1st of May

Invertebrados e humanistas


Há 200 anos, Jean-Baptiste Lamarck, naturalista francês, dividiu os animais em vertebrados e invertebrados. Note que a divisão é desigual de uma maneira importante: vertebrado é uma classificação positiva, baseada na presença de um órgão observável que é a coluna vertebral. Invertebrado é uma classificação negativa, ou seja, é um nome para os bichos que não têm esse órgão.
Após a teoria da evolução e outros avanços, a biologia aprendeu que a classificação “invertebrados” é chauvinista, nada explicativa, e não junta os animais de uma forma que reflita sua história ou suas características. Nós biólogos ainda chamamos animais de invertebrados nas nossas disciplinas, mas sabemos que é uma forma artificial de chamá-los e que, para compreendê-los, de nada adianta saber o que eles não têm (coluna): precisamos saber o que esses animais nos mostram ter, de forma positiva (positiva no sentido de afirmativa): ctenóforos têm corpo gelatinoso, como cnidários, mas diferente dos últimos são bilateralmente simétricos. Para entender cnidários e ctenóforos, pensar no que não têm em comum não acrescenta nada. Ou seja, a categoria dos invertebrados é meramente instrumental.
A minha conclusão é que os termos “ateu” e “ateísmo” são da mesma natureza de “invertebrado”. Unir pessoas com base numa falta de fé tem que ser meramente instrumental, não se pode esperar que grandes realizações resultem disso (no momento que um ateu propõe uma coisa, a chance de haver outro que acredita no oposto é alta). É preciso mais que criticar: é preciso propor. Ninguém que é ateu deve se sentir obrigado, em virtude do ateísmo, a pensar criticamente, a ser cético, a gostar de filosofia e ciência, a se importar com direitos humanos, democracia e Estado laico. Esse conjunto de valores em conhecimento e conduta forma a coluna vertebral do humanismo. Humanistas nem precisam provar a que vieram: já existe uma longa história de suas realizações.
Forçadas a arregaçar as mangas diante do silêncio do cosmos, as pessoas humanistas examinam, reexaminam, propõem e criticam. Discordam entre si, afinal é preciso partir de uma pluralidade de hipóteses, mas frequentemente convergem em investigações independentes. Só querem saber do que pode dar certo, não têm tempo a perder, mas sabem que prazer não é necessariamente tempo perdido. A vida é finita e pode ser melhor aqui e agora. E “vida” não significa apenas “vida humana”; “finita” não significa “aceitamos qualquer conclusão que puder ser obtida no prazo de uma vida”; e “melhor” não significa “o que importa é ter mais gente pensando exatamente como nós”, nem significa “vamos praticar justiça punitiva para ferir quem feriu, excluir quem excluiu, e censurar quem censurou”.
Não é fácil, não é popular, e o sucesso não é garantido. Faz-se as coisas mesmo assim porque omissão é uma decisão perigosa. E não há nada mais terrível no leito de morte de uma pessoa humanista que a sensação de que não se dedicou a nada além de si mesma, não construiu nada, não aplicou tempo e esforço em projetos de valor que valorizam a própria vida, e que esta vida pode ser descrita pelo que não teve, uma vida “invertebrada”.