16th of May

Estereótipos estão aqui para ficar, ou, Como minhas crenças anti-estereótipo me levaram a ser assaltado


Estereótipos são um horror, dizem. São racionalização de preconceitos, fazem mal, causam sofrimento. Talvez, mas nós não somos capazes de viver sem eles, e mais, muitos deles são precisos, descrevem algo que realmente existe no mundo.

Pedir que analisemos cada pessoa a fundo, sem estereótipo algum, é pedir demais. Um dia não seria suficiente para conhecer melhor uma pessoa e saber onde ela rompe estereótipos, se assim o faz. O ano tem só 365 dias – isso não é suficiente para conhecer sequer a vizinhança de um único prédio.

Estereótipos existem porque nós precisamos literalmente economizar energia ao tomar decisões sobre pessoas que mal conhecemos. Pois há um custo de energia e tempo em analisar a fundo cada pessoa que encontramos. Certa dia anos atrás, em Porto Alegre, fiquei no laboratório até tarde, tendo de tomar um ônibus diferente do que tomava diariamente. Desci no centro histórico à 1h da manhã, num avenida larga, de um lado que é margem do Parque da Redenção. Ao olhar à frente, a uns 300 metros de mim vinha uma pessoa cujas características distinguíveis eram essas: homem, alto, negro, pobre. “Vou ignorar os estereótipos e não atravessar a avenida”, pensei e decidi conscientemente. O resultado foi um assalto em que perdi um laptop contendo o primeiro rascunho da minha dissertação de mestrado, e um ticket para o show do Roger Waters que me deram de presente, além de algumas horas inutilmente tentando ajudar a polícia a pegar o assaltante e seu parceiro de crime que apareceu de um arbusto assim que me aproximei. Paguei o preço de tratar os estereótipos como se não correspondessem à realidade de forma alguma.

Há um risco de o estereótipo corresponder a um estado de coisas que já mudou. Este é um dos motivos das pessoas mais velhas serem consideradas as mais preconceituosas da família (o que é em si um estereótipo preciso). Mas, em toda a psicologia social, a precisão dos estereótipos, que costuma ter correlação mais forte com a realidade até que muitos dos efeitos descritos pela própria pesquisa da área, é um dos resultados mais bem replicados.*

Nenhum ativismo contra preconceito será “científico”, portanto, enquanto continuar popular entre ativistas a alegação de que os estereótipos não correspondem à realidade de forma alguma. O ativismo deve se focar em outras coisas. Não em alegar que estereótipos são imprecisos.

Além de a pessoa média ser minimamente racional ao tratar os próprios estereótipos (suspendendo o julgamento por estereótipo assim que informações individualizadoras relevantes emergem), as pessoas se comportam de modo a estereotipar a si mesmas. Não é coincidência que as garotas que usam o corte de cabelo que eu chamo de “o cachorro comeu aqui do lado” (raspam um lado da cabeça) tendem a adotar certas idéias sobre feminismo e gênero. Elas imitam umas às outras, estereotipando-se. Se as próprias pessoas se estereotipam voluntariamente, como poderiam ser os estereótipos todos imprecisos? Impossível. Na verdade, a maioria tem precisão suficiente para o propósito da existência dos estereótipos: ajudar um ser cognitivamente limitado a navegar por um mundo complexo.

Às vezes o problema não está no estereótipo, mas nos pressupostos morais. Tomem por exemplo o estereótipo de que homens gays são “promíscuos” (que têm mais parceiros sexuais que outros grupos). Este é um estereótipo preciso sobre gays.*** No entanto, a crença de que “promiscuidade” é uma coisa imoral merece exame: por que as pessoas pensam assim? Certamente há elementos ruins, como aumento de risco de contrair doenças venéreas, e talvez rompe princípios sobre a forma apropriada de tratar pessoas ou de ter uma vida emocionalmente saudável (há controvérsia aqui, e, para confirmar outro estereótipo, parece que o sexo casual faz bem a homens e mal às mulheres** – em média, é claro).

Mas há aspectos positivos, como:

(1) uma perda de inibições potencialmente irracionais, como a antiga expectativa maluca de se casar virgem, que no passado jogava pessoas às cegas numa situação que poderia ser uma condenação a passar a vida sem saciedade sexual – e no caso de algumas mulheres, uma vida sem orgasmo nenhum. O que chamam de “promiscuidade” pode ser simplesmente experimentação para encontrar qualidade: é a lei dos grandes números, se o evento de encontrar alguém com quem se tem boa “química” tem uma probabilidade pequena p, várias instâncias de p aumentam a probabilidade de achar o que se quer: p+p+p+p… tendendo ao número infinito de tentativas tem probabilidade total 100%. Quem não tenta o suficiente tem menos chance de encontrar.

(2) um sintoma de que há liberdade na sociedade onde é possível ser promíscuo. Certamente não é nem permitido nem aplaudido ser promíscuo em sociedade teocráticas com Estado policial. Portanto, haver promiscuidade tolerada numa sociedade é um sinal de que esta sociedade é livre, mesmo se a promiscuidade for algo que é de fato imoral. Nem tudo o que é imoral deve ser ilegal, e é a marca das sociedades autoritárias a rejeição dessa distinção.

Em suma, o pensamento crítico sobre o que se alega por aí ser “imoral” é mais importante do que uma condenação geral aos estereótipos.


* Vide http://www.spsp.org/blog/stereotype-accuracy-response

** Um dos estudos que encontraram que sexo casual faz mais bem a homens que a mulheres: https://link.springer.com/article/10.1007/s11199-010-9765-7

*** Há fontes citadas na Wikipédia que alegam que a promiscuidade entre homens gays e homens héteros é similar, estando apenas os extremos da promiscuidade mais entre homens gays. No entanto, achei alguns desses dados não confiáveis, como dados do site de encontros OK Cupid, que são baseados em auto-descrição, ou seja, cheios de mentiras convenientes dos usuários para se venderem no mercado de relacionamentos. Um estudo conduzido por uma marca de camisinhas não resumiu os dados de forma a tornar possível comparar homossexuais a heterossexuais. Estou tentando ter acesso aos dados. Minha aposta é que o estereótipo é preciso e que um homem gay tem em média mais parceiros sexuais ao longo da vida que um homem heterossexual.

9th of March

Pior jogada LGBT: tentar obrigar confeiteiros homofóbicos a fazer bolo de casamento gay Casal de confeiteiros do Oregon alega liberdade religiosa para defender a recusa de fazer bolo de casamento para casal de lésbicas


Melissa e Aaron Klein, donos da confeitaria “Sweet Cakes” em Oregon, foram condenados em primeira instância a pagar 135 mil dólares por se recusarem a fazer o bolo de casamento das lésbicas Rachel e Laurel Bowman-Cryer. O casal Klein alega objeção de consciência por crença religiosa, recorreu da decisão, e hoje foi ouvido por uma corte de apelações. Eles dizem também que a batalha judicial os levou à falência, e que tiveram de fechar a confeitaria devido a ameaças. Enquanto isso, o casal Bowman-Cryer alega que o caso dificultou sua vida e a criação de suas duas filhas adotivas com deficiência.

A defesa dos Klein alega que a manufatura do bolo é arte, e, portanto, também expressão, sendo protegida como uma liberdade inalienável pela primeira emenda da constituição americana.

O efeito dessa alegação é meio divertido. Ao contrário dos conservadores, o grupo político mais afeito a defender os direitos LGBT (ou a querer ser visto como se defendesse mais que os outros, fazendo muito barulho no processo) costuma também defender definições extremamente amplas de arte, em que qualquer coisa pode ser arte, uma vez eleita pela vontade de um artista e aprovada pela elite artística, como no exemplo histórico do mictório escolhido por Marcel Duchamp (e apelidado de “A Fonte”). Nos últimos anos tenho visto um crescimento na incidência de “arte” contemporânea e “expressiva” no Brasil, do tipo que parece feita sob encomenda para ofender a vovó: numa peça de teatro em São Paulo, dois atores injetaram vinho em seus ânus e expeliram no palco. Num evento sobre gênero numa universidade federal, uma pessoa transexual e obesa, nua, se cobriu de óleo de dendê (a “performance” se chama “gordura trans”), e uma moça, aparentemente tentando representar o status da mulher na sociedade brasileira, pôs chifres na cabeça e uma sela nas costas e engatinhou, nua, cercada de espectadores, atuando como uma vaca. Mais recentemente, neste ano, outra moça se cobriu de tinta preta e se prostrou no chão para seu parceiro de expressão “artística” urinar em seu corpo. Não esqueçamos uma “peça” notória chamada “Macaquinhos”, em que um grupo de atores faziam uma ciranda nus, cada um com um dedo no ânus do próximo. Numa entrevista, os artistas responsáveis pela peça explicaram que sua arte representa o domínio do hemisfério norte sobre o sul. Se cada uma dessas coisas é “arte” e por isso é protegida como liberdade de expressão (concordo com a proteção, mas não com o diagnóstico), por que assar – ou recusar-se a assar – um bolo de casamento não poderia ser a mesma coisa? Está abolida a livre expressão que irrite ou chateie pessoas LGBT? Somente o que irrita e chateia a vovó (e entendia a juventude cansada de ver pornografia) pode ser arte?

Se a defesa está certa, então a decisão de primeira instância foi injusta e inconstitucional, pois o Estado americano não pode compelir a expressão dos cidadãos, ou seja, forçá-los a expressar o que não necessariamente está em conformidade com suas crenças. Um argumento melhor que a alegação de que o bolo era arte é que fazer um bolo de casamento é participar, mesmo que indiretamente, de uma cerimônia de casamento, e no caso sua crença cristã (fundamentalista?) não concorda que duas mulheres possam se casar e os confeiteiros não podem ser obrigados a participar da cerimônia. O caso poderá terminar na Suprema Corte dos Estados Unidos. Até lá, com prováveis novas nomeações de juízes conservadores por parte de Donald Trump, é possível que a decisão de primeira instância seja revertida.

A discussão na corte sobre o apelo do casal Klein não pôde ser um debate completo, pois é uma discussão que precisa seguir as leis do estado de Oregon, que proíbem a discriminação pela negação de serviço com base em categorias protegidas (raça, orientação sexual, gênero, religião). Então, ao ouvir a discussão no tribunal, algo que está ausente é o questionamento de que é mesmo justo que exista a lei anti-discriminação, que impede pessoas preconceituosas de agir de acordo com seus preconceitos em seus próprios negócios.

Creio que recusar-se a atender clientes gays num negócio de bolos de casamento é, sim, discriminação injusta nascida no preconceito, e que crenças religiosas são uma desculpa frágil para essa atitude. Na verdade, crenças religiosas são quase sempre uma base fraca para justificar qualquer atitude, de guardar o sábado à mutilação genital. Mas essas crenças preconceituosas e essa atitude discriminatória em torno do caso deveriam estar contempladas pelas liberdades legais. Nem tudo o que é imoral deve ser ilegal, e eu não penso que a imoralidade de ser um empreendedor confeiteiro preconceituoso com seus clientes seja algo que justifique conjurar o poder do Estado para proibi-lo de sê-lo. Uma sociedade saudável para com as minorias é aquela em que as ideias preconceituosas contra elas encontram resistência suficiente para haver outros confeiteiros que façam seu bolo de casamento. É aquela em que os casais gays podem simplesmente elevar a concorrência não preconceituosa, sendo clientes e propagandistas, em vez de se engajar em batalhas judiciais para fazer os confeiteiros preconceituosos pararem de agir como preconceituosos. Se a intenção é diminuir ou combater o preconceito, não é o efeito esperado dessa batalha. Na verdade, o que se espera nesse tipo de batalha é a escalada do despeito, em que ninguém reexamina o que acredita nem se o que está fazendo em nome dessas crenças é correto, focando-se, em vez disso, em sua liberdade de poder acreditar em qualquer porcaria, da homofobia ao igualmente tolo autoritarismo contra a expressão da homofobia.

Interferir injustamente na liberdade de religiosos preconceituosos é uma má estratégia para qualquer defensor dos direitos LGBT. Não é coerente defender direitos pisando em um dos direitos mais importantes de todos, que é a liberdade de expressão. E se assar um bolo não for expressão, estamos falando de liberdade de escolher clientes, mesmo com base em crenças torpes como a homofobia, o racismo ou a misoginia. Numa sociedade em que o preconceito genuinamente está perdendo, donos de negócios preconceituosos lucram pouco ou vão à falência.

 

15th of January

BBC toca no tema explosivo de crianças transexuais


Este tema, como outros, está cada vez mais intratável por causa da politização. Quando se politiza um tema, as pessoas passam a vê-lo como uma disputa tribal, e defenderão com unhas e dentes suas posições independentemente das evidências. Não foi surpresa, portanto, quando saiu um estudo recentemente mapeando padrões cerebrais relacionados ao posicionamento político aos mesmos relacionados à afiliação religiosa.*

Fiquei positivamente surpreso com a qualidade do documentário “This World: Transgender Kids”** que saiu na BBC há dois dias, é muito informativo e corajoso. O documentário comenta alguns dados importantíssimos. De todas as crianças que manifestam disforia de gênero (o sentimento de estar “no corpo errado” para seu gênero), 80% se resolvem e desistem de transicionar para outro sexo, vindo a aceitar o sexo com que nasceram. A maioria dessas crianças cresce para ser gay, lésbica ou bissexual.

O ativismo na área se foca em casos em que a disforia não se resolve e, por isso, a transição de um sexo para outro se faz terapeuticamente necessária. Apaixonados por ideias de destruir papéis de gênero, alguns ativistas simplificam demais a questão, culpando expectativas sociais de papel de gênero que crianças mal entendem por todos os casos de suicídio entre crianças com disforia de gênero. No entanto, é importante apontar que está longe de claro que as expectativas sociais são tudo o que há por trás da ansiedade e ideação suicida de uma fração preocupante dessas crianças. Alguns pais resistiram à afirmação de gênero de suas crianças, persistiram durante anos com terapeutas, e ao fim desse processo encontraram que suas crianças se encaixam no grupo da maioria que não era “realmente” trans, mas “apenas” gay.

Um dos terapeutas que ajudavam pais nessa direção era Ken Zucker. Por causa do lobby de ativistas com sua narrativa simplificada, ele perdeu o emprego e teve sua clínica fechada, acusado de tentar “terapia de conversão”. O problema nisso é que, como ele mesmo diz no documentário, a razão pela qual alguns pais insistem que suas crianças tomem hormônios e façam cirurgias genitais é justamente porque não querem que elas sejam gays. Então, em muitos casos, é a própria narrativa simplificadora dos ativistas que está facilitando “cura gay”, em que se produz uma menina hétero transicionada em vez de um menino gay afeminado.

O assunto é muito difícil, e diante da ignorância parece que alternativa mais cautelosa é acompanhar as crianças em sua descoberta de identidade até que elas estejam preparadas, especialmente depois de crescerem e terem acesso a terapia, a decidirem sem risco de se arrependerem depois. Acima de qualquer coisa, é muito decepcionante ver que ativismos tão importantes para fazer avançar a liberdade individual nas décadas recentes estejam agora começando a se perder aceitando que devemos levar a sério tudo o que sai da boca das crianças, que a única forma de cuidar de uma criança é dando o que ela quer. Crescer LGBT sob a autoridade de pais que claramente te rejeitam é ruim, mas crescer sob autoridade nenhuma de pais seduzidos por ideias simplistas que não põem ordem alguma no seu mundo pode ser igualmente ruim. A identidade não é simplesmente um sentimento que brota espontaneamente de dentro. Ela é também um resultado do que negociamos com quem divide a existência conosco, e do que aprendemos sobre nós mesmos (introspecção não é o mesmo que se deixar levar por qualquer sentimento). Pessoas trans merecem os mesmos direitos que pessoas não-trans, mas não é fazendo crianças de cobaias que se chega à justiça. E, como provam transtornos psiquiátricos diversos, às vezes nós precisamos de ajuda para lidar com nossa própria identidade, e afirmá-la porque soa inclusivo não é tudo o que há para a questão.

_____

* Kaplan, J. T., Gimbel, S. I., & Harris, S. (2016). Neural correlates of maintaining one’s political beliefs in the face of counterevidence. Scientific Reports, 6, 39589. https://doi.org/10.1038/srep39589

** Transgender Kids: Who Knows Best? (2017). British Broadcast Corporation. http://www.bbc.co.uk/iplayer/episode/b088kxbw/transgender-kids-who-knows-best

Cérebro fetal por volta das 12 semanas de gestação. Enciclopédia online de embriologia do Dr. Mark Hill.
12th of January

Pequeno guia para quem quer formar opinião sobre aborto


A discussão sobre o aborto não é uma discussão sobre o que é vida. Isso é outro assunto. Talvez essa confusão vem de um dos direitos envolvidos ser chamado de “direito à vida”. Um termo um pouco confuso. No lugar de “direito à vida”, poderíamos falar em “interesse real ou atribuído de não ter sua própria existência interrompida”. Quando se diz que alguém tem direito à vida, a ideia é que essa pessoa tem interesse neste momento em continuar existindo, e que seria injusto que alguém a matasse. Há cenários em que é justo que esse interesse de continuar existindo seja ignorado em nome de coisas mais importantes. Se a pessoa em questão se tornasse uma ameaça iminente à vida de outra pessoa, ela poderia ser morta para preservar o interesse da outra em continuar existindo. A isso damos apropriadamente o nome de “legítima defesa”. Mas como as ocasiões em que é justo atropelar um interesse de viver são raras e extraordinárias, na maior parte das situações é injusto matar, então faz sentido dizer que há um direito à vida.

A maior parte das pessoas consegue expressar que tem o interesse de continuar vivendo. Algumas são incapazes de expressar esse interesse, mas isso não significa que ele não está ali. Nós atribuímos esse interesse a quem é incapaz de expressá-lo, quando vemos plausibilidade nessa atribuição. Os vegetarianos, por exemplo, acreditam que vacas, porcos, galinhas e peixes têm interesse em viver, mesmo que não possuam mentes capazes de expressá-lo, e que é injusto interferir nesse interesse para produzir alimentos quando alternativas existem. Fetos e crianças pequenas também não têm capacidade de expressar interesse em continuar vivos, então nós atribuímos a eles esse interesse. Quem é contra o direito de escolher abortar em qualquer situação acredita que não há ocasião plausível em que seja justo interferir nesse interesse atribuído de viver dos embriões, fetos, e bebês em gestação (usamos os três nomes em sequência no desenvolvimento, mas nem sempre há critério objetivo para mudar de um para outro). Quem é a favor da ideia de que há ocasiões em que é permissível abortar crê que há fases no desenvolvimento humano em que não é correto atribuir o interesse de viver ao ser em gestação, deixando portanto a gestante completamente livre para escolher terminá-la; ou que mesmo havendo algum tipo de interesse em viver, ele não é mais justificado em ser protegido que algum outro interesse conflitante da portadora do útero.

É mais fácil defender a permissibilidade de abortar quando o ser em gestação não tem interesse de natureza alguma, nem mesmo atribuível. Parece ser o caso se o cérebro dele ainda não é funcional. O sistema nervoso começa seu desenvolvimento cedo na gestação, mas termina muito tarde. Como o tecido neural é o mais “nobre” e o cérebro é o nosso órgão mais complexo, isso não é surpresa. A funcionalidade vai aparecendo aos poucos no desenvolvimento, se concentrando nas fases mais tardias. Há um consenso de que é extremamente improvável que o cérebro seja funcional até o fim do primeiro trimestre. O cérebro do feto, às 12 semanas, é como mostrado na imagem: liso, com poucos giros, e, mais importante que isso, há poucas e esparsas conexões entre os neurônios. Sabendo um pouco da relação entre cérebro e mente, atribuir interesses a esse cérebro desconectado é como dizer que mil computadores sem nenhuma conexão entre si fazem uma internet.

Às 12 semanas, o feto parece ser uma pequena pessoa com menos de 10 centímetros. Mas a ciência nos ensinou que aparência não é tudo. O sol aparenta ser um corpo celeste menor que a Terra que orbita em torno dela, mas a aparência é enganosa. A água aparenta poder ser divisível infinitamente, mas as aparências enganam. Crianças pequenas costumam atribuir vontades e interesses ao fantoche em vez de ao ator que mexe sua boca. Adultos devem ter mais capacidade de ir além das aparências e se perguntar se há motivos para crer que fetos do primeiro trimestre têm realmente interesse de viver, ou qualquer outro interesse, dadas as evidências sobre o estado de desenvolvimento de seus cérebros. Por isso, continuar apontando para a aparência do feto depois de que tudo isso foi dito é nada mais que falácia de apelo à emoção: na incapacidade de convencer alguém pela razão, apela-se para suas reações emocionais irrefletidas. Nós não pensamos que pessoas com morte cerebral corretamente diagnosticada têm interesse de continuar vivendo, e doamos seus órgãos para favorecer os interesses de outras pessoas. Isso é uma decisão eticamente correta, dependente de conhecimentos sobre o que significa um cérebro deixar de funcionar. Agora precisamos pensar com o mesmo rigor sobre como devemos tratar pequenos organismos nos quais o cérebro não começou a funcionar. É importante destacar aqui que as 12 semanas são um limite conservador, e que se é este o limite escolhido por lei, boa parte das interrupções de gestação acontecerão antes, quando há menos semelhança ainda do cérebro do feto com um cérebro desenvolvido e funcional.

Alguém poderá dizer que o conhecimento científico é sempre incompleto, e isso é verdade. Mas nós mesmo assim precisamos fazer decisões de vida ou morte com base nele todos os dias, como médicos sabem. Pedir por mais evidência é sempre melhor que confiar em autoridade, tradição e votos de leigos. Notar a falibilidade da ciência é motivo para buscar saber mais, não um motivo para sair buscando o que por acaso confirmar nossos preconceitos. Querem que eu mude de ideia sobre aborto ser permissível no primeiro trimestre de gestação? Tragam evidência de que fetos nessa fase têm um cérebro funcional, interconectado, minimamente capaz de abrigar interesses. Também ajudaria se pudessem me explicar por que devemos nos desdobrar para proteger esses fetos, quando há mais “humanidade” (imaginação, prazer, dor, intenções e interesses) em animais que matamos para comer. E quem pensa diferente – que aborto é algo tão tabu que não há nem mesmo cenários de “legítima defesa” de outras coisas que o permitam – será que sabe o que é necessário para mudar de ideia? Ou é incapaz de sequer imaginar um estado de coisas que torne sua opinião errada?

_____

Recursos

Peter Singer. 2006. “Ética Prática”.

Mark Hill. 2016. Enciclopédia Online de Embriologia. Origem da imagem usada. Cobre sempre a origem de imagens de fetos, pois ativistas pró-vida frequentemente usam fetos de gestação tardia para aumentar o efeito do apelo à emoção.

Stuart W. G. Derbyshire. 2006. Can fetuses feel pain?

17th of December

Os novos carolas Como ativistas irracionais prejudicam suas causas


Uma moça foi contratada para posar de maiô junto a móveis de aço inoxidável, na publicidade de uma empresa que os vende. Em resposta, por considerarem isso errado, muitos ativistas atacaram a página em bando, chamando por avaliações baixas para a página e em consequência a empresa inteira. A empresa, muito espertamente, fez uma campanha nova oferecendo doar somas cada vez maiores a uma associação de deficientes conforme a avaliação de sua página subir, em reação às avaliações dos ativistas.

Algo similar aconteceu em Londres, quando em 2015 uma empresa que vende shakes de proteína botou no metrô uma campanha com uma modelo usando um biquíni amarelo, acompanhada de uma pergunta: “você está com o corpo pronto para a praia?”. Centenas de reclamações choveram sobre a autoridade responsável por regular anúncios no metrô, e o anúncio acabou sendo retirado por isso. Em resposta, a empresa foi a um país com mais liberdade de expressão publicitária, Estados Unidos, e simplesmente botou o mesmo anúncio na Times Square. A empresa ganhou popularidade e suas vendas aumentaram. Algumas outras marcas, também espertas, embarcaram na controvérsia, com imitações mais simpáticas às crenças dos ativistas. Mas a estrela acabou sendo a empresa que provocou a ira dos ativistas.

Muitos desses ativistas são incapazes de articular o que exatamente está errado, e são só seguidores de uma onda ideológica que se analisada de perto por sociólogos pode revelar como surgem novos tabus (religiosos), como o tabu bíblico contra tecer panos misturando fibras diferentes. Alguns poucos, no entanto, tentam explicar seu ultraje. Alguns dizem que diz respeito à imagem corporal, que há pessoas cuja auto-imagem depende bastante do que está na mídia popular, e que falta de sensibilidade com essas pessoas pode criar ou piorar problemas como a anorexia nervosa. Já ouvi também a alegação de que se trata de “objetificação” sexista, que causa ou piora o estereótipo de que mulheres devem ser valorizadas pela aparência acima de tudo.

Embora haja um ou outro ponto justo nisso, há pouca coisa que se aproveite nessas tentativas de justificação. Quem acha que a responsabilidade do cuidado a anoréxicos, bulímicos e vigoréxicos está na mídia é culpado de futilidade. O problema das pessoas que se deixam influenciar tão profundamente por mídia popular é principalmente falta de repertório cultural, falta de desligar a TV e deslogar do Facebook. É de impressionar como hoje as pessoas ficam comentando assuntos superficiais, como Tilda Swinton ser escalada para interpretar um personagem que nos quadrinhos é um homem asiático velho e sábio (outro estereótipo), como se estivessem libertando Mandela da cadeia ou repetindo o feito heroico de Rosa Parks. Desculpem-me os ativistas (ingenuidade minha achar que está sobrando nuance para me desculparem por qualquer coisa, eu que já sou difamado com todo tipo de adjetivo), mas eles deveriam baixar a bola: estão apenas comentando assuntos que em última análise são apenas passatempos para a maioria das pessoas, em que elas se engajam por futilidade. Se isso é ativismo, é uma forma inferior de ativismo.

É estranho também dar o nome “objetificação” ao problema, quando é fato que nossos corpos são objetos e o tempo todo fazemos uso desse objeto: se você utiliza os serviços de um motorista do Uber, você está “objetificando” o corpo dele para se deslocar de um ponto ao outro. Mulheres não são crianças, se elas trabalham o próprio corpo ao ponto de alugá-lo para a publicidade (e por mais que seja irracional, funciona), estão “objetificando” a si mesmas, e todos os envolvidos estão ganhando alguma coisa: elas estão sendo pagas, as empresas estão fazendo sua publicidade. Nada que ativistas disserem vai reduzir a soberania de mulher bonita ou homem sarado nenhum sobre seus próprios corpos, e corpos são objetos. Negar a realidade alegando que não existe atratividade intrínseca em certos tipos de corpos mais que em outros só piora a mensagem e só faz com que pareçam mais loucos ainda. A mídia existe por causa da sociedade e por causa do que as pessoas são, há muito pouco que a mídia de fato pode fazer para mudar o que as pessoas já consideram atraente. No máximo, ondas ideológicas podem convencer um certo setor da população a se engajar em ilusão coletiva alegando que obesidade mórbida é tão atraente quanto a média dos corpos.

Muitos dos ativistas não estão vendo, mas já são os novos carolas. São os novos moralistas que, devido a seus tabus injustificados, mais e mais pessoas consideram divertido ofender (e é tão fácil ofendê-los!). Muita gente fã de telenovelas adora ver a personagem carola se dando mal: da Perpétua em “Tieta” ao inquisidor em “A Muralha”. Continuem assim, que logo a cultura vai usar o arquétipo do ativista irracional, ofendido por tudo, nas novelas, séries e filmes brasileiros (se é que já não usaram – eu lembro de rir em “Tropa de Elite” dos estudantes rococós pomposos falando de Foucault). Estereótipos não surgem do nada. Se ativistas estão sendo estereotipados assim, é porque mais e mais ativistas que se comportam assim são visíveis. E, como já sugerido em pesquisa empírica*, o estereótipo do ativista raivoso e irracional, que nem mesmo explica o porquê de tanta ira, serve para prejudicar as próprias causas que ativistas tentam defender. Tentam, mas falham frequentemente, tudo porque sucumbem ao pensamento de manada, e estão mais interessados em abusar da ferramenta de avaliação do Facebook do que em discutir adequadamente ou ensinar alguma coisa. O caso é que não se pode ensinar o que não se sabe. Tabu e ultraje moral estão correlacionados com ignorância, não com conhecimento.

_____
* Bashir, Nadia Y., et al. “The ironic impact of activists: Negative stereotypes reduce social change influence.” European Journal of Social Psychology 43.7 (2013): 614-626.

25th of June

Izquierdo tem razão, psicanálise é obsoleta E é um desperdício de recursos que prejudica autistas e suas famílias


Há algumas semanas, sonhei que minha mãe molestava minha irmã. Não comentei a respeito com elas, não me preocupei com isso, e teria esquecido se não estivesse numa semana com sonhos particularmente vívidos. Graças à Santa Mielina, não houve detalhes gráficos no pesadelo, apenas algumas cenas da minha irmã reclamando do problema e eu me chocando (no sonho) que nossa mãe católica e amável fosse capaz de uma coisa tão abominável. Mas ela não é – foi apenas um pesadelo besta. Não li grandes mistérios por trás disso.

Durante o meu dia, é comum que eu pense em quebra-cabeças éticos. Disputo a crença de muita gente de que emoções são necessárias para a moralidade, e o incesto é um exemplo interessante pois incita na maioria de nós uma forte repulsa (anedoticamente, parece que a repulsa é mais forte em quem tem irmãos do que em filhos únicos, o que faz sentido dada a raiz biológica do tabu do incesto), enquanto é possível imaginar situações em que não é errado, no sentido de não gerar consequências negativas para ninguém. Ou seja, embora tenhamos sentimento de repulsa, ele não é suficiente, e talvez sequer necessário, para o julgamento moral de toda situação que envolve incesto (lembre-se, aqui, que nem todo incesto envolve abuso sexual de menores). Outro exemplo de que emoções são divorciáveis da conduta ética está num experimento mental que propus: imagine que uma criança precisa ser operada para não morrer de apendicite, e o cirurgião é um psicopata com prazer em abrir pessoas. Os sentimentos ruins a respeito de um sádico cortando uma criança por prazer – medo, repulsa, nojo – precisam ser deixados de lado para salvar a vida da criança – o que será feito pela consideração racional dos riscos e benefícios. Essas emoções não são nem necessárias nem suficientes para decidir o que é melhor para a criança, podem até atrapalhar. O melhor desse experimento é que posso informar que o cirurgião psicopata realmente existe e vive no nordeste brasileiro. Fui comunicado da existência dele por uma amiga em comum. É um ótimo cirurgião. A família notou cedo que ele tinha prazer em desmembrar animais e o direcionou para a medicina, redirecionando os impulsos que poderiam ter gerado sofrimento no mundo para salvar vidas. Ele não teve problema em se acostumar a ver pessoas abertas e ensanguentadas, como outros cirurgiões têm em início de carreira. E ele, é claro, tem a racionalidade para julgar suas ações, e o fato de que psicopatas podem ser éticos reforça minha hipótese de que as emoções (das pessoas comuns) não são necessárias, ou suficientes, para a moralidade.

No dia em que tive o pesadelo, pensei na minha família e pensei em incesto em momentos distintos, e na hora de consolidar as memórias do dia meu cérebro juntou as duas coisas, num emaranhado maluco com um enredo sem pé nem cabeça, o que é uma descrição sucinta da maioria dos sonhos, especialmente os que ocorrem nas fases de movimento rápido dos olhos, que têm probabilidade mais alta de serem lembrados. Enquanto o enredo dos sonhos não faz muito sentido – o que em si é um sinal de que os sonhos estão ligados à consolidação das memórias em fases específicas do sono – faz sentido que família e incesto sejam memórias ligadas por contexto, e nossas memórias têm essa característica: em vez de serem catalogadas como a memória do computador, são armazenadas de acordo com a co-ocorrência contextual. Devo acrescentar que a cena do pesadelo acontecia na casa em que passei a maior parte da minha infância, o que informa aos neurocientistas que se trata de memória episódica antiga sendo reconsolidada e acomodada de acordo com memórias mais recentes. Com essa informação, os neurocientistas conseguem até prever com certo grau de precisão em que fase do sono eu tive o pesadelo, e que, como foi na fase final do sono, de manhã, tem algo a ver com os efeitos da concentração crescente do hormônio cortisol no hipocampo, como discutem, por exemplo, Jessica Payne e Lynn Nadel numa revisão de 2004.

Mas, segundo psicanalistas, eu deveria ter lido alguma coisa mais “profunda” que uma mera consolidação  de memórias do dia nesse pesadelo. Por que um homem gay como eu sonharia com uma coisa desse tipo? A psicanálise não concluiria nada sobre minha mãe e minha irmã com esse pesadelo, espero, embora psicanalistas pareçam ser particularmente obcecados com “complexos” incestuosos. Antes, concluiria algo sobre mim. Com que métodos? Adivinhação e evidências anedóticas.

Foi justamente na obra “A Interpretação dos Sonhos” (1899) que Sigmund Freud começou a propor sua teoria do “complexo de Édipo”. Que podemos resumir assim: toda criança tem atração sexual pela mãe, pelo pai, ou pelos dois. Segundo Freud, os sonhos existem para que o inconsciente encontre uma forma de realizar nossos desejos mais íntimos. Segundo os psicanalistas, meu sonho quer dizer que eu, que acho Henry Cavill extremamente atraente, desejo ver envolvimento lésbico entre membros da minha família. Você deve estar brincando, Dr. Freud! Isso, à luz do que sabemos graças à neurociência e ciências cognitivas, é um disparate pseudocientífico, e deve ser tratado como tal.

É claro que os psicanalistas modernos alegarão que estou fazendo um espantalho da sua “teoria” (que mal merece o status de hipótese), embora tudo isso que eu disse esteja em Freud e em muitos de seus defensores modernos. Farão um esforço de reinterpretar meu pesadelo de uma forma que faça mais sentido e soe menos como um disparate pseudocientífico. Mas esse não será um exercício de pesquisa e de mudança de opinião com base em novas evidências coletadas: será um exercício de construção de epiciclos. Quando os astrônomos ptolomaicos antes de Kepler tentavam insistir que a órbita dos planetas era perfeitamente circular, por um viés estético herdado de Platão e Aristóteles, eles tentavam explicar as anomalias na órbita observável dos planetas com a introdução de círculos no topo dos círculos de translação em torno da Terra (pois acreditavam no geocentrismo): os epiciclos. Alguns botavam tantos epiciclos hipotéticos na órbita dos planetas que os cálculos ficavam quase impossíveis de verificar, então poderia ser verdade que só há círculos na órbita dos planetas, e isso é tudo o que importa. Para muitos psicanalistas de hoje, o que importa é que a psicanálise poderia ser verdade, não que ela não parece ser verdade de acordo com as evidências coletadas por cientistas. Alguns chegam a abandonar o barco das pretensões científicas da psicanálise, alegando que psicanálise jamais se pretendeu ciência (o que é revisionismo histórico conveniente), ou se juntam ao comboio amalucado dos pós-modernistas, construindo frases sem sentido como essa:

“A psicanálise não se propõe a disputar com a ciência o lugar de portadora da verdade, mas interroga os efeitos que têm sobre nós, sujeitos humanos, as palavras e discursos que nos constituem – que são necessários, porém sempre insuficientes para dar conta de nossa experiência.” – Paulo Gleich no Sul 21.

Em primeiro lugar, como se interroga algo sem pretensão de portar a verdade, especialmente quando o intuito é lidar com os problemas psicológicos de um indivíduo? Devo assumir, então, que se eu me deitar no divã do Paulo Gleich não devo esperar resposta quanto a ser verdade ou inverdade que estou estressado, quanto a ser verdade ou falsidade que preciso de um namorado, etc.? Além disso, quais são as palavras e discursos que me constituem? Essas que estou escrevendo agora me constituem? Se eu rejeitá-las ou esquecê-las amanhã (certamente durante um sonho em que o Scooby Doo sodomiza o Scrappy Doo), deixarão de me constituir? As coisas que Gleich disse são um exemplo clássico do que Harry Frankfurt descreveu como “bullshit”.

São também exemplo de algo que aconteceu justamente pela falha da psicanálise em se manter de pé diante do avanço das ciências rigorosas do cérebro e da mente: uma fuga para o dadaísmo conceitual, em que verdade, objetividade e outras facetas da razão são coisa de gente “ingênua”, provavelmente gente ingênua que deseja charutar seus progenitores. Muito se discute sobre Freud (num personalismo também incompatível com o proceder científico), mas, mesmo entre acusações de fraude e de tolice – quando por exemplo ele diagnosticou críticas da psicanálise como neuroses – poucos duvidam que ele tinha grande respeito pela ciência e gostaria de saber mais sobre o cérebro. Se realmente é assim, ele deve girar mil vezes no túmulo quando escuta que seu suposto discípulo Jacques Lacan alegou que o pênis é análogo à raiz quadrada de -1 (i), entre outros disparates psicanalíticos abusando da matemática resenhados em “Imposturas Intelectuais” de Alan Sokal e Jean Bricmont. Freud também se espantaria de ver a péssima influência dos psicanalistas sobre a integração social e tratamento de autistas e suas famílias, culpando os pais pelas dificuldades de neurodesenvolvimento das crianças autistas. Tudo, novamente, baseado em evidência anedótica e especulação, que, como os homeopatas, os psicanalistas preferem chamar de “estudo de caso”/”pesquisa qualitativa” e “teorização”. Enquanto isso, a genética descobre que mais da metade da variação do autismo é explicável por variantes genéticas comuns em combinações raras.

No Brasil estamos agora discutindo bastante a corrupção política. Mas ainda precisamos lidar com outro tipo de corrupção: a corrupção intelectual de comunidades dogmáticas herméticas, entre elas a da psicanálise e da homeopatia, que parasitam recursos públicos sem ter evidência da verdade de suas teorias, a um ponto tão cínico que alguns até dizem que verdade de teorias não é o que mais importa. Pois estão errados. Mais errados que o incesto.

***

Não deixe de ler este texto sobre Freud e o início da psicanálise na revista Crítica.

Confira referências da minha entrevista com uma mãe de autista no post Autismo: Teoria e Prática.

Referências:

Payne, J. D., & Nadel, L. (2004). Sleep, dreams, and memory consolidation: The role of the stress hormone cortisol. Learning & Memory, 11(6), 671–678. http://doi.org/10.1101/lm.77104
Sokal, A., & Bricmont, J. (1999). Imposturas intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos. Rio de Janeiro: Record, 198–200.

Frankfurt, H. G. (2005). Sobre falar merda. Tradução Ricardo Gomes Quintana. Rio de Janeiro: Intrínseca.

P.S.: Aparentemente, a crítica mais comum que estou recebendo pelo texto é por dizer que “segundo psicanalistas” meu sonho seria interpretado literalmente como um desejo inconsciente meu. Eu concordo que usar a expressão “segundo psicanalistas” foi sugestivo de que algum psicanalista realmente disse isso, quando nenhum disse isso a mim diretamente. Eu apenas segui as implicações da alegação de que os sonhos são manifestações de desejos inconscientes. Desde o princípio psicanalistas propuseram interpretações convolutas de sonhos, e realmente não eram tão literais, só que eram, sim, interpretações do conteúdo dos sonhos. Essa história de que a psicanálise “rejeita a visão hermenêutica dos sonhos” (uma forma desnecessariamente complicada de alegar que não faz interpretação do conteúdo dos sonhos) é contradita pela própria história da psicanálise. Na verdade os psicanalistas insistiam em fazer interpretação dos sonhos, contanto que quase tudo virasse sexo. Até subir uma escada em sonho é interpretável como o ato sexual para psicanalistas históricos: http://criticanarede.com/freud.html Mas como eu previ no próprio texto, nenhum psicanalista de hoje admitira seguir as próprias alegações psicanalíticas sobre os sonhos para o meu sonho, e me acusariam de falácia do espantalho. O que isso mostra é mais uma faceta do caráter pseudocientífico dessa prática intelectual: o obscurantismo. Não importa se está fortemente sugerido em obras seminais da psicanálise que os sonhos devem realmente ser interpretados como manifestações de desejos inconscientes, sempre há algum epiciclo a ser levantado para manter a ideia obscura e “profunda” quando alguém tenta esclarecê-la e mostrá-la falsa. É uma estratégia comum em adeptos dogmáticos dos mais variados tipos de crenças: afirma-se algo obscuro, que se for esclarecido cai em alguma afirmação excitante mas falsa ou verdadeira porém apenas um truísmo enfadonho. Para manter a versão excitante e falsa, acusa-se quem esclareceu a afirmação obscura de falácia do espantalho e de não estudar o suficiente. O caso é que não há como estudar o suficiente. Críticos jamais serão ouvidos ao menos que parem de criticar e virem adeptos.

2nd of May

“Apropriação cultural”, mais uma vez


Contribuí dando entrevista para uma matéria d’O Fluminense sobre “apropriação cultural”, assunto de que já tratei aqui. Como é normal, não houve espaço para tudo o que eu disse na matéria, então reproduzo minhas respostas na íntegra abaixo.

***

O termo “apropriação cultural” pode descrever o interesse de alguém de adotar elementos de uma cultura estrangeira. Mas, recentemente, foi ressignificado numa parte radical (e radicalmente errada) do ativismo como não apenas isso, mas também, adicionalmente, como algo imoral, indesejável. Esse novo conceito vem do norte do continente americano, especialmente dos Estados Unidos, onde houve uma história recente de segregação racial codificada em lei, onde pessoas ditas “brancas” e as ditas “negras” eram coagidas socialmente a se separarem.

O lema dessas políticas racistas era “separados, mas iguais”. Como muitos outros lemas, incoerente, pois se você precisa se apartar de alguém por causa da cor da sua pele, isso já presume que você não trata essa pessoa como um igual, ou seja, como alguém cujos interesses têm tanta prioridade em serem atendidos quanto os seus: afinal, quando os interesses forem os mesmos (por exemplo, o interesse de ser contratado num bom emprego), a segregação será algo que dificultará o atendimento dos interesses de uma ou ambas as partes, por isso a segregação é imoral. E essa segregação foi obliterada por lá graças a ativistas como Martin Luther King Jr. e Rosa Parks. Mandela e outros também tiveram sucesso contra o Apartheid sul-africano.

O Brasil teve uma história mal resolvida de abolição da escravidão, pois não ofereceu plenas oportunidades para os libertados, mas jamais chegou a codificar em lei essa segregação. Hoje, quem mais chama por segregação no Brasil são justamente as pessoas que reclamam de “apropriação cultural”. São as que abominam (em vez de celebrar) a miscigenação brasileira como se fosse puramente um fruto da “política de embranquecimento”.

Essa política racista de fato existiu, mas não é mais responsável pela miscigenação brasileira que outros fatos históricos sobre o país – por ter inúmeras populações nativas, por ter sido colonizado por europeus, por ter importado mão-de-obra escrava da África e semi-escrava de lugares como Itália e Japão. A política do embranquecimento veio numa época de grande ignorância sobre genética. Talvez os racistas pensassem que os genes europeus eram “mais fortes” e que “melhorariam a raça” (uma expressão racista que infelizmente ainda está na boca de alguns brasileiros) através da mistura. Mas isso é uma noção ridícula. Como sabemos hoje, quando há relação de dominância mendeliana (que não contém qualquer noção moral ou estética de “melhor” e “pior”) nos genes que participam da cor da pele, geralmente a pele mais escura é favorecida nos filhos de uniões entre pessoas de cores diferentes. Mas, por causa de um fenômeno chamado de “equilíbrio de Hardy-Weinberg”, todos os fenótipos, do olho claro à pele escura (às vezes uma coisa junto com a outra, como aconteceu com o comediante Hélio de La Peña), continuarão se manifestando nas gerações subsequentes de miscigenados. O Brasil não é um país destituído de racismo, mas a população brasileira, com sua enorme variação, é vista pelo resto do mundo como um modelo de diversidade genética (modelo porque em um mundo com menos racismo presume-se que há mais mistura dos fenótipos). E eu acho que também é um modelo de diversidade cultural em alguns sentidos. Não faz qualquer sentido tentar barrar essa diversidade alegando, como alegam as pessoas contrárias à “apropriação cultural”, que há problema em um paulista loiro usar tranças ou dreadlocks mais frequentemente associados a pessoas negras. Problema há em tentar impedir que indivíduos sigam suas preferências estéticas e se apropriem de elementos culturais de qualquer lugar. É a liberdade do indivíduo, não a identidade de grupos, o que tem prioridade na declaração universal dos direitos humanos.

Nós estamos na era genômica, ou seja, na era em que temos acesso a quase todas as informações genéticas que são parte integral do indivíduo. Digo quase todas porque, mesmo se você tiver em mãos a sequência completa do DNA de todos os seus cromossomos, haverá algumas coisas sobre a sua biologia que permanecerão um mistério, porque a pesquisa ainda não revelou o que certas partes da sequência fazem, ou porque essas coisas estão em outro tipo de codificação nas suas células (como a codificação epigenética), ou porque são resultado de acidentes de desenvolvimento e influência do ambiente. Para azar dos racistas, é quase consenso entre biológos e antropólogos físicos que raças não existem na espécie humana, então sequer faz sentido a sua tola busca por superioridades e inferioridades essenciais a grupos na diversidade humana. Alan Templeton é um dos cientistas que deram os melhores argumentos a respeito: nós temos mais variação dentro de cada um dos grupos vistos como “raças” do que entre eles, e o que se entende por “raça” parece ser mais próximo do que pode ser descrito como “subespécie” em biologia, e não há subespécies entre humanos. Poderá haver no futuro, se alguns de nós formos para outro planeta e seguirmos um curso de mudanças genéticas (inevitáveis) diferente. Nem nesse futuro hipotético em que raças existem o racismo se tornará correto.

Nós já temos pessoas que são biologicamente diferentes das outras, biologicamente menos capazes que outras de realizar certas tarefas: são os deficientes físicos. E a atitude correta é ajudá-los a superar suas dificuldades, não segregá-los. Ou seja, o racismo é incorreto mesmo se fosse verdade que raças humanas existem e que diferem em habilidades. Os racistas perderam o debate, e hoje o termo “racista” é uma arma, pois qualquer pessoa que seja rotulada de forma justa com ele na nossa sociedade irá perder certos confortos e privilégios (o que é também justo). Como toda arma, essa rotulação pode ser usada para fins escusos. E um desses é a acusação de racismo por “apropriação cultural”, que faz parte, na verdade, até de uma tentativa de ressignificar o que a palavra “racismo” quer dizer, enquanto se mantém sua marca poderosa de desqualificação. Algumas pessoas, influenciadas por acadêmicos que perderam a fé em noções como verdade, justiça, imparcialidade e individualidade, e as substituíram todas por jogos de poder, estão tentando defender que racismo não é preconceito e discriminação injusta por causa de características superficiais (cor de pele, textura de cabelo, etc.). Querem mudar a definição de “racismo” para algo que inclui “desequilíbrios de poder estruturais” na sociedade, uma linguagem propositalmente mal definida e pouco clara, para tornar impossível que grupos que não eram alvos de racismo na história brasileira possam ser vistos como alvo de uma onda de acusação racista por fazerem dreadlock em cabelo da cor e da textura “erradas”. Para quem é astuto com lógica, dada a definição clássica de racismo, atacar pessoas dessa forma, tentando, por causa de sua cor de pele, evitar que usem turbantes ou façam tranças de certo tipo, é claramente racista. Afinal, isso é tratar diferentemente as pessoas com base em sua cor de pele, em vez de com base no conteúdo de seu caráter: é fazer o contrário do que Martin Luther King aconselhou.

A intelectualidade brasileira deve resistir contra essa onda de irracionalidade neorracista nas redes sociais. O que é apenas, afinal de contas, resistir ao racismo em toda a sua diversidade – às vezes, ideias ruins também têm manifestações diversas. É trocando de máscara que ideias ruins como o racismo sobrevivem. A atitude cada vez mais comum de xingar homens negros que namoram mulheres brancas de “palmiteiros”, de fazer ataques em bando a quem usa turbante ou dreadlocks sem ser negro, é racismo e deve ser tratada como tal.

9th of April

“Objetificação” não faz sentido O conceito usado frequentemente no ativismo como justificação de tentativas de censura não resiste à análise


Ouve-se com frequência a queixa de que o emprego de mulheres com pouca roupa em peças de mídia, especialmente obras de arte popular e publicidade, seria “objetificação”. E que essa “objetificação” seria discriminação injusta do tipo sexista, por vários motivos. O termo sugere que um desses motivos é que isso desumaniza as mulheres e as transforma em objetos, ou que a objetificação incentiva que sejam tratadas como objetos. Exibir mulheres como seres sensuais seria, portanto, algo problemático.

Um exemplo comum dessas peças de mídia é a propaganda de cerveja, em que a mulher sexy é vista tomando ou servindo a cerveja. Enquanto isso, os homens são mostrados como os “agentes” da situação, os seres com quem os espectadores devem se identificar, em oposição ao ser que devem desejar junto com a cerveja. Ao menos essa é a interpretação dos críticos.

Em primeiro lugar, é importante lembrar que mulheres ganharem fama e dinheiro por serem “gostosas” é algo pelo que elas tiveram que lutar também, especialmente contra conservadores antigos, estilo beata de igreja, que acham que mulher deve ser “pura” (leia-se destituída de sinais explícitos de interesse em sexo). Esta é uma opinião comum e ainda praticada por religiosos ao redor do mundo, inclusive os que fazem pressão para que elas se escondam com véus e burcas. Uma opinião que está errada, pois termina por violar os interesses daquelas mulheres que querem dar vazão às suas libidos e às suas preferências estéticas sobre a própria aparência.

A alegação é que ser “objetificada” é pouco “empoderador”, ou seja, uma coisa que pouco contribui para que mulheres sigam seus próprios interesses livremente. Mas poucas pessoas são mais “empoderadas” que a “gostosa” famosa do momento. Se ela, uma pessoa adulta, entende a que tipo de risco está se expondo por sua escolha de carreira, mas decidiu mesmo assim aceitar o dinheiro e mostrar um pouco de decote e glúteos, por que ela deveria dar ouvidos às carolas da igreja ou às pessoas que combatem a “objetificação”? A reclamação é que não há tantos homens que se submetem a isso? Que a pressão sobre a aparência das mulheres é maior? Se ambas alegações forem verdade, é relevante notar que há profissões insalubres em que há mais homens que mulheres, e eles também aceitaram certos riscos em troca dos benefícios. Fica difícil ver, portanto, como esses problemas têm a ver com uma “objetificação”, quando boa parte das profissões que pagam bem envolvem riscos ao corpo e à imagem, e as pessoas que entram nessas profissões têm liberdade de fazê-lo, como pessoas que são, não como “objetos”.

E é estranho que o nome do suposto problema seja “objetificação”. Em primeiro lugar, quase ninguém realmente prefere um objeto a uma pessoa para sexo. São relativamente raras as pessoas que estão dispostas a ignorar completamente os atributos psicológicos das pessoas com quem querem transar, especialmente se for mais de uma vez. Pense no sadomasoquismo, por exemplo: o que excita seus adeptos são quase que completamente atributos psicológicos: há aqueles que são dominantes e aqueles que são submissos – os apetrechos são só acessórios orbitando em torno dessa atmosfera psicológica. Mesmo se as tais bonecas de sexo ficarem impossíveis de distinguir na aparência de mulheres de verdade, eu duvido que os homens heterossexuais vão preferir as bonecas a mulheres de verdade (se realmente puderem optar). A atração sexual, além de ter o elemento psicológico (automaticamente personalizante, e não objetificador), também envolve elementos inconscientes chamados popularmente de “química” (o cheiro, a atitude etc.). Levando tudo isso em conta, é falso dizer que o uso publicitário da libido masculina heterossexual em direção à figura feminina sensual é uma “objetificação”, pois eles se atraem por elas por serem pessoas de feminilidade exuberante, e não por serem objetos. Até a diversão de um adolescente que se masturba diante de um objeto como uma revista de mulheres nuas está mais dentro da cabeça dele que nos pixels das fotos que ele homenageia, está mais em imaginar seres humanos femininos. E muitas lésbicas se comportam exatamente assim.

Outro sentido possível de “objetificação” é que, ao se submeter a esse tipo de emprego, essas mulheres estariam abdicando de seus atributos mais humanos, por assim dizer, e se reduzindo ao objeto que é seu corpo. Se o que se quer dizer com “objetificação” é que o corpo é um objeto e a pessoa é mais que seu corpo, e que essas atrizes dos comerciais de cerveja são valorizadas apenas por seu corpo, a resposta contrária é que existem outros empregos em que há (presumilvemente) pouca aplicação de esforço mental e consistem mais no uso do corpo como um objeto, especificamente como um instrumento. São os trabalhos braçais, boa parte deles feitos por homens, e a enorme maioria por gente da classe baixa. São indignos? Se não são, então não é indigno usar o corpo como chamariz sexual para produtos (por mais irracional que isso pareça). Não parece ser indigno usar seu corpo como instrumento para seu ganha-pão. E sim, estou incluindo prostituição aqui.

Por fim, é preciso comentar uma alegação frequente: que a mulher “objetificada” perde sua agência, enquanto os homens héteros babões continuam sendo vistos como seres capazes. Mas essa interpretação do ato de sedução é nova. Existe outra, presente como paródia em desenhos antigos como os do Pernalonga: quem é capaz de seduzir tem muito poder, enquanto quem é seduzido é o “otário”, que se deixa abusar. Certamente uma interpretação com sua contraparte verdadeira acontecendo no mundo. A verdadeira parte hipossuficiente da sedução, nessa interpretação, é o seduzido. Essa é uma verdade imemorial que nossos tempos querem negar. Por que? Porque o poder de seduzir dessa forma poderia ser tipicamente feminino, ainda que tenha suas contrapartes masculinas, e muitas feministas querem negar que homens e mulheres são em média naturalmente diferentes e não há problema necessário nisso. A equidade está em poder perseguir seus interesses sem amarras, até o de ficar rica por ser gostosa. Por dogmaticamente negar que homens heterossexuais são factualmente diferentes de mulheres heterossexuais especialmente na manifestação da libido, essas feministas precisam alegar que a mulher gostosa na propaganda não é um recurso que a publicidade naturalmente usaria quando seu público alvo tem um excesso de homens heterossexuais. O problema em fazer isso, com um conceito mal construído de “objetificação”, é que essas feministas estão se aproximando daqueles religiosos conservadores na finalidade, mesmo que não nas premissas.

Há sexismo nessas peças de mídia? Pode ser que sim, mas não por causa da “objetificação”. Demonstrar que o sexismo está ali é mais difícil que isso. Na dúvida, ficamos do lado da liberdade, não no lado que quer banir e censurar.

30th of January

O pior texto do meu blog Um exercício de falibilidade e revisão crítica de opinião


29th of January

Aborto e Vida


Detesto quando começam uma discussão sobre ‪aborto‬ falando em “vida”. É como ver alguém tentando reinventar a roda, mas criando uma coisa quadrada que não realiza a função da roda com a mesma eficiência.

A discussão do aborto não é uma discussão sobre o que é vida. É uma discussão sobre o que é vida humana. E termos mais claros existem: é uma discussão sobre o conceito de pessoa. Há condições necessárias para uma entidade ser uma pessoa, e estar vivo certamente é uma delas. Mas estar vivo não é uma condição suficiente para definir uma entidade como pessoa. Um pé de alface está vivo mas não é uma pessoa. Outras condições então devem ser investigadas ou descobertas para sabermos o que faz uma pessoa ser uma pessoa. Não que nós precisemos de um conceito científico completo de pessoa – essa é uma tarefa hercúlea e em curso há milênios, e não estará completa tão cedo. Só precisamos de um conceito de trabalho, no caso, um conceito legal de trabalho, para que possamos decidir corretamente em questões morais e legais, respeitando o princípio de defender o direito à vida, que é um direito fundamental do qual gozam as entidades do mundo que chamamos de pessoas.

A minha resposta até o momento é que uma pista está em como tratamos os casos de morte cerebral. Nós sabemos que um paciente com morte cerebral e mantido por aparelhos está vivo, mas num certo sentido deixou de ser uma pessoa. Não que nós sejamos desrespeitosos para com ele e achemos que ele é uma coisa e que pode ser tratado com o grau de negligência com que tratamos objetos quaisquer, como cascas de banana. Nós não fazemos isso com cadáveres, por boas razões. Então também não faríamos com alguém que teve morte cerebral. Mas nós permitimos que as famílias decidam, se assim quiserem, desligar os aparelhos e doar os órgãos desse paciente. O paciente com morte cerebral é vivo, mas nós não aplicamos a ele a proteção que aplicamos a pessoas, então isso quer dizer (embora não o digamos com todas as palavras por respeito) que ele perdeu o status de pessoa. Há portanto algo na atividade cerebral que faz de um ser humano vivo uma pessoa. A atividade cerebral parece ser uma condição necessária para fazer uma pessoa. Se isso se aplica a pacientes em hospitais, por que não se aplica a fetos?