16th of May

Estereótipos estão aqui para ficar, ou, Como minhas crenças anti-estereótipo me levaram a ser assaltado


Estereótipos são um horror, dizem. São racionalização de preconceitos, fazem mal, causam sofrimento. Talvez, mas nós não somos capazes de viver sem eles, e mais, muitos deles são precisos, descrevem algo que realmente existe no mundo.

Pedir que analisemos cada pessoa a fundo, sem estereótipo algum, é pedir demais. Um dia não seria suficiente para conhecer melhor uma pessoa e saber onde ela rompe estereótipos, se assim o faz. O ano tem só 365 dias – isso não é suficiente para conhecer sequer a vizinhança de um único prédio.

Estereótipos existem porque nós precisamos literalmente economizar energia ao tomar decisões sobre pessoas que mal conhecemos. Pois há um custo de energia e tempo em analisar a fundo cada pessoa que encontramos. Certa dia anos atrás, em Porto Alegre, fiquei no laboratório até tarde, tendo de tomar um ônibus diferente do que tomava diariamente. Desci no centro histórico à 1h da manhã, num avenida larga, de um lado que é margem do Parque da Redenção. Ao olhar à frente, a uns 300 metros de mim vinha uma pessoa cujas características distinguíveis eram essas: homem, alto, negro, pobre. “Vou ignorar os estereótipos e não atravessar a avenida”, pensei e decidi conscientemente. O resultado foi um assalto em que perdi um laptop contendo o primeiro rascunho da minha dissertação de mestrado, e um ticket para o show do Roger Waters que me deram de presente, além de algumas horas inutilmente tentando ajudar a polícia a pegar o assaltante e seu parceiro de crime que apareceu de um arbusto assim que me aproximei. Paguei o preço de tratar os estereótipos como se não correspondessem à realidade de forma alguma.

Há um risco de o estereótipo corresponder a um estado de coisas que já mudou. Este é um dos motivos das pessoas mais velhas serem consideradas as mais preconceituosas da família (o que é em si um estereótipo preciso). Mas, em toda a psicologia social, a precisão dos estereótipos, que costuma ter correlação mais forte com a realidade até que muitos dos efeitos descritos pela própria pesquisa da área, é um dos resultados mais bem replicados.*

Nenhum ativismo contra preconceito será “científico”, portanto, enquanto continuar popular entre ativistas a alegação de que os estereótipos não correspondem à realidade de forma alguma. O ativismo deve se focar em outras coisas. Não em alegar que estereótipos são imprecisos.

Além de a pessoa média ser minimamente racional ao tratar os próprios estereótipos (suspendendo o julgamento por estereótipo assim que informações individualizadoras relevantes emergem), as pessoas se comportam de modo a estereotipar a si mesmas. Não é coincidência que as garotas que usam o corte de cabelo que eu chamo de “o cachorro comeu aqui do lado” (raspam um lado da cabeça) tendem a adotar certas idéias sobre feminismo e gênero. Elas imitam umas às outras, estereotipando-se. Se as próprias pessoas se estereotipam voluntariamente, como poderiam ser os estereótipos todos imprecisos? Impossível. Na verdade, a maioria tem precisão suficiente para o propósito da existência dos estereótipos: ajudar um ser cognitivamente limitado a navegar por um mundo complexo.

Às vezes o problema não está no estereótipo, mas nos pressupostos morais. Tomem por exemplo o estereótipo de que homens gays são “promíscuos” (que têm mais parceiros sexuais que outros grupos). Este é um estereótipo preciso sobre gays.*** No entanto, a crença de que “promiscuidade” é uma coisa imoral merece exame: por que as pessoas pensam assim? Certamente há elementos ruins, como aumento de risco de contrair doenças venéreas, e talvez rompe princípios sobre a forma apropriada de tratar pessoas ou de ter uma vida emocionalmente saudável (há controvérsia aqui, e, para confirmar outro estereótipo, parece que o sexo casual faz bem a homens e mal às mulheres** – em média, é claro).

Mas há aspectos positivos, como:

(1) uma perda de inibições potencialmente irracionais, como a antiga expectativa maluca de se casar virgem, que no passado jogava pessoas às cegas numa situação que poderia ser uma condenação a passar a vida sem saciedade sexual – e no caso de algumas mulheres, uma vida sem orgasmo nenhum. O que chamam de “promiscuidade” pode ser simplesmente experimentação para encontrar qualidade: é a lei dos grandes números, se o evento de encontrar alguém com quem se tem boa “química” tem uma probabilidade pequena p, várias instâncias de p aumentam a probabilidade de achar o que se quer: p+p+p+p… tendendo ao número infinito de tentativas tem probabilidade total 100%. Quem não tenta o suficiente tem menos chance de encontrar.

(2) um sintoma de que há liberdade na sociedade onde é possível ser promíscuo. Certamente não é nem permitido nem aplaudido ser promíscuo em sociedade teocráticas com Estado policial. Portanto, haver promiscuidade tolerada numa sociedade é um sinal de que esta sociedade é livre, mesmo se a promiscuidade for algo que é de fato imoral. Nem tudo o que é imoral deve ser ilegal, e é a marca das sociedades autoritárias a rejeição dessa distinção.

Em suma, o pensamento crítico sobre o que se alega por aí ser “imoral” é mais importante do que uma condenação geral aos estereótipos.


* Vide http://www.spsp.org/blog/stereotype-accuracy-response

** Um dos estudos que encontraram que sexo casual faz mais bem a homens que a mulheres: https://link.springer.com/article/10.1007/s11199-010-9765-7

*** Há fontes citadas na Wikipédia que alegam que a promiscuidade entre homens gays e homens héteros é similar, estando apenas os extremos da promiscuidade mais entre homens gays. No entanto, achei alguns desses dados não confiáveis, como dados do site de encontros OK Cupid, que são baseados em auto-descrição, ou seja, cheios de mentiras convenientes dos usuários para se venderem no mercado de relacionamentos. Um estudo conduzido por uma marca de camisinhas não resumiu os dados de forma a tornar possível comparar homossexuais a heterossexuais. Estou tentando ter acesso aos dados. Minha aposta é que o estereótipo é preciso e que um homem gay tem em média mais parceiros sexuais ao longo da vida que um homem heterossexual.

  • Victor Pereira

    Passei pela mesma exata situação há muitos anos, na adolescência, ao decidir não saltar de um ônibus onde acabei sendo assaltado.

  • No momento que o estereótipo fere os os direitos de outra pessoa, não há ciência que justifique a estereotipagem.

    O que é exatamente a diferença entre exemplos, no primeiro caso o estereótipo não iria prejudicar o assaltante, pois no caso foi uma decisão pessoal de seguir ou não um caminho.

    O outro caso associar os homens gays como promíscuos, vai influenciar negativamente aqueles que não são e por isso devem ser evitado.

    Também em sua busca de mais dados veja se a não aceitação plena das relações homoafetivas não é a real causa desse achismo não comprovado da promiscuidade homossexual.

    😉

  • Seria muito _nonsense_ que nosso cérebro nos fizesse criar imagens mentais estereotipadas sobre determinados tipos de sujeitos para que essas imagens simplesmente não condigam com a realidade. O pai do conservadorismo, Edmund Burke, já defendia o valor do preconceito para lidar com a realidade.

  • Um dos problemas mais graves em se tratar o estereótipo é a confusão entre análise moral e análise “científica”, digamos assim.

    O estereótipo é um fenômeno de natureza cognitiva, que impacta na esfera social. Como o texto diz, isso envolve economia de energia e tempo, e eficiência na hora do organismo agir no mundo. Seria ridículo e ineficaz se todas as vezes em que nos deparamos com um estímulo teoricamente novo, partíssemos do zero para julgá-lo. Às vezes é melhor correr e examinar depois.

    O fenômeno é esse. E ele parece ser realmente útil, o que não significa que acerte todas as vezes, e tampouco que esse tipo de julgamento rápido deva substituir exames mais analíticos e conscientes.

    Simplesmente não podemos partir do pressuposto de que por ser estereótipo uma conclusão está errada.

    O dilema está principalmente na discriminação, consequência do preconceito. Mas isso é um problema ético e social — em termos de política, não de análise científica. Confundir essas duas esferas (a científica, que está aí para entender o fenômeno; e a ética, que está aí para julgar se é certo ou errado) é estar a meio passo para não conseguirmos mudar qualquer situação de preconceito e discriminação realmente graves — correspondendo à realidade ou não.

    A galera mais da parte da militância tem a impressão errônea de que desconhecer o funcionamento e as causas de um fenômeno é estar a meio passo de solucioná-lo. Mas isso só os deixa a meio passo de ações que não passam de palavras de ordem e nenhuma ação eficaz.