14th of February

Orientação sexual masculina é influenciada por genes, mostra estudo


Fonte: The Guardian. Tradução comentada de Eli Vieira.
Genes examinados no estudo não são suficientes ou necessários para fazer homens serem gays, mas desempenham algum papel na sexualidade, dizem pesquisadores americanos
Um estudo sobre homens gays nos EUA encontrou novas
evidências de que a orientação sexual masculina é influenciada por genes. Os
cientistas testaram o DNA de 400 homens gays e descobriram que genes em ao
menos dois cromossomos influenciavam se um homem era gay ou hétero.
Uma região do cromossomo X chamada Xq28 [q é o
braço longo do cromossomo] teve algum impacto sobre o comportamento sexual dos
homens – embora os cientistas não tenham ideia de quais genes na região estão
envolvidos, nem de quantos outros estão em outras regiões do genoma.
Outro trecho de DNA no cromossomo 8 também mostrou
ter um papel na orientação sexual masculina – embora, novamente, o mecanismo
preciso ainda não seja claro.
Pesquisadores especularam no passado que genes
ligados à homossexualidade em homens podem ter sobrevivido na evolução porque
por acaso faziam as mulheres que os portassem mais férteis. Esse pode ser o
caso para os genes na região Xq28, pois o cromossomo X é passado aos homens
exclusivamente por suas mães.
Michael Bailey, um
psicólogo da Northwestern University em Illinois, demonstrou as descobertas na
reunião anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência em Chicago
nesta quinta-feira. “O estudo mostra que há genes envolvidos na orientação
sexual masculina,” disse ele. O trabalho ainda não foi publicado, mas confirma
os achados de um estudo menor que despertou polêmica em 1993, quando Dean
Hamer, um cientista do Instituto Nacional do Câncer dos EUA, investigou as
árvores genealógicas de mais de 100 homens gays e descobriu que a
homossexualidade tende a ser herdada. Mais de 10% dos irmãos de homens gays
eram também gays, comparados a cerca de 3% da população em geral. Também tios e
primos homens do lado da mãe tinham uma probabilidade maior que a média de
serem gays.
A associação ao lado materno da família levou Hamer
a investigar mais de perto o cromossomo X. No trabalho seguinte, ele descobriu
que 33 de 40 irmãos gays herdaram marcadores genéticos similares na região Xq28
do cromossomo X, sugerindo que genes cruciais residiam ali.
Hamer enfrentou uma tempestade quando seu estudo
foi publicado. A polêmica se deu em torno das influências de natureza e cultura
[nature/nurture] sobre a orientação sexual. Mas o trabalho também despertou
expectativas mais dúbias sobre um teste pré-natal para a orientação sexual. O
[tabloide sensacionalista] Daily Mail deu como manchete “Aborto é esperança
depois de ‘descobertas de genes gays’”. Hamer alertou que qualquer tentativa de
desenvolver um teste para a homossexualidade seria “errada, antiética e um
terrível abuso da pesquisa”.
O gene ou genes na região Xq28 que influenciam a
orientação sexual têm um impacto limitado e variável. Nem todos os homens gays
no estudo de Bailey herndaram a mesma região Xq28. Os genes não eram nem suficientes
nem necessários para tornar qualquer desses homens gays.
O pensamento falho por trás de um teste genético
para a orientação sexual é claro do ponto de vista dos estudos com gêmeos, que
mostram que o gêmeo idêntico de um homem gay, que carrega uma réplica exata do
DNA de seu irmão, tem mais chance de ser hétero do que gay. Isso significa
que mesmo um teste genético perfeito que escolhesse todos os genes associados à
orientação sexual seria ainda menos efetivo que jogar uma moeda.
[Eu não teria tanta certeza disso – o geneticista
Caio Cerqueira e outros colegas meus, por exemplo, desenvolveram um cálculo de propensão
de ter certo tom de pele em humanos modernos e neandertais baseado nos vários
genes que influenciam a cor da pele (ver http://lihs.org.br/caio
), que é uma característica complexa e multifatorial também. E o teste é
considerado melhor que apenas jogar uma moeda. O caso é que usar o teste para
propósitos racistas seria tão errado quanto usar um possível teste de propensão
à homossexualidade para propósitos homofóbicos ou eugenistas.]
Enquanto os genes de fato contribuem para a
orientação sexual, outros fatores múltiplos desempenham um papel maior, talvez
incluindo os níveis de hormônios aos quais um bebê é exposto dentro do útero. “A
orientação sexual não tem nada a ver com escolha”, disse Bailey. “Encontramos
evidências para dois conjuntos [de genes] que afetam se um homem é gay ou
hétero. Mas não é completamente determinante; há certamente outros fatores
ambientais envolvidos.”
No ano passado, antes que os últimos resultados
fossem divulgados, um dos colegas de Bailey, Alan Sanders, disse que as
descobertas não poderiam e não deveriam ser usadas para desenvolver um teste
para orientação sexual.
“Quando as pessoas dizem
que há um gene gay, é uma simplificação exagerada,” disse Sanders. “Há mais de
um gene, e a genética não é a história completa. Com o que quer que seja que os
genes contribuem para a orientação sexual, você pode pensar nisso como
contribuindo tanto para a heterossexualidade quanto para a homossexualidade.
[Os genes] contribuem para uma variação na característica.”
Qazi Rahman, um psicólogo
no King’s College London, disse que os resultados são valiosos para entender
melhor a biologia da orientação sexual. “Isso não é controverso nem
surpreendente, e nada com que as pessoas devessem se preocupar. Todas as
características psicológicas humanas são herdáveis, isto é, têm um componente
genético”, disse. “Os fatores genéticos explicam de 30 a 40% da variação entre
as orientações sexuais das pessoas. Entretanto, não sabemos se esses fatores
genéticos estão localizados no genoma. Então precisamos de estudos que ‘acham
genes’, como este de Sanders, Bailey e outros, para ter uma ideia melhhor de
onde os genes em potencial para a orientação sexual podem estar.”
Rahman rejeitou a ideia de que a pesquisa genética
pudesse ser usada para discriminar pessoas com base em sua orientação sexual. “Não
vejo como a genética poderia contribuir mais para a perseguição, a
discriminação e estigmatização de lésbicas, gays, bissexuais e pessoas
transgênero mais do que explicações sociais, sociais ou de que seria
comportamento aprendido. Historicamente, a perseguição e o tratamento horrendo
de grupos LGBT aconteceu porque políticos, líderes religiosos e sociedades viam
a orientação sexual como uma ‘escolha’ ou como algo devido à criação
inadequada.”
Steven Rose, da Open University, disse: “O que me preocupa
não é a que grau, se a algum, nossa constituição genética, epigenética ou
neural e o desenvolvimento afetam nossas preferências sexuais, mas o enorme
pânico moral e a pauta religiosa e política que cerca a questão.”
  • Lina Narimatsu

    “Pesquisadores especularam no passado que genes
    ligados à homossexualidade em homens podem ter sobrevivido na evolução porque
    por acaso faziam as mulheres que os portassem mais férteis”

    Não entendi a relação entre -genes ligados à homossexualidade- e -mulheres q o portam se tornam mais férteis-, alguém poderia me explicar?

    • Bruno Cesar

      Pelo que eu entendi, as mulheres que portam esses genes podem possuir mais filhos homossexuais. Então, mesmo que os gays não reproduzem, eles sobreviveriam (entre diversos fatores) a evolução pois os genes que poderiam determinar a sexualidade foram passados através das mães, que por serem mais férteis elas possuem mais filhos, de um modo ou de outro.

      • Isso mesmo, Bruno. A mesma base genética por trás da homossexualidade masculina pode estar influenciando também a fecundidade das mulheres. É como se fossem “genes que gostam de homem”.