31st of May

Wolbachia, a bactéria ‘feminista radical’ Para a bactéria que infecta mais da metade das espécies de artrópodos terrestres, quanto menos machos melhor


MEL-OVARYB-10X-v2[1]

Wolbachia (marcada com corante verde) no ovário de um mosquito Aedes aegypti. Via eliminatedengue.com

Na minha pesquisa estudamos a distribuição de bactérias como a Wolbachia em artrópodos, especialmente insetos. O motivo pelo qual a escolhemos é que ela é capaz de manipular a reprodução de seus hospedeiros, de formas que vão do parasitismo (vantagem da bactéria com desvantagem do hospedeiro) ao mutualismo (vantagem mútua). A evolução de uma relação ecológica desarmônica para uma harmônica (e vice-versa), que se vê na relação dessa bactéria com artrópodos, é um assunto muito interessante que envolve quase toda a vida como a conhecemos, pois está por trás da origem de todas as células eucarióticas (como são as nossas próprias células). A melhor explicação para a existência de organelas como as mitocôndrias e os plastídeos (incluindo cloroplastos) na enorme variedade de organismos eucariontes de hoje é que, no passado, entre seus ancestrais unicelulares, os ancestrais dessas organelas, que também tinham vida livre, eram comidos vivos pelas células maiores ou as parasitavam (ou seja, havia relação ecológica desarmônica). Hoje todos os protozoários, animais, plantas e fungos não vivem sem suas mitocôndrias – a relação evoluiu de desarmônica para mutualismo, e do mutualismo para a completa fusão. Há algo de elegante em ver uma briga de bilhões de anos atrás se tornar ‘amor’, e o ‘amor’ se tornar uma união indissolúvel. 

A Wolbachia faz algo similar ao que fizeram as bactérias ancestrais imediatas das mitocôndrias bilhões de anos atrás: ela vive dentro das células. Gosta especialmente de habitar óvulos (ovócitos), pois são seu principal veículo para sobrevivência ao longo das gerações dos artrópodos que infecta. E por isso, como estratégia de sobrevivência e reprodução, Wolbachia desenvolveu manipulações do sexo de muitos dos seus hospedeiros. A bactéria é capaz de*:

– Feminizar embriões geneticamente machos, ou seja, transexualizar machos em fêmeas. Isso foi observado em algumas espécies de tatuzinhos-de-jardim (que são crustáceos), cigarrinhas (Hemiptera) e borboletas. Em algumas vespas, além disso, a presença da bactéria acoplada ao estresse térmico gera indivíduos com variadas misturas de características femininas com características masculinas. Algumas borboletas, quando curadas da presença de Wolbachia através de antibióticos, manifestam também uma mistura de características sexuais e morrem na hora de sair do casulo.

– Induzir a concepção virginal, ou seja, a reprodução assexuada em que fêmeas geram filhotes sem precisar de sexo com machos, o que é conhecido como partenogênese telitóquica. Wolbachia faz isso com algumas espécies de vespas, ácaros e tripes (esses últimos são da ordem Thysanoptera). Sem Wolbachia algumas espécies de vespas não conseguem nem produzir óvulos.

– Infanticídio de machos, ou seja, a bactéria pode matar embriões machos e poupar as fêmeas. Isso foi descrito em alguns besouros, moscas, pseudoescorpiões e borboletas. Parece que isso acontece mais em espécies em que irmãos competem por recursos – Wolbachia dá seu empurrãozinho para a vantagem das fêmeas sobre os machos, matando os machos.

– Impedir machos infectados de se reproduzirem com fêmeas não infectadas. Apesar de parecer um absurdo a bactéria impedir sua própria propagação dessa forma, a explicação para isso está na racionália do gene egoísta: ao diminuir o sucesso reprodutivo de fêmeas não infectadas, essas bactérias estão beneficiando suas irmãs que estão nas fêmeas infectadas. Por isso, para a continuidade dos genes das bactérias, não é desvantagem que as que estão nesses machos infectados estejam essencialmente na mesma posição dos músicos conformados do Titanic: se sacrificando pelo bem de seus pares. Além disso, linhagens diferentes de Wolbachia podem competir entre si, impedindo que machos infectados com uma linhagem A se reproduzam com fêmeas infectadas com outra linhagem B. Esse impedimento à reprodução é chamado de incompatibilidade citoplasmática, a primeira forma (macho infectado, fêmea não infectada) é unidirecional, a segunda (macho e fêmea infectados com linhagens diferentes) é bidirecional. A incompabilidade citoplasmática causada por Wolbachia foi descrita em alguns ácaros, besouros, moscas, hemípteros, vespas, tatuzinhos-de-jardim, borboletas/mariposas e ortópteros. Quem gosta de evolução deve estar especialmente empolgado com essa manipulação, pois, como sabemos, o aparecimento de barreiras reprodutivas é um dos fatores que leva à origem de novas espécies. Nós testamos, por exemplo, se há uma correlação entre a incidência de Wolbachia e o número de espécies em grupos de besouros – a correlação existe, mas é estatisticamente fraca.**

Não sabemos ao certo se é por causa dessas manipulações reprodutivas, mas nossa pesquisa** mostrou que mais da metade (52%, com margem de erro entre 48 e 57%) das espécies de artrópodos terrestres estão infectadas com Wolbachia. Além disso, Wolbachia também infecta alguns vermes, inclusive filárias causadoras da elefantíase. Poderemos chegar a tratamentos para verminoses e a novas formas de controle de zoonoses trasmitidas por mosquitos através dessa que é a bactéria mais misândrica e feminista radical de todas: em se tratando de aracnídeos, crustáceos e insetos terrestres, para a Wolbachia, quanto mais fêmeas e menos machos, melhor.


_____

* Werren, J. H., Baldo, L., & Clark, M. E. (2008). Wolbachia: master manipulators of invertebrate biology. Nature Reviews Microbiology, 6(10), 741–751. http://doi.org/10.1038/nrmicro1969. Algumas informações dadas estão em outras fontes.


** Weinert, L. A., Araujo-Jnr, E. V., Ahmed, M. Z., & Welch, J. J. (2015). The incidence of bacterial endosymbionts in terrestrial arthropods. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 282(1807), 20150249–20150249. http://doi.org/10.1098/rspb.2015.0249

29th of January

Olavo de Carvalho, Charles Darwin e Pseudofilósofos Uma análise de um texto de um dos "filósofos" mais populares do Brasil, com réplica e tréplica


Resposta do Olavo (ao vídeo acima):

Minha tréplica:

24th of January

Sim, macroevolução já foi observada em laboratório


“Crocopato”, imaginado pelo criacionista Kirk Cameron e imortalizado nesta imagem do Worth1000.
Os criacionistas não diferem de uma substancial parte dos leigos em ciência na questão da “síndrome da escala intermediária”. Ou seja: se não é uma coisa na escala imediata da percepção, então se dá pouca importância, ou se compreende mal, ou se tem pouca vontade de compreender. É mais ou menos por esse motivo que sempre que se fala em biologia, o último reino que as pessoas costumam lembrar é o Monera.

A acusação da moda dos criacionistas é que não existiriam evidências de “macroevolução”, ou seja, de grandes mudanças, mas apenas de “microevoluções”, ou seja, aceitam que a seleção natural ou outros mecanismos evolutivos possam criar a diferença entre duas populações de uma mesma espécie, mas não entre diferentes espécies. Esta acusação assume várias formas, a mais estúpida é “não se observou evolução em laboratório” (e geralmente a pessoa está imaginando algo como um crocodilo virando um pato). 
O melhor exemplo de macroevolução em laboratório é justamente do reino Monera. Então juntam-se dois bloqueios: não se aceita como evidência porque não se quer (a capacidade humana para ignorar o que não se encaixa em sua visão de mundo é enorme), e não se aceita porque não é um “crocopato”, mas um ser bem distante da escala a que estamos acostumados: células com o comprimento na escala de um metro dividido por um milhão de partes.
O exemplo é este: um experimento de 22 anos acompanhou passo a passo o surgimento de novas adaptações em linhagens da bactéria Escherichia coli ( http://en.wikipedia.org/wiki/E._coli_long-term_evolution_experiment ). Quando digo passo a passo, quero dizer que congelaram um amostra de cada geração. Depois de mais de 20 mil gerações, uma das linhagens submetida a condições de desnutrição (falta de carbono) apresentou uma novidade: a capacidade de extrair o carbono que precisa de moléculas de ácido cítrico, na presença de oxigênio.
Para dar uma ideia do tamanho desta mudança, é preciso saber duas coisas: (1) classicamente, espécies (unidades taxonômicas operacionais) de bactérias são definidas por seu metabolismo, ou seja, pela capacidade de consumir ou não certas substâncias em condições controladas. (2) A incapacidade de metabolizar o ácido cítrico do meio de cultura é uma das coisas que permite a um microbiologista dizer a diferença entre esta bactéria, que é geralmente inofensiva e é encontrada naturalmente em fezes, e a Salmonella, famosa por ter linhagens que causam intoxicação alimentar.
Um microbiologista desinformado, ao se deparar com essa linhagem de Escherichia coli que resultou desse experimento de evolução em laboratório, estaria tão confuso ao tentar identificá-la quanto um ornitólogo que topasse com um tucano exibindo mamas, ou quanto um botânico que visse uma samambaia produzindo frutos.
É, portanto, macroevolução (não foi apenas uma mutação, a seleção natural precisou trabalhar com mais do que isso para fazer uma mudança desse tipo). E tempo não faltou: 22 anos são verdadeiras eras geológicas para bactérias. Em gerações humanas, daria 500 mil anos. Portanto o sr. Darwin continua certo: grandes mudanças precisam de grande tempo, geralmente. E grandes mudanças são, em princípio, o resultado de pequenas mudanças acumuladas, embora possam ser mais que isso.
Criacionistas não são apenas pessoas que acreditam que Deus criou os seres vivos (Deus pode muito bem ter criado as espécies usando a evolução, por que não?): são pessoas que fazem uma salada de religião com ciência, em que a primeira leva vantagem, e a segunda sai machucada. E essa invenção de que não há evidência que sustente a macroevolução é, como mostrou esse experimento e mostram muitas outras evidências, no máximo um palpite desinformado, e, como sugeri, contaminado com a “síndrome da escala intermediária”.
Não vou ofender os cegos dizendo que o pior cego é o que não quer ver, concluo dizendo que a pior crença é aquela em franca contradição com o que pode ser lido na natureza.
(Publicado no meu extinto Facebook em abril de 2013.)
22nd of February

Resposta às declarações obscurantistas de Silas Malafaia sobre genética da homossexualidade


Homossexualidade é “comportamento e não genética”? E a Genética do Comportamento?

[CC-eng] Eli Vieira, Brazilian PhD student in genetics at the University of Cambridge, UK, refutes the allegations made by Silas Malafaia, millionaire evangelical preacher, about the origins of homosexuality.

==Referências==

Capítulo de Manual de Genética do Comportamento dedicado à Homossexualidade, citando mais de 50 referências científicas:

Dawood, Khytam, J. Michael Bailey, and Nicholas G. Martin. “Genetic and environmental influences on sexual orientation.” Handbook of behavior genetics (2009): 269-279. PDF: http://is.gd/Kbt2md

Artigos:

Bailey, Nathan W., and Marlene Zuk. “Same-sex Sexual Behavior and Evolution.” Trends in Ecology & Evolution 24, no. 8 (August 1, 2009): 439–446. doi:10.1016/j.tree.2009.03.014. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19539396

Savic, Ivanka, and Per Lindström. “PET and MRI show differences in cerebral asymmetry and functional connectivity between homo-and heterosexual subjects.” Proceedings of the National Academy of Sciences 105, no. 27 (2008): 9403-9408. http://www.pnas.org/content/early/2008/06/13/0801566105.abstract

Kerr, Warwick Estevam, and Newton Freire-Maia. “Probable inbreeding effect on male homosexuality.” Rev. Brasil. Genet 6 (1983): 177-180. PDF:  http://web2.sbg.org.br/gmb/edicoesanteriores/v06n1/pdf/a12v06n1.pdf

Bocklandt, Sven, and Eric Vilain. “Sex Differences in Brain and Behavior: Hormones Versus Genes.” Advances in Genetics 59 (2007): 245–266. doi:10.1016/S0065-2660(07)59009-7. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17888801

Burri, Andrea, Lynn Cherkas, Timothy Spector, and Qazi Rahman. “Genetic and Environmental Influences on Female Sexual Orientation, Childhood Gender Typicality and Adult Gender Identity.” PLoS ONE 6, no. 7 (July 7, 2011): e21982. doi:10.1371/journal.pone.0021982. http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0021982

Lübke, Katrin, Sylvia Schablitzky, and Bettina M. Pause. “Male Sexual Orientation Affects Sensitivity to Androstenone.” Chemosensory Perception 2, no. 3 (September 1, 2009): 154–160. doi:10.1007/s12078-009-9047-3. http://link.springer.com/content/pdf/10.1007/s12078-009-9047-3

Liu, Yan, Yunxia Si, Ji-Young Kim, Zhou-Feng Chen, and Yi Rao. “Molecular regulation of sexual preference revealed by genetic studies of 5-HT in the brains of male mice.” Nature 472, no. 7341 (2011): 95-99. http://www.nature.com/nature/journal/v472/n7341/full/nature09822.html

== Repercussão deste vídeo ==

1) http://www.bulevoador.com.br/2013/02/resposta-de-geneticista-a-silas-malafaia/
2) http://www.bulevoador.com.br/2013/02/comentarios-a-algumas-repercussoes-do-video-resposta-de-eli-vieira-ao-pastor-silas-malafaia/
3) http://www.bulevoador.com.br/2013/02/jurista-responde-a-silas-malafaia-maria-berenice-dias/

== Sobre a questão ética ==

1) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200760585403341
2) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200841179138134
3) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200847108126355

== A Primeira Resposta de Malafaia a este vídeo: recheada de falácias ==

http://www.enfu.com.br/mentiras-de-silas-malafaia/

== Sobre a segunda resposta de Malafaia em vídeo: ataques pessoais de quem não sabe o que é debate ==

Resposta de Izzy Nobre: http://www.youtube.com/watch?v=iOe-eVuJdco

Minhas respostas:

1) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200836920671675
2) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200836417139087
3) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200836432339467
4) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200836796428569
5) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200837198718626
6) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200840650444917
7) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200840816969080

== A ambição política de Malafaia de juntar seu grupo de fé em torno de um “grupo inimigo” ==

http://ateiadebomhumor.ligahumanista.org/2013/02/a-cortina-de-fumaca-de-silas-malafaia.html

== Desfecho ==

Recusei a maior parte dos convites para entrevistas e espero a repercussão na Sociedade Brasileira de Genética:
https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200841315621546

8th of May

Vulnerável como um filósofo na savana: Plantinga tenta atacar ateísmo com evolução


Autor: Eli Vieira

O filósofo cristão Alvin Plantinga elaborou mais um argumento contra o naturalismo/materialismo ateu, porque parece que os anteriores não adiantaram. Ele alega que a teoria da evolução e o naturalismo são como “água e óleo”. Ele lembra, corretamente, que a maior parte dos cientistas atualmente é naturalista, inclusive os biólogos (“biólogos evolucionistas” é algo já meio pleonástico), mas parece que esses cientistas sofrem de algum mal cerebral terrível, por serem ao mesmo tempo evolucionistas e naturalistas, quando as duas posições são logicamente incompatíveis entre si, coisa que, obviamente, somente iluminados como Plantinga são capazes de enxergar.
Você pode ler tudo o que ele diz no blog Coletivo Ácido Cético. O filósofo parece imitar seu colega também cristão William Lane Craig, ao alegar que a maioria dos cientistas são irracionais. No caso de Craig, como mostrou o filósofo Michael Martin quase 15 anos atrás, a implicação lógica de sua epistemologia do Espírito Santo é que a maior parte da humanidade é irracional ao nível dos zumbis. Isso não impede, é claro, que Craig continue repetindo os mesmos argumentos até hoje. No caso de Plantinga, a implicação é que a maior parte dos cientistas é mais irracional que uma cobra comendo o próprio rabo.
O argumento de Plantinga pode ser resumido no exemplo que ele mesmo usou, do sapo que captura uma mosca. Em termos evolutivos, argumenta ele, é tão vantajoso evolutivamente (ou seja, adaptativo) que o sapo creia que a mosca seja mesmo uma mosca quanto que ele creia que a mosca é uma pílula capaz de transformá-lo num príncipe. O que interessa para a evolução é que o sapo que capturar a mosca terá vantagem em sobrevivência e reprodução. Se a seleção natural não enxerga a diferença entre crenças verdadeiras e falsas do sapo, também não enxerga a diferença entre crenças verdadeiras e falsas do nosso cérebro primata, tornando improvável que uma crença no naturalismo seja verdadeira, pois as nossas capacidades cerebrais teriam sido moldadas pela evolução de qualquer forma como estão, ainda que todas as nossas crenças fossem falsas (Plantinga até ensaia um cálculo de probabilidades, extremamente questionável, mas não vou me dar ao trabalho de atacar isso). Em poucas palavras, a evolução são sabe o que é a verdade, porque a verdade não interessa para as chances de sobrevivência e reprodução.
6th of April

Qual a maior prova da Evolução?


A evolução está escrita em cada micrômetro do seu corpo. Toda célula tem todo o material genético necessário para a construção do corpo inteiro. Isso é porque bilhões de anos atrás cada célula era um indivíduo isolado, depois começaram a viver juntas como organismo (cerca de 800 milhões a um bilhão de anos atrás quando surgiram os primeiros animais, parecidos com esponjas). Em média cada célula viva sua tem 1000 mitocôndrias, cada mitocôndria ainda carrega duas membranas e um monte de moléculas circulares de DNA dentro delas, exatamente como as bactérias modernas. michelsonQuando você se olha no espelho, cada pedaço seu é uma relíquia do passado evolutivo. Seus cabelos e sobrancelhas têm cerca de 200 milhões de anos, foi quando eles surgiram a partir da modificação de escamas. Seus olhos têm cerca de 500 milhões de anos, foi quando a planta de sua construção foi primeiro esboçada em cordados que nadavam pelo mar. Seu nariz e seu queixo são bem mais recentes, têm cerca de 200 mil anos, que foi quando nossa espécie nasceu na África. Eu me alegro de saber essas coisas, me faz entender por que tantas culturas cultuam os ancestrais. A propósito, o próximo Bulecast ( http://vimeo.com/channels/bulecast ) será sobre evolução e já convidei o Rodrigo Véras do http://Evolucionismo.org e o Átila Iamarino do Rainha Vermelha. P. S.: Não acho a palavra “prova” adequada à justificação de teorias em ciências empíricas como física e biologia, e já expliquei por que aqui.

30th of October

5 criacionistas desonestos do Brasil


Peço desculpas pelo título ligeiramente pleonástico. Já sei o que você vai dizer: “Eli, por que você perde tempo com essa gente?” A resposta eu tiro da pena de H. L. Mencken (1924):

“O iconoclasta se afirma quando prova com suas blasfêmias que este ou aquele ídolo não passa de uma besta – e deixa cheio de dúvidas pelo menos um dos que o ouvem. A liberação da mente humana avançou muito quando alguns gaiatos depositaram gatos mortos em santuários e depois saíram pelas ruas espalhando que aquele deus no santuário era uma fraude – provando a todo mundo que a dúvida era uma coisa legítima. Um relincho vale por 10 mil silogismos.”

Quem é o ídolo-besta aqui? Eu diria que são as ilações desonestas de certos indivíduos que perdem a noção da argumentação racional quando a mesma ciência que usam para postar em seus blogs e vacinar suas crianças começa a pisar em seus sensíveis calos religiosos, que só estão em seus pezinhos porque essas pobres pessoas tiveram a infelicidade de sofrer doutrinação na infância, de um modo tão dramático que qualquer pontinha de dúvida parece lhes causar irritação e lágrimas. Mesmo que seja dúvida alheia. Não suportam ver que a biologia moderna está sustentada sobre um pilar central chamado teoria da evolução. Não suportam ver que áreas completamente independentes dentro das universidades, como a cosmologia na física, as neurociências na fisiologia e na psicologia, e a estatística em todas elas e muitas mais, colocam sua biblicomania onde ela merece estar: no compêndio de mitos que a imaginação humana já criou e não servem para nada quando se trata de investigar objetivamente o que este universo, este planeta, esta espécie e esta mente são, já foram ou poderão ser. E o gato morto é uma coisa que eles chamam pelo anglicismo “design inteligente” ou pelo tradicional arroz-com-feijão “criacionismo”. A diferença entre as duas coisas é algo que estamos aguardando desde que o tal Discovery Institute lançou o infame documento Wedge – cuja intenção é marretar uma cunha (wedge) de obscurantismo na menor das frestas políticas de atividades seculares da Humanidade como a ciência. (Jerry Coyne já tentou ver alguma diferença entre criacionismo e DI, sem grande sucesso.) Eis o meu relincho iconoclasta contra cinco dessas criaturas, a seguir (se bem que eu tenho muitas dúvidas sobre quem está relinchando aqui). Vamos ao primeiro.

1 – Enézio de Almeida

Procure qualquer notícia sobre biologia evolutiva na internet. Qualquer uma mesmo. Para cada uma delas, na faixa cronológica dos últimos quatro anos, você provavelmente encontrará um relincho comentário correspondente num certo blog tocado por este homem que atende pelo nome de Enézio de Almeida Filho. Meu problema com Enézio nem é tanto o fato de ele defender esse criacionismo versão cavalo-de-Troia cuja tradução correta do nome seria “Projeto Inteligente”. Muito pior que ele se agarrar com todas as forças de seu coraçãozinho a uma hipótese falida é sua absoluta incapacidade de realmente refutar um argumento alheio, e igualmente grande inanidade em defender seu próprio ponto de vista que tem óbvias raízes na religião. Evidências para minhas acusações? Claro que tenho. Vejamos duas:

  • A resposta de Enézio para o site da Ciência Hoje, quando este se recusou a publicar as chorumelas do criacionista Marcos Eberlin sobre o artigo de Sérgio Pena, foi uma barafunda de insinuações à moda das piores teorias da conspiração. Para ele a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) tem possibilidade de cortar as verbas do laboratório de Eberlin porque ele tentou publicar alguma besteirinha fundamentalista numa revista de divulgação científica. Evidências do Enézio? Bem… esta é a pergunta que mais dói nos calos dele. Detalhe: ele também quer a demissão do editor da CH online.
  • Enézio parece achar que copiar e colar textos de evolução em seu blog e depois comentar alguns parágrafos é o suficiente para desacreditá-los, sendo esses parágrafos meras repetições de sua infindável agenda pseudocientífica, meras afirmações sem sustentação alguma em literatura científica. Exemplo: em resposta ao artigo de divulgação de Reinaldo José Lopes sobre o fóssil Ardi, publicado na Folha, Enézio fez uma série de perguntas e recomendou postagens de blogs como o de Casey Luskin, um apologeta para o já citado Discovery Institute (dedicado a chorar pitangas pelo fracasso do criacionismo há décadas). Enézio, tão preocupado em olhar as diretrizes de publicação da Ciência Hoje supostamente traídas pela recusa de publicação da réplica de Eberlin, diminui bastante seu zelo quando tenta refutar uma publicação científica mostrando o parentesco entre o Ardipithecus ramidus e o Homo sapiens. O que eu não engulo é que Enézio não saiba a diferença entre divulgação e publicação científica, e que uma publicação científica só pode ser refutada com outra publicação científica.

Mas, em meio a tantas críticas à pesquisa em biologia evolutiva, onde estão as evidências de Enézio para a criação? Em sua defesa, Enézio poderia inventar que a tal “complexidade irredutível” é evidência positiva de criação, por isso tentou defendê-la desesperadamente nos comentários do blog RNAm. Como eu disse naqueles mesmos comentários, non sequitur é pensar que ainda que exista algo irredutivelmente complexo, só poderia ter vindo das mãos de um artífice inteligente fantasmagórico que tem como hobby mandar seus filhos semideuses para sangrar até a morte pregados em pedaços de pau na Terra. E o maior defensor da ideia de complexidade irredutível, Michael Behe, reconheceu que ela não implica em criação (caso existisse complexidade irredutível, o que também não é o caso). E até hoje Behe está devendo uma reformulação do conceito de complexidade irredutível que ele prometeu em seu texto Reply to My Critics (Biology and Philosophy, 2001). Desnecessário dizer que a publicação em que Behe apresenta a ideia, o livro “A caixa preta de Darwin”, passa bem longe de ser uma publicação científica revista por pares.

“Behe teve de admitir que não havia uma única publicação revista por pares em ciência que apoiasse sua visão sobre sistemas biológicos irredutivelmente complexos que não pudessem ser possivelmente explicados pela evolução. Behe admitiu em sua “Réplica a Meus Críticos” (Reply to My Critics) que apontar para um sistema irredutivelmente complexo (onde uma parte faltante causaria o colapso do funcionamento do sistema) não era o mesmo que evidenciar que tal complexidade irredutível não pudesse emergir através da seleção natural. Na biologia evolutiva o conceito de exaptação é largamente usado para explicar a evolução de uma característica biológica que sirva uma função num ponto da evolução e muda para outra função depois devido a mudanças no sistema em questão. (…) Para piorar, Behe tinha descrito (1) o flagelo bacteriano, (2) a cascata de coagulação e (3) o sistema imunológico como três sistemas irredutivelmente complexos. Porém, Kenneth Miller, professor de biologia da Universidade Brown e especialista em biologia celular, mostrou evidências sólidas no julgamento [de Dover] de que foi mostrado em pesquisa científica revista por pares que cada um desses sistemas não eram irredutivelmente complexos.”

Fonte: Foster, Clark & York. Critique of Intelligent Design. Monthly Review Press, 2008. Página 15. A sentença do juiz ao final do julgamento de Dover é que Design Inteligente é sim criacionismo disfarçado tentando mais uma vez, numa guerra de mais de 80 anos, se enfiar nas escolas públicas dos Estados Unidos, onde a constituição proíbe o proselitismo religioso no ensino público. As evidências analisadas pelo juiz incluíam o livro didático “Of Pandas and People” ligado ao Discovery Institute, que continha reaproveitamento de parágrafos inteiros de publicações criacionistas anteriores. Uma análise até mostrou que alguém de fato substituiu “criacionistas” por “proponentes do design inteligente” às pressas no texto para tentar mascará-lo como se fosse científico. (Isso na esperança vã de estabelecer DI como ciência.) Enézio, à maneira como muitos criacionistas como Kirk Cameron alegam ter sido descrentes no passado, diz que foi um evolucionista de carteirinha. Que estranho um ex-evolucionista que não entende o conceito básico de exaptação (que explica justamente a suposta lacuna que Michael Behe tenta preencher com a complexidade irredutível), que não sabe que referência científica se refuta com referência científica, e ainda vive de colher proselitismo em blogs de fundamentalistas como Casey Luskin (procure este nome no YouTube para saber de quem se trata – é o Brasil importando porcaria enlatada dos EUA denovo). Relinchos de um blog podem ser refutados por relinchos de outro blog, por isso, Enézio, sua desonestidade persistente nesse seu blog lotado de coisas que são boas e não são suas e coisas suas que são um lixo, você ganha a medalha de ouro da desonestidade criacionista tupiniquim. Ainda que caia a teoria da evolução, Enézio, e Ardi seja um boneco fabricado durante uma noite, onde estão suas evidências para a criação? Por que você não se ocupa de fornecê-las em seu blog em vez de inventar conspirações em volta da SBPC e do mundo acadêmico?

2 e 3 – Michelson e Eberlin

Vão dividir a medalha de prata o jornalista Michelson Borges e o químico Marcos Eberlin. Achei que o Michelson não merece uma posição só para ele, só porque o nível dos blogs dele é abaixo de medíocre. Estou exagerando? Não estou. Que outro nome você dá para um blog que diz que o Ardipithecus ramiduscontinua macaco”, que coloca “sic” depois da idade de um fóssil sem fornecer refutação aos métodos com que foi determinada, que insiste na falácia constante de que se uma coisa é complexa, só pode ter sido projetada por alguém inteligente? Se você não chama isso de medíocre, está tomando esta alcunha para si. Em compensação, Michelson não é nada medíocre para fazer apresentações de powerpoint. Mas o conteúdo é quase zero. Como no dilema de Brás Cubas (“coxa, porém bonita, bonita, porém coxa”) – bonitos slides, porém inanes. Sem falar na pregação barata de ficar publicando relatos de crentes que supostamente receberam alguma coisa de Deus (geralmente algo facilmente obtido por esforço próprio) . E ainda estamos esperando um único caso de perna amputada que tenha crescido denovo com a força da oração. A desonestidade do Michelson não é tão grande quanto a do Enézio. Reside apenas na insistência dele em falar do que não sabe. Obviamente, uma pessoa que é criacionista no mínimo está precisando aprender muitas coisas, a começar pela definição de Darwin de que a evolução acontece em populações e não em indivíduos, e que não é melhoria mas apenas mudança. Isso já corta a maioria das alegações criacionistas sobre a biologia evolutiva. Para encontrar várias delas basta navegar pelos blogs do Michelson, que são um atavismo haeckeliano do criacionismo americano, que eventualmente evoluiu para a posição defendida pelo Enézio. Ah, Michelson, sobre aquele monte de besteiras que o Diogo Mainardi disso sobre aquecimento global e você amou e reiterou, pense em ler algo realmente referenciado cientificamente a respeito. Porque Mainardi não é cientista (questiono também se é jornalista… ou colunista…) e a Veja não é revista de ciência. Agora vamos para o superstar do criacionismo brasileiro, Marcos Eberlin. Michelson e Enézio adoram lembrar que Eberlin tem um currículo científico extenso, tendo recebido honrarias por seu trabalho com a química orgânica, como a recente eleição para presidente da Sociedade Internacional de Espectrometria de Massa. Querem ver o Eberlin sendo honesto? Leiam os artigos científicos dele. Querem vê-lo sendo desonesto? Leiam tudo o que ele escreve sobre evolução fora desses artigos. Aliás, Michelson e Enézio não se dão ao trabalho de informar que nenhum dos artigos de Eberlin defende realmente o criacionismo. No currículo Lattes de Marcos Eberlin as palavras “criação” e “criacionismo” não aparecem nem uma única vez. Que estranho! O tão falado “cientista criacionista” não tem nenhuma publicação científica sobre criacionismo? A argumentação extra-científica de Eberlin consiste em pregação barata mesclada a alegações falaciosas, por exemplo, a falácia non sequitur, ao dizer que se todos os aminoácidos do corpo humano são levógiros e todos os açúcares são dextrógiros, foi porque Deus deu uma de Pasteur e separou os cristais desses compostos lá no barro de Adão. Pelo visto justificação epistemológica é uma expressão que Marcos Eberlin nunca ouviu na vida dele. Alguém por favor conte a Eberlin que vários seres vivos utilizam aminoácidos dextrógiros, basta ele procurar qualquer livro de bioquímica, como o de Lehninger. E que se uma espécie usa um só tipo de quiralidade de aminoácidos, explicações racionais e plausíveis são economia de energia na produção de enzimas (coisa que a seleção natural explica) ou herança de um padrão primordial em espécies ancestrais (uma não exclui a outra). Mas estou falando em espécies ancestrais? Até isso parece que Eberlin nega. Deve ser difícil viver negando freudianamente fatos da natureza. Ah, Eberlin, e no meu entender, compreender que os padrões geométricos dos cristais derivam do princípio da menor energia, e não do gosto estético de uma entidade fantasmagórica para a qual você não tem nenhuma evidência, deveria ser considerado um pré-requisito para alguém querer ser um químico respeitado. Aguardo Enézio e Eberlin pararem de fazer acusações contra os outros e fornecerem evidências positivas para a criação. (Acho que aguardarei sentado até morrer.)

4 e 5 – Adauto e Malafaia

Dividindo a medalha de bronze, duas figuras muito… interessantes? Sim, se interessante significa hilariante. Adauto Lourenço é um dos criacionistas brasileiros que provavelmente mais ganha dinheiro fazendo palestras pelo país, geralmente em instituições religiosas (com algumas tentativas frustradas de fazer proselitismo em universidades). O Adauto é ainda mais medíocre em argumentação e conteúdo que Michelson Borges, mas faz algo que este não faz: apela para sua própria autoridade insistentemente, brandindo seu diploma pela universidade fundamentalista Bob Jones (uma universidade americana que há não muito tempo discriminava os negros em suas dependências). Além deste diploma, Adauto adora associar seu nome a instituições científicas respeitadas ao redor do mundo nas quais fez breves estágios (veja este tópico do fórum Club Cético). Quando não está falando que é isso ou aquilo, Adauto geralmente está falando altas besteiras sobre evolução, praticamente todas listadas nos típicos erros criacionistas. Ele parece representar também um atavismo do criacionismo americano no aspecto de inflar o currículo. Bette Chambers, uma americana de Lacey, Washington, contou-me que antes da internet surgir ela chegou a encontrar criacionistas que, em seus currículos, inventavam universidades que não existiam para parecerem respeitáveis o suficiente ao ponto de ter liberdade para dizer asnerias sobre evolução. Silas Malafaia não precisa inventar currículo, nos lembramos muito bem dele, na época em que usava bigode, apoiando Edir Macedo. Agora é todo críticas contra a Igreja Universal, mas ao mesmo tempo pede centenas de reais para seus telespectadores para uma tal “unção financeira”. Faltou dizer que o beneficiário da unção financeira não é o telespectador. Meu amigo evangélico Eliel Vieira elaborou uma crítica ao Malafaia que vale a pena ler. Tenho preguiça de refutar o que Silas Malafaia diz sobre a evolução e os evolucionistas. Já fizeram isso por mim na lista dos típicos erros criacionistas. Só me resta dizer que Malafaia é tão confiável falando de ciência quanto prometendo a unção financeira que ele vai te dar se você depositar 900 reais onde ele quer.
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