27th of March

Religião se discute, contanto que com respeito: por que não sou cristão e por que sou ateu


Como sou um otimista incorrigível, acredito ser possível discutir religião sem ferir sentimentos. E acredito que posso explicar por que sou ateu de forma suficientemente objetiva, para que quem quiser compreender, compreenda, concordando ou não.
Ao contrário de alguns outros ateus, eu não acredito que tenho o dever de convencer qualquer pessoa a ser ateia, muito menos acredito que o mundo será melhor se todas forem. (Um ateu que veio se comportar de forma machista e homofóbica no meu perfil ontem é evidência de que isso não é verdade.)
Então aqui vai, de forma resumida – por que não sou cristão, e por que sou ateu.
1) Por que não sou cristão?
1.1 Ética
Agora que já passei da fase da revolta adolescente contra religião, que é comum em quem a abandona cedo (no meu caso, entre 14 e 15 anos), posso apreciar o que há de bom na mensagem cristã. Num mundo de linchamentos e impérios de dois mil anos atrás, certamente era uma pessoa com um conhecimento ético avançado quem defendesse o perdão, e quem defendesse que nós podemos reparar o que fizemos de errado. Que são umas das coisas que Jesus diz na Bíblia. E, talvez mais importante que isso, são as coisas que me ensinaram na minha educação católica. Alguns ateus cometem o erro de pensar que o cristianismo está na Bíblia antes de estar nos cristãos, então catam os piores trechos bíblicos para condenar o cristianismo. Mas isso demonstra uma ingenuidade antropológica sobre a natureza do fenômeno religioso… crer que o cristianismo é apenas uma “religião do livro” é ignorar o quanto há coisas que a maioria dos cristãos praticam que derivam de interpretações generosas da Bíblia e práticas comunitárias, em vez de literalismo estrito com textos (Jesus diz que veio para trazer a espada e voltar a nora contra a sogra? Sim. Mas não é onde a maioria dos cristãos foca suas crenças, e o cristianismo são eles e não citações impopulares de Jesus). Os ateus ainda estão aprendendo o que é isso – viver em comunidade de crença, não apenas na internet, mas fisicamente. Não é justo generalizar o cristianismo tomando a Westboro Baptist Church (pequena igreja fundamentalista que faz piquetes até em funerais) assim como não é justo generalizar sobre o ateísmo tomando seus piores exemplos. É preciso uma racionalidade estatística para lidar com fenômenos complexos… então se é para comparar cristãos a ateus, corrija-se para escolaridade e outras variáveis sociais.
Enfim, reconhecida a mensagem moral positiva do cristianismo moderno, com alguma raiz no Jesus bíblico, ainda preciso explicar por que isso não me faz cristão. Em primeiro lugar, porque a mensagem moral positiva do cristianismo não tem nada de exclusivamente cristã. Não é monopolizada pelo cristianismo, nem foi invenção do cristianismo. A “lei de ouro” de não fazer aos outros o que não quer para si (que tem alguns problemas se analisada com cuidado, mas em geral se aplica) apareceu em outras religiões e também em contextos seculares. Os materialistas de cerca de três mil anos atrás, na Índia, a defendiam também e queriam o fim do sistema de castas. O budismo a defende também, e Confúcio. E além de não ser exclusiva do cristianismo, a moralidade cristã não é completa. Quando há problemas não tão difíceis de resolver eticamente falando, como o aborto e a eutanásia, os cristãos geralmente têm problemas para perceber que não são bichos de sete cabeças (há exceções notáveis, como as Católicas Direito de Decidir). Quando se encontram diante de problemas mais difíceis da modernidade, como “os pais devem poder decidir qual orientação sexual os filhos vão ter?”, a pessoa cristã média tem tantas dúvidas quanto a pessoa ateia média (ou muçulmana, espírita ou candomblecista). Em outras palavras, o cristianismo não dá insight moral especial ao cristão sobre casos éticos contenciosos, e pode turvar sua visão para casos não tão contenciosos. E eu digo que pode turvar por causa das outras crenças do cristianismo das quais ainda não falei: as crenças sobre fatos. Mas para resumir as crenças sobre ética, o que eu penso é: o cristianismo dá uma mensagem moral genérica que é positiva, por seu próprio mérito (não estou falando da aplicação), mas não é uma mensagem suficientemente impressionante ou original para “vender” o cristianismo como melhor que as alternativas.
1.2 Fatos
Indo agora às crenças cristãs sobre fatos, começo pela crença à qual fiz alusão e penso que turva suas decisões em alguns assuntos éticos: a crença em alma ou espírito. A crença de que nossas personalidades, nossas mentes, existem numa substância misteriosa que habita nossos corpos e sobrevive à sua morte. Primeiro, a evidência para acreditar nisso é, para ser generoso, insuficiente. É uma afirmação sobre como o mundo funciona, que o mundo, como ele funciona, não se cansa de contradizer. Phineas Gage no começo do século XX acidentalmente teve o cérebro atravessado por uma barra de metal, e os melhores relatos são de que após isso mudou a personalidade, o comportamento moral, etc. Henry Molaison, após remoção cirúrgica de parte de seus hipocampos, passou a ser incapaz de formar novas memórias declarativas. Não me equivoco: sei muito bem que quem se subscreve ao evidencialismo nessa questão sou eu, e nenhum cristão é obrigado a crer que essa é a melhor forma de abordar. Certamente acreditam ter outras razões – se alguma – para acreditar em espíritos e vida após a morte. (Tenho esperança de que não seja apenas por medo, pois acho que qualquer pessoa reconhece que crer ou deixar de crer em algo por medo é irracional – e por mais que compreendamos que alguém em severo luto negue que seu ente querido morreu, seus sentimentos nada têm a ver com a verdade de o suposto falecido estar morto ou não.) Acredito que é essa crença, de que há uma substancia essencial, invisível e sobrenatural carregando nossas personalidades, que obscurece o julgamento de muitos cristãos na hora de pensar em aborto e eutanásia. Colocando vidas em risco e causando muita dor desnecessária neste ínterim: atribuindo capacidades demais a fetos e mórulas, às custas das mulheres que os carregam, e fazendo o mesmo com pessoas com completa morte cerebral, ou crendo que não há problema em pessoas marcharem para sua morte com dor excruciante, e que não podem decidir sobre seu próprio fim, por crer que terão oportunidade de se cicatrizar numa outra vida. Tenho noção de que a relação mente/cérebro está longe de ser compreendida dentro do paradigma naturalista, se será um dia (o filósofo Colin McGinn acredita que atingimos nossos limites como seres cognoscentes nesta questão e jamais saberemos a resposta). Mas ter problemas numa teoria não favorece automaticamente as alternativas. Os problemas na teoria de uma sociedade sob um Estado de bem-estar social não são evidência de que corretos são os libertários extremistas que fazem apologia ao egoísmo ou os marxistas mais marxistas que Marx que querem a revolução do proletariado agora mesmo.
As outras crenças sobre fatos dentro do cristianismo são, em resumo, de que houve um homem sábio no oriente médio há dois mil anos chamado Jesus (evidência circunstancial, mas existente), de que este homem era filho de Deus (o que é apenas alegado e aceito por fé), e de que ele passou três dias morto e ressuscitou (em franca contradição com tudo o que se sabe sobre organismos humanos). Alegações sobrenaturais também são feitas no Islamismo, em que muitos acreditam que Maomé subiu aos céus num pégaso, no Budismo, em que descrevem um comportamento inesperado de animais frente à figura de Siddartha Gautama, no espiritismo, em que alegam que objetos podem ser “materializados” por pessoas mortas (enquanto a física diz que precisamos de estrelas para formar elementos mais pesados que o hidrogênio), nas crenças populares dos povos indígenas nas Américas (lembro que havia a crença popular de que a planta mandioca veio de uma menina injustiçada que foi enterrada), etc. Os exemplos são inúmeros, e o trabalho interessantíssimo de descrição comparada de crenças sobrenaturais existe ao menos desde o livro “The Golden Bough” de James Frazer. Aqui, o problema é que eu não acredito que uns povos têm mais acesso à verdade que outros, especialmente sobre o universo. Tenho razões para crer nisso, por exemplo, a alta similaridade genética e de capacidades cognitivas entre pessoas das mais diferentes etnicidades. Sim, alguns povos diferem de outros quanto à produção de conhecimento nos últimos séculos, mas isso é explicado pelo ambiente, não por supostas características cognitivas intrínsecas desses povos (ver “Armas, germes e aço” de Jared Diamond). Então, onde faz alegações sobre como o mundo é ou foi no passado, o cristianismo não me parece especialmente privilegiado no acesso à verdade. E numa era de câmeras e smartphones, é curioso que coisas espetaculares como Elias subindo aos céus numa carruagem de fogo não pareçam acontecer mais, e quando acontecem a investigação ou termina em conclusão negativa ou é inconclusiva.
Mas a discordância entre religiões diferentes, e a aparência de que são todas igualmente dignas de crédito, certamente não justificam que estão todas erradas. Então por que sou ateu?
2) Por que sou ateu?
Em primeiro lugar, ser ateu não significa acreditar que todas as religiões estão erradas. Simplesmente pelo fato de que há religiões ateias. O budismo clássico é uma. (Ler este texto que escrevi sobre a história do ateísmo na Índia: http://www.bulevoador.com.br/2009/12/historia-do-ateismo-parte-1-india/ ) Então não precisamos entrar em pânico a respeito de ateus querendo eliminar religiões, ao menos ateus como eu. Os que pregam suas enormes (e injustificadas) esperanças de que as religiões sumam da face da Terra ignoram que a crença do ateísmo não é novidade nenhuma no próprio cenário religioso.
É preciso definir o que é Deus, ou o que são deuses, em respeito às religiões politeístas. (A propósito, aquela frase bonitinha de que as religiões são diferentes mas acreditam no mesmo deus é falsa.) Parece-me útil partir das capacidades mentais dos deuses – deuses, em primeiro lugar, são entidades com capacidades mentais.
Nisso, estou excluindo algumas definições de deus(es), como a panteísta (Deus = Natureza, de Spinoza) e uma que aparece até em teologia cristã, de que Deus seria “a base de todo ser”. Por que? Bem, primeiro porque a natureza já tem nome – natureza, e a maior parte das pessoas teístas (que acreditam em um ou mais deuses) certamente não crê que a natureza é sinônimo de deuses, exceto se forem animistas, mas estes atribuem capacidades mentais, intenções e planos, às entidades naturais que instanciam a divindade (então se encaixam na definição que comecei a delinear). Segundo, porque a física poderia alegar também que algo é a “base de todo o ser”, outras metafísicas poderiam usar o mesmo termo para entidades desprovidas de mente e mais parecidas com “supercordas” ou “partículas” ou o que quer que seja, e não precisariam crer, como crêem os teístas, que essa “base de todo o ser” se preocupa com nossas vidas ou tem algo a ver com o mundo como ele é (ou o criou intencionalmente).
Então, continuando: deuses são entidades dotadas de mentes que ou criam ou controlam parte ou a totalidade do mundo ou da realidade aparente, incluindo ou não origens, destinos e aspectos éticos das vidas humanas.
Isso parece incluir satisfatoriamente a maior parte das definições de deuses, inclusive a de deístas como Voltaire, os deuses gregos, e Javé. O que todos esses deuses têm em comum são as capacidades mentais. Ocorre que a única mente que conhecemos com capacidades semelhantes às descritas para os deuses, sem sombra de dúvidas, é a nossa própria. Também conhecemos um pouco a mente de elefantes, chimpanzés, golfinhos e corvos, mas por mais impressionantes e belas que sejam essas mentes, não passam perto de ter um poder criador e transformador sobre o mundo como um todo. Então temos um único exemplo de mente criadora. Se considerarmos que somos uma em cerca de 3 milhões de espécies animais (uma subestimativa muito conservadora), então a probabilidade de aparecer uma mente criadora é muito baixa, se considerarmos as espécies como eventos independentes e oportunidades independentes de surgimento espontâneo de mentes. Estou partindo de conhecimentos pouco controversos sobre espécies animais e sobre nós, não estou nem mesmo considerando evolução (que também não é controversa). Se a probabilidade para nossa mente limitada e criadora é tão baixa, então para uma mente mais poderosa, capaz de controlar ou o clima, ou o planeta, ou o universo inteiro, tem de ser evanescentemente mais baixa. E esta é uma das evidências de que uma crença na inexistência de divindades é justificada.
Quando consideramos Deus, o das religiões abraâmicas que é o mais popular no Brasil hoje, outros problemas emergem: se for definido como onipotente, onisciente e onipresente, o problema é de lógica, pois essas propriedades são autocontraditórias. Se for definido como perfeitamente benévolo e extremamente poderoso, isso entra em contradição com o mundo como ele é, não só para humanos como também para outros animais. Essas e outras coisas se juntam num conjunto que passei a chamar de evidências de inexistência de divindade. Explico em mais detalhe em textos espalhados, nenhum dos quais me satisfaz (em terminologia, meus conhecimentos filosóficos quando os escrevi, etc.), mas dão uma impressão geral do meu pensamento sobre o assunto:
E então, o que fazer com isso tudo? Eu faço, em primeiro lugar, porque gosto de pensar que amo a verdade, então esse foi o pequeno esforço que fiz para tentar encontrá-la nas questões religiosas, no mundo mental que habito nesta vida que creio ser finita. E comecei, quando adolescente, por examinar as falhas que frequentemente são cometidas nesta busca – como a falha de acreditar no que queremos acreditar, e não no que podemos ler no livro do mundo, tanto o interno quanto o externo.
Mas, como Confúcio já dizia, amar a verdade não significa encontrá-la, ter tempo para trabalhar buscando-a, etc. Essa tem sido minha opinião até o momento, na qual posso estar enganado, mas a respeito da qual respostas fáceis não resolverão, se a intenção for mudar minhas ideias. Sinceramente, acho muito improvável, diante de tudo o que eu disse acima, que eu volte um dia a crer em coisas como ressurreição de Jesus, imaculada concepção de Maria, etc.
Agora, o que não admito é ser tratado com preconceito por pensar como eu penso. Ainda mais por pessoas que, apesar de toda a retórica popular de que educação é uma coisa boa e estudar e ler são coisas tão boas que são usadas até como símbolo de status, não fazem o mínimo esforço em de fato se educar, estudar e ler. E sim, isso inclui estudar e ler a Bíblia, mas onde for relevante, e não na esperança de que ela magicamente converta o leitor ao cristianismo (tarefa difícil, dados alguns trechos extremamente problemáticos, eticamente falando, que ela tem).
Quem me trata diferente por eu ser ateu, ou alguma outra coisa, é responsável pela qualidade de suas próprias ideias, tanto quanto eu, e se for verdade que a história julga, estou tranquilo quanto à minha inocência. Estou fazendo o que posso (nem sempre o melhor que posso, não usarei desse insicero clichê, pois às vezes falta motivação), e meu pensamento, exceto onde eu puder dizer o contrário enquanto vivo, fala por mim.
Obrigado a quem leu até aqui.