17th of February

Pior que “fake news” é “fake knowledge”


Quem já consumiu muita notícia deve ter tido uma sensação que pode ser descrita como ‘ressaca informacional moral’. É aquela sensação de que você está adquirindo um monte de informações que em última análise em pouco ou nada afetarão a sua vida, além da rara ocasião em que te ajudam a ter assuntos para discutir em mesa de bar. E daí se Donald Trump foi pego desprevenido fazendo comentários desrespeitosos sobre mulheres? Só dá para imaginar que isso terá algum impacto na sua vida se você passar um tempo especulando sobre causalidades indiretas, do tipo improvável. Até notícias com aparência de extrema importância, como a escolha de um ministro do Supremo Tribunal Federal que tem conflito de interesses com a operação Lava Jato, dificilmente têm claras linhas causais que afetarão a sua vida em particular, mais que as vidas dos outros 200 milhões de brasileiros. E não é só isso: mesmo se afetasse, o seu poder de alterar alguma coisa é mínimo, quase nulo. E é aí que reverbera o conselho estóico de não gastar energia mental se preocupando com o que você não pode mudar. A ressaca informacional também é moral porque você se vê desperdiçando seu tempo aprendendo fatos inúteis ou inalcançáveis em vez de aprender o que pode melhorar a sua vida ou, no mínimo, ao menos te entreter.

Há uma natureza passageira, quase desesperadora, no ritmo das notícias. Vêm e vão. As pessoas se preocupam, protestam, depois esquecem. Alguns políticos até aprenderam que tudo o que têm que fazer para escapar da ira da opinião pública é esperar pelo próximo assunto que capturará a atenção coletiva. Esse ritmo não existe na produção de conhecimento. Talvez por isso é tão difícil achar seção de notícias sobre ciências que satisfaça a cientistas: enquanto os jornais querem fatos noticiosos, os cientistas querem fatos perenes. Por isso quase toda manchete dos jornais alegando que determinado fóssil revolucionou a teoria da evolução é falsa.

Se há um lado bom na efemeridade das notícias, é que, tanto quanto as notícias verdadeiras, as falsas acabam tendo, também, um impacto limitado. Não é o caso quando a falsidade está não nos fatos noticiosos, mas nos fatos aceitos como perenes. Aqui vai uma pequena lista de “fake knowledge” (conhecimento falso) cujo impacto é bem pior que qualquer “fake news” (notícia falsa):

  • Pareceres de “especialistas em problemas sociais” que fazem “sociologia normativa“, livre de dados. Esses especialistas estão virando figura frequente na TV. Se houve um problema específico com um grupo social específico, a resposta dogmática é sempre discriminação injusta e preconceito. Como eles sabem disso? Não pergunte. Se você perguntar, você aprova a discriminação injusta e o preconceito.
  • A aceitação comum da astrologia como, se não uma ciência do comportamento humano, ao menos um entretenimento inocente. Não importa que já tenha sido demonstrado que, em condições controladas, mapas astrais e horóscopos erram feio. Duvidar da astrologia deve ser coisa de leonino com ascendente em escorpião. A astrologia está até nas TVs do metrô de São Paulo. Não ocorre a ninguém que, se o metrô está investindo em astrologia, está usando um recurso limitado que poderia ser aplicado em, por exemplo, alguma produção artística local ou em algum programa informativo?
  • Conselhos de psicólogos e terapeutas que se baseiam em teorias obsoletas ou especulações sem base. Não importa o quanto se mostre os problemas teóricos da psicanálise, ela continua sendo tratada como um conhecimento sério nas graduações em psicologia. Outras áreas alternativas e agressivamente contrárias à psicanálise, como o behaviorismo, não se saem muito melhor em base teórica. Os behavioristas, ao menos os radicais, alegam que termos como “vontade”, “escolha” e “querer” são “mentalismos”, ou seja, ilusões coletivas de eras pré-científicas, que um dia serão substituídas todas por explicações em termos de comportamentos. “Penso, logo existo”? Que nada, duvide da experiência de realidade aparente mais imediata, substitua por “me comporto, logo existo”. Mas os behavioristas com suas bases controversas, embora com aplicação prática de maior sucesso que a psicanálise, nem se comparam aos vendedores de best-sellers de especulações psicológicas, como Augusto Cury e sua “teoria (sic) da inteligência multifocal” jamais publicada em periódicos revistos por pares.
  • Modas populares sobre tratamentos de saúde baseadas em apelos a autoridades e outras falácias, bem distantes de qualquer avaliação das evidências. Aqui há vários exemplos, dos defensores da fosfoetanolamina (desastrosamente apelidada de “pílula do câncer” pela imprensa) como “cura do câncer” aos defensores da homeopatia, que apesar de bater recordes em contradizer um número enorme de ciências estabelecidas – física, química, biologia – é reconhecida como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina, não por acaso desde a época da Ditadura Militar. Essas modas populares são praticamente inevitáveis, dado o analfabetismo da população sobre como funciona a descoberta de novos tratamentos e qual é a cara da evidência de eficácia. Essas modas sempre surgem acompanhadas de anticorpos: se alguém duvida que uma nova coisa é finalmente a cura milagrosa, é porque está sob influência de alguma conspiração da indústria farmacêutica.
  • A ideia de que não existem transtornos psiquiátricos, só “tipos diferentes de ser humano”, e que a psiquiatria só classifica certos comportamentos ou características mentais como transtornos porque, adivinhe só, tem interesse em lucrar com a indústria farmacêutica. Há evidência circunstancial de que nos EUA, por exemplo, há um diagnóstico excessivo de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) entre crianças, talvez motivado, sim, por interesses econômicos. Mas, para azar dos conspiracionistas, a genética do comportamento, que não sofre nenhuma crise de replicação de resultados (diferente de boa parte da psicologia feita com mais rigor), encontrou consistentemente que o TDAH é uma das características comportamentais (ou conjunto delas) com a maior herdabilidade já encontrada entre humanos, acima de 70%. Esse valor indica uma participação majoritária dos genes na determinação do transtorno. O problema do diagnóstico excessivo, ou na verdade medicalização excessiva, é que ignora que crianças frequentemente têm fenótipos psiquiátricos que se resolvem com o tempo. Um exemplo disso é a disforia (a sensação de se estar no corpo de sexo errado), que se resolve na maioria das crianças que a manifestam sem necessidade de transição entre gêneros.
  • Especulação. Talvez não é necessário dizer, mas o digamos por cautela: especulação não é conhecimento. Se a Scientific American (uma boa revista) especula que nos próximos 15 anos teremos toda a tecnologia necessária para colonizar Marte, não significa que sabemos disso. Bons divulgadores como Carl Sagan deixam claro quando estão divulgando o que está justificado suficientemente por evidências, e quando estão especulando. Com frequência, essa distinção importante é esquecida por outros.
20th of July

Escola Sem Partido: o bom, o mau e o feio Analisando o projeto de lei por seus próprios méritos


Professores têm liberdade de expressão? Como indivíduos, sem dúvida. Nessa era em que há cada vez mais pressão para remover todo tipo de opinião desconfortável nos meios que mais expandiram a expressão nas últimas décadas, é importante reconhecer isso. Um professor pode ir ao Twitter chamar pela união dos “proletários” contra a “burguesia”, ou ao Facebook para comemorar a “revolução” de 1964 a cada 31 de março, enquanto essas redes permitirem, é claro. E parece que essas redes, por pressão censora do público e dos anunciantes, estão propensas a permitir cada vez menos. Acho esse desenvolvimento lamentável, pois essas redes, apesar de serem empresas privadas e assim poderem implantar regras próprias, perdem a oportunidade de ser uma praça pública internacional para a plena liberdade de se expressar, que só faz sentido se incluir a expressão de algumas coisas que ofendem e incomodam. Sem anunciantes e usuários que realmente acreditem na liberdade de expressão, a arena pública das redes sociais perde diversidade de opinião e a oportunidade de deixar o máximo de pessoas entenderem por que certas ideias são falsas e erradas, mesmo tendo essas ideias a chance de serem expostas pelos seus próprios defensores da forma mais clara que puderem. Varrer ideias falsas e erradas para debaixo do tapete não é exatamente algo que depõe a favor da nossa capacidade de mostrá-las falsas e erradas para qualquer observador.

O projeto Escola Sem Partido (PL 193/2016 do Senado), de iniciativa de grupos interessados em educação e do senador Magno Malta, não acredita na plena liberdade de expressão dos professores dentro das escolas públicas. As escolas, claro, não são as redes sociais. Se as redes sociais têm base legal (mesmo que não tenham a moral, na minha opinião) para limitarem a expressão dos usuários em seu próprio nicho, então deve haver também coisas que não é do interesse das escolas públicas que sejam expressadas dentro delas, especialmente por serem mantidas com o dinheiro de contribuintes que discordam radicalmente entre si. Quais são os interesses das escolas públicas? Parece que as escolas públicas não existem para doutrinar os alunos no cristianismo ou no ateísmo, pois assim os contribuintes ateus ou cristãos, respectivamente, sofreriam a injustiça de ter que aplicar seu dinheiro para resultados que não querem em suas crianças. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação proíbe a doutrinação religiosa ou irreligiosa nas escolas, para alívio de ambos. Mas até onde vai o controle do contribuinte sobre o que ele não quer que seja ensinado na escola pública? Os contribuintes criacionistas teriam o direito de limitar o ensino da teoria da evolução nas aulas de biologia? Os contribuintes que se dizem contra o “neoliberalismo” têm direito de ignorar Adam Smith e Friedrich Hayek e ensinar somente Karl Marx e John Maynard Keynes nas aulas de geografia, sociologia e história? Autoridades externas à escola são invocadas na tentativa de responder a essas perguntas, geralmente a autoridade dos especialistas. Mas a opinião de alguns especialistas de uma área pode ser repelente para os contribuintes, então apelar para os especialistas pode ser inútil para resolver o conflito.

O projeto Escola Sem Partido parece preocupado com o risco de o professor abusar de seu prestígio de autoridade do conhecimento para doutrinar alunos, que são parte hipossuficiente da sala de aula, em coisas cujo status de conhecimento está longe de ser estabelecido. Esta é uma preocupação boa, sua raiz parece ser a preocupação de que crianças/alunos possam ser convencidos pelos professores a se atarem a ideias falsas e erradas, o que é danoso para eles e consequentemente à sociedade em geral. Novamente, essa preocupação pede por árbitros. Quem tem competência para distinguir falsidades e erros de verdades e acertos? Talvez os especialistas no assunto?

De todas as premissas insinuadas no projeto, uma bem difícil de compreender é a menção, na justificativa e no parágrafo único de um artigo, à sexualidade. Será que os autores do projeto acreditam que alguma criança pode ser ensinada a ser gay, como expressou temerosamente Myrian Rios na ALERJ em 2011? Pois podem dormir sossegados, se ouvirem especialistas que por alguma razão foram ignorados no texto do projeto: a orientação sexual tem em boa parte raízes biológicas, e não é chamada de “orientação” no sentido de “educação”, mas num sentido mais próximo ao sentido que tem dizer que uma bússola se orienta para o norte – espontaneamente. Se espontaneamente, ter uma orientação sexual de certo tipo está fora do nicho da educação. Não há no conhecimento acadêmico corroboração mínima à ideia de que orientação sexual é “opção sexual”, como está dito no projeto. E se o projeto não está se baseando em conhecimento objetivo, então ele próprio é ideológico neste ponto, pois “opção sexual” é uma forma ideológica (e negacionista das evidências da psicologia, da genética e da neurociência) de se referir à orientação sexual. Se alguém me pergunta qual é a minha “opção sexual”, as respostas que fazem sentido são “muito”, “pouco”, “às vezes”, “nunca”, “nesta posição”, etc., não “heterossexual”, “homossexual” ou “bissexual”. O projeto erra feio, portanto, ao tentar levantar barreiras à ideologia nas escolas com mais ideologia.

Parece que quem tem menos liberdade que professores nas escolas são os alunos.  Seu desinteresse pela lei de Ohm,  pelos princípios de Euclides e pelas leis de Mendel pode ser completo, mas, se as diretrizes da educação pública foram seguidas à risca, terão de aprender essas coisas mesmo assim. Por que fazemos isso? Na esperança de tentar fazer dos alunos enciclopédias ambulantes, as escolas atropelam seus reais interesses e quase nenhum, no fim dessa tortura toda, se comporta realmente como uma. E é verdade que alguns, influenciados tanto por professores quanto pela pressão social de seus colegas (e parece que a segunda é bem mais importante) saem da sala de aula doutrinados numa série de proposições que não parecem ter passado por qualquer escrutínio crítico. Não é como se esses alunos não fossem entrar em contato com essas ideias de qualquer forma nas redes sociais – e professores que não puderem doutriná-los nas salas de aula ainda poderão tentar fazê-lo pelas redes sociais (o que é seu direito). Mas há algo de abusivo em utilizar a escola para isso. O projeto acerta na preocupação mas erra no método: professores interessados em doutrinar não se deixarão intimidar por avisos do governo pregados nas salas de aula. E pode ser que alguns, com ideias dignas de aprendizado e discussão, se deixem intimidar pelo aviso, considerando erroneamente que debater questões ditas polêmicas é introduzir ilegalmente (se o projeto for aprovado) “ideologia” na escola.

Parece que o motivo da disputa em torno do projeto é que existem áreas em que a opinião de alguns especialistas se confunde com ativismo para mudar a sociedade de certas formas que desagradam a muitos contribuintes. Nós ensinamos o teorema de Pitágoras para nossas crianças, mas não a doutrina igualmente pitagórica de que não devemos comer feijões, porque a verdade do teorema de Pitágoras foi estabelecida por dedução e pode ser reproduzida quantas vezes quisermos, enquanto não há motivos estabelecidos para evitar o consumo de feijões. Não é porque o teorema de Pitágoras é “ciência” enquanto o tabu contra feijões é “religião” ou “ideologia”: isso é apenas um adendo dispensável.

O propósito mais nobre da educação, do ensino fundamental ao pós-doutorado, é formar e propagar conhecimentos e distingui-los de crenças diversas cuja justificação é mais incompleta que a do teorema de Pitágoras e cuja plausibilidade se encontra entre ele e o tabu supersticioso dos pitagóricos contra os feijões. E o erro maior na educação é tentar forçar esses conhecimentos em quem não tem qualquer interesse de aprendê-los. Uma solução é debater, entre interessados, as justificações para as propostas de conhecimento, deixando mais claro o que falta descobrir e quais crenças têm mais a ver com fé e subjetividade do que com inferência reproduzível a partir de evidências e premissas universalmente aceitáveis (para ser mais realista: a partir de debates de quem tem genuína curiosidade por cada problema e por isso busca saber o mínimo das respostas já propostas como solução). Para esse uso apropriado da educação ser possível em cada área, é preciso que os desinteressados não estejam no meio do caminho, empurrando com a barriga o peso de aprender coisas que não querem, e persigam seus próprios interesses (sejam eles em outras áreas de conhecimento, sejam eles em atividades que pouco têm a ver com conhecimento). Se os desinteressados em perseguir de forma não-dogmática conhecimentos em economia querem doutrinar seus filhos no comunismo marxista, que o façam no braço infanto-juvenil do partido. Se os desinteressados em discussão franca da existência de Deus em filosofia da religião querem doutrinar seus filhos no cristianismo, que o façam na igreja. Se os desinteressados em ciências da saúde e em debates em ética querem doutrinar seus filhos na crença de que a homossexualidade é uma opção sexual imoral, que o façam longe do parlamento.

E por falar em debates de questões éticas, aí está outro erro feio do projeto Escola Sem Partido: a insinuação de que moral/ética é fundamentalmente monopólio da religião e das famílias. Isso é falso. A ética é debatida com rigor na filosofia desde Platão e Aristóteles, e é uma afronta contra nosso legado cultural que os autores do projeto finjam que somente clérigos, pais e mães estejam interessados em códigos morais, quando os filósofos o fazem frequentemente com mais competência. Essa tentativa de divorciar ética de educação formal é absurda, é assumir que o subjetivismo ético ganhou sem protestos e que o relativismo cultural é a norma a ser imposta (incoerentemente). Eu duvido que os proponentes dessa ideia estariam confortáveis em permitir que famílias e clérigos ensinem o racismo às suas crianças, como acontece até hoje em algumas famílias no interior dos Estados Unidos, sem que nada nas escolas públicas ensinasse a alternativa filosófica de que o racismo é uma ideia objetivamente errada. Quem acredita na educação acredita que ideias erradas e falsas como as que estão em torno do racismo podem ser debatidas com franqueza, e que quanto mais aberto o debate, quanto mais seguir regras lógicas em vez de tabus sociais, maior é a chance do racismo se enfraquecer. O problema dos autoritários de boas intenções é não acreditar que ideias verdadeiras e morais saem mais fortes de debates francos e honestos entre os verdadeiramente interessados no assunto. Ter interesse e curiosidade sobre um assunto é por definição tratá-lo acima de caprichos pessoais, políticos e religiosos.

Os desinteressados em educação devem ceder espaço, e a divulgação do conhecimento deve ser distinguida do ativismo – até para que o próprio ativismo seja feito com base em coisa melhor que pensamento de manada, modas passageiras e arroubos emocionais polarizados com poucas chances de espaço para a curiosidade e o exame minucioso de propostas. Quem, mais uma vez, deve fazer isso? Especialistas? Talvez. Mas o consenso aparente dos especialistas, como a convicção de especialistas individuais, pode ser corrupto. O que se vende como área de especialidade pode ser mera trincheira contra críticos, e o que se vende como especialista pode ser mero demagogo carismático que conseguiu um número grande de pessoas cúmplices por interesses em comum distantes da sede de saber. Os próprios pitagóricos, em seu tempo, se pareciam mais com uma seita que com uma escola. Se hoje podemos distinguir o teorema de Pitágoras do tabu injustificado de que feijões não devem ser consumidos, é porque indivíduos interessados em sua própria educação examinaram as razões dadas pelos pitagóricos para as duas proposições – ou seja, porque existem especialistas confiáveis. Mas até hoje podemos nos perguntar se feijões são sempre uma boa opção alimentar, mesmo que todas as premissas pitagóricas em contrário fossem falsas. Podemos até nos perguntar se é verdade que pitagóricos tinham esse tabu. Se formos bons especialistas, faremos isso, pois bons especialistas são racionais, e racionalidade inclui honestidade sobre a própria falibilidade (coisa que não é comum em quem quer raptar a educação e transformá-la em doutrinação nas próprias crenças políticas ou religiosas). Só teremos esperança de nos educarmos de fato se estivermos livres para perseguir nossos interesses, o que nos faz especialistas genuínos e alunos curiosos, e dar de ombros para os assuntos que não queremos preenchendo nossas cabeças e profissões, nos quais outras pessoas poderão se especializar e nos impressionar com sua expertise. Se a educação é baseada na liberdade de querer saber, o impacto da doutrinação é mitigado com muito mais poder que com plaquinhas do governo com conselhos preocupados mas tolos. Doutrinadores e doutrinados aprenderão o seu lugar.

***

Em resumo e conclusão: como está, o projeto Escola Sem Partido falha em expressar suas preocupações mais corretas de forma convincente e com uma proposta eficaz de evitar o abuso do ambiente escolar para a doutrinação. Sua atual redação sugere um interesse de afastar certos tipos de doutrinação em benefício de doutrinações mais tradicionais, em vez de fortalecer a educação nas escolas públicas. O projeto precisa de uma reforma para afastar a preocupação de que foi criado com interesse de blindar os alunos dos debates globais sobre liberdade sexual, e com o interesse de deseducar o público com a crença falsa de que moralidade é monopólio da família e da religião, em vez de reforçar a ética como mais uma área em que o debate franco educacional é não apenas possível, mas recomendável.

25th of June

Izquierdo tem razão, psicanálise é obsoleta E é um desperdício de recursos que prejudica autistas e suas famílias


Há algumas semanas, sonhei que minha mãe molestava minha irmã. Não comentei a respeito com elas, não me preocupei com isso, e teria esquecido se não estivesse numa semana com sonhos particularmente vívidos. Graças à Santa Mielina, não houve detalhes gráficos no pesadelo, apenas algumas cenas da minha irmã reclamando do problema e eu me chocando (no sonho) que nossa mãe católica e amável fosse capaz de uma coisa tão abominável. Mas ela não é – foi apenas um pesadelo besta. Não li grandes mistérios por trás disso.

Durante o meu dia, é comum que eu pense em quebra-cabeças éticos. Disputo a crença de muita gente de que emoções são necessárias para a moralidade, e o incesto é um exemplo interessante pois incita na maioria de nós uma forte repulsa (anedoticamente, parece que a repulsa é mais forte em quem tem irmãos do que em filhos únicos, o que faz sentido dada a raiz biológica do tabu do incesto), enquanto é possível imaginar situações em que não é errado, no sentido de não gerar consequências negativas para ninguém. Ou seja, embora tenhamos sentimento de repulsa, ele não é suficiente, e talvez sequer necessário, para o julgamento moral de toda situação que envolve incesto (lembre-se, aqui, que nem todo incesto envolve abuso sexual de menores). Outro exemplo de que emoções são divorciáveis da conduta ética está num experimento mental que propus: imagine que uma criança precisa ser operada para não morrer de apendicite, e o cirurgião é um psicopata com prazer em abrir pessoas. Os sentimentos ruins a respeito de um sádico cortando uma criança por prazer – medo, repulsa, nojo – precisam ser deixados de lado para salvar a vida da criança – o que será feito pela consideração racional dos riscos e benefícios. Essas emoções não são nem necessárias nem suficientes para decidir o que é melhor para a criança, podem até atrapalhar. O melhor desse experimento é que posso informar que o cirurgião psicopata realmente existe e vive no nordeste brasileiro. Fui comunicado da existência dele por uma amiga em comum. É um ótimo cirurgião. A família notou cedo que ele tinha prazer em desmembrar animais e o direcionou para a medicina, redirecionando os impulsos que poderiam ter gerado sofrimento no mundo para salvar vidas. Ele não teve problema em se acostumar a ver pessoas abertas e ensanguentadas, como outros cirurgiões têm em início de carreira. E ele, é claro, tem a racionalidade para julgar suas ações, e o fato de que psicopatas podem ser éticos reforça minha hipótese de que as emoções (das pessoas comuns) não são necessárias, ou suficientes, para a moralidade.

No dia em que tive o pesadelo, pensei na minha família e pensei em incesto em momentos distintos, e na hora de consolidar as memórias do dia meu cérebro juntou as duas coisas, num emaranhado maluco com um enredo sem pé nem cabeça, o que é uma descrição sucinta da maioria dos sonhos, especialmente os que ocorrem nas fases de movimento rápido dos olhos, que têm probabilidade mais alta de serem lembrados. Enquanto o enredo dos sonhos não faz muito sentido – o que em si é um sinal de que os sonhos estão ligados à consolidação das memórias em fases específicas do sono – faz sentido que família e incesto sejam memórias ligadas por contexto, e nossas memórias têm essa característica: em vez de serem catalogadas como a memória do computador, são armazenadas de acordo com a co-ocorrência contextual. Devo acrescentar que a cena do pesadelo acontecia na casa em que passei a maior parte da minha infância, o que informa aos neurocientistas que se trata de memória episódica antiga sendo reconsolidada e acomodada de acordo com memórias mais recentes. Com essa informação, os neurocientistas conseguem até prever com certo grau de precisão em que fase do sono eu tive o pesadelo, e que, como foi na fase final do sono, de manhã, tem algo a ver com os efeitos da concentração crescente do hormônio cortisol no hipocampo, como discutem, por exemplo, Jessica Payne e Lynn Nadel numa revisão de 2004.

Mas, segundo psicanalistas, eu deveria ter lido alguma coisa mais “profunda” que uma mera consolidação  de memórias do dia nesse pesadelo. Por que um homem gay como eu sonharia com uma coisa desse tipo? A psicanálise não concluiria nada sobre minha mãe e minha irmã com esse pesadelo, espero, embora psicanalistas pareçam ser particularmente obcecados com “complexos” incestuosos. Antes, concluiria algo sobre mim. Com que métodos? Adivinhação e evidências anedóticas.

Foi justamente na obra “A Interpretação dos Sonhos” (1899) que Sigmund Freud começou a propor sua teoria do “complexo de Édipo”. Que podemos resumir assim: toda criança tem atração sexual pela mãe, pelo pai, ou pelos dois. Segundo Freud, os sonhos existem para que o inconsciente encontre uma forma de realizar nossos desejos mais íntimos. Segundo os psicanalistas, meu sonho quer dizer que eu, que acho Henry Cavill extremamente atraente, desejo ver envolvimento lésbico entre membros da minha família. Você deve estar brincando, Dr. Freud! Isso, à luz do que sabemos graças à neurociência e ciências cognitivas, é um disparate pseudocientífico, e deve ser tratado como tal.

É claro que os psicanalistas modernos alegarão que estou fazendo um espantalho da sua “teoria” (que mal merece o status de hipótese), embora tudo isso que eu disse esteja em Freud e em muitos de seus defensores modernos. Farão um esforço de reinterpretar meu pesadelo de uma forma que faça mais sentido e soe menos como um disparate pseudocientífico. Mas esse não será um exercício de pesquisa e de mudança de opinião com base em novas evidências coletadas: será um exercício de construção de epiciclos. Quando os astrônomos ptolomaicos antes de Kepler tentavam insistir que a órbita dos planetas era perfeitamente circular, por um viés estético herdado de Platão e Aristóteles, eles tentavam explicar as anomalias na órbita observável dos planetas com a introdução de círculos no topo dos círculos de translação em torno da Terra (pois acreditavam no geocentrismo): os epiciclos. Alguns botavam tantos epiciclos hipotéticos na órbita dos planetas que os cálculos ficavam quase impossíveis de verificar, então poderia ser verdade que só há círculos na órbita dos planetas, e isso é tudo o que importa. Para muitos psicanalistas de hoje, o que importa é que a psicanálise poderia ser verdade, não que ela não parece ser verdade de acordo com as evidências coletadas por cientistas. Alguns chegam a abandonar o barco das pretensões científicas da psicanálise, alegando que psicanálise jamais se pretendeu ciência (o que é revisionismo histórico conveniente), ou se juntam ao comboio amalucado dos pós-modernistas, construindo frases sem sentido como essa:

“A psicanálise não se propõe a disputar com a ciência o lugar de portadora da verdade, mas interroga os efeitos que têm sobre nós, sujeitos humanos, as palavras e discursos que nos constituem – que são necessários, porém sempre insuficientes para dar conta de nossa experiência.” – Paulo Gleich no Sul 21.

Em primeiro lugar, como se interroga algo sem pretensão de portar a verdade, especialmente quando o intuito é lidar com os problemas psicológicos de um indivíduo? Devo assumir, então, que se eu me deitar no divã do Paulo Gleich não devo esperar resposta quanto a ser verdade ou inverdade que estou estressado, quanto a ser verdade ou falsidade que preciso de um namorado, etc.? Além disso, quais são as palavras e discursos que me constituem? Essas que estou escrevendo agora me constituem? Se eu rejeitá-las ou esquecê-las amanhã (certamente durante um sonho em que o Scooby Doo sodomiza o Scrappy Doo), deixarão de me constituir? As coisas que Gleich disse são um exemplo clássico do que Harry Frankfurt descreveu como “bullshit”.

São também exemplo de algo que aconteceu justamente pela falha da psicanálise em se manter de pé diante do avanço das ciências rigorosas do cérebro e da mente: uma fuga para o dadaísmo conceitual, em que verdade, objetividade e outras facetas da razão são coisa de gente “ingênua”, provavelmente gente ingênua que deseja charutar seus progenitores. Muito se discute sobre Freud (num personalismo também incompatível com o proceder científico), mas, mesmo entre acusações de fraude e de tolice – quando por exemplo ele diagnosticou críticas da psicanálise como neuroses – poucos duvidam que ele tinha grande respeito pela ciência e gostaria de saber mais sobre o cérebro. Se realmente é assim, ele deve girar mil vezes no túmulo quando escuta que seu suposto discípulo Jacques Lacan alegou que o pênis é análogo à raiz quadrada de -1 (i), entre outros disparates psicanalíticos abusando da matemática resenhados em “Imposturas Intelectuais” de Alan Sokal e Jean Bricmont. Freud também se espantaria de ver a péssima influência dos psicanalistas sobre a integração social e tratamento de autistas e suas famílias, culpando os pais pelas dificuldades de neurodesenvolvimento das crianças autistas. Tudo, novamente, baseado em evidência anedótica e especulação, que, como os homeopatas, os psicanalistas preferem chamar de “estudo de caso”/”pesquisa qualitativa” e “teorização”. Enquanto isso, a genética descobre que mais da metade da variação do autismo é explicável por variantes genéticas comuns em combinações raras.

No Brasil estamos agora discutindo bastante a corrupção política. Mas ainda precisamos lidar com outro tipo de corrupção: a corrupção intelectual de comunidades dogmáticas herméticas, entre elas a da psicanálise e da homeopatia, que parasitam recursos públicos sem ter evidência da verdade de suas teorias, a um ponto tão cínico que alguns até dizem que verdade de teorias não é o que mais importa. Pois estão errados. Mais errados que o incesto.

***

Não deixe de ler este texto sobre Freud e o início da psicanálise na revista Crítica.

Confira referências da minha entrevista com uma mãe de autista no post Autismo: Teoria e Prática.

Referências:

Payne, J. D., & Nadel, L. (2004). Sleep, dreams, and memory consolidation: The role of the stress hormone cortisol. Learning & Memory, 11(6), 671–678. http://doi.org/10.1101/lm.77104
Sokal, A., & Bricmont, J. (1999). Imposturas intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos. Rio de Janeiro: Record, 198–200.

Frankfurt, H. G. (2005). Sobre falar merda. Tradução Ricardo Gomes Quintana. Rio de Janeiro: Intrínseca.

P.S.: Aparentemente, a crítica mais comum que estou recebendo pelo texto é por dizer que “segundo psicanalistas” meu sonho seria interpretado literalmente como um desejo inconsciente meu. Eu concordo que usar a expressão “segundo psicanalistas” foi sugestivo de que algum psicanalista realmente disse isso, quando nenhum disse isso a mim diretamente. Eu apenas segui as implicações da alegação de que os sonhos são manifestações de desejos inconscientes. Desde o princípio psicanalistas propuseram interpretações convolutas de sonhos, e realmente não eram tão literais, só que eram, sim, interpretações do conteúdo dos sonhos. Essa história de que a psicanálise “rejeita a visão hermenêutica dos sonhos” (uma forma desnecessariamente complicada de alegar que não faz interpretação do conteúdo dos sonhos) é contradita pela própria história da psicanálise. Na verdade os psicanalistas insistiam em fazer interpretação dos sonhos, contanto que quase tudo virasse sexo. Até subir uma escada em sonho é interpretável como o ato sexual para psicanalistas históricos: http://criticanarede.com/freud.html Mas como eu previ no próprio texto, nenhum psicanalista de hoje admitira seguir as próprias alegações psicanalíticas sobre os sonhos para o meu sonho, e me acusariam de falácia do espantalho. O que isso mostra é mais uma faceta do caráter pseudocientífico dessa prática intelectual: o obscurantismo. Não importa se está fortemente sugerido em obras seminais da psicanálise que os sonhos devem realmente ser interpretados como manifestações de desejos inconscientes, sempre há algum epiciclo a ser levantado para manter a ideia obscura e “profunda” quando alguém tenta esclarecê-la e mostrá-la falsa. É uma estratégia comum em adeptos dogmáticos dos mais variados tipos de crenças: afirma-se algo obscuro, que se for esclarecido cai em alguma afirmação excitante mas falsa ou verdadeira porém apenas um truísmo enfadonho. Para manter a versão excitante e falsa, acusa-se quem esclareceu a afirmação obscura de falácia do espantalho e de não estudar o suficiente. O caso é que não há como estudar o suficiente. Críticos jamais serão ouvidos ao menos que parem de criticar e virem adeptos.

28th of January

Autismo: teoria e prática Uma entrevista com Andréa Werner Bonoli


Uma conversa entre uma mãe de autista (Andréa Werner Bonoli, mãe do Theo) e um geneticista para servir de guia a todas as pessoas afetadas e interessadas. Blog da Andréa: http://lagartavirapupa.com.br Patrocine vídeos de divulgação científica como este com um dólar ou mais por mês em: http://patreon.com/elivieira

Informações citadas:

PECS, Sistema de Comunicação por Troca de Figuras https://en.wikipedia.org/wiki/Picture_Exchange_Communication_System (sem tradução para o português na Wikipédia)

Sobre tratamentos charlatanescos com “cândida” / água sanitária, uma reportagem investigativa da BBC expondo os responsáveis: http://www.bbc.co.uk/news/uk-england-london-33079776

Documentário Le Mur com legendas em português http://www.dragonbleutv.com/pt/documentaires/23-le-mur-ou-la-psychanalyse-a-l-epreuve-de-l-autisme-pt

Sobre o farsante autor do estudo que alegou que vacinas causavam autismo: https://en.wikipedia.org/wiki/Andrew_Wakefield

Revista Time: 4 doenças que estão voltando graças aos antivacinas http://time.com/27308/4-diseases-making-a-comeback-thanks-to-anti-vaxxers/

Referências científicas:

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