11th of November

Reducionismo: só o meu pode


Alguns físicos acreditam que tudo pode ser reduzido aos termos teóricos da física, como onda, partícula, supercordas ou similares. Não se trata exatamente de afirmar que tudo o que existe no fundo é feito disso, mas de alegar que tudo o que existe pode ser entendido falando apenas disso. Não por acaso, biólogos se incomodam: como redescrever a teoria da evolução em termos de ondas, partículas, etc., sem falar em organismos, populações, genes, ambientes? Não parece possível, e se for possível não parece útil. Seres vivos são feitos das coisas que a física descreve, mas para entender como mudam com o tempo é preciso mencionar algo mais que simplesmente as coisas que a física descreve, e quem faz isso é a biologia. O mesmo vale para a sociologia, que precisa falar em sociedades, indivíduos, relações sociais.

Não é difícil ver por que esse reducionismo teórico é um reducionismo ganancioso e errado, porque atrapalha em vez de ajudar na construção de conhecimentos. É claro que isso não significa que biólogos e sociólogos podem sair inventando qualquer coisa, inclusive conceitos que contrariam os conceitos da física.

Na academia, o reducionismo ganancioso desses alguns físicos (há filósofos que também o defendem) é majoritariamente rejeitado. Mas há outro reducionismo teórico ganancioso que, em alguns círculos, é aceito com louvor, ensinado, e vira moeda corrente no vocabulário de muitas pessoas.

Estamos falando do reducionismo ganancioso nascido entre estudiosos de crítica literária. Todo tipo de conhecimento descrevem como “narrativa”. A teoria da evolução é apenas uma “narrativa”. Quando não falam em narrativa, falam em “linguagem”. Se um físico diz uma coisa e um sociólogo diz outra oposta, não há como decidir quem está certo, estão falando “linguagens” diferentes. É coincidência que é justamente quem trabalha com livros e romances quem costuma tentar reduzir gananciosamente (e erroneamente) as coisas a “narrativas” e “linguagens”? Claro que não, assim como não é coincidência que boa parte de quem quer descrever tudo em função de termos teóricos da física é físico.

O paroquialismo de alguns físicos é perfeitamente análogo ao paroquialismo de alguns linguistas e outros especialistas das letras.

Está na hora de rejeitar outro reducionismo ganancioso: o reducionismo linguístico/narrativo presente na obra de gente como Michel Foucault e Judith Butler.

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P.S.: “Reducionismo” de modo algum é uma coisa ruim. É uma coisa boa, em termos de conhecimento, que tenhamos conseguido reduzir várias das funções do rim aos seus néfrons. É importante saber disso: que algumas propriedades de um fenômeno qualquer podem ser compreendidas pela redução a seus componentes. Mas reducionismo ganancioso é outra coisa: é aquele reducionismo sem justificação, que quer abraçar o fenômeno sem razão. Daniel Dennett diz que o behaviorismo radical é “reducionista ganancioso” com fenômenos psicológicos, por exemplo. Foi dele que peguei o termo. Há também reducionismo teórico (do qual tratei aqui) e reducionismo ontológico (dizer que seres vivos nada mais são que organizações complicadas de átomos é um reducionismo ontológico e está provavelmente correto).