3rd of February

Sobre a sugestão de que homossexuais criem seu próprio tipo de família


Disseram-me que lésbicas e gays, em vez de agir para obter o mesmo direito a formar família que o resto da humanidade tem, deveriam construir seu próprio tipo de família. Eu discordo, e de três formas diferentes.

Primeiro, nós não somos ET’s. Nós temos as mesmas necessidades dos heterossexuais: compartilhar a vida com alguém para dirimir a solidão que ganhamos de presente ao nascer, ter quem escute nossos sonhos e aspirações e esteja lá quando vierem à fruição ou ao fracasso etc. Não, eu não quero “construir uma família nova”. Eu quero só ter minhas necessidades afetivas e sexuais amparadas pela lei onde necessário, e ignoradas pelo resto do mundo onde necessário, como qualquer outro homem ou outra mulher que goste de outros homens ou outras mulheres. Em outras palavras, a orientação sexual das pessoas não é diferença suficiente para apagar sua humanidade compartilhada – e isso inclui as necessidades demasiado humanas em torno da existência das famílias.

Segundo, porque já temos cem milênios de tentativa e erro da humanidade em fazer diferentes tipos de família. Muito dificilmente qualquer coisa que nós criássemos seria nova. Sinto muito, Novos Baianos, mas o que vocês fizeram não foi novidade nenhuma – se for verdade que viviam numa comuna poliamorista. Do ponto de vista de uma criança, pouco importa se os dois adultos do mesmo sexo que estão cuidando dela são irmãos ou um casal – quem já foi criança sabe muito bem o desinteresse de uma criança em relação ao que seus responsáveis fazem entre quatro paredes. Desinteresse? Talvez eu devesse falar em horror, é a reação de muitos ao pensar em seus pais fazendo sexo. O curioso é que o horror em pensar no sexo dos pais não leva a leis proibindo que pais façam sexo, o que não é exatamente verdade para a aversão ao sexo gay, não é mesmo, Uganda e Rússia?

Terceiro, seria inútil fazer proposições de modelos de família para gays e lésbicas. Pelo simples motivo de que, antes de serem agrupados numa classe, gays e lésbicas são indivíduos que variam entre si tanto quanto quaisquer outros indivíduos. Entre nós há os de temperamento naturalmente monogâmico, e também os de temperamento poliamorista, ou sem compromisso, e todas as gradações neste continuum. Não adianta tentar fazer pessoas naturalmente propensas ao laço afetivo monogâmico se despirem de ciúmes em relações de poliamor. Não se força alguém a adotar um modelo de relacionamento ou de família que não ressoe com o que faz a pessoa confortável e feliz.

O problema dos tipos de família ao longo da História não é a diversidade – há tipos de família para todos os gostos. O problema é que nenhum até hoje foi incontroverso porque sempre houve quem tentasse fazê-lo compulsório. E eu prevejo que, num mundo onde os indivíduos têm liberdade, não haverá tal coisa de “modelo de família gay” – as famílias começadas por LGBT serão tão diversas quanto as famílias começadas por heterossexuais e cissexuais. Que o diga o Rei Salomão e suas 700 esposas, modelo bíblico de família (provavelmente antiético) ignorado por todos os ignorantes que acreditam possuir a fórmula da “família brasileira”, uma quimera tão fantasiosa quanto a maior parte de sua visão de mundo.