17th of December

Os novos carolas Como ativistas irracionais prejudicam suas causas


Uma moça foi contratada para posar de maiô junto a móveis de aço inoxidável, na publicidade de uma empresa que os vende. Em resposta, por considerarem isso errado, muitos ativistas atacaram a página em bando, chamando por avaliações baixas para a página e em consequência a empresa inteira. A empresa, muito espertamente, fez uma campanha nova oferecendo doar somas cada vez maiores a uma associação de deficientes conforme a avaliação de sua página subir, em reação às avaliações dos ativistas.

Algo similar aconteceu em Londres, quando em 2015 uma empresa que vende shakes de proteína botou no metrô uma campanha com uma modelo usando um biquíni amarelo, acompanhada de uma pergunta: “você está com o corpo pronto para a praia?”. Centenas de reclamações choveram sobre a autoridade responsável por regular anúncios no metrô, e o anúncio acabou sendo retirado por isso. Em resposta, a empresa foi a um país com mais liberdade de expressão publicitária, Estados Unidos, e simplesmente botou o mesmo anúncio na Times Square. A empresa ganhou popularidade e suas vendas aumentaram. Algumas outras marcas, também espertas, embarcaram na controvérsia, com imitações mais simpáticas às crenças dos ativistas. Mas a estrela acabou sendo a empresa que provocou a ira dos ativistas.

Muitos desses ativistas são incapazes de articular o que exatamente está errado, e são só seguidores de uma onda ideológica que se analisada de perto por sociólogos pode revelar como surgem novos tabus (religiosos), como o tabu bíblico contra tecer panos misturando fibras diferentes. Alguns poucos, no entanto, tentam explicar seu ultraje. Alguns dizem que diz respeito à imagem corporal, que há pessoas cuja auto-imagem depende bastante do que está na mídia popular, e que falta de sensibilidade com essas pessoas pode criar ou piorar problemas como a anorexia nervosa. Já ouvi também a alegação de que se trata de “objetificação” sexista, que causa ou piora o estereótipo de que mulheres devem ser valorizadas pela aparência acima de tudo.

Embora haja um ou outro ponto justo nisso, há pouca coisa que se aproveite nessas tentativas de justificação. Quem acha que a responsabilidade do cuidado a anoréxicos, bulímicos e vigoréxicos está na mídia é culpado de futilidade. O problema das pessoas que se deixam influenciar tão profundamente por mídia popular é principalmente falta de repertório cultural, falta de desligar a TV e deslogar do Facebook. É de impressionar como hoje as pessoas ficam comentando assuntos superficiais, como Tilda Swinton ser escalada para interpretar um personagem que nos quadrinhos é um homem asiático velho e sábio (outro estereótipo), como se estivessem libertando Mandela da cadeia ou repetindo o feito heroico de Rosa Parks. Desculpem-me os ativistas (ingenuidade minha achar que está sobrando nuance para me desculparem por qualquer coisa, eu que já sou difamado com todo tipo de adjetivo), mas eles deveriam baixar a bola: estão apenas comentando assuntos que em última análise são apenas passatempos para a maioria das pessoas, em que elas se engajam por futilidade. Se isso é ativismo, é uma forma inferior de ativismo.

É estranho também dar o nome “objetificação” ao problema, quando é fato que nossos corpos são objetos e o tempo todo fazemos uso desse objeto: se você utiliza os serviços de um motorista do Uber, você está “objetificando” o corpo dele para se deslocar de um ponto ao outro. Mulheres não são crianças, se elas trabalham o próprio corpo ao ponto de alugá-lo para a publicidade (e por mais que seja irracional, funciona), estão “objetificando” a si mesmas, e todos os envolvidos estão ganhando alguma coisa: elas estão sendo pagas, as empresas estão fazendo sua publicidade. Nada que ativistas disserem vai reduzir a soberania de mulher bonita ou homem sarado nenhum sobre seus próprios corpos, e corpos são objetos. Negar a realidade alegando que não existe atratividade intrínseca em certos tipos de corpos mais que em outros só piora a mensagem e só faz com que pareçam mais loucos ainda. A mídia existe por causa da sociedade e por causa do que as pessoas são, há muito pouco que a mídia de fato pode fazer para mudar o que as pessoas já consideram atraente. No máximo, ondas ideológicas podem convencer um certo setor da população a se engajar em ilusão coletiva alegando que obesidade mórbida é tão atraente quanto a média dos corpos.

Muitos dos ativistas não estão vendo, mas já são os novos carolas. São os novos moralistas que, devido a seus tabus injustificados, mais e mais pessoas consideram divertido ofender (e é tão fácil ofendê-los!). Muita gente fã de telenovelas adora ver a personagem carola se dando mal: da Perpétua em “Tieta” ao inquisidor em “A Muralha”. Continuem assim, que logo a cultura vai usar o arquétipo do ativista irracional, ofendido por tudo, nas novelas, séries e filmes brasileiros (se é que já não usaram – eu lembro de rir em “Tropa de Elite” dos estudantes rococós pomposos falando de Foucault). Estereótipos não surgem do nada. Se ativistas estão sendo estereotipados assim, é porque mais e mais ativistas que se comportam assim são visíveis. E, como já sugerido em pesquisa empírica*, o estereótipo do ativista raivoso e irracional, que nem mesmo explica o porquê de tanta ira, serve para prejudicar as próprias causas que ativistas tentam defender. Tentam, mas falham frequentemente, tudo porque sucumbem ao pensamento de manada, e estão mais interessados em abusar da ferramenta de avaliação do Facebook do que em discutir adequadamente ou ensinar alguma coisa. O caso é que não se pode ensinar o que não se sabe. Tabu e ultraje moral estão correlacionados com ignorância, não com conhecimento.

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* Bashir, Nadia Y., et al. “The ironic impact of activists: Negative stereotypes reduce social change influence.” European Journal of Social Psychology 43.7 (2013): 614-626.