18th of June

O curioso caso de quando o Olavo de Carvalho concordou com a esquerda


Em tempos de renovado espaço na Folha de São Paulo, a última coisa que Olavão quer que nós lembremos é que ele já concordou – e muito – com certa parte da esquerda. Na verdade, ele continua concordando entusiasticamente, como veremos. A história é bem conhecida em círculos intelectuais, e merece mais divulgação para a população em geral.No fim da década de 1990, um movimento mais ou menos difuso de ideias, chamado de “pós-modernismo”, estava em seu ápice. As ideias mais comuns veiculadas por esse movimento não são muito novas – por exemplo, relativismo epistemológico, relativismo moral, redução de problemas intelectuais a quedas de braço de interesses cegos (políticos, pessoais, étnicos, econômicos) em detrimento da confiança iluminista em verdade, objetividade, imparcialidade etc. Evidentemente, para abraçar as últimas não é necessário ser cego para com vieses. No entanto, ao desistir totalmente delas, o pós-modernismo viu-se dando espaço para a aceitação de visões acriticamente pessimistas das capacidades humanas de raciocínio integrativo e ceticismo crítico (em oposição à dúvida teimosa sobre tudo conhecida como ceticismo pirrônico). Até algumas pessoas que não se encaixam totalmente na definição de “pós-moderno”, como Michel Foucault, acabaram caindo em algumas de suas armadilhas – notoriamente, Foucault acabou apoiando a “revolução” dos aiatolás no Irã, e é difícil disfarçar que isso foi por relativismo cultural (que o que é certo ou errado moralmente depende totalmente da cultura em que estamos). O pós-modernismo, se não nasceu totalmente da esquerda, foi alimentado entusiasticamente por seus seios fartos.

Foi em resposta a esse modismo da sandice que Alan Sokal, um físico, escreveu um texto no estilo obscuro amado pelos pós-modernos, para ser publicado na revista “Social Text”. O texto abusava de termos científicos, besuntava afirmações loucas com termos da mecânica quântica e termos da moda usados e abusados na época e até hoje (“hermenêutica”, por exemplo, e “semiótica”, que o filósofo John Searle diz – provocando – que nem quem a usa como nome de sua própria profissão sabe direito do que ela trata). A revista aceitou o artigo embusteiro com louvor suficiente de publicá-lo num volume especial sobre ciência. Seguiu-se um chacoalhar raramente visto antes na torre de marfim. Para quem gosta de ciência criticamente (ou seja, sem cientificismo), o artigo falso de Sokal foi um ponto de inflexão para conscientizar a intelectualidade da importância de uma volta aos valores de origem (da própria intelectualidade institucionalizada). O evento, conhecido como “Sokal Hoax”, foi seguido pela publicação do livro “Imposturas Intelectuais”, pelo próprio Sokal em parceria com Jean Bricmont.

Importantemente, o episódio foi precedido pelo alerta de um livro de Paul Gross e Norman Levitt, cujo título, e especialmente subtítulo, dizem tudo: “Higher Superstition: The Academic Left and Its Quarrels with Science” [Superstição Superior: A Esquerda Acadêmica e suas Brigas com a Ciência].

Onde entra Olavo de Carvalho nisso tudo? Ele mesmo um exímio produtor de prosa floreada porém obscura, obscura porém floreada, que seus seguidores se iludem achando que é filosofia, foi um dos primeiros a atacar a defesa de Sokal da racionalidade filosófica clássica e sua filha, a ciência. Não à toa, Olavo é famoso por suas diatribes sobre as teorias de Newton e Darwin, e, é claro, pela frase filosófica “combustível fóssil é o cu da tua mãe”.

O maravilhoso espetáculo de Olavão se juntando a acadêmicos de esquerda no linchamento ao pensamento crítico pode ser lido no próprio site do Sokal: http://www.physics.nyu.edu/sokal/folha.html

A lição a levar para casa é: em todo o seu mundo maniqueísta de esquerda versus direita, comunistas versus capitalistas, Olavo de Carvalho não é sincero quanto ao seu ódio à esquerda. Quando é para atacar ciência e filosofia de fato (que ele nunca praticou na vida, sendo no máximo um bom leitor de Aristóteles), Olavo ama a esquerda de paixão. A beija, a abraça, e fornica com ela.

Post Scriptum

Algumas pessoas protestaram que eu não interpretei corretamente a resenha do Olavo de Carvalho nem levei em consideração supostos elogios que ele fez à empreitada do Sokal. Pois bem, vamos deixar algumas coisas mais claras.

Quando eu digo que Olavo concorda com a parte pós-moderna da esquerda, é no sentido de ele, tanto quanto a última, insistir em ataques às teorias científicas, de forma bem desinformada sobre o que essas teorias dizem (não está na resenha sobre a Sokal Hoax, mas está em vários textos dele); e no sentido de ele tentar reduzir discordâncias de cunho ‘cognitivo’ a conflitos de interesses entre esquerda e direita (está na resenha). Atacar ciência e reduzir problemas intelectuais a conflitos de interesses são duas marcas notáveis de pós-modernismo. Outra marca é um estilo obscuro de escrita que pós-modernos amam e Olavo de Carvalho pratica frequentemente (está na resenha também). Não tomem minha palavra a respeito: basta ler por exemplo o texto dele atacando a teoria da evolução pela seleção natural de Darwin (evidentemente, entender onde Olavo erra requer algum conhecimento da teoria de Darwin e da teoria moderna da evolução): http://www.olavodecarvalho.org/semana/090220dc.html

O fato de ele supostamente ter elogiado o que Sokal fez é claramente pelo único motivo de que ele pensa que Sokal destruiu intelectualmente a esquerda. Ou seja, tenta reduzir a esquerda acadêmica completamente aos erros de sua parte pós-moderna. Isso é tanto desonestidade intelectual, dada a insistência do próprio Sokal (que é de esquerda) que estava criticando erros de uma minoria na esquerda, quanto redução a conflito de interesses. Se o Olavo estiver certo, então Sokal teria de ser pós-moderno sem saber, já que Olavo quer reduzir tudo ao seu maniqueísmo de eixo esquerda-direita.

Ironicamente, pelos motivos expostos acima – volúpia de atacar a ciência sem entendê-la, redução de problemas que devem ser resolvidos no campo do argumento e da evidência a problemas de conflito de interesses políticos (ao tentar igualar esquerda intelectual a pós-modernismo), e obscurantismo de conceitos mal definidos e prosa embotada – quem é pós-moderno sem o saber é o Olavo.

[Editado em 26/08/2016 para incluir meu vídeo comentando em detalhes o texto do Olavo atacando Charles Darwin e a teoria da evolução.]