15th of January

Algumas idéias são tão absurdas que somente intelectuais acreditariam nelas


Exemplo: “o pessoal é político” e “tudo é político”.

Há vários comportamentos nossos que não parecem políticos em nenhum sentido. Nós investigamos coisas, de crimes a sequências de DNA. Investigação não parece política. Inventamos receitas, praticamos esportes, criamos e consumimos arte, escrevemos e lemos sobre história, buscamos parceiros românticos. Nada disso parece necessariamente político.

Cada uma dessas coisas pode ser *politizada*, e o verbo “politizar” sugere que as transformamos em política quando originalmente não o eram.

Talvez é isso o que se quer com a afirmação de que tudo é político: politizar coisas porque quem afirma isso está obcecado com política – e para quem só pensa em martelo, tudo é prego. Assim, quem tem pouco interesse em investigar, cozinhar, assistir a jogos, em arte pela arte em vez de “arte de protesto”, história e romance pode tornar essas coisas interessantes para si, politizando-as.

Mas isso tem um preço. Quando se investiga algo por interesse político, frequentemente a politização atrapalha na isenção da investigação. Quando politizam seu time de futebol, querem frequentemente o voto da torcida, não necessariamente vê-lo ganhando. Quando toda arte que se faz é para “lacrar” na mensagem ativista ou dar uma lição nas feministas, quem perde é a arte, pela limitação de tema.

Quem perde com essa história absurda de que tudo é política somos todos nós, que quando adotamos a idéia passamos a valorizar menos outras coisas pelo seu valor intrínseco e mais pela sua utilidade política.

Felizmente, é mesmo absurdo. As afirmações acima são tão inteligíveis quanto “o pessoal é científico” ou “tudo é culinária”. Claro, apesar de ser absurdo está muito popular. Mas não esqueçamos que já foi popular na comunidade médica européia que para salvar uma pessoa de afogamento o melhor método é soprar fumaça em seu ânus.