5th of June

Identidade de gênero e orientação sexual: militância versus evidência


O que diz a militância:
 
Identidade de gênero e orientação sexual são coisas completamente separadas. Identidade de gênero é como a pessoa se vê (se homem, mulher, ou nenhum dos dois), orientação sexual é por quem a pessoa se atrai. Dessa forma, identidade de gênero e orientação sexual variam independentemente.
 
O que dizem as evidências:
 
Os fatores que causam a orientação sexual e a identidade de gênero são intimamente relacionados. Se não são os mesmos, ao menos a intersecção entre os dois conjuntos de fatores causais é grande. De outra forma não se poderia explicar por que, através das culturas, a maioria (90% ou mais) das pessoas são heterossexuais e mais de 99% não sofre disforia de gênero nem é intersexo.
 
Disforia é a sensação de sofrimento psíquico por crise identitária de quem não se conforma ao gênero com que foi rotulado ao nascer. Nos casos mais severos, manifesta-se bem cedo em crianças e pode levar à automutilação.
 
Pessoa intersexo era conhecida antes pelo termo “hermafrodita”, um termo bonito, que vem dos deuses gregos Hermes e Afrodite, termo que o politicamente correto – sisudo e sem poética – condenou ao ostracismo. 1 em 2000 pessoas são intersexo, apresentando variados graus de ambiguidade de características sexuais primárias e secundárias.
 
Claramente identidade de gênero é relacionada à orientação sexual também porque uma parte substancial (quiçá a maioria) de pessoas homossexuais apresentam alguma não-conformidade de gênero na infância e adolescência (em outras palavras: muitos homens gays foram meninos que já usaram vestidos, sapatos e maquiagem da mãe – é um indicativo, não uma sentença). Além disso, a maioria, entre 50 e 88%, das crianças que manifestam disforia a resolvem com o tempo sem transição para outro gênero. Isso sugere que a transição só é terapêutica para uma minoria das crianças que manifestam disforia. A maioria, que não cresce trans, geralmente é gay. Novamente: identidade de gênero e orientação sexual são intimamente relacionadas.
 
Isso contradiz a insistência de que tudo o que é necessário para considerar uma criança “trans” é que ela manifeste disforia. Na verdade, a probabilidade maior é que não seja trans, mas gay. Também contradiz a noção de que basta uma criança dizer que é de outro gênero para aceitar que é mesmo. Não é transfóbico pensar que há uma probabilidade substancial de ela não ser: é o resultado mais provável. Isso, obviamente, não é desculpa para forçar a minoria que cresce para ser trans a não ser trans: estamos falando aqui do resultado mais terapêutico para seu desenvolvimento, e repito que para 12 a 50% dos casos o melhor curso de ação é a transição. Se você acha que uma pessoa trans sofre (e geralmente sofre, disforia é horrível), imagine então como sofre uma pessoa que fez transição, retirou mamas, tomou hormônios, porque ouviu que essa era a sua única opção, e depois se descobre não-trans e tem que viver com resultados permanentes de uma decisão tomada sem clareza suficiente sobre quem ela é. É a minoria de transicionados, mas existem (a idéia não é proteger minorias?).
 
Disforia está correlacionada com outros trantornos psiquiátricos. Não se pode atribuir todos os problemas psíquicos das pessoas trans à resistência da sociedade à sua transição. Sim, há muita transfobia e sofrimento causado por ela. Mas há mais coisas. A narrativa de “nasceu no corpo errado” não se aplica a todas as pessoas trans.
 
Finalmente, para botar um último prego no caixão da idéia de que identidade de gênero e orientação sexual são totalmente distintas e não relacionadas, vou falar de um tipo de transexualidade que essencialmente é uma orientação sexual. Trata-se da autoginecofilia. Autoginecófilas são mulheres trans (nascidas com sexo masculino) que têm atração sexual por si mesmas como mulheres. O conceito é um pouco difícil de entender quando se ouve falar nele pela primeira vez, mas existe e já foi descrito pelo cientista do sexo Ray Blanchard em detalhes. As autoginecófilas, como as outras trans (estas mais próximas de “nascidas no corpo errado”), podem fazer a transição hormonal e genital como terapia. Não é um fetiche, mas uma orientação-sexual-identidade-de-gênero que é parte fundamental de quem elas são. Alice Dreger, estudiosa da intersexualidade e de conflitos entre pesquisadores e ativistas, descreve o caso de uma mulher trans autoginecófila que chegou a raspar cirurgicamente o osso acima da sobrancelha, e conta que teve uma sensação de êxtase quando, depois da cirurgia, nos banhos o xampu passou a escorrer dos cabelos e chegar aos olhos, irritando-os. Porque tomar banho com um “guarda-chuva natural” acima da sobrancelha formado por esse osso seria coisa de homem. Alice, que é mulher nascida com vagina, diz que em toda a sua vida como mulher nunca tinha pensado nisso. Conto a história não para apontá-la como bizarra, mas para apontar o quão profunda é a identidade feminina para uma trans autoginecófila, tanto quanto para outras trans. (Outra evidência de que há ao menos esses dois tipos de mulheres trans é que as autoginecófilas tendem a gostar de mulheres e as outras tendem a gostar de homens.)
 
Portanto, enquanto ainda há muita ignorância sobre as origens tanto da orientação sexual quanto da identidade de gênero, está claro o suficiente que os dois conceitos são separados apenas para facilitar a compreensão de certas questões (ou por dogmatismo de ativistas), mas o mundo em si não os separa tão bem assim. Se engana quem pensa que não têm nada a ver com biologia, ou quem pensa que têm a ver apenas com biologia – os mais astutos devem ter percebido que a mulher trans de uma cultura pode ser o homem gay de outra.
 
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Referências
 
Sobre a provável maioria das crianças disfóricas não transicionar, vide Associação Psicológica Americana. https://www.apa.org/practice/guidelines/transgender.pdf
 
Sobre a proporção de intersexos na população, sobre histórias cabeludas de ativistas atrapalhando o avanço da ciência nessas questões, vide Alice Dreger: Galileo’s Middle Finger. https://g.co/kgs/oiUoOU
 
Sobre mulheres nascidas com pênis se assemelharem no cérebro a mulheres nascidas com vagina, e sobre homossexuais manifestarem não-conformidade de gênero, vide Bao & Swaab 2011. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21334362
 
Sobre disforia estar correlacionada a outros transtornos, ver este estudo escandinavo que relatou que ela é geralmente precedida por outros transtornos e que é muito comum o autismo: https://capmh.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13034-015-0042-y
24th of March

Resumidíssimo: por que gênero não é construção social Explicado em menos de 2600 caracteres, publicado originalmente no jornal O Tempo, 24 de março de 2017.


No livro “The Social Construction of What?”, Ian Hacking lista mais de 50 coisas que já se alegou que são construções sociais: emoções, sexualidade, doença, quarks etc., até fatos, realidade e conhecimento. É moda alegá-lo sem provas. Algo construído não estava ali para ser descoberto, e socialmente construído é algo que foi feito por uma sociedade e não por qualquer outra coisa. Alega-se que gêneros são também construídos socialmente. Esta é uma alegação determinista cultural sobre o gênero, uma inversão de determinismos biológicos igualmente equivocados, como o cromossômico. Já no berço, antes de aprender qualquer cultura, meninas já diferem de meninos no tempo em que olham para móbiles ou faces.

Se gênero fosse construção social, sob o igualitarismo homens e mulheres se aproximariam em escolhas de carreira. Ocorre o oposto: quanto mais igualitárias as sociedades, maior a diferença na escolha de carreira entre gêneros. A preferência masculina por carrinhos e feminina por bonecas vai além da espécie humana, macacos também a manifestam. Não parece ser o caso com preferência por azul ou rosa, que depende da cultura.

A maior descoberta da genética do comportamento é que nenhum comportamento é destituído de biologia. Outra é que nenhum comportamento é livre de ambiente. A dicotomia “natureza vs. cultura” é obsoleta, temos “natureza e cultura”. Somos culturalmente moldados na nossa natureza: sem a cultura do fogo, a savana em que evoluímos não teria energia suficiente para suprir o cérebro. Somos também biologicamente propensos à cultura: somente nossos filhotes ensinam já no início da infância. O gênero é feito de um cerne natural fruto da evolução ao qual são adicionados acessórios que são construções sociais. Gênero é o sexo que está entre as orelhas.

Contraste o gênero com uma categoria que é construída: a casta indiana. As castas começaram com uma invasão, e chegaram a milhares em poucos milênios. Não é o caso do gênero: não há cultura em que o número de gêneros tenha sequer chegado a dez, mesmo com gêneros precedendo castas. O que temos são culturas com categorias como “homem”, “mulher” e “fa’afafine” (em Samoa). O número de gêneros tem um limite inferior ao das castas, dado pela biologia. Há dimorfismo anatômico e comportamental, orientações sexuais, características que culturas lêem como essenciais às suas categorias de gênero.

Quem tem medo desses fatos confunde o projeto ético da igualdade de direitos e oportunidades com a engenharia social de forçar paridades. Além de tratar pessoas diferentes com igualdade, também devemos contar-lhes a verdade.

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Para referências, leia este texto do Dr. Larry Cahill.

Cérebro fetal por volta das 12 semanas de gestação. Enciclopédia online de embriologia do Dr. Mark Hill.
12th of January

Pequeno guia para quem quer formar opinião sobre aborto


A discussão sobre o aborto não é uma discussão sobre o que é vida. Isso é outro assunto. Talvez essa confusão vem de um dos direitos envolvidos ser chamado de “direito à vida”. Um termo um pouco confuso. No lugar de “direito à vida”, poderíamos falar em “interesse real ou atribuído de não ter sua própria existência interrompida”. Quando se diz que alguém tem direito à vida, a ideia é que essa pessoa tem interesse neste momento em continuar existindo, e que seria injusto que alguém a matasse. Há cenários em que é justo que esse interesse de continuar existindo seja ignorado em nome de coisas mais importantes. Se a pessoa em questão se tornasse uma ameaça iminente à vida de outra pessoa, ela poderia ser morta para preservar o interesse da outra em continuar existindo. A isso damos apropriadamente o nome de “legítima defesa”. Mas como as ocasiões em que é justo atropelar um interesse de viver são raras e extraordinárias, na maior parte das situações é injusto matar, então faz sentido dizer que há um direito à vida.

A maior parte das pessoas consegue expressar que tem o interesse de continuar vivendo. Algumas são incapazes de expressar esse interesse, mas isso não significa que ele não está ali. Nós atribuímos esse interesse a quem é incapaz de expressá-lo, quando vemos plausibilidade nessa atribuição. Os vegetarianos, por exemplo, acreditam que vacas, porcos, galinhas e peixes têm interesse em viver, mesmo que não possuam mentes capazes de expressá-lo, e que é injusto interferir nesse interesse para produzir alimentos quando alternativas existem. Fetos e crianças pequenas também não têm capacidade de expressar interesse em continuar vivos, então nós atribuímos a eles esse interesse. Quem é contra o direito de escolher abortar em qualquer situação acredita que não há ocasião plausível em que seja justo interferir nesse interesse atribuído de viver dos embriões, fetos, e bebês em gestação (usamos os três nomes em sequência no desenvolvimento, mas nem sempre há critério objetivo para mudar de um para outro). Quem é a favor da ideia de que há ocasiões em que é permissível abortar crê que há fases no desenvolvimento humano em que não é correto atribuir o interesse de viver ao ser em gestação, deixando portanto a gestante completamente livre para escolher terminá-la; ou que mesmo havendo algum tipo de interesse em viver, ele não é mais justificado em ser protegido que algum outro interesse conflitante da portadora do útero.

É mais fácil defender a permissibilidade de abortar quando o ser em gestação não tem interesse de natureza alguma, nem mesmo atribuível. Parece ser o caso se o cérebro dele ainda não é funcional. O sistema nervoso começa seu desenvolvimento cedo na gestação, mas termina muito tarde. Como o tecido neural é o mais “nobre” e o cérebro é o nosso órgão mais complexo, isso não é surpresa. A funcionalidade vai aparecendo aos poucos no desenvolvimento, se concentrando nas fases mais tardias. Há um consenso de que é extremamente improvável que o cérebro seja funcional até o fim do primeiro trimestre. O cérebro do feto, às 12 semanas, é como mostrado na imagem: liso, com poucos giros, e, mais importante que isso, há poucas e esparsas conexões entre os neurônios. Sabendo um pouco da relação entre cérebro e mente, atribuir interesses a esse cérebro desconectado é como dizer que mil computadores sem nenhuma conexão entre si fazem uma internet.

Às 12 semanas, o feto parece ser uma pequena pessoa com menos de 10 centímetros. Mas a ciência nos ensinou que aparência não é tudo. O sol aparenta ser um corpo celeste menor que a Terra que orbita em torno dela, mas a aparência é enganosa. A água aparenta poder ser divisível infinitamente, mas as aparências enganam. Crianças pequenas costumam atribuir vontades e interesses ao fantoche em vez de ao ator que mexe sua boca. Adultos devem ter mais capacidade de ir além das aparências e se perguntar se há motivos para crer que fetos do primeiro trimestre têm realmente interesse de viver, ou qualquer outro interesse, dadas as evidências sobre o estado de desenvolvimento de seus cérebros. Por isso, continuar apontando para a aparência do feto depois de que tudo isso foi dito é nada mais que falácia de apelo à emoção: na incapacidade de convencer alguém pela razão, apela-se para suas reações emocionais irrefletidas. Nós não pensamos que pessoas com morte cerebral corretamente diagnosticada têm interesse de continuar vivendo, e doamos seus órgãos para favorecer os interesses de outras pessoas. Isso é uma decisão eticamente correta, dependente de conhecimentos sobre o que significa um cérebro deixar de funcionar. Agora precisamos pensar com o mesmo rigor sobre como devemos tratar pequenos organismos nos quais o cérebro não começou a funcionar. É importante destacar aqui que as 12 semanas são um limite conservador, e que se é este o limite escolhido por lei, boa parte das interrupções de gestação acontecerão antes, quando há menos semelhança ainda do cérebro do feto com um cérebro desenvolvido e funcional.

Alguém poderá dizer que o conhecimento científico é sempre incompleto, e isso é verdade. Mas nós mesmo assim precisamos fazer decisões de vida ou morte com base nele todos os dias, como médicos sabem. Pedir por mais evidência é sempre melhor que confiar em autoridade, tradição e votos de leigos. Notar a falibilidade da ciência é motivo para buscar saber mais, não um motivo para sair buscando o que por acaso confirmar nossos preconceitos. Querem que eu mude de ideia sobre aborto ser permissível no primeiro trimestre de gestação? Tragam evidência de que fetos nessa fase têm um cérebro funcional, interconectado, minimamente capaz de abrigar interesses. Também ajudaria se pudessem me explicar por que devemos nos desdobrar para proteger esses fetos, quando há mais “humanidade” (imaginação, prazer, dor, intenções e interesses) em animais que matamos para comer. E quem pensa diferente – que aborto é algo tão tabu que não há nem mesmo cenários de “legítima defesa” de outras coisas que o permitam – será que sabe o que é necessário para mudar de ideia? Ou é incapaz de sequer imaginar um estado de coisas que torne sua opinião errada?

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Recursos

Peter Singer. 2006. “Ética Prática”.

Mark Hill. 2016. Enciclopédia Online de Embriologia. Origem da imagem usada. Cobre sempre a origem de imagens de fetos, pois ativistas pró-vida frequentemente usam fetos de gestação tardia para aumentar o efeito do apelo à emoção.

Stuart W. G. Derbyshire. 2006. Can fetuses feel pain?

The Androgynous Form of Shiva and Parvati (Ardhanarishvara). India, Uttar Pradesh, Mathura, 2nd-3rd century sculpture. Mottled red sandstone. Los Angeles County Museum of Art.
11th of July

Por que gênero NÃO É construção social


Embora a alegação de que várias propriedades humanas são “construção social” tenha se tornado moda em setores das humanidades e ciências sociais, geralmente pouca evidência é fornecida para justificar alegações de construção social. O próprio conceito de “construção social” é frequentemente ambíguo demais. Depois de remover as maiores ambiguidades, o filósofo Paul Boghossian providenciou uma definição de construção social mais clara e mais alinhada com os próprios interesses dos acadêmicos do ramo. A definição dele pode ser parafraseada assim: o que se quer dizer quando se alega que uma coisa é socialmente construída é que ela foi criada intencionalmente por uma sociedade em particular para atender a seus próprios interesses, e é contingente aos caprichos dessa sociedade de tal forma que essa coisa não existiria de outro jeito (não existiria, por exemplo, se essa sociedade tivesse interesses diferentes, ou se a construção tivesse sido feita por uma sociedade diferente).

Algumas coisas socialmente construídas ocorrem através de diferentes culturas. O dinheiro, por exemplo, foi construído independentemente por algumas sociedades para fazer a troca de bens, e porque a maioria das sociedades de hoje está interessada em trocar bens eficientemente, o dinheiro se tornou quase universal. Mas se as sociedades que usam dinheiro tivessem interesses diferentes, o dinheiro poderia nunca ter existido. Então é claro o bastante que o dinheiro é construção social.

Mas e as categorias de gênero como “homens”, “mulheres” e “fa’afafine” (uma categoria de Samoa que se aproxima do que chamamos de homens gays afeminados)? São construção social? Eu penso que não. Pelas seguintes razões:

  • As culturas são criativas, então coisas socialmente construídas costumam ser diversas e numerosas, como as diferentes moedas que o mundo teve na história. Pense também em castas indianas. Há 3000 castas diferentes na Índia, e ainda mais subcastas. Comparado a castas e moedas, o número de categorias de gênero parece ser tediosamente baixo – duas no Brasil, três em Samoa, com nenhuma sociedade tendo atingido números de dois dígitos, até onde sei. As castas indianas parecem ser mais prováveis de serem construções sociais, ao ponto de ser possível explicar sua existência com base em fatos históricos conhecidos sobre as culturas indianas.
  • As culturas têm certo poder de decisão sobre com quais categorias de gênero trabalharão e quantas existirão. Mas as razões pelas quais elas têm categorias de gênero não são construção social. São elas: (1) o dimorfismo sexual dos corpos humanos, seguido estritamente por todos os corpos com exceção de um pequeníssimo número deles; (2) um número limitado de orientações sexuais que ocorrem naturalmente e que existem por causa do dimorfismo sexual dos corpos (homossexualidade, heterossexualidade e bissexualidade) – a herdabilidade da orientação sexual é de moderada a alta e algumas das regiões genômicas envolvidas nisso já foram mapeadas; (3) agregados de comportamento que ocorrem naturalmente (além das orientações sexuais), alguns dos quais têm origem evolutiva e são associados a organismos com base em se eles produzem uma abundância de gametas ou se têm poucos gametas e são responsáveis por abrigar o desenvolvimento de fetos.

  A pesquisa sobre essas últimas razões está em andamento e as alegações sobre quais exatamente são essas diferenças de comportamento (previstas por causa da evolução) são altamente contestadas. Alguns resultados são consistentes, no entanto: homens tendem a se sair melhor na tarefa de rotacionar mentalmente objetos 3D, enquanto mulheres parecem ter uma vantagem em tarefas relacionadas à empatia, como ler as emoções de alguém. Mas mesmo se diferenças de gênero apontadas no passado se revelarem falsas, podemos ter confiança de que, enquanto foi detalhista ao moldar corpos, a evolução provavelmente não parou acima do pescoço em relação a sexo no cérebro.

É inteiramente possível que, enquanto o gênero em si não é construção social – porque culturas diferentes chegam a categorias similares de gênero com base em diferenças naturais no corpo e no comportamento – algumas coisas associadas como papéis e expressões de gênero provavelmente sejam constructos sociais, ao menos exemplos delas como a cor que meninas e meninos supostamente preferem, quem é responsável por iniciar flerte, etc. Há evidência de que homens e mulheres fazem em média decisões de carreira diferentes, mesmo em sociedades igualitárias – o que conta como evidência de que essas categorias não são construção social, enquanto não significa, evidentemente, que um indivíduo em particular devesse ser discriminado por fazer escolhas de carreira atípicas de seu gênero.

É importante reconhecer a diferença entre o cerne não socialmente construído do gênero e suas propriedades auxiliares socialmente construídas, de modo que políticas e decisões morais baseadas em gênero sejam mais justas. Isso ficou claro na medicina, em que há resultados mostrando que cérebros masculinos e femininos podem responder de forma diferente ao mesmo medicamento. Agora a falha da hipótese da construção social do gênero deve ser reconhecida nos debates culturais também. Muitos ativistas saltam à acusação de sexismo ao menor sinal de que as pessoas estão se comportando de forma típica para seu gênero, revelando uma esperança ilusória e fora de lugar de que seja possível erradicar categorias de gênero da existência. Para evitar bater de frente com a ciência ainda mais, esses ativistas têm de reconhecer que a ação para mitigar a discriminação injusta não deveria ser acoplada a uma esperança de atingir uma paridade de gênero em tudo. Forçar as pessoas a se comportarem do mesmo jeito onde elas naturalmente divergem não é ativismo, é engenharia social utópica. Pessoas livres precisam apenas de igualdade de oportunidades para perseguir seus interesses diversos. Homens e mulheres (e fa’afafine etc. onde aplicável), incluindo os que são trans, apreciam-se entre si e uns aos outros sem necessidade de paladinos morais que tentam forçá-los a ser o que não são. E certamente não precisam de falsidades propagandeadas como o único caminho para a justiça – pois a justiça prefere a verdade.

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Referências comentadas

As pessoas interessadas no assunto devem estar cientes de que há um pequeno número de grupos de pesquisa dentro da neurociência que tem interesse ideológico de alegar que todas as diferenças no cérebro e no comportamento encontradas por outros pesquisadores são falsas ou infinitesimais. Há também um grupo menor ainda, rejeitado por todos, de cientistas conservadores com papéis de gênero que se apressam em aprovar qualquer diferença biológica alegada, independentemente da qualidade das evidências. Então, às vezes, a revisão por pares falha e estudos de baixa qualidade são publicados e publicizados como verdade revelada por blogs e veículos de mídia interessados em confirmar suas narrativas. Cientistas como Melissa Hines, Simon-Baron Cohen e Larry Cahill, que estudam gênero cerebral, evidentemente afirmam que as diferenças existem com base em evidências (no caso de Baron-Cohen, também porque tem a ver com autismo, muito mais comum em meninos que em meninas). Em oposição a esses há Cordelina Fine,  Daphna Joel e seus colaboradores, que parecem estar interessados em negar as diferenças ou reinterpretá-las como um “mosaico cerebral” inclassificável como masculino ou feminino, em que todas as pessoas são vistas como “intersexuais” no cérebro. Recomendo lê-los todos e decidir por si quais estão amparados em evidências.

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Boghossian, Paul. “What is social construction?.” (2001).

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Cahill, L. (2006). Why sex matters for neuroscience. Nature Reviews Neuroscience, 7(6), 477–484. http://doi.org/10.1038/nrn1909
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Araujo-Jnr, E. V. (trad.), Cahill, L. (2015). Diferenças de Sexo no Cérebro Humano. Xibolete | Cerebrum, 5. Disponível aquihttp://xibolete.uk/sexo-cerebral/
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Hines, Melissa. Brain gender. Oxford University Press, 2005.
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Bao, A.-M., & Swaab, D. F. (2011). Sexual differentiation of the human brain: relation to gender identity, sexual orientation and neuropsychiatric disorders. Frontiers in Neuroendocrinology, 32(2), 214–226. http://doi.org/10.1016/j.yfrne.2011.02.007
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Sanders, A. R., Martin, E. R., Beecham, G. W., Guo, S., Dawood, K., Rieger, G., … Bailey, J. M. (2014). Genome-wide scan demonstrates significant linkage for male sexual orientation. Psychological Medicine, 1–10. http://doi.org/10.1017/S0033291714002451
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Resenha crítica do livro de Cordelia Fine:
Araujo-Jnr, E. V. (trad.), Baron-Cohen, Simon. “‘Neurossexismo’: Homens não são de Marte, Mulheres não são de Vênus e Cordelia Fine não faz jus à neurociência”. Xibolete (2015) | The Psychologist 23.11 (2010): 904-905. Disponível aquihttp://xibolete.uk/neurossexismo/
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Artigo mais recente de Joel et al. alegando que não é possível prever o gênero de uma pessoa com base em características cerebrais:
Joel, Daphna, et al. “Sex beyond the genitalia: The human brain mosaic.”Proceedings of the National Academy of Sciences 112.50 (2015): 15468-15473. Disponível aqui.
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Respostas a Joel et al. mostrando que estão errados em alegar que cérebros humanos não podem ser categorizados em masculino e feminino:
Del Giudice, Marco, et al. “Joel et al.’s method systematically fails to detect large, consistent sex differences.” Proceedings of the National Academy of Sciences 113.14 (2016): E1965-E1965. Disponível aqui.
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Rosenblatt, Jonathan D. “Multivariate revisit to” sex beyond the genitalia”.”Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (2016). Disponível aqui.
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Chekroud, Adam M., et al. “Patterns in the human brain mosaic discriminate males from females.” Proceedings of the National Academy of Sciences113.14 (2016): E1968-E1968. Disponível aqui.
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Imagem: Forma andrógina de Shiva e Parvati (Ardhanarishvara). Índia, Uttar Pradesh, Mathura, escultura do século II ou III. Em arenito vermelho manchado. Los Angeles County Museum of Art.
25th of June

Izquierdo tem razão, psicanálise é obsoleta E é um desperdício de recursos que prejudica autistas e suas famílias


Há algumas semanas, sonhei que minha mãe molestava minha irmã. Não comentei a respeito com elas, não me preocupei com isso, e teria esquecido se não estivesse numa semana com sonhos particularmente vívidos. Graças à Santa Mielina, não houve detalhes gráficos no pesadelo, apenas algumas cenas da minha irmã reclamando do problema e eu me chocando (no sonho) que nossa mãe católica e amável fosse capaz de uma coisa tão abominável. Mas ela não é – foi apenas um pesadelo besta. Não li grandes mistérios por trás disso.

Durante o meu dia, é comum que eu pense em quebra-cabeças éticos. Disputo a crença de muita gente de que emoções são necessárias para a moralidade, e o incesto é um exemplo interessante pois incita na maioria de nós uma forte repulsa (anedoticamente, parece que a repulsa é mais forte em quem tem irmãos do que em filhos únicos, o que faz sentido dada a raiz biológica do tabu do incesto), enquanto é possível imaginar situações em que não é errado, no sentido de não gerar consequências negativas para ninguém. Ou seja, embora tenhamos sentimento de repulsa, ele não é suficiente, e talvez sequer necessário, para o julgamento moral de toda situação que envolve incesto (lembre-se, aqui, que nem todo incesto envolve abuso sexual de menores). Outro exemplo de que emoções são divorciáveis da conduta ética está num experimento mental que propus: imagine que uma criança precisa ser operada para não morrer de apendicite, e o cirurgião é um psicopata com prazer em abrir pessoas. Os sentimentos ruins a respeito de um sádico cortando uma criança por prazer – medo, repulsa, nojo – precisam ser deixados de lado para salvar a vida da criança – o que será feito pela consideração racional dos riscos e benefícios. Essas emoções não são nem necessárias nem suficientes para decidir o que é melhor para a criança, podem até atrapalhar. O melhor desse experimento é que posso informar que o cirurgião psicopata realmente existe e vive no nordeste brasileiro. Fui comunicado da existência dele por uma amiga em comum. É um ótimo cirurgião. A família notou cedo que ele tinha prazer em desmembrar animais e o direcionou para a medicina, redirecionando os impulsos que poderiam ter gerado sofrimento no mundo para salvar vidas. Ele não teve problema em se acostumar a ver pessoas abertas e ensanguentadas, como outros cirurgiões têm em início de carreira. E ele, é claro, tem a racionalidade para julgar suas ações, e o fato de que psicopatas podem ser éticos reforça minha hipótese de que as emoções (das pessoas comuns) não são necessárias, ou suficientes, para a moralidade.

No dia em que tive o pesadelo, pensei na minha família e pensei em incesto em momentos distintos, e na hora de consolidar as memórias do dia meu cérebro juntou as duas coisas, num emaranhado maluco com um enredo sem pé nem cabeça, o que é uma descrição sucinta da maioria dos sonhos, especialmente os que ocorrem nas fases de movimento rápido dos olhos, que têm probabilidade mais alta de serem lembrados. Enquanto o enredo dos sonhos não faz muito sentido – o que em si é um sinal de que os sonhos estão ligados à consolidação das memórias em fases específicas do sono – faz sentido que família e incesto sejam memórias ligadas por contexto, e nossas memórias têm essa característica: em vez de serem catalogadas como a memória do computador, são armazenadas de acordo com a co-ocorrência contextual. Devo acrescentar que a cena do pesadelo acontecia na casa em que passei a maior parte da minha infância, o que informa aos neurocientistas que se trata de memória episódica antiga sendo reconsolidada e acomodada de acordo com memórias mais recentes. Com essa informação, os neurocientistas conseguem até prever com certo grau de precisão em que fase do sono eu tive o pesadelo, e que, como foi na fase final do sono, de manhã, tem algo a ver com os efeitos da concentração crescente do hormônio cortisol no hipocampo, como discutem, por exemplo, Jessica Payne e Lynn Nadel numa revisão de 2004.

Mas, segundo psicanalistas, eu deveria ter lido alguma coisa mais “profunda” que uma mera consolidação  de memórias do dia nesse pesadelo. Por que um homem gay como eu sonharia com uma coisa desse tipo? A psicanálise não concluiria nada sobre minha mãe e minha irmã com esse pesadelo, espero, embora psicanalistas pareçam ser particularmente obcecados com “complexos” incestuosos. Antes, concluiria algo sobre mim. Com que métodos? Adivinhação e evidências anedóticas.

Foi justamente na obra “A Interpretação dos Sonhos” (1899) que Sigmund Freud começou a propor sua teoria do “complexo de Édipo”. Que podemos resumir assim: toda criança tem atração sexual pela mãe, pelo pai, ou pelos dois. Segundo Freud, os sonhos existem para que o inconsciente encontre uma forma de realizar nossos desejos mais íntimos. Segundo os psicanalistas, meu sonho quer dizer que eu, que acho Henry Cavill extremamente atraente, desejo ver envolvimento lésbico entre membros da minha família. Você deve estar brincando, Dr. Freud! Isso, à luz do que sabemos graças à neurociência e ciências cognitivas, é um disparate pseudocientífico, e deve ser tratado como tal.

É claro que os psicanalistas modernos alegarão que estou fazendo um espantalho da sua “teoria” (que mal merece o status de hipótese), embora tudo isso que eu disse esteja em Freud e em muitos de seus defensores modernos. Farão um esforço de reinterpretar meu pesadelo de uma forma que faça mais sentido e soe menos como um disparate pseudocientífico. Mas esse não será um exercício de pesquisa e de mudança de opinião com base em novas evidências coletadas: será um exercício de construção de epiciclos. Quando os astrônomos ptolomaicos antes de Kepler tentavam insistir que a órbita dos planetas era perfeitamente circular, por um viés estético herdado de Platão e Aristóteles, eles tentavam explicar as anomalias na órbita observável dos planetas com a introdução de círculos no topo dos círculos de translação em torno da Terra (pois acreditavam no geocentrismo): os epiciclos. Alguns botavam tantos epiciclos hipotéticos na órbita dos planetas que os cálculos ficavam quase impossíveis de verificar, então poderia ser verdade que só há círculos na órbita dos planetas, e isso é tudo o que importa. Para muitos psicanalistas de hoje, o que importa é que a psicanálise poderia ser verdade, não que ela não parece ser verdade de acordo com as evidências coletadas por cientistas. Alguns chegam a abandonar o barco das pretensões científicas da psicanálise, alegando que psicanálise jamais se pretendeu ciência (o que é revisionismo histórico conveniente), ou se juntam ao comboio amalucado dos pós-modernistas, construindo frases sem sentido como essa:

“A psicanálise não se propõe a disputar com a ciência o lugar de portadora da verdade, mas interroga os efeitos que têm sobre nós, sujeitos humanos, as palavras e discursos que nos constituem – que são necessários, porém sempre insuficientes para dar conta de nossa experiência.” – Paulo Gleich no Sul 21.

Em primeiro lugar, como se interroga algo sem pretensão de portar a verdade, especialmente quando o intuito é lidar com os problemas psicológicos de um indivíduo? Devo assumir, então, que se eu me deitar no divã do Paulo Gleich não devo esperar resposta quanto a ser verdade ou inverdade que estou estressado, quanto a ser verdade ou falsidade que preciso de um namorado, etc.? Além disso, quais são as palavras e discursos que me constituem? Essas que estou escrevendo agora me constituem? Se eu rejeitá-las ou esquecê-las amanhã (certamente durante um sonho em que o Scooby Doo sodomiza o Scrappy Doo), deixarão de me constituir? As coisas que Gleich disse são um exemplo clássico do que Harry Frankfurt descreveu como “bullshit”.

São também exemplo de algo que aconteceu justamente pela falha da psicanálise em se manter de pé diante do avanço das ciências rigorosas do cérebro e da mente: uma fuga para o dadaísmo conceitual, em que verdade, objetividade e outras facetas da razão são coisa de gente “ingênua”, provavelmente gente ingênua que deseja charutar seus progenitores. Muito se discute sobre Freud (num personalismo também incompatível com o proceder científico), mas, mesmo entre acusações de fraude e de tolice – quando por exemplo ele diagnosticou críticas da psicanálise como neuroses – poucos duvidam que ele tinha grande respeito pela ciência e gostaria de saber mais sobre o cérebro. Se realmente é assim, ele deve girar mil vezes no túmulo quando escuta que seu suposto discípulo Jacques Lacan alegou que o pênis é análogo à raiz quadrada de -1 (i), entre outros disparates psicanalíticos abusando da matemática resenhados em “Imposturas Intelectuais” de Alan Sokal e Jean Bricmont. Freud também se espantaria de ver a péssima influência dos psicanalistas sobre a integração social e tratamento de autistas e suas famílias, culpando os pais pelas dificuldades de neurodesenvolvimento das crianças autistas. Tudo, novamente, baseado em evidência anedótica e especulação, que, como os homeopatas, os psicanalistas preferem chamar de “estudo de caso”/”pesquisa qualitativa” e “teorização”. Enquanto isso, a genética descobre que mais da metade da variação do autismo é explicável por variantes genéticas comuns em combinações raras.

No Brasil estamos agora discutindo bastante a corrupção política. Mas ainda precisamos lidar com outro tipo de corrupção: a corrupção intelectual de comunidades dogmáticas herméticas, entre elas a da psicanálise e da homeopatia, que parasitam recursos públicos sem ter evidência da verdade de suas teorias, a um ponto tão cínico que alguns até dizem que verdade de teorias não é o que mais importa. Pois estão errados. Mais errados que o incesto.

***

Não deixe de ler este texto sobre Freud e o início da psicanálise na revista Crítica.

Confira referências da minha entrevista com uma mãe de autista no post Autismo: Teoria e Prática.

Referências:

Payne, J. D., & Nadel, L. (2004). Sleep, dreams, and memory consolidation: The role of the stress hormone cortisol. Learning & Memory, 11(6), 671–678. http://doi.org/10.1101/lm.77104
Sokal, A., & Bricmont, J. (1999). Imposturas intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos. Rio de Janeiro: Record, 198–200.

Frankfurt, H. G. (2005). Sobre falar merda. Tradução Ricardo Gomes Quintana. Rio de Janeiro: Intrínseca.

P.S.: Aparentemente, a crítica mais comum que estou recebendo pelo texto é por dizer que “segundo psicanalistas” meu sonho seria interpretado literalmente como um desejo inconsciente meu. Eu concordo que usar a expressão “segundo psicanalistas” foi sugestivo de que algum psicanalista realmente disse isso, quando nenhum disse isso a mim diretamente. Eu apenas segui as implicações da alegação de que os sonhos são manifestações de desejos inconscientes. Desde o princípio psicanalistas propuseram interpretações convolutas de sonhos, e realmente não eram tão literais, só que eram, sim, interpretações do conteúdo dos sonhos. Essa história de que a psicanálise “rejeita a visão hermenêutica dos sonhos” (uma forma desnecessariamente complicada de alegar que não faz interpretação do conteúdo dos sonhos) é contradita pela própria história da psicanálise. Na verdade os psicanalistas insistiam em fazer interpretação dos sonhos, contanto que quase tudo virasse sexo. Até subir uma escada em sonho é interpretável como o ato sexual para psicanalistas históricos: http://criticanarede.com/freud.html Mas como eu previ no próprio texto, nenhum psicanalista de hoje admitira seguir as próprias alegações psicanalíticas sobre os sonhos para o meu sonho, e me acusariam de falácia do espantalho. O que isso mostra é mais uma faceta do caráter pseudocientífico dessa prática intelectual: o obscurantismo. Não importa se está fortemente sugerido em obras seminais da psicanálise que os sonhos devem realmente ser interpretados como manifestações de desejos inconscientes, sempre há algum epiciclo a ser levantado para manter a ideia obscura e “profunda” quando alguém tenta esclarecê-la e mostrá-la falsa. É uma estratégia comum em adeptos dogmáticos dos mais variados tipos de crenças: afirma-se algo obscuro, que se for esclarecido cai em alguma afirmação excitante mas falsa ou verdadeira porém apenas um truísmo enfadonho. Para manter a versão excitante e falsa, acusa-se quem esclareceu a afirmação obscura de falácia do espantalho e de não estudar o suficiente. O caso é que não há como estudar o suficiente. Críticos jamais serão ouvidos ao menos que parem de criticar e virem adeptos.

31st of May

Wolbachia, a bactéria ‘feminista radical’ Para a bactéria que infecta mais da metade das espécies de artrópodos terrestres, quanto menos machos melhor


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Wolbachia (marcada com corante verde) no ovário de um mosquito Aedes aegypti. Via eliminatedengue.com

Na minha pesquisa estudamos a distribuição de bactérias como a Wolbachia em artrópodos, especialmente insetos. O motivo pelo qual a escolhemos é que ela é capaz de manipular a reprodução de seus hospedeiros, de formas que vão do parasitismo (vantagem da bactéria com desvantagem do hospedeiro) ao mutualismo (vantagem mútua). A evolução de uma relação ecológica desarmônica para uma harmônica (e vice-versa), que se vê na relação dessa bactéria com artrópodos, é um assunto muito interessante que envolve quase toda a vida como a conhecemos, pois está por trás da origem de todas as células eucarióticas (como são as nossas próprias células). A melhor explicação para a existência de organelas como as mitocôndrias e os plastídeos (incluindo cloroplastos) na enorme variedade de organismos eucariontes de hoje é que, no passado, entre seus ancestrais unicelulares, os ancestrais dessas organelas, que também tinham vida livre, eram comidos vivos pelas células maiores ou as parasitavam (ou seja, havia relação ecológica desarmônica). Hoje todos os protozoários, animais, plantas e fungos não vivem sem suas mitocôndrias – a relação evoluiu de desarmônica para mutualismo, e do mutualismo para a completa fusão. Há algo de elegante em ver uma briga de bilhões de anos atrás se tornar ‘amor’, e o ‘amor’ se tornar uma união indissolúvel. 

A Wolbachia faz algo similar ao que fizeram as bactérias ancestrais imediatas das mitocôndrias bilhões de anos atrás: ela vive dentro das células. Gosta especialmente de habitar óvulos (ovócitos), pois são seu principal veículo para sobrevivência ao longo das gerações dos artrópodos que infecta. E por isso, como estratégia de sobrevivência e reprodução, Wolbachia desenvolveu manipulações do sexo de muitos dos seus hospedeiros. A bactéria é capaz de*:

– Feminizar embriões geneticamente machos, ou seja, transexualizar machos em fêmeas. Isso foi observado em algumas espécies de tatuzinhos-de-jardim (que são crustáceos), cigarrinhas (Hemiptera) e borboletas. Em algumas vespas, além disso, a presença da bactéria acoplada ao estresse térmico gera indivíduos com variadas misturas de características femininas com características masculinas. Algumas borboletas, quando curadas da presença de Wolbachia através de antibióticos, manifestam também uma mistura de características sexuais e morrem na hora de sair do casulo.

– Induzir a concepção virginal, ou seja, a reprodução assexuada em que fêmeas geram filhotes sem precisar de sexo com machos, o que é conhecido como partenogênese telitóquica. Wolbachia faz isso com algumas espécies de vespas, ácaros e tripes (esses últimos são da ordem Thysanoptera). Sem Wolbachia algumas espécies de vespas não conseguem nem produzir óvulos.

– Infanticídio de machos, ou seja, a bactéria pode matar embriões machos e poupar as fêmeas. Isso foi descrito em alguns besouros, moscas, pseudoescorpiões e borboletas. Parece que isso acontece mais em espécies em que irmãos competem por recursos – Wolbachia dá seu empurrãozinho para a vantagem das fêmeas sobre os machos, matando os machos.

– Impedir machos infectados de se reproduzirem com fêmeas não infectadas. Apesar de parecer um absurdo a bactéria impedir sua própria propagação dessa forma, a explicação para isso está na racionália do gene egoísta: ao diminuir o sucesso reprodutivo de fêmeas não infectadas, essas bactérias estão beneficiando suas irmãs que estão nas fêmeas infectadas. Por isso, para a continuidade dos genes das bactérias, não é desvantagem que as que estão nesses machos infectados estejam essencialmente na mesma posição dos músicos conformados do Titanic: se sacrificando pelo bem de seus pares. Além disso, linhagens diferentes de Wolbachia podem competir entre si, impedindo que machos infectados com uma linhagem A se reproduzam com fêmeas infectadas com outra linhagem B. Esse impedimento à reprodução é chamado de incompatibilidade citoplasmática, a primeira forma (macho infectado, fêmea não infectada) é unidirecional, a segunda (macho e fêmea infectados com linhagens diferentes) é bidirecional. A incompabilidade citoplasmática causada por Wolbachia foi descrita em alguns ácaros, besouros, moscas, hemípteros, vespas, tatuzinhos-de-jardim, borboletas/mariposas e ortópteros. Quem gosta de evolução deve estar especialmente empolgado com essa manipulação, pois, como sabemos, o aparecimento de barreiras reprodutivas é um dos fatores que leva à origem de novas espécies. Nós testamos, por exemplo, se há uma correlação entre a incidência de Wolbachia e o número de espécies em grupos de besouros – a correlação existe, mas é estatisticamente fraca.**

Não sabemos ao certo se é por causa dessas manipulações reprodutivas, mas nossa pesquisa** mostrou que mais da metade (52%, com margem de erro entre 48 e 57%) das espécies de artrópodos terrestres estão infectadas com Wolbachia. Além disso, Wolbachia também infecta alguns vermes, inclusive filárias causadoras da elefantíase. Poderemos chegar a tratamentos para verminoses e a novas formas de controle de zoonoses trasmitidas por mosquitos através dessa que é a bactéria mais misândrica e feminista radical de todas: em se tratando de aracnídeos, crustáceos e insetos terrestres, para a Wolbachia, quanto mais fêmeas e menos machos, melhor.


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* Werren, J. H., Baldo, L., & Clark, M. E. (2008). Wolbachia: master manipulators of invertebrate biology. Nature Reviews Microbiology, 6(10), 741–751. http://doi.org/10.1038/nrmicro1969. Algumas informações dadas estão em outras fontes.


** Weinert, L. A., Araujo-Jnr, E. V., Ahmed, M. Z., & Welch, J. J. (2015). The incidence of bacterial endosymbionts in terrestrial arthropods. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 282(1807), 20150249–20150249. http://doi.org/10.1098/rspb.2015.0249

2nd of May

“Apropriação cultural”, mais uma vez


Contribuí dando entrevista para uma matéria d’O Fluminense sobre “apropriação cultural”, assunto de que já tratei aqui. Como é normal, não houve espaço para tudo o que eu disse na matéria, então reproduzo minhas respostas na íntegra abaixo.

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O termo “apropriação cultural” pode descrever o interesse de alguém de adotar elementos de uma cultura estrangeira. Mas, recentemente, foi ressignificado numa parte radical (e radicalmente errada) do ativismo como não apenas isso, mas também, adicionalmente, como algo imoral, indesejável. Esse novo conceito vem do norte do continente americano, especialmente dos Estados Unidos, onde houve uma história recente de segregação racial codificada em lei, onde pessoas ditas “brancas” e as ditas “negras” eram coagidas socialmente a se separarem.

O lema dessas políticas racistas era “separados, mas iguais”. Como muitos outros lemas, incoerente, pois se você precisa se apartar de alguém por causa da cor da sua pele, isso já presume que você não trata essa pessoa como um igual, ou seja, como alguém cujos interesses têm tanta prioridade em serem atendidos quanto os seus: afinal, quando os interesses forem os mesmos (por exemplo, o interesse de ser contratado num bom emprego), a segregação será algo que dificultará o atendimento dos interesses de uma ou ambas as partes, por isso a segregação é imoral. E essa segregação foi obliterada por lá graças a ativistas como Martin Luther King Jr. e Rosa Parks. Mandela e outros também tiveram sucesso contra o Apartheid sul-africano.

O Brasil teve uma história mal resolvida de abolição da escravidão, pois não ofereceu plenas oportunidades para os libertados, mas jamais chegou a codificar em lei essa segregação. Hoje, quem mais chama por segregação no Brasil são justamente as pessoas que reclamam de “apropriação cultural”. São as que abominam (em vez de celebrar) a miscigenação brasileira como se fosse puramente um fruto da “política de embranquecimento”.

Essa política racista de fato existiu, mas não é mais responsável pela miscigenação brasileira que outros fatos históricos sobre o país – por ter inúmeras populações nativas, por ter sido colonizado por europeus, por ter importado mão-de-obra escrava da África e semi-escrava de lugares como Itália e Japão. A política do embranquecimento veio numa época de grande ignorância sobre genética. Talvez os racistas pensassem que os genes europeus eram “mais fortes” e que “melhorariam a raça” (uma expressão racista que infelizmente ainda está na boca de alguns brasileiros) através da mistura. Mas isso é uma noção ridícula. Como sabemos hoje, quando há relação de dominância mendeliana (que não contém qualquer noção moral ou estética de “melhor” e “pior”) nos genes que participam da cor da pele, geralmente a pele mais escura é favorecida nos filhos de uniões entre pessoas de cores diferentes. Mas, por causa de um fenômeno chamado de “equilíbrio de Hardy-Weinberg”, todos os fenótipos, do olho claro à pele escura (às vezes uma coisa junto com a outra, como aconteceu com o comediante Hélio de La Peña), continuarão se manifestando nas gerações subsequentes de miscigenados. O Brasil não é um país destituído de racismo, mas a população brasileira, com sua enorme variação, é vista pelo resto do mundo como um modelo de diversidade genética (modelo porque em um mundo com menos racismo presume-se que há mais mistura dos fenótipos). E eu acho que também é um modelo de diversidade cultural em alguns sentidos. Não faz qualquer sentido tentar barrar essa diversidade alegando, como alegam as pessoas contrárias à “apropriação cultural”, que há problema em um paulista loiro usar tranças ou dreadlocks mais frequentemente associados a pessoas negras. Problema há em tentar impedir que indivíduos sigam suas preferências estéticas e se apropriem de elementos culturais de qualquer lugar. É a liberdade do indivíduo, não a identidade de grupos, o que tem prioridade na declaração universal dos direitos humanos.

Nós estamos na era genômica, ou seja, na era em que temos acesso a quase todas as informações genéticas que são parte integral do indivíduo. Digo quase todas porque, mesmo se você tiver em mãos a sequência completa do DNA de todos os seus cromossomos, haverá algumas coisas sobre a sua biologia que permanecerão um mistério, porque a pesquisa ainda não revelou o que certas partes da sequência fazem, ou porque essas coisas estão em outro tipo de codificação nas suas células (como a codificação epigenética), ou porque são resultado de acidentes de desenvolvimento e influência do ambiente. Para azar dos racistas, é quase consenso entre biológos e antropólogos físicos que raças não existem na espécie humana, então sequer faz sentido a sua tola busca por superioridades e inferioridades essenciais a grupos na diversidade humana. Alan Templeton é um dos cientistas que deram os melhores argumentos a respeito: nós temos mais variação dentro de cada um dos grupos vistos como “raças” do que entre eles, e o que se entende por “raça” parece ser mais próximo do que pode ser descrito como “subespécie” em biologia, e não há subespécies entre humanos. Poderá haver no futuro, se alguns de nós formos para outro planeta e seguirmos um curso de mudanças genéticas (inevitáveis) diferente. Nem nesse futuro hipotético em que raças existem o racismo se tornará correto.

Nós já temos pessoas que são biologicamente diferentes das outras, biologicamente menos capazes que outras de realizar certas tarefas: são os deficientes físicos. E a atitude correta é ajudá-los a superar suas dificuldades, não segregá-los. Ou seja, o racismo é incorreto mesmo se fosse verdade que raças humanas existem e que diferem em habilidades. Os racistas perderam o debate, e hoje o termo “racista” é uma arma, pois qualquer pessoa que seja rotulada de forma justa com ele na nossa sociedade irá perder certos confortos e privilégios (o que é também justo). Como toda arma, essa rotulação pode ser usada para fins escusos. E um desses é a acusação de racismo por “apropriação cultural”, que faz parte, na verdade, até de uma tentativa de ressignificar o que a palavra “racismo” quer dizer, enquanto se mantém sua marca poderosa de desqualificação. Algumas pessoas, influenciadas por acadêmicos que perderam a fé em noções como verdade, justiça, imparcialidade e individualidade, e as substituíram todas por jogos de poder, estão tentando defender que racismo não é preconceito e discriminação injusta por causa de características superficiais (cor de pele, textura de cabelo, etc.). Querem mudar a definição de “racismo” para algo que inclui “desequilíbrios de poder estruturais” na sociedade, uma linguagem propositalmente mal definida e pouco clara, para tornar impossível que grupos que não eram alvos de racismo na história brasileira possam ser vistos como alvo de uma onda de acusação racista por fazerem dreadlock em cabelo da cor e da textura “erradas”. Para quem é astuto com lógica, dada a definição clássica de racismo, atacar pessoas dessa forma, tentando, por causa de sua cor de pele, evitar que usem turbantes ou façam tranças de certo tipo, é claramente racista. Afinal, isso é tratar diferentemente as pessoas com base em sua cor de pele, em vez de com base no conteúdo de seu caráter: é fazer o contrário do que Martin Luther King aconselhou.

A intelectualidade brasileira deve resistir contra essa onda de irracionalidade neorracista nas redes sociais. O que é apenas, afinal de contas, resistir ao racismo em toda a sua diversidade – às vezes, ideias ruins também têm manifestações diversas. É trocando de máscara que ideias ruins como o racismo sobrevivem. A atitude cada vez mais comum de xingar homens negros que namoram mulheres brancas de “palmiteiros”, de fazer ataques em bando a quem usa turbante ou dreadlocks sem ser negro, é racismo e deve ser tratada como tal.

29th of January

Olavo de Carvalho, Charles Darwin e Pseudofilósofos Uma análise de um texto de um dos "filósofos" mais populares do Brasil, com réplica e tréplica


Resposta do Olavo (ao vídeo acima):

Minha tréplica:

28th of January

Autismo: teoria e prática Uma entrevista com Andréa Werner Bonoli


Uma conversa entre uma mãe de autista (Andréa Werner Bonoli, mãe do Theo) e um geneticista para servir de guia a todas as pessoas afetadas e interessadas. Blog da Andréa: http://lagartavirapupa.com.br Patrocine vídeos de divulgação científica como este com um dólar ou mais por mês em: http://patreon.com/elivieira

Informações citadas:

PECS, Sistema de Comunicação por Troca de Figuras https://en.wikipedia.org/wiki/Picture_Exchange_Communication_System (sem tradução para o português na Wikipédia)

Sobre tratamentos charlatanescos com “cândida” / água sanitária, uma reportagem investigativa da BBC expondo os responsáveis: http://www.bbc.co.uk/news/uk-england-london-33079776

Documentário Le Mur com legendas em português http://www.dragonbleutv.com/pt/documentaires/23-le-mur-ou-la-psychanalyse-a-l-epreuve-de-l-autisme-pt

Sobre o farsante autor do estudo que alegou que vacinas causavam autismo: https://en.wikipedia.org/wiki/Andrew_Wakefield

Revista Time: 4 doenças que estão voltando graças aos antivacinas http://time.com/27308/4-diseases-making-a-comeback-thanks-to-anti-vaxxers/

Referências científicas:

Charlop-Christy, Marjorie H., Michael Carpenter, Loc Le, Linda A. LeBlanc, and Kristen Kellet. ‘Using the Picture Exchange Communication System (pecs) with Children with Autism: Assessment of Pecs Acquisition, Speech, Social-Communicative Behavior, and Problem Behavior’. Journal of Applied Behavior Analysis 35, no. 3 (1 September 2002): 213–31. doi:10.1901/jaba.2002.35-213.

Chevallier, Coralie, Gregor Kohls, Vanessa Troiani, Edward S. Brodkin, and Robert T. Schultz. ‘The Social Motivation Theory of Autism’. Trends in Cognitive Sciences 16, no. 4 (April 2012): 231–39. doi:10.1016/j.tics.2012.02.007.

Faraone, Stephen V., Roy H. Perlis, Alysa E. Doyle, Jordan W. Smoller, Jennifer J. Goralnick, Meredith A. Holmgren, and Pamela Sklar. ‘Molecular Genetics of Attention-Deficit/hyperactivity Disorder’. Biological Psychiatry 57, no. 11 (1 June 2005): 1313–23. doi:10.1016/j.biopsych.2004.11.024.

Gaugler, Trent, Lambertus Klei, Stephan J. Sanders, Corneliu A. Bodea, Arthur P. Goldberg, Ann B. Lee, Milind Mahajan, et al. ‘Most Genetic Risk for Autism Resides with Common Variation’. Nature Genetics 46, no. 8 (August 2014): 881–85. doi:10.1038/ng.3039.

Gottesman, Irving I., and Todd D. Gould. ‘The Endophenotype Concept in Psychiatry: Etymology and Strategic Intentions’. American Journal of Psychiatry 160, no. 4 (1 April 2003): 636–45. doi:10.1176/appi.ajp.160.4.636.

Knickmeyer, Rebecca Christine, and Simon Baron-Cohen. ‘Topical Review: Fetal Testosterone and Sex Differences in Typical Social Development and in Autism’. Journal of Child Neurology 21, no. 10 (10 January 2006): 825–45. doi:10.1177/08830738060210101601.

Taylor, Luke E., Amy L. Swerdfeger, and Guy D. Eslick. ‘Vaccines Are Not Associated with Autism: An Evidence-Based Meta-Analysis of Case-Control and Cohort Studies’. Vaccine 32, no. 29 (17 June 2014): 3623–29. doi:10.1016/j.vaccine.2014.04.085.

11th of November

Reducionismo: só o meu pode


Alguns físicos acreditam que tudo pode ser reduzido aos termos teóricos da física, como onda, partícula, supercordas ou similares. Não se trata exatamente de afirmar que tudo o que existe no fundo é feito disso, mas de alegar que tudo o que existe pode ser entendido falando apenas disso. Não por acaso, biólogos se incomodam: como redescrever a teoria da evolução em termos de ondas, partículas, etc., sem falar em organismos, populações, genes, ambientes? Não parece possível, e se for possível não parece útil. Seres vivos são feitos das coisas que a física descreve, mas para entender como mudam com o tempo é preciso mencionar algo mais que simplesmente as coisas que a física descreve, e quem faz isso é a biologia. O mesmo vale para a sociologia, que precisa falar em sociedades, indivíduos, relações sociais.

Não é difícil ver por que esse reducionismo teórico é um reducionismo ganancioso e errado, porque atrapalha em vez de ajudar na construção de conhecimentos. É claro que isso não significa que biólogos e sociólogos podem sair inventando qualquer coisa, inclusive conceitos que contrariam os conceitos da física.

Na academia, o reducionismo ganancioso desses alguns físicos (há filósofos que também o defendem) é majoritariamente rejeitado. Mas há outro reducionismo teórico ganancioso que, em alguns círculos, é aceito com louvor, ensinado, e vira moeda corrente no vocabulário de muitas pessoas.

Estamos falando do reducionismo ganancioso nascido entre estudiosos de crítica literária. Todo tipo de conhecimento descrevem como “narrativa”. A teoria da evolução é apenas uma “narrativa”. Quando não falam em narrativa, falam em “linguagem”. Se um físico diz uma coisa e um sociólogo diz outra oposta, não há como decidir quem está certo, estão falando “linguagens” diferentes. É coincidência que é justamente quem trabalha com livros e romances quem costuma tentar reduzir gananciosamente (e erroneamente) as coisas a “narrativas” e “linguagens”? Claro que não, assim como não é coincidência que boa parte de quem quer descrever tudo em função de termos teóricos da física é físico.

O paroquialismo de alguns físicos é perfeitamente análogo ao paroquialismo de alguns linguistas e outros especialistas das letras.

Está na hora de rejeitar outro reducionismo ganancioso: o reducionismo linguístico/narrativo presente na obra de gente como Michel Foucault e Judith Butler.

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P.S.: “Reducionismo” de modo algum é uma coisa ruim. É uma coisa boa, em termos de conhecimento, que tenhamos conseguido reduzir várias das funções do rim aos seus néfrons. É importante saber disso: que algumas propriedades de um fenômeno qualquer podem ser compreendidas pela redução a seus componentes. Mas reducionismo ganancioso é outra coisa: é aquele reducionismo sem justificação, que quer abraçar o fenômeno sem razão. Daniel Dennett diz que o behaviorismo radical é “reducionista ganancioso” com fenômenos psicológicos, por exemplo. Foi dele que peguei o termo. Há também reducionismo teórico (do qual tratei aqui) e reducionismo ontológico (dizer que seres vivos nada mais são que organizações complicadas de átomos é um reducionismo ontológico e está provavelmente correto).