, pois eles se atraem por elas por serem pessoas de feminilidade exuberante, e não por serem objetos. Até a diversão de um adolescente que se masturba diante de um objeto como uma revista de mulheres nuas está mais dentro da cabeça dele que nos pixels das fotos que ele homenageia, está mais em imaginar seres humanos femininos. E muitas lésbicas se comportam exatamente assim.

Outro sentido possível de “objetificação” é que, ao se submeter a esse tipo de emprego, essas mulheres estariam abdicando de seus atributos mais humanos, por assim dizer, e se reduzindo ao objeto que é seu corpo. Se o que se quer dizer com “objetificação” é que o corpo é um objeto e a pessoa é mais que seu corpo, e que essas atrizes dos comerciais de cerveja são valorizadas apenas por seu corpo, a resposta contrária é que existem outros empregos em que há (presumilvemente) pouca aplicação de esforço mental e consistem mais no uso do corpo como um objeto, especificamente como um instrumento. São os trabalhos braçais, boa parte deles feitos por homens, e a enorme maioria por gente da classe baixa. São indignos? Se não são, então não é indigno usar o corpo como chamariz sexual para produtos (por mais irracional que isso pareça). Não parece ser indigno usar seu corpo como instrumento para seu ganha-pão. E sim, estou incluindo prostituição aqui.

Por fim, é preciso comentar uma alegação frequente: que a mulher “objetificada” perde sua agência, enquanto os homens héteros babões continuam sendo vistos como seres capazes. Mas essa interpretação do ato de sedução é nova. Existe outra, presente como paródia em desenhos antigos como os do Pernalonga: quem é capaz de seduzir tem muito poder, enquanto quem é seduzido é o “otário”, que se deixa abusar. Certamente uma interpretação com sua contraparte verdadeira acontecendo no mundo. A verdadeira parte hipossuficiente da sedução, nessa interpretação, é o seduzido. Essa é uma verdade imemorial que nossos tempos querem negar. Por que? Porque o poder de seduzir dessa forma poderia ser tipicamente feminino, ainda que tenha suas contrapartes masculinas, e muitas feministas querem negar que homens e mulheres são em média naturalmente diferentes e não há problema necessário nisso. A equidade está em poder perseguir seus interesses sem amarras, até o de ficar rica por ser gostosa. Por dogmaticamente negar que homens heterossexuais são factualmente diferentes de mulheres heterossexuais especialmente na manifestação da libido, essas feministas precisam alegar que a mulher gostosa na propaganda não é um recurso que a publicidade naturalmente usaria quando seu público alvo tem um excesso de homens heterossexuais. O problema em fazer isso, com um conceito mal construído de “objetificação”, é que essas feministas estão se aproximando daqueles religiosos conservadores na finalidade, mesmo que não nas premissas.

Há sexismo nessas peças de mídia? Pode ser que sim, mas não por causa da “objetificação”. Demonstrar que o sexismo está ali é mais difícil que isso. Na dúvida, ficamos do lado da liberdade, não no lado que quer banir e censurar.

29th of January

Aborto e Vida


Detesto quando começam uma discussão sobre ‪aborto‬ falando em “vida”. É como ver alguém tentando reinventar a roda, mas criando uma coisa quadrada que não realiza a função da roda com a mesma eficiência.

A discussão do aborto não é uma discussão sobre o que é vida. É uma discussão sobre o que é vida humana. E termos mais claros existem: é uma discussão sobre o conceito de pessoa. Há condições necessárias para uma entidade ser uma pessoa, e estar vivo certamente é uma delas. Mas estar vivo não é uma condição suficiente para definir uma entidade como pessoa. Um pé de alface está vivo mas não é uma pessoa. Outras condições então devem ser investigadas ou descobertas para sabermos o que faz uma pessoa ser uma pessoa. Não que nós precisemos de um conceito científico completo de pessoa – essa é uma tarefa hercúlea e em curso há milênios, e não estará completa tão cedo. Só precisamos de um conceito de trabalho, no caso, um conceito legal de trabalho, para que possamos decidir corretamente em questões morais e legais, respeitando o princípio de defender o direito à vida, que é um direito fundamental do qual gozam as entidades do mundo que chamamos de pessoas.

A minha resposta até o momento é que uma pista está em como tratamos os casos de morte cerebral. Nós sabemos que um paciente com morte cerebral e mantido por aparelhos está vivo, mas num certo sentido deixou de ser uma pessoa. Não que nós sejamos desrespeitosos para com ele e achemos que ele é uma coisa e que pode ser tratado com o grau de negligência com que tratamos objetos quaisquer, como cascas de banana. Nós não fazemos isso com cadáveres, por boas razões. Então também não faríamos com alguém que teve morte cerebral. Mas nós permitimos que as famílias decidam, se assim quiserem, desligar os aparelhos e doar os órgãos desse paciente. O paciente com morte cerebral é vivo, mas nós não aplicamos a ele a proteção que aplicamos a pessoas, então isso quer dizer (embora não o digamos com todas as palavras por respeito) que ele perdeu o status de pessoa. Há portanto algo na atividade cerebral que faz de um ser humano vivo uma pessoa. A atividade cerebral parece ser uma condição necessária para fazer uma pessoa. Se isso se aplica a pacientes em hospitais, por que não se aplica a fetos?

29th of January

Richard Dawkins e J. K. Rowling alvos de justiceiros sociais na mesma semana Ninguém está a salvo da polícia do pensamento


Nos últimos dois dias, Richard Dawkins e J. K. Rowling foram alvos de acusações injustas no Twitter.

Dawkins postou uma animação satírica em que a extremista feminista canadense “Big Red” toca um piano enquanto um “islamista”* canta. É um comentário político bem atual sobre os eventos do reveillon em Colônia, Alemanha, em que várias mulheres foram atacadas e até estupradas por um grupo de imigrantes muçulmanos. O hábito de assédio coletivo por fundamentalistas muçulmanos tem nome: taharrush gamea, que é literalmente “assédio coletivo” em árabe. Esses homens premeditam um ataque em que passam a mão, roubam, mordem, assaltam e até estupram mulheres. Diz-se que o taharrush foi usado como arma contra manifestantes políticas na praça de Tahrir durante a revolução egípcia. Muitas publicações feministas, diante do ocorrido, consideraram uma prioridade maior “respeitar” a cultura desses imigrantes e reclamar da “islamofobia” do que defender as mulheres alvos do taharrush. É disso que trata a paródia que Dawkins compartilhou.

A forma como Dawkins compartilhou, aliás, não poderia ter sido mais cuidadosa. Ele diz que, enquanto ele mesmo é feminista (no sentido igualitário), há uma minoria de extremistas no feminismo que merecem a crítica.

Pois não adiantou para um encontro de céticos britânico. Por tuitar a crítica, Dawkins foi “desconvidado” como palestrante. A justificação, soando meio incoerente, diz que o motivo tem a ver com o vídeo ser “ofensivo” enquanto o encontro é a favor da liberdade de expressão inclusive de opiniões ofensivas. Justificaram o desconvite com um apelo contrário ao “discurso de ódio” (sem definir o que é isso nem por que o vídeo é isso). Um fiasco para quem alega apoiar o racionalismo, e mais um sinal de que tendências autoritárias e dogmáticas são encontradas nas melhores das intenções.

Um dia depois do episódio de Dawkins, foi a vez de J. K. Rowling ficar no banco dos réus da polícia do pensamento. Com base num print aparentemente forjado, uma política eleita britânica, Natalie McGarry, acusou Rowling de apoiar a “misoginia” e o assédio de mulheres no Twitter. Rowling respondeu pedindo evidências disso repetidamente. Só muitas horas depois McGarry pediu desculpas e fechou seu Twitter. Ora, não é preciso muito mais que ler os livros de Rowling para saber da implausibilidade da alegação de McGarry.

Notem que os dois episódios são conectados ao “feminismo”. Ou a pessoas que alegam estar agindo a favor das mulheres e contra o sexismo. Mas percebe-se uma pressa em interpretar mal, uma exigência cheia de soberba para que os outros peçam desculpas não acompanhada de qualquer vontade de explicar como e porquê estão errados. O modus operandi é o uso de jargão: Dawkins está desconvidado em nome do “discurso de ódio” e Rowling merece acusações difamatórias públicas por falar com uma persona non grata (“unperson”?) num print como se ela pudesse ser responsabilizada pelas ações (assumidas) de outrem. Começa-se com intenção de fazer ativismo e termina-se emulando o comportamento de autoritários em distopias.

Feministas de pensamento claro, comprometidas de fato com melhorar as condições das relações de gênero, precisam recuperar seu movimento das mãos de “feministas” corporativistas de gênero e justiceiras sociais.

* Em inglês está se popularizando uma distinção entre muçulmano, praticante do Islã, e “islamista”, que é quem acha que o Islã precisa ser imposto à sociedade e ao Estado, que quem não acredita no islã é má pessoa, etc. Talvez esses termos possam funcionar em português também, mas esse esclarecimento é necessário pois “islamista” ainda é sinônimo de “muçulmano”.

– Vídeo “feministas amam islamistas”: https://www.youtube.com/watch?v=ecJUqhm2g08
– Big Red: https://www.youtube.com/watch?v=mpNapJK1uMg
– Taharrush gamea: https://en.wikipedia.org/wiki/Taharrush_gamea
– Sobre Dawkins e seu tweet: http://www.washingtonexaminer.com/richard-dawkins…/…/2581704
– Sobre o policiamento do pensamento de J. K. Rowling: https://twitter.com/EliVieira/status/692840130826997761

1st of November

Sexo e Gênero


Assumir que há uma separação definitiva entre sexo biológico e gênero é acreditar erroneamente que uma coisa é 100% genes e outra é 100% ambiente cultural.
Eu não vejo muito sentido na maior parte das afirmações de influência cultural sobre o sexo biológico. Mas há um sentido em que elas poderiam ter um papel: o sentido da pressão seletiva da cultura ao longo dos últimos milênios sobre as bases biológicas do sexo. Essa influência cultural já foi convincentemente estabelecida para coisas como digestão da lactose e do amido – a frequência de alelos associados a isso nas populações humanas dependende da história milenar da cultura da pecuária e da agricultura / coletagem seletiva de raízes e tubérculos. Seria no entanto muito especulativo no momento dizer que a cultura influenciou nas características primárias e secundárias apresentadas por diferentes populações humanas. Nós ainda não sabemos se, por exemplo, o quão peludos os homens são em cada população (uma característica sexual secundária) é resultado de processos casuais (como deriva genética) ou de seleções, incluída entre elas a seleção cultural. Tudo o que estou dizendo portanto é que conforme nossos conhecimentos de evolução gene-cultura no momento, a possibilidade da cultura ter influenciado parte do que compõe o sexo biológico é real. O mesmo que eu disse sobre pelos masculinos pode ser dito sobre tamanho médio de seios, tamanho de pés, formato do rosto, altura, tamanho do pênis, pelos femininos. Há pesquisa sugerindo que nos últimos 50 anos as mulheres americanas foram selecionadas em direção a corpos de menor estatura e mais robustos, o que poderia ser uma preferência cultural. Dado que a pesquisa da Suzana Herculano-Houzel mostra que sem a cultura do fogo nosso cérebro nunca teria o volume e a demanda energética que tem hoje, há bons motivos para desconfiar que há cultura inscrita no sexo biológico, já que a influência da cultura vai tão fundo na natureza humana.
Portanto, não estão totalmente errados aqueles que vêem cultura no sexo biológico. Mas o problema é que exageram o papel da cultura e usam tradições intelectuais anticiência, muitas vezes.
E gênero? Podemos concordar que enquanto sexo está “entre as pernas” (ignorando as características secundárias), gênero está “entre as orelhas”. Aqui novamente o problema é exagerar o papel da cultura ou o papel da biologia. Quem exagera o papel da biologia (na verdade de uma biologia do senso comum distante da pesquisa de ponta) acha que não é possível existir homens nascidos com vaginas e mulheres nascidas com pênis, e isso está errado. Pesquisas iniciais com núcleos do hipotálamo sugerem que isso é não apenas possível como provável dependendo da base genética do feto e de seu ambiente hormonal dentro do útero e nos primeiros meses fora dele. Apesar de tentativas tacanhas de negar as pesquisas, há muita evidência acumulada de diferenças neurobiológicas e comportamentais entre homens e mulheres. Bebês recém-nascidos, cuja mente não se desenvolveu o suficiente para absorver informações culturais como a língua, já apresentam diferenças. O próximo passo é ver se os bebês que apresentam comportamento atípico para seu sexo nessa fase crescem mais tarde com maior probabilidade de serem gays ou transsexuais. Eu apostaria minhas fichas que sim.
Como eu disse em outras oportunidades, somos seres culturalmente moldados em nossa biologia e biologicamente moldados para a cultura. Alegar sem critério nenhum que uma dada característica é “construção social”, ignorando esse fato, é retroceder o conhecimento, não fazê-lo avançar.