15th of February

A tolerância de Rodrigo Constantino com a intolerância contra homossexuais


The bullshit is strong with this one.

Pediram-me para comentar os últimos dois textos do Rodrigo Constantino, o “liberal”, na Veja. Eu tentarei ser objetivo e não deixar avaliações mais emotivas e retóricas entrarem na frente – não vou fazer a mesma coisa que ele e outros colunistas da revista fazem.

No primeiro texto, apoiando Jair Bolsonaro para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Rodrigo diz:

“Homofobia, para esse pessoal, é simplesmente não achar lindo homem com homem.”

A frase é artifício retórico e eu não acredito que Rodrigo realmente acredite nisso, tanto quanto eu não acredito que ele considere que a definição de racismo para quem mais luta contra ele é “simplesmente não achar lindo gente preta”. No entanto, “não gostar” pode ser um critério não suficiente para definir um preconceito, e nem sempre necessário, mas que é simplesmente comum entre pessoas preconceituosas e faz parte de seu preconceito nesses casos. Uma pessoa que não acha os negros atraentes e não se considera racista ao menos precisa reconhecer que não achá-los atraentes é algo que ela tem em comum com muitos racistas. E para quem está observando de longe, se você fala como racista e age como racista, você poderia muito bem ser racista. A mesma coisa vale para necessidades urgentes de alguém expressar o quanto acha feio que dois homens se beijem. E esses homens são geralmente retratados como dois barbados, não como duas garotas lésbicas, porque quem fala disso geralmente pensa que seus interlocutores de valor são todos homens heterossexuais. Vou batizar esta falácia de argumentum ad barbis, o apelo à barba.

Uma vez, uma amiga minha disse que tinha repulsa por ver dois homens se beijando. Perguntei se ela sentia o mesmo sobre casais de lésbicas. Ela disse que não. O curioso é que ela é uma mulher heterossexual – então me pergunto se essa repulsa é mesmo algo que ela naturalmente teria por razões completamente internas e subjetivas (de “gosto”), ou por razões externas, ensinadas e aprendidas (parece-me ser o caso). Se é possível ensinar um gosto aversivo por pessoas homossexuais, então é possível ensinar que não se tenha esse tipo de reação ao vê-los, e isso poderia ser resolvido simplesmente com eles aparecendo mais e sendo mais vistos fazendo o que é considerado repulsivo por alguns (dentro dos mesmos limites de exposição dados a heterossexuais). A reação da minha amiga gera um problema: se ela não quer ser vista como homofóbica por mim, como resolveremos o fato de que, se ela vier à minha casa no futuro, eu terei de proibir meu companheiro de expressar afeto? Precisaremos esconder que somos homossexuais ou agir como se não fôssemos? Isso não seria uma atitude injustamente negativa para com nossa orientação? Se um negro como Michael Jackson resolve esconder sua negritude simulando vitiligo (ele realmente tinha vitiligo, mas assumamos que a outra história é verdade – até porque ele fez também rinoplastias suspeitas), não se pode botar parte da culpa disso no racismo, nas atitudes injustamente negativas contra negros, que percolam tanto sua cultura que se internalizam?

“Se alguém externar que prefere ter um filho heterossexual, isso já basta para ser visto como homofóbico hoje em dia, o que é absurdo.”

Mas é absurdo por que? De fato, não há problema algum em preferir que a filha seja heterossexual, mas somente se for por motivos não preconceituosos: “se ela for hétero tenho mais chances de ter netos”; “se ela for hétero não vai sofrer tanto com preconceito”. Isso geralmente se faz ANTES da filha em questão existir ou sair do útero da mãe. O problema é gente que continua expressando sua “preferência” depois dessa filha ter nascido, crescido, e estar perguntando se vai continuar tendo um teto se namorar a Pâmela. E expressar para seu filho que já existe que ele deveria ser coisa diferente do que ele é, e justamente em algo que não é escolha e ele não pode fazer nada a respeito, é rejeitar a natureza íntima do seu filho, e é a pior forma de rejeição. Isso não merece o nome de homofobia?

Mas claro, tudo depende do que o Rodrigo Constantino considera homofobia. O que ele considera ser a definição usual de homofobia, aquela que usamos diariamente, aquela que se consagrou na comunidade internacional?

“Ora, fobia é medo! Quem é que pode ter medo de gays(…)? O sujeito pode não gostar da ideia, ter até certa aversão espontânea à imagem de dois homens barbados se beijando. [Taí o argumentum ad barbis!] Não acho que isso seja suficiente para acusá-lo de homofobia. Então o sujeito que não curte quiabo sofre de “quiabofobia”?”

Aqui, Rodrigo Constantino comete a falácia etimológica. Esse argumento péssimo consiste em definir um termo por sua etimologia, quando a etimologia é irrelevante. Esse erro é cometido não apenas por homofóbico, mas também por homossexuais. Homofobia não precisa ser definida como fobia de homossexuais: significa apenas preconceito contra ou discriminação injusta contra homossexuais. Este é o sentido comum do termo. Ninguém acha que o Bolsonaro ao falar cheio de raiva contra gays está realmente com medo, mas que está sendo preconceituoso. O estado emocional dele ao falar de gays não importa – se medo, se ódio, se indiferença – mas apenas se o que ele diz é difamatório, negativamente generalizante, enfim, preconceituoso.

“Homofobia” não é fobia de homossexuais assim como “cálculo” não é uma pequena pedra e “racismo” não é apreço pelas raças, ainda que as etimologias dessas palavras possam sugerir isso. O uso faz o sentido, e não a etimologia.

Portanto, Constantino não parece realmente saber o que é homofobia, ou então usou esse argumento falacioso apenas retoricamente, para apelar para a torcida, da mesma forma que fez ao sugerir que alguém pensa que homofobia é igual a não ter gosto pessoal por ver pessoas do mesmo sexo (e ele esquece o feminino por algum motivo) expressando afeto romântico ou erótico.

No segundo texto ele diz: “Se para ser considerado homobóbico basta sentir aversão a dois homens se beijando, então muita gente é homofóbica sem saber.” De fato!

O erro que eu reconheço em alguns ativistas é não levar em conta diferentes graus de homofobia, e também se esquecerem que é melhor ser didático e paciente, e tentar não usar e abusar de “homofobia” como um xingamento, e se lembrar do que o termo significa. Acusacionismo não leva a lugar algum, e uma pesquisa empírica com diferentes ativismos já mostrou que essa atitude tem efeito contrário ao pretendido por ativistas que se comportam assim.  Comentei a pesquisa aqui: https://www.facebook.com/1423657476/posts/10203226375126543

Agora, o que se pode perguntar é por que Constantino está fazendo isso. Sou informado que ele anda fazendo as pazes em “hangouts” com Olavo de Carvalho e se aproximando de outras figuras do conservadorismo, mesmo alegando, inclusive no subtítulo de sua coluna na Veja, que é um liberal.

Então, como recado para um liberal postiço, mando uma citação de um liberal de fato, Friedrich Hayek, num ensaio apropriadamente intitulado “Por que não sou um conservador”:

“[A]quele que crê na liberdade não pode senão conflitar com o conservador e tomar uma posição essencialmente radical, direcionada contra os preconceitos populares, posições arraigadas, e privilégios firmemente estabelecidos. Tolices e abusos não são mais aceitáveis por terem sido há tempos estabelecidos como princípios de insensatez.”

E se apoiar Bolsonaro para uma comissão de direitos humanos não é tolice, abuso e insensatez, além de um afago aos preconceitos populares e privilégios arraigados contra a liberdade individual dos LGBT, então não sei o que é. E não é coisa digna de um autointitulado liberal.