21st of March

Vieses implícitos e o feminismo racionalista de Jennifer Saul


A seguir, algumas observações sobre a palestra da filósofa Jennifer Saul (University of Sheffield) sobre vieses implícitos (ontem, em Cambridge).
Um viés é uma propensão a ser injusto para com pessoas de determinados grupos. Um viés implícito é esta propensão acontecendo de forma inconsciente.
Um exemplo deixa tudo mais claro. O viés implícito explicaria, por exemplo, por que poucas instrumentistas mulheres são contratadas para tocar em orquestras, e o número delas cresce quando é adotado o procedimento de botar os candidatos de uma seleção para tocar seu instrumento por trás de uma cortina ou tapume, e seus nomes não são conhecidos pelos avaliadores.
Os avaliadores, mesmo tendo a melhor das intenções e querendo julgar os músicos apenas pelo talento, vão tender a enxergar mais esse talento se o candidato for homem do que se for mulher. Então anonimizar os candidatos tem o efeito de tornar a seleção mais justa. Há uma grande chance, também, de que os avaliadores sejam enviesados quanto à etnicidade e orientação sexual percebida dos participantes. E o que vale para seleção de músicos para orquestras vale para notas em provas, entrevistas de emprego, e demais interações do cotidiano em que decidimos tratando diferentes de forma diferente, e parte dessa diferença é injusta.
Perceba que os selecionadores das orquestras geralmente não fazem isso por mal. É um erro pensar que essas pessoas estão agindo e pensando da mesma forma que o Marco Feliciano ou outra pessoa consciente e explicitamente defensora de preconceitos.
Eis alguns pontos importantes para entender no problema, e soluções conhecidas apontadas pela Jennifer Saul:
– Homens e mulheres são igualmente propensos a serem enviesados contra mulheres. E o viés mantém o mesmo padrão em todas as faixas etárias, então não há sinais de que está sumindo. Isso significa que é no mínimo míope responder às diferenças injustas que observamos entre homens e mulheres apontando o dedo para os homens como se fossem os únicos propagadores e incentivadores do viés. Não, as pesquisas empíricas mais recentes sugerem que homens e mulheres são igualmente propensos a causar danos por causa do viés contra mulheres. A variação nos vieses existe, mas é individual: há pessoas menos e mais enviesadas, não gêneros mais ou menos enviesados.
– Repetindo em outras palavras, estar em um grupo não te imuniza de ter um viés contra o próprio grupo.
– Apenas repetir para si mesmo(a) “não trate diferente, não seja enviesado(a)” não funciona. Na verdade, pode piorar a sua performance na hora de decidir. Não se sabe muito por quê, mas deve ser por aumentar a ansiedade.
– Pensar, refletir e falar sobre ocasiões em que você foi enviesada(o) funciona. Dá um exemplo de como não agir.
– Conhecer e pensar em exemplos que vão contra o estereótipo funciona. Neil deGrasse Tyson é um cientista negro de sucesso. Claudia Sender é a diretora executiva da Tam, uma mulher de talento, inteligência e sucesso. Ada Lovelace foi uma das mães da programação de computadores (só pense, aliás, quantas vezes você já ouviu essa expressão sobre alguma coisa importante como programação de computadores, uma tecnologia ou uma ciência: que tem “mães”). Etc.
– Por algum motivo misterioso, glicose funciona para diminuir o viés, temporariamente. Então avaliadores de uma banca ou entrevista de emprego deveriam comer chocolate antes de começar a tomar decisões. Minha especulação é que, como glicose é o combustível do cérebro, tê-la mais disponível ajuda no processamento de decisões importantes, enquanto um cérebro faminto ou cansado é mais fácil de cair nas decisões enviesadas – e isso também foi sugerido por estudos.
– Pensar no valor da objetividade ou no quanto você é objetiva(o) e justa(o) não funciona, e pode piorar sua capacidade de decidir de forma menos enviesada.
– Os vieses variam entre indivíduos e entre culturas. E inclusive sub-culturas, tribos, ambientes de trabalho. Quando uma chefe de laboratório na plateia disse à Jennifer Saul que estavam tendo dificuldades em seu departamento para manter números equilibrados de estudantes mulheres e homens, tendo excesso de mulheres, a filósofa respondeu que talvez o viés naquele ambiente seja reverso e atue contra homens. Citou uma pesquisa que mostrou que homens brancos da “Ivy League” (grupo das melhores universidades dos EUA) tendiam a se sair pior em testes atléticos ao serem lembrados de sua etnicidade, pois há um estereótipo e um viés de que atletas brancos são piores que atletas negros. Então sim, dependendo do contexto, os vieses podem se reverter. Não há necessidade alguma de afirmar dogmaticamente em que direção os vieses vão em cada contexto: seu padrão geral que é contra mulheres, homossexuais, negros etc. (dependendo da cultura, é claro) não nega que a variação dependente de contexto possa ir em outras direções, tanto quanto o fenômeno do vórtex polar que baixou drasticamente as temperaturas em Nova York neste ano não nega que o padrão geral é de aquecimento global, aumento das temperaturas médias.
O trabalho fantástico de Jennifer Saul e outros acadêmicos nos quais ela se baseia são fundamentais para entender vieses associados a preconceitos sociais e ser efetivo na diminuição deles e elevação da justiça social. Também cura respostas fáceis e ativismos irracionais. Humaniza e complexifica o fenômeno, refina nossa percepção sobre a culpa. Como ela mesma disse, culpa não é herdar vieses, é nada fazer sobre eles depois de estarmos informados sobre eles. “Plantei uma semente de culpa em vocês agora”, ela brincou. E, com toda certeza, há uma diferença enorme entre ser enviesado, como todos somos a algum grau, e ser uma pessoa conscientemente, explicitamente, dolosamente enviesada e preconceituosa. E não há nada que justifique tratar as duas coisas como uma só – é uma decisão enviesada, para não dizer burra e ineficiente.
“Não quero que pensem em vieses como apenas isto”, disse a filósofa, mostrando uma foto de um militante da Klu Klux Klan, “mas como algo mais próximo disso”, acrescentou, mostrando uma foto de uma atriz usando óculos. “É um pouco como problemas de visão – não são uma sentença, variamos quanto à propensão a tê-los, e os óculos estão disponíveis para corrigir”.

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