24th of January

Xingaram-me de “geneticista mirim”. Adotei o nome.


Eu fui chamado de geneticista mirim pejorativamente pelo químico criacionista da Unicamp Marcos Eberlin, após minha resposta em vídeo à ignorância de Silas Malafaia. Desde então algumas pessoas, frequentemente retratando erroneamente Eberlin como um geneticista, usaram este ad hominem contra mim.

Quando se trata de biologia, Eberlin é um ótimo químico. E sinto que não posso considerá-lo um bom cientista, ainda que ele “publique bem” para os padrões (frequentemente distorcidos) de fator de impacto e número de artigos, porque no meu entender um bom cientista não pode ser um completo desonesto para com áreas que não domina. 
E ser criacionista ou defensor do cavalo-de-Troia do “design” inteligente não é honesto para com as evidências favoráveis à evolução partindo de praticamente todos os lados da pesquisa empírica, da datação radiométrica na paleontologia à comparação de sintenia de genes na genômica (coisa que fiz com colegas neste artigo: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23412349 – nós mostramos que herdamos a mesma ordem de um grupo de genes em torno de um que codifica para um receptor de dopamina que está presente em todos os nossos parentes até o grupo dos peixes sarcopterígios – e nós somos peixes sarcopterígios). 
Todas as desculpas criacionistas para tapar os ouvidos são furadas, especialmente a martelada alegação de falta de observação ou evidência para a macroevolução ( http://lihs.org.br/macroevolucao ). Silas Malafaia foi me chamar de geneticista mirim e mentir que Marcos Eberlin é geneticista em vários lugares, até no Programa do Ratinho (acreditem, não é nenhuma honra ser citado no Programa do Ratinho). 
Meu blog pessoal, que se chamava meio pomposamente “Tetrapharmakos in vitro” desde que o fundei seis anos atrás, nome que tirei do meu epicurismo ( http://lihs.org.br/epicurismo ); rebatizei prontamente de Geneticista Mirim
O “mirim” foi tentativa de me desqualificar pela idade ou pouca experiência profissional, infantilizando-me. (O que depõe mais sobre a capacidade de debater do Dr. Eberlin.) Pois não tenho problema com a ideia de ser comparado a crianças desde que li “O Mundo de Sofia” de Jostein Gaarder na minha adolescência – o que me abriu os olhos para a importância da filosofia até hoje. Continuo valorizando a filosofia, tenho contato frequente com a filósofa britânica Susan Haack, de quem já traduzi um artigo sobre cientificismo ( http://lihs.org.br/cientificismo ). 
“Mirim” vem do tupi-guarani e significa “pequeno”, até onde sei. Sou pequeno mesmo, na ordem das coisas. Na minha visão de mundo, não sou parte de grandes planos de nenhuma entidade toda-poderosa, não sou importante no universo. Sou pequeno e um dia vou acabar. E quando eu acabar, nada sobrará senão coisas como essas linhas que aqui escrevo. Estou em absoluta paz com minha pequenez e finitude, sou mirim mesmo. E também sou mirim nos genes – fui voluntário como amostra do Projeto Candela, e meus colegas geneticistas trabalhando nele mostraram-me que tenho ascendência indígena (7%), além de africana (20%) e europeia. Ter ascendência indígena me faz pensar bastante, especialmente sobre o processo que não terminou séculos atrás no Brasil – o processo de tomar tudo o que os nativos tinham, inclusive a vida, horror muito bem ilustrado pelo que passam os Guarani-Kaiowá. 
Mirim, sim. Sim, mirim. Geneticista mirim a seu dispor.

(Publicado antes no meu extinto Facebook em setembro de 2013.)