14th of September

Fucô não é meu Pastô: filósofo Michel Foucault diminuía gravidade da pedofilia para atacar “biopoder”


Da série “Fucô não é meu pastô”: quando, em nome de atacar o “biopoder”, o francês diminuiu a gravidade da pedofilia.
“[É] central na crítica de Foucault o papel que as pretensões epistêmicas das ciências desempenham numa estrutura de raciocínio prático que leva agentes preocupados com sua prosperidade a se tornarem agentes de sua própria opressão. E a parte crucial da “pretensão” é, como notamos antes, que as ciências humanas iluminam a verdade sobre como seres humanos (normais) prosperam em virtude de aderirem às estrituras epistêmicas e metodologias das ciências naturais. Lembre-se também que Foucault, diferentemente de Nietzsche, não contesta a autoridade prática da verdade (isto é, a alegação da verdade para determinar o que *deve* ser feito); em vez disso ele nega que as alegações em questão sejam verdadeiras ou que tenham a garantia epistêmica que esperaríamos de alegações verdadeiras. Então, o projeto de libertação foucaultiano em sua totalidade se volta para o status epistêmico das alegações das ciências humanas. E sobre esse ponto central Foucault não tem, surpreendentemente, quase nada a dizer além de levantar “suspeitas”. Talvez a medicina ou a psiquiatria *contemporâneas* tenham identificado *tipos naturais*, isto é, agrupamentos reais de propriedades patogênicas interconectadas de pessoas. Neste caso, a história de Foucault é a história da ciência de araque do passado recrutada em favor objetivos morais e políticos, uma história cujos contornos gerais são há muito conhecidos, mesmo que Foucault conte aspectos marcadamente novos a seu respeito. Sobre o status epistêmico das ciências humanas *atuais*, tudo o que Foucault nos oferece é uma suspeita, em vez de um argumento. A suspeita é, como argumentamos anteriormente, epistemologicamente importante, mas precisa ser suprida de uma crítica da verdade das alegações em questão.
Mesmo essa suspeita, no entanto, é enfraquecida, infelizmente, pela atitude às vezes cavalheiresca de Foucault para com os fenômenos em questão. Considere a seguinte passagem notável da História da Sexualidade, sobre a qual os devotados seguidores de Foucault raramente comentam:
“Um dia, em 1867, um trabalhador rural da vila de Lapcourt, que era uma pessoa simples, empregado aqui e ali a depender da estação, vivendo da própria subsistência… foi entregado às autoridades. Na fronteira de um campo, ele havia obtido algumas carícias de uma menina, da mesma forma que ele já havia feito e tinha sido observado fazendo pelos moleques da vila ao seu redor… Então ele foi acusado pelos pais da menina frente ao prefeito da vila, entregue pelo prefeito aos gendarmes [guardas], levado pelos gendarmes ao juiz, que o condenou e o entregou primeiro a um médico, e então a outros especialistas. … O que é digno de nota nessa história? A mesquinhez disso tudo; o fato de que essa ocorrência quotidiana na vida da sexualidade da vila, esses prazeres bucólicos inconsequentes, poderiam se tornar, a um tempo, o objeto não apenas da intolerância coletiva mas de uma ação judicial, uma intervenção médica, um exame clínico cuidadoso, e uma inteira elaboração teórica.” (p. 31)
Os mesmos eventos subjacentes podem, é claro, ser descritos de forma bem diferente: que até o tempo daquele incidente, a pedofilia e o abuso sexual infantil haviam sido rotineiramente tolerados – tratados como um “prazer bucólico inconsequente” na expressão alarmante de Foucault – mas gradualmente as pessoas vieram a perceber que homens “simples” sendo masturbados por meninas pequenas não era coisa tão boa (nem tão “inconsequente”), e assim o moderno estudo científico da pedofilia, e seus danos, começou. Por que deveríamos preferir a versão de Foucault à versão alternativa não está claro. Por que não dizer, em vez disso, que no século XIX um certo *tipo* psicológico foi descoberto, a saber, o pedófilo, e que os prejuízos da pedofilia também foram descobertos, mesmo que as versões dessas descobertas do século XIX tenham sido superadas por um século de investigação? Ausente em respostas para perguntas assim, o projeto crítico de Foucault fica em perigo.”

Brian Leiter. “O status epistêmico das ciências humanas: reflexões críticas sobre Foucault”. http://philpapers.org/rec/LEITES

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