4th of April

Sobre depressão, Andreas Lubitz e Luiz Carlos Prates


Por causa dessa mensagem republico o texto abaixo no blog.

A ideia de que portadores de depressão não têm responsabilidade moral é claramente absurda: se uma criança está sob a responsabilidade de alguém com depressão, e por causa da apatia depressiva este alguém deixa essa criança ficar desnutrida, o cuidador deprimido tem culpa pela desnutrição da criança. Se estamos falando de depressão grave, neste caso hipotético, pode ser que estejamos falando de um malfeito culposo (sem intenção de fazer, mas ainda imputável), e não doloso (feito com má fé, intencionalmente). Mas a depressão sozinha não é suficiente para estabelecer que foi culposo, apenas aumenta a suspeita de ser culposo pelo seu poder de incapacitar seu portador. Os detalhes do caso devem ser levados em conta para saber se essa suspeita se confirma.

Quando um co-piloto depressivo e potencialmente suicida pesquisa na internet detalhes sobre como trancar uma cabine de comando de um avião, e não responde a apelos do piloto para abrir a porta, e respira “calmamente” durante os oito minutos entre tomar o controle e colidir o avião contra uma montanha, os indícios são fortemente de crime doloso, e além disso premeditado. Este caso é real e diz respeito ao co-piloto Andreas Lubitz (http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-32159602).
Somente em casos de deficiência intelectual grave devemos eximir completamente uma pessoa de culpa, como devemos fazer com predadores como tubarões e leões quando causam ferimento ou morte a humanos. Somos todos animais, não é pejorativo comparar essas pessoas com outras espécies. O propósito da comparação é apenas apontar que uma pessoa com deficiência intelectual grave não é capaz de responder por si, o que é verdade também para crianças.
Andreas Lubitz, ao que tudo indica (como o fato de ter chegado a ser um co-piloto), era plenamente capaz de responder por si.
Há relação da depressão com o crime? Só incidentalmente. Sabemos que outras pessoas com outras motivações já fizeram coisa parecida, e não eram deprimidas. Um dos sintomas mais clássicos de depressão é a apatia. Mas a hiperatividade também pode ser. Outros sintomas de depressão também são paradoxais: o deprimido pode comer muito pouco ou pode comer demais e ganhar bastante peso em pouco tempo. Pessoas deprimidas são um perigo para si mesmas não nos episódios depressivos (geralmente incapacitantes, em que passam dias sem sair de casa, geralmente deitadas), mas quando melhoram e ficam capazes de tomar decisões. E, como pessoas não-deprimidas, ao tomar decisões são influenciadas por suas ideias e crenças.
Andreas Lubitz pode ter acreditado que é melhor se despedir do mundo com um espetáculo sangrento do que timidamente em seu apartamento. Essa ideia é antiga, na mitologia nórdica morrer bem era morrer em batalha, levando muita gente junto. Essa ideia reverbera pelos produtos culturais que consumimos. Essa ideia está até no cristianismo: Jesus decidiu ser crucificado para espalhar a ideia da salvação, foi-se do mundo em espetáculo em vez de passar mais 30 ou 40 anos pregando suas ideias para depois morrer a morte anônima dos carpinteiros do século I.
A depressão influencia as ideias do deprimido, também. Pessoas deprimidas têm um filtro de negatividade, em que vão acumulando e listando “fatos” ruins que lhe acontecem ou sobre sua própria personalidade. Em algumas, esse “filtro” cognitivo é mais brando e elimina outro “filtro” positivo que as pessoas em geral têm, o que faz desse subgrupo de deprimidos um grupo “realista”, bom em avaliar o estado das coisas e prever para onde vão. Talvez Lubitz não se importasse em ser visto como um monstro, pois como depressivo já se via como indigno, e ser um monstro seria apenas mais uma propriedade negativa em sua coleção de vícios percebidos. Uma pessoa que se mata ou se vê como caso perdido e indigna de viver, ou está num estado (temporário) de extrema frustração por algum grande projeto falido em suas vidas. Há indícios para as duas coisas em Lubitz, pois pode ser que ele estivesse frustrado com impedimentos à sua carreira, mas dado o nível de premeditação e tempo dedicado ao que ele fez, creio que a autopercepção negativa ali era forte. A depressão também pode vir acompanhada de outros transtornos (ter um problema mental não significa, infelizmente, estar livre de outros), isso é chamado de “comorbidade”. Pode ser que Lubitz tivesse algum transtorno de personalidade antissocial ou estivesse na fronteira de um. Não é possível afirmar isso agora, no entanto.
Sobre esse caso o jornalista Luiz Carlos Prates comentou que gente depressiva como o piloto deve ser “duramente tocado em suas verdades, porque é um covarde existencial. Nada de pena, mas até de desprezo se for o caso”. Isso traz uma carga grande de senso comum. O problema de ter opiniões de senso comum é que se confunde o que é intuitivamente popular com o que é cristalinamente verdadeiro. Às vezes o que é popular nas intuições das pessoas é assim porque é cristalinamente verdadeiro. Mas nem sempre: às vezes uma crença é popular e intuitiva pelo compartilhamento de erros sistemáticos de avaliação.
Parece que a receita do Prates para lidar com depressivos é a mesma do Bolsonaro para lidar com filho gay: a agressão. Certo, Bolsonaro recomendou a agressão física e Prates parece recomendar apenas a verbal. Mas, como todo mundo sabe, é preferível tomar beliscões e tapas a ouvir certos tipos de coisa.
O problema dessa receita é que ela claramente não funciona, e insistir nela é portanto irracional. Quando se “toca duramente” uma pessoa deprimida “em suas verdades”, o que frequentemente acontece é que ela dirá para si mesma: sim, eu sou indigno, eu mereço seu desprezo, eu sou mesmo esse lixo. Não significa que dirá isso em voz alta, mas essas crenças autodepreciativas, que ocupam um nível bem basal e nem sempre declarativo na cabeça do deprimido, se afirmam repetidamente em sua cabeça. Não importa o quão bem-sucedida a pessoa é: essa doença tem uma fonte mista, tanto endógena (existem variantes genéticas associadas a certos tipos e propriedades da depressão) quanto exógena (experiências passadas e presentes, mas sob o efeito de uma “interpretação” subjetiva, que em depressivos é frequentemente distorcida para o negativo, como já dito). Não vou entrar em detalhes sobre o que foi mostrado como eficaz para a depressão até hoje (psicoterapia, passagem de tempo, medicamentos todos funcionam com dose a depender do caso): o que importa aqui é que as ideias do jornalista, e na verdade de muita gente que pensa como ele, são profundamente ignorantes sobre o que é a depressão. Isso é ruim não só para os depressivos, mas para quem tem essas opiniões. Uma vez deprimido, gente como o Prates vai ser ainda mais propensa a se autoflagelar psicologicamente: “preciso ser duramente sacudido nas minhas verdades, preciso receber mais desprezo, preciso me chacoalhar e ser estapeado para voltar a mim mesmo”.
A ironia nisso? Como discutido, as ideias do deprimido influenciam suas decisões naquela fase de melhora em que ele está mais propenso a fazer algo terrível contra si (ou contra os outros também como fez Lubitz). Ideias ruins, mal examinadas, têm uma forte tendência a levar a decisões ruins. Talvez, se Lubitz visse que ele não era uma pessoa desprezível e que existe ajuda, inclusive medicamentosa, ao que ele estava passando, se tivesse uma percepção mais estatisticamente correta das virtudes e vícios humanos e visse que ele também tinha virtudes, ele teria se importado mais com acrescentar o adjetivo “assassino” ao seu nome, teria visto que isso não precisava ser “coerente” com a visão que tinha de si mesmo, porque a visão que tinha de si mesmo estava sendo distorcida por uma doença real, tão real quanto uma infecção ou uma insuficiência cardíaca, chamada depressão.
Quem tem ideias ruins como a de Prates, quem duvida da existência da depressão, quem só acredita que é depressão se for caso grave, contribui pela via da ignorância para os efeitos nefastos dessa doença no mundo. E nisso há, provavelmente, também algum grau de malfeito culposo ou doloso.