CLEMENS, Samuel Langhorne (alias Mark Twain). 1883. Life on the Mississippi. p. 369 .
10th of December

Falta de cortesia como defesa para ideias frágeis


Alguns estão notando que está ficando “normal” entre certos tipos de ativismo atacar quem diz qualquer coisa que não interessa aos ativistas com palavras de baixo calão. Mandar tomar naquele lugar, chamar de todo tipo de nome criativo envolvendo sexo, habilidade mental, digestão e religião. Interessantemente, xingamentos religiosos estão em queda – eu por exemplo cresci numa cultura em que “excomungado” era um nome muito feio. Hoje no máximo é regionalismo mineiro.

Diz-se que certa vez o filósofo Ludwig Wittgenstein, segundo alguns relatos, num debate acalorado com Karl Popper, catou um atiçador de lareira e começou a balançá-lo ameaçadoramente no ar enquanto defendia algum ponto.* Talvez estivesse só sendo teatral ou distraído. Mas talvez estava perdendo a compostura, e não seria a primeira vez que filósofos originais, acostumados à disputa, caem nessa.

Quando se reage a algum ponto de vista discordante assim, talvez porque o interlocutor está sendo teimoso, primeiro está-se revelando uma faceta da nossa natureza de macaco pelado. Nenhuma quantidade de gritinhos de chimpanzé, que são a forma mais rudimentar das nossas respostas sarcásticas, ataques pessoais sem relevância e xingamentos, quando não brandimentos de atiçadores, serve para mostrar onde está a verdade na discussão. Mas o caso é que nós ainda temos que discutir com meta na verdade, mesmo se estamos mal equipados com nosso cérebro. Se os filósofos podem ser presa desse comportamento, as pessoas menos treinadas em investigar intelectualmente são ainda mais propensas, especialmente se estão no momento ouvindo insinuações sobre a mãe alugar o corpo (o efeito da irritação pode ser observado até em quem não vê nada de errado nisso).

Tudo isso é para dizer que há justificação para a civilidade. Mas as pessoas estão tão mal acostumadas com isso, acham tanto que debate tem meta em humilhação e triunfo de macaco contra macaco, que reclamam quando eu propositalmente faço um vídeo criticando a opinião do Olavo de Carvalho sobre evolução enquanto o chamo de “professor” (que é a profissão dele, mesmo que talvez seja mal conduzida).

Eu acho que às vezes a incivilidade é proposital. Ao irritar quem discorda, quem insulta pode estar tentando evitar que o insultado tenha naquele momento pleno acesso às melhores ferramentas de seu próprio cérebro, sendo dominado pelas amígdalas temporariamente porque sugeriram que ele introduza alguma coisa no ânus. Quem acredita em falsidades, portanto, tem interesse em ser mal educado e boca suja. É uma ferramenta que simplesmente funciona para transformar gente em babuíno.

_____

* Edmonds, David, and John Eidinow. Wittgenstein’s poker. Faber & Faber, 2014.

20th of September

A beleza é uma construção social ou temos bases biológicas para achar alguém bonito? Resposta a pergunta de leitor


Comece por partir o que você quer dizer com “beleza”. Atratividade facial e de corpos é algo que tem influência clara da biologia. Através das culturas as pessoas valorizam essas coisas de acordo com suas orientações sexuais e de acordo com os sinais de dimorfismo sexual da face e do corpo. Mulheres mais atraentes têm rostos delicados e uma razão entre cintura e quadril próxima de 0.7.* Homens mais atraentes têm rostos mais másculos e uma certa razão entre ombros e quadril (aquela história de “ombros largos”). Além, é claro, de outros sinais dimórficos claros como timbre da voz.**

Também vemos beleza em objetos e paisagens. O biólogo E. O. Wilson especula que a preferência estética por certo tipo de paisagem montanhosa com sinais de água disponível, que ele chama de “biofilia”, foi moldada pela seleção natural.*** Isso é difícil de confirmar. Mas dificilmente existe preferência ou comportamento com zero de herdabilidade, com nenhuma participação dos genes. Eles formam a arquitetura do nosso cérebro e a base sobre a qual as culturas trabalham. Na verdade, a descoberta de que não há comportamento sem influência dos genes, mesmo que pequena, é uma das maiores descobertas replicadas várias vezes na genética do comportamento.****

Muita gente gosta de apontar quadros antigos com pessoas gordas como prova de que a estética dos corpos é completamente contingente à cultura. Também estatuetas do Neolítico como a Vênus de Düsseldorf. Mas é perfeitamente possível que genes também interfiram de acordo com as condições ambientais em que tipo de corpo é considerado atraente. Até em bactérias alguns genes (especialmente em estruturas chamadas “operons”) mudam sua expressão em resposta a estímulos ambientais.

Não há um determinismo genético no sentido de um gene para cada preferência. Comportamentos nunca são influenciados por um único gene. Mas também não há determinismos culturais dessas coisas. Culturas não existem num vácuo divino acima da nossa natureza animal. Nós somos geneticamente programados para a cultura e culturalmente moldados na nossa biologia. Existe a natureza humana.

_____

* Referências:

Cunningham, Michael R., et al. “Their ideas of beauty are, on the whole, the same as ours”: Consistency and variability in the cross-cultural perception of female physical attractiveness.” Journal of Personality and Social Psychology 68.2 (1995): 261.

Singh, Devendra. “Adaptive significance of female physical attractiveness: role of waist-to-hip ratio.” Journal of personality and social psychology 65.2 (1993): 293.

** Referências:

Hughes, Susan M., and Gordon G. Gallup. “Sex differences in morphological predictors of sexual behavior: Shoulder to hip and waist to hip ratios.” Evolution and Human Behavior 24.3 (2003): 173-178.

Hughes, Susan M., Franco Dispenza, and Gordon G. Gallup. “Ratings of voice attractiveness predict sexual behavior and body configuration.” Evolution and Human Behavior 25.5 (2004): 295-304.

*** Wilson, Edward O. Biophilia. Harvard University Press, 1984.

**** 5b23d9f2-ec60-44dd-878e-6213e219e84a1

Leia também:

31st of January

Padrão de beleza não é (só) “construção social”


Decepcionando quem ignora ciência por boas intenções: genética do que é sexualmente atraente:

“A preferência pela atratividade facial é parte da herança biológica, em vez da herança cultural; essa hipótese é amparada por estudos mostrando ao menos concordância parcial entre diferentes culturas sobre o que é atraente numa face [1,2], e por estudos mostrando que a tendência de preferir faces atraentes emerge cedo no desenvolvimento [3]. Homens com um padrão genético XY, independente da orientação ser hetero ou homossexual, preferem rostos (femininos ou masculinos, respectivamente) com dimorfismo acentuado [4]. Essa evidência foi demonstrada num ambiente experimental de transformações [5], onde homens heterossexuais e homossexuais escolheram imagens de rostos femininos ou masculinos com características mais feminilizadas ou masculinizadas.”

Traduzido de:
Jannini, E. A., Burri, A., Jern, P., & Novelli, G. (2015). Genetics of Human Sexual Behavior: Where We Are, Where We Are Going. Sexual Medicine Reviews, 3(2), 65–77. http://doi.org/10.1002/smrj.46

Referências citadas no trecho:
1 – Langlois JH, Kalakanis L, Rubenstein AJ, Larson A, Hallam
M, Smoot M. Maxims or myths of beauty? A meta-analytic
and theoretical review. Psychol Bull 2000;126:390–423.
2 – Perrett DI, May KA, Yoshikawa S. Facial shape and judgements
of female attractiveness. Nature 1994;368:239–42.
3 – Rubenstein AJ, Kalakanis L, Langlois JH. Infant preferences
for attractive faces: A cognitive explanation. Dev Psychol
1999;35:848–55.
4 – Ciocca G, Limoncin E, Cellerino A, Fisher AD, Gravina GL,
Carosa E, Mollaioli D, Valenzano DR, Mennucci A, Bandini
E, Di Stasi SM, Maggi M, Lenzi A, Jannini EA. Gender
identity rather than sexual orientation impacts on facial preferences.
J Sex Med 2014;11:2500–7.
5 – Perrett DI, Lee KJ, Penton-Voak I, Rowland D, Yoshikawa S,
Burt DM, Henzi SP, Castles DL, Akamatsu S. Effects of
sexual dimorphism on facial attractiveness. Nature
1998;394:884–7.

26th of January

Santos Morais Por que a santidade moral não é desejável


por Susan Wolf 

 Não sei se existem santos morais. Mas se existem, fico feliz por nem eu nem aqueles com quem mais me preocupo estarmos entre eles. Por santo moral estou me referindo a uma pessoa cuja totalidade de ações é tão moralmente boa quanto possível, isto é, uma pessoa que é tão moralmente digna quanto se pode ser. Embora em breve eu vá reconhecer a variedade de tipos de pessoas que poderiam satisfazer essa descrição, parece-me que nenhum desses tipos serve como um ideal pessoal inequivocamente convincente. Em outras palavras, creio que a perfeição moral, no sentido de santidade moral, não constitui um modelo de bem-estar pessoal pelo qual seria particularmente racional ou bom ou desejável para um ser humano lutar.

Fora do contexto da discussão moral, isso vai parecer para muitos uma coisa óbvia. Mas, dentro desse contexto, a conclusão, se for aceita, será aceita com algum desconforto. Pois, dentro desse contexto, geralmente é assumido que se deve ser tão moralmente bom quanto possível e que os limites que há para a impressão da moralidade sobre nós são delimitados por facetas da natureza humana das quais não devemos nos orgulhar. Se, como eu acredito, os ideais que são deriváveis do senso comum e das teorias morais filosoficamente populares não apoiam essas presunções, então algo tem de mudar. Ou precisamos mudar nossas teorias morais de formas que as façam gerar ideais mais palatáveis, ou, como discutirei, precisamos mudar nossa concepção do que está envolvido na afirmação de uma teoria moral. (…)

[O santo moral] terá os valores morais comuns em um grau incomum. Será paciente, ponderado, equilibrado, hospitaleiro, caridoso tanto no pensamento quanto na ação. Ele terá grande relutância em fazer julgamentos negativos de outras pessoas. Terá cuidado para não favorecer algumas pessoas sobre outras com base nas propriedades que elas não poderiam não ter.

[S]e o santo moral está devotando todo o seu tempo a alimentar os famintos, curar os enfermos e arrecadar dinheiro para a Oxfam, então necessariamente ele não está lendo romances vitorianos, tocando oboé, ou melhorando suas habilidades no tênis. Embora nenhum desses interesses ou gostos na categoria contendo essas atividades possa ser alegado como sendo um elemento necessário numa vida bem vivida, uma vida na qual nenhum desses possíveis aspectos de caráter são desenvolvidos pode parecer uma vida estranhamente estéril. (…)

Por exemplo, uma inteligência cínica ou sarcástica, ou um senso de humor que aprecia esse tipo de inteligência nos outros, requer que se tome uma atitude de resignação e pessimismo para com os defeitos e vícios a serem encontrados no mundo. Um santo moral, por outro lado, tem motivo para tomar uma atitude oposta a isso – ele deve tentar ver o melhor nas pessoas, dar-lhes o benefício da dúvida tanto quanto possível, tentar melhorar situações desagradáveis enquanto houver qualquer esperança de sucesso.

Um interesse em algo como a cozinha gourmet será, por razões diferentes, difícil para um santo moral aceitar de bom grado. Pois parece-me que nenhum argumento plausível pode justificar o uso de recursos humanos envolvidos em produzir um paté de canard en croute contra fins beneficientes alternativos possíveis para os quais esses recursos poderiam ser aplicados. Se há uma justificação para a instituição da alta cozinha, é uma que depende da decisão de não justificar cada atividade contra alternativas moralmente benéficas, e essa é uma decisão que um santo moral jamais faria. (…)

Um santo moral precisará ser muito, muito gentil. É importante que ele não seja ofensivo. A preocupação é que, como resultado, ele terá de ser enfadonho, ou sem humor ou sem graça. (…)

Parece que, quando observamos nossos ideais para pessoas que atingem variedades não-morais de excelência pessoal em conjunto com ou coloridas por alguma versão de alta tonalidade moral, procuramos nos nossos baluartes de excelência moral por pessoas cujos feitos morais ocorrem em conjunto com ou são coloridos por alguns interesses ou características que têm uma baixa tonalidade moral. Em outras palavras, parece que há um limite para quanta moralidade podemos aguentar.

***

Leia o artigo completo, em inglês, em:
Wolf, Susan. “Moral saints.” The Journal of Philosophy (1982): 419-439.
http://philosophyfaculty.ucsd.edu/faculty/rarneson/Courses/susanwolfessay1982.pdf

21st of January

O que é “construção social”?


“Geralmente, dizer que algo é construído é dizer que não estava ali simplesmente para ser encontrado ou descoberto, mas que foi edificado, trazido à existência pela atividade intencional de alguma pessoa em algum tempo. E dizer que algo foi socialmente construído é acrescentar que foi edificado por uma sociedade, por um grupo de pessoas organizadas de certa forma, com certos valores, interesses e necessidades. Há três maneiras importantes com que um teórico da construção social no qual estamos aqui interessados se afasta ou acrescenta a essa noção perfeitamente comum de construção social.

Primeiro, no sentido comum, são tipicamente coisas ou objetos que são construídos, como casas ou cadeiras; mas nosso teórico não está tão interessado na construção de coisas, mas na construção de fatos – no fato de que algum pedaço de metal é uma moeda, em vez de no pedaço de metal em si.

Segundo, nosso teórico da construção social não está interessado em casos em que, por uma questão contingente, algum fato é trazido à existência pelas atividades intencionais das pessoas, mas apenas em casos em que tais fatos somente poderiam ter sido trazidos à existência dessa forma. No sentido técnico pretendido, em outras palavras, é preciso ser constitutivo de algum dado fato que ele foi criado por uma sociedade se é para chamá-lo de “socialmente construído”. Por exemplo, no sentido comum, se um grupo de pessoas se unem para mover um pedregulho pesado para o topo de uma colina, nós teríamos de dizer que a posição do pedregulho no topo da colina é um fato socialmente construído. No sentido técnico mais exigente do teórico, a posição do pedregulho no topo da colina não é um fato socialmente construído, pois é possível que pudesse ter acontecido puramente através de forças naturais. Por outro lado, que um pedaço de papel seja dinheiro é um fato socialmente construído no sentido técnico, pois é necessariamente verdadeiro que só poderia ter se tornado dinheiro ao ser usado de certas formas por seres humanos organizados como grupo social.

Finalmente, uma alegação típica de construção social envolverá não meramente a alegação de que um fato em particular foi edificado por um grupo social, mas que foi construído de tal forma que reflete suas necessidades e interesses contingentes, e assim, se não tivessem essas necessidades e interesses, poderiam não ter construído esse fato. A noção comum de um fato construído é perfeitamente compatível com a ideia de que uma construção em particular foi forçada, que nós não tínhamos escolha exceto construí-lo. De acordo com Kant, por exemplo, o mundo que experimentamos é construído por nossas mentes para obedecer certas leis fundamentais, entre elas as leis da geometria e da aritmética. Mas Kant não achava que éramos livres para fazer diferente. Pelo contrário, ele pensava que qualquer mente consciente estava limitada a construir um mundo que obedecesse a essas leis.

O teórico da construção social não está interessado, tipicamente, em tais construções obrigatórias. Ele quer enfatizar a contingência dos fatos que construímos, mostrar que eles não precisavam ser assim se tivéssemos feito outra escolha. No sentido técnico pretendido, então, um fato é socialmente construído se e apenas se for necessariamente verdadeiro que ele poderia somente ser obtido através de ações contingentes de um grupo social.”

Boghossian, Paul. Fear of knowledge: Against Relativism and Constructivism. Oxford University Press, 2006. Sinopse em português na revista Crítica: http://criticanarede.com/medo.html

Coisas que acadêmicos das humanidades alegam ser “construção social” e eu duvido:
– Gênero e identidade de gênero.
– Orientação sexual.
– Gostos pessoais quanto a quem o indivíduo considera sexualmente atraente.
– (Padrões de) Beleza (tanto a mais abstrata, de obras de arte e paisagens, quanto a mais humana, de rostos e corpos).

11th of November

Reducionismo: só o meu pode


Alguns físicos acreditam que tudo pode ser reduzido aos termos teóricos da física, como onda, partícula, supercordas ou similares. Não se trata exatamente de afirmar que tudo o que existe no fundo é feito disso, mas de alegar que tudo o que existe pode ser entendido falando apenas disso. Não por acaso, biólogos se incomodam: como redescrever a teoria da evolução em termos de ondas, partículas, etc., sem falar em organismos, populações, genes, ambientes? Não parece possível, e se for possível não parece útil. Seres vivos são feitos das coisas que a física descreve, mas para entender como mudam com o tempo é preciso mencionar algo mais que simplesmente as coisas que a física descreve, e quem faz isso é a biologia. O mesmo vale para a sociologia, que precisa falar em sociedades, indivíduos, relações sociais.

Não é difícil ver por que esse reducionismo teórico é um reducionismo ganancioso e errado, porque atrapalha em vez de ajudar na construção de conhecimentos. É claro que isso não significa que biólogos e sociólogos podem sair inventando qualquer coisa, inclusive conceitos que contrariam os conceitos da física.

Na academia, o reducionismo ganancioso desses alguns físicos (há filósofos que também o defendem) é majoritariamente rejeitado. Mas há outro reducionismo teórico ganancioso que, em alguns círculos, é aceito com louvor, ensinado, e vira moeda corrente no vocabulário de muitas pessoas.

Estamos falando do reducionismo ganancioso nascido entre estudiosos de crítica literária. Todo tipo de conhecimento descrevem como “narrativa”. A teoria da evolução é apenas uma “narrativa”. Quando não falam em narrativa, falam em “linguagem”. Se um físico diz uma coisa e um sociólogo diz outra oposta, não há como decidir quem está certo, estão falando “linguagens” diferentes. É coincidência que é justamente quem trabalha com livros e romances quem costuma tentar reduzir gananciosamente (e erroneamente) as coisas a “narrativas” e “linguagens”? Claro que não, assim como não é coincidência que boa parte de quem quer descrever tudo em função de termos teóricos da física é físico.

O paroquialismo de alguns físicos é perfeitamente análogo ao paroquialismo de alguns linguistas e outros especialistas das letras.

Está na hora de rejeitar outro reducionismo ganancioso: o reducionismo linguístico/narrativo presente na obra de gente como Michel Foucault e Judith Butler.

_____

P.S.: “Reducionismo” de modo algum é uma coisa ruim. É uma coisa boa, em termos de conhecimento, que tenhamos conseguido reduzir várias das funções do rim aos seus néfrons. É importante saber disso: que algumas propriedades de um fenômeno qualquer podem ser compreendidas pela redução a seus componentes. Mas reducionismo ganancioso é outra coisa: é aquele reducionismo sem justificação, que quer abraçar o fenômeno sem razão. Daniel Dennett diz que o behaviorismo radical é “reducionista ganancioso” com fenômenos psicológicos, por exemplo. Foi dele que peguei o termo. Há também reducionismo teórico (do qual tratei aqui) e reducionismo ontológico (dizer que seres vivos nada mais são que organizações complicadas de átomos é um reducionismo ontológico e está provavelmente correto).

1st of November

Sexo e Gênero


Assumir que há uma separação definitiva entre sexo biológico e gênero é acreditar erroneamente que uma coisa é 100% genes e outra é 100% ambiente cultural.
Eu não vejo muito sentido na maior parte das afirmações de influência cultural sobre o sexo biológico. Mas há um sentido em que elas poderiam ter um papel: o sentido da pressão seletiva da cultura ao longo dos últimos milênios sobre as bases biológicas do sexo. Essa influência cultural já foi convincentemente estabelecida para coisas como digestão da lactose e do amido – a frequência de alelos associados a isso nas populações humanas dependende da história milenar da cultura da pecuária e da agricultura / coletagem seletiva de raízes e tubérculos. Seria no entanto muito especulativo no momento dizer que a cultura influenciou nas características primárias e secundárias apresentadas por diferentes populações humanas. Nós ainda não sabemos se, por exemplo, o quão peludos os homens são em cada população (uma característica sexual secundária) é resultado de processos casuais (como deriva genética) ou de seleções, incluída entre elas a seleção cultural. Tudo o que estou dizendo portanto é que conforme nossos conhecimentos de evolução gene-cultura no momento, a possibilidade da cultura ter influenciado parte do que compõe o sexo biológico é real. O mesmo que eu disse sobre pelos masculinos pode ser dito sobre tamanho médio de seios, tamanho de pés, formato do rosto, altura, tamanho do pênis, pelos femininos. Há pesquisa sugerindo que nos últimos 50 anos as mulheres americanas foram selecionadas em direção a corpos de menor estatura e mais robustos, o que poderia ser uma preferência cultural. Dado que a pesquisa da Suzana Herculano-Houzel mostra que sem a cultura do fogo nosso cérebro nunca teria o volume e a demanda energética que tem hoje, há bons motivos para desconfiar que há cultura inscrita no sexo biológico, já que a influência da cultura vai tão fundo na natureza humana.
Portanto, não estão totalmente errados aqueles que vêem cultura no sexo biológico. Mas o problema é que exageram o papel da cultura e usam tradições intelectuais anticiência, muitas vezes.
E gênero? Podemos concordar que enquanto sexo está “entre as pernas” (ignorando as características secundárias), gênero está “entre as orelhas”. Aqui novamente o problema é exagerar o papel da cultura ou o papel da biologia. Quem exagera o papel da biologia (na verdade de uma biologia do senso comum distante da pesquisa de ponta) acha que não é possível existir homens nascidos com vaginas e mulheres nascidas com pênis, e isso está errado. Pesquisas iniciais com núcleos do hipotálamo sugerem que isso é não apenas possível como provável dependendo da base genética do feto e de seu ambiente hormonal dentro do útero e nos primeiros meses fora dele. Apesar de tentativas tacanhas de negar as pesquisas, há muita evidência acumulada de diferenças neurobiológicas e comportamentais entre homens e mulheres. Bebês recém-nascidos, cuja mente não se desenvolveu o suficiente para absorver informações culturais como a língua, já apresentam diferenças. O próximo passo é ver se os bebês que apresentam comportamento atípico para seu sexo nessa fase crescem mais tarde com maior probabilidade de serem gays ou transsexuais. Eu apostaria minhas fichas que sim.
Como eu disse em outras oportunidades, somos seres culturalmente moldados em nossa biologia e biologicamente moldados para a cultura. Alegar sem critério nenhum que uma dada característica é “construção social”, ignorando esse fato, é retroceder o conhecimento, não fazê-lo avançar.
28th of September

Carta aberta sobre conhecimento e política no Brasil


Conhecimentos deveriam se complementar mutuamente. As ciências naturais e as ciências sociais
deveriam se sobrepor com o mínimo de inconsistências, como um mapa de estradas
e um mapa de topografia do mesmo território se sobrepõem. Ou, como se seus
problemas fossem palavras cruzadas, as palavras já resolvidas pelas primeiras
deveriam servir como pista para preencher as lacunas que ainda faltam para as
últimas, e vice-versa.
Enquanto é previsível que diferentes vocabulários e verdades emerjam de diferentes grupos
de pesquisa na mesma área ou em áreas diferentes, seria estranho que uma
ciência mais jovem e mais baseada em tentativa e erro tivesse não apenas
vocabulário diferente para falar do mesmo território, mas negação peremptória
de ciências mais maduras e suas descobertas, especialmente as corroboradas
amplamente.
Quando há essa negação peremptória, essas áreas já estão em conflito e então alguma
comparação de garantia epistemológica se faz necessária. Em outras palavras: há
que se perguntar “de onde tiraram isso”?
No ano passado, bati de frente nas redes sociais, errando no tom mas acertando no
propósito, com uma mestranda da filosofia política e blogueira de revista
semanal, quando julguei que ela estaria fazendo afirmações tanto em seu
trabalho de divulgação quanto em seu trabalho acadêmico que estavam em franca
contradição com conhecimentos ou com o escopo da minha área, a biologia. Numa
dessas ocasiões, a blogueira nega dogmaticamente que em “qualquer hipótese” a
biologia possa contribuir para o entendimento do fenômeno misterioso que
chamamos de consciência – e essa blindagem seria completa, já que ela alega que
isso ocorre se a consciência fizer “jus à sua definição” (sic), ou seja, que
por definição haveria impedimentos à investigação biológica da consciência.
Conheço pessoas que estão trabalhando com neurônios piramidais que disparam de forma errática
justamente nos momentos de vigília consciente, e, em 2012, foi em um evento de
neurociências e ciências cognitivas que foi publicada a “declaração de Cambridge” sobre a consciência, em que os
cientistas alertam à população que vários dos seres vivos dos quais fazemos uso
são seres conscientes. Tudo isso largamente baseado em conhecimentos da
biologia. Não são desconhecidas, portanto, indicações de relevância da biologia
para investigações desse fenômeno. O filósofo John Searle, que trabalha com
filosofia da mente, acredita que a consciência “é um fenômeno biológico como a
fotossíntese”. Considero que seja possível, embora implausível, que nada de
biológico ou dentro do escopo da biologia exista na consciência. Mas está claro
que, para ter tanta certeza de que em hipótese alguma a biologia pode
contribuir, no mínimo alguma onisciência e presciência é necessária. Pergunto-me
“de onde ela tirou isso?”, e nas respostas possíveis não parece haver presciência, mas noções pré-ciência. Uma visão desdenhosa ou até
hostil ao conhecimento científico, portanto.
Respostas minhas a ataques à ciência como esse não são novas, na verdade, desde a
graduação venho elaborando essas respostas, a mais famosa das quais foi a Silas
Malafaia. Mas não se limita a Silas Malafaia a atitude contraditoriamente ao
mesmo tempo desdenhosa contra a ciência mas deturpadora e aproveitadora sobre
seu prestígio. Leitores lembrarão de livros como “Imposturas Intelectuais”, de
Alan Sokal e Jean Bricmont, e “Higher Superstition”, de Paul Gross e Norman
Levitt, dedicados a responder a coisas assim. Também entendo que ocorre por
vezes (tanto entre acadêmicos quanto em leigos) uma supervalorização da ciência
ao ponto de diminuir à irrelevância outras investigações. Não é minha posição,
tanto que traduzi um artigo da filósofa Susan Haack que define claramente e
critica o cientificismo. (Disponível em http://genetici.st/cientificismo .)
Em meu otimismo, pensei que a postura anticiência da blogueira e outras pessoas das
ciências sociais fosse a exceção na área ou entre ativistas como ela. Mas
encontro cada vez mais motivos para pensar que o ceticismo contra a razão e a
ciência já é dominante nas ciências sociais e no ativismo no Brasil, com estudantes dessas
áreas saindo da universidade pensando que fatos não existem, que teorias
científicas são apenas mitos particulares de uma cultura, que qualquer posição
pode ser defendida bastando ter para com ela fervor moral, pois “pressupostos
epistemológicos” podem ser conjurados ex
nihilo
sem precisar de justificação argumentada e baseada em premissas ao
menos tentativamente universais.
Vivemos hoje em sociedades cada vez mais dependentes da tecnologia e do
conhecimento científico. Até mesmo para espalhar ideias céticas contra ciência
e conhecimento objetivo e ideias excessivamente subjetivistas e mágicas, afinal
de contas, usa-se preferencialmente a internet, que não resulta desse tipo de
pensamento. Talvez por essa contradição, cresce o cinismo contra as
humanidades, como exemplificado nas recentes decisões do Japão visando a cortar
fundos para essas áreas. Uma decisão lamentável e que não faz bem à sociedade
japonesa.
Enquanto a face pública das humanidades no Brasil continuar sendo de “afrontas artísticas”
ao senso comum, pelo prazer de chocar os conservadores e entediar o resto, enquanto for mais a respeito de pregar algo “segundo fulano” do que analisar criticamente se o que fulano disse se sustenta com evidências e argumentos, os
conservadores continuarão marcando gols como vêm marcado desde as últimas eleições.
A atitude dadaísta, seja na arte, seja no pensamento acadêmico, contraditória e
desdenhosa de instrumentos de investigação que rechaçam contradições, mais
simpática à astrologia que à biologia, mais afeita às obscuridades que à clareza, vai ferir as humanidades mais que o
pânico anticomunista dos conservadores. Pois enquanto comunistas (ao menos os clássicos)
ao menos costumam tentar responder aos conservadores apelando para princípios
universais de igualdade e justiça social, tendo alguma chance no debate
público, os adeptos do novo dadaísmo sequer tentam fazer isso, negando portanto
a legitimidade dos conservadores de participar desse debate público, e
frequentemente fetichizando a resposta violenta e a imposição autoritária de
suas pautas com desculpas esfarrapadas como “reação do oprimido”.
Ou o progressismo redescobre o conhecimento e a razão, ou vai continuar perdendo feio no ambiente público para as forças conservadoras do país. Dada a atual prioridade de levar pessoas que defendem esse conjunto de ideias danosas ao estrelato, tenho desesperança de que isso vá acontecer no curto prazo e perco eu mesmo o interesse de ajudar em movimentos em que a segregação e a atribuição de privilégios epistemológicos de acordo com características pessoais de quem argumenta estão sendo a palavra de ordem. Sem humanidades não há progresso para a humanidade. Quando humanidades não acreditam em qualquer forma de progresso pela força da verdade e da investigação, quando fecham os ouvidos a outras áreas e caem em exercícios circulares de contemplação do próprio umbigo, a profecia de não existir progresso é autocumprida.
13th of September

Neerja Bhanot e o sentido da vida


5 de setembro de 1986, 5 da manhã. O vôo 73 da Pan American, vindo de Mumbai, pousa em Karachi. É um Boeing 747-121 com 360 passageiros. Os planos de continuidade do vôo após essa escala são interrompidos, uma hora após o pouso, quando quatro palestinos armados tomam controle da aeronave. Eles estavam disfarçados de seguranças do aeroporto de Karachi e traziam rifles, pistolas, granadas e explosivos plásticos; usaram também uma van disfarçada de veículo de segurança para embarcar no avião. Há duas hipóteses para os planos dos terroristas: sequestrar o avião para buscar prisioneiros palestinos no Chipre e em Israel, ou usá-lo como arma, à maneira do 11 de setembro de 2001, contra Israel.

Eles entram dando tiros com arma automática. É aí que entra em ação Neerja Bhanot, uma das comissárias de bordo. Talvez foi ela o membro da tripulação que alertou piloto, co-piloto e um engenheiro de vôo, que logo fugiram por uma porta da cabine. Com essa manobra, os terroristas são forçados a ficar em solo e negociar com a polícia.

Safarini, o líder dos terroristas, exige que o piloto volte, caso contrário atiraria em Kumar, um cidadão americano. Dá 15 minutos aos negociadores. Impaciente com a demora, cumpre a ameaça na frente dos passageiros. Kumar morre a caminho do hospital.

Os terroristas então mandam a tripulação coletar os passaportes dos passageiros. Neerja novamente pensa rápido: os passageiros americanos provavelmente serão alvos de mais assassinatos. Ela esconde uma parte dos passaportes de americanos sob uma poltrona, e joga o resto numa conduta de lixo. O plano parece funcionar, pois Safarini escolhe um britânico, Michael Thexton para ir até o local onde havia executado o americano. O terrorista conversa com o britânico, num aparente lampejo de humanidade diz que não gosta de toda essa violência, mas que era forçado a fazer isso por causa da atuação dos americanos e israelenses na Palestina (o que torna provável que se Thexton fosse americano, teria sido executado). Em vez de executado, o britânico é mandado de volta ao seu assento.

Durante a espera de uma decisão, uma aeromoça arranca instruções para a abertura de uma porta de emergência, bota numa revista e instrui um passageiro perto de uma dessas portas a ler a revista.

A noite cai, o avião fica sem luz, e os terroristas ficam impacientes. Reconhecendo sua derrota, mudam seus planos para um fim sinistro. Após uma oração, um deles mira num explosivo na cintura de outro, planejando causar uma grande explosão e matar todos a bordo. Por causa da pouca luz, o tiro causa uma pequena explosão, não sendo suficiente para matar a todos, nem mesmo aos terroristas. Outras pequenas explosões de granadas também acontecem, igualmente contidas pela confusão do breu. Mas as balas dos terroristas começam a matar os passageiros. Os planos da tripulação com o passageiro próximo à porta de emergência funcionam, ele consegue com sucesso abrir a porta. Neerja se põe a ajudar os passageiros a sair do avião.

22 passageiros morreram, 150 ficaram feridos. Um dos mortos foi Neerja Bhanot. Ela se fez de escudo humano para salvar três crianças das balas dos terroristas. Ela estava a dois dias de completar 23 anos. Neerja recebeu condecorações de honra póstumas da Índia e do Paquistão por sua coragem, batendo recordes com seu gênero, idade e status de civil.

Safarini hoje está cumprindo uma sentença de mais de 100 anos numa prisão do Colorado, depois de um tempo foragido após ser sentenciado a prisão perpétua no Paquistão. Em 2010, outro sequestrador do avião foi morto por um drone americano no país.

***

Depois de alguns séculos quase esquecido, o sentido da vida foi recentemente ressuscitado como problema filosófico na filosofia analítica com o trabalho seminal de filósofos como Susan Wolf. Desidério Murcho, filósofo português e professor da UFOP, resume essas ideias lapidadas de sentido da vida como “entrega ativa a projetos de valor”. Desidério crê que podemos objetivamente saber se uma vida tem sentido ou não. Nenhum desses filósofos duvida que pessoas com atitudes heróicas como Neerja Bhanot são exemplos claros de vidas com sentido. Não é à toa que heróis atraem tanta admiração. Todos nós queremos ter sentido nas nossas vidas.

Fontes da história:
https://en.wikipedia.org/wiki/Pan_Am_Flight_73
https://en.wikipedia.org/wiki/Neerja_Bhanot
http://timesofindia.indiatimes.com/world/us/24-yrs-after-Pan-Am-hijack-Neerja-Bhanot-killer-falls-to-drone/articleshow/5454295.cms?referral=PM

Volume com trabalho de Susan Wolf e discussões dele:
http://www.amazon.co.uk/Meaning-Life-Why-Matters-University/dp/0691154503/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1442148146&sr=8-1&keywords=meaning+of+life+susan+wolf

Volume em português sobre o sentido da vida editado pelo prof. Murcho, incluindo tradução de um artigo de Wolf:
http://criticanarede.com/viverparaque.html

25th of August

O embate entre fundamentalistas e LGBT é mais interessante do que parece


Tratar esta celeuma entre LGBT e evangélicos como apenas embate político é um erro. Mesmo que muitas vezes de fato seja, o que está no fundo, e nem mesmo escondido com frequência, é um embate de metafísica e epistemologia. Metafísica é a área da filosofia dedicada a estudar o que existe, do que a realidade é feita, se há alguma. Epistemologia, por sua vez, é o estudo do conhecimento – de como sabe…mos o que sabemos, do que dá justificação ao que sabemos, e o que é saber.

Mesmo que em ambos os campos haja muitas opiniões “naïve”, isso se torna claro quanto se fala em escolhas (livre arbítrio) e comportamento “inato”. Evangélicos mainstream como Marina Silva acreditam que na essência da homossexualidade há alguma decisão moral, de quem poderia ter decidido diferente: ou a própria pessoa gay poderia ter decidido não sê-lo, ou quem causou que ela fosse gay poderia ter escolhido não ter feito isso (não expor crianças a ver carícias entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo), ou, no nível mais profundo, a humanidade poderia ter escolhido não ter optado pela queda original no Éden (sendo ou não literal o mito de Adão e Eva). Essas pessoas crêem num “saber pela fé” de que alguma dessas versões de voluntarismo de comportamento afetivo-sexual é verdade. Vivem numa realidade com espaço para o sobrenatural, em que revelação “mágica” é uma forma de obter conhecimento.

No campo dos ativistas, embora ainda haja alguns que estejam abertos à possibilidade do voluntarismo (por alegada irrelevância moral dessa escolha, caso seja escolha), há uma concentração maior de explicações essencialistas, e entre elas as inatistas. As inatistas, como mencionei no passado, são equivocadas, e lembram de alguma forma um certo pensamento mágico, pois atribuem um poder causal excepcional ao ato de nascer, sem qualquer consideração ao desenvolvimento. Do meu ponto de vista, dizer “eu nasci assim” como diz a Lady Gaga soa tão mágico quanto “Deus quis assim”, pois faz-se um apelo obscuro a uma agência causal muito mal explicada. Mas nem todo essencialismo é inatismo. E eu não desconsideraria um componente importante desse inatismo, que é a reflexão autobiográfica de cada uma dessas pessoas. Relatos autobiográficos essencialistas sobre orientação sexual são encontrados ao longo dos séculos, Rictor Norton documentou alguns do século XVII e XVIII na Grã-Bretanha. Pode-se dizer quem uma “consiliência de autobiografias” dá força a esse essencialismo intuitivo, mesmo que às vezes seja expressado na forma equivocada do inatismo.

Estou simplificando exageradamente, evidentemente, mas há, em geral, um padrão aqui. A segunda visão, tendendo a essencialista, posso alegar ser mais simpática para o fazer científico. Para o bem ou para o mal, o bloco intelectual de filósofos e cientistas costuma ver com suspeita hipóteses fundadas em conceitos problemáticos como livre-arbítrio e fé (tendo a ser cético com bobagens ditas por alguns neurocientistas quanto a livre-arbítrio, mas honestamente qualquer crítica intelectual que se faça à fé não é difícil de ser convincente). Há uma maioria de mais de 70% de filósofos e cientistas que não têm qualquer confiança em epistemologias e metafísicas baseadas em fé e revelação. Isso não é suficiente para bater o martelo pela inverdade dessas últimas, mas ajuda a entender por que o embate não é apenas político e/ou moral. Há uma analogia interessante entre essa consiliência de autobiografias a que fiz referência e a consiliência de induções que, a despeito do positivismo lógico, ainda faz bastante sentido em epistemologia da ciência. Em outras palavras: o bloco intelectual tendendo ao essencialismo é mais simpático às ideias pró-LGBT porque põe um peso de autoridade epistêmica maior sobre a análise do conjunto dos “pequenos casos” do que ao “grande caso” de uma visão de mundo fundada sobre a autoridade da fé e da revelação. Cientistas afinal frequentemente são vistos como tolos por “perder seu tempo” com moscas de laboratório, enquanto praticamente não há teologia que não parta do já percebido como grandiloquente e hiperimportante.

Ter ciência de que o embate chega a esse nível de profundidade de assunto (mesmo que tratado superficialmente na maioria dos casos) é reconhecer o quanto é um assunto mais intelectualmente estimulante e genuinamente contencioso do que os bate-bocas do ativismo deixam transparecer.