19th of January

O caso do rato zumbi


Na madrugada do dia 10 de janeiro, durante minhas férias em Minas Gerais, meu cunhado acordou com um rato andando nas costas dele. Deu um chute no rato, e voltou a dormir. Eu acordei às 6 da manhã com um ruído perto da minha cabeça. Achei que era ruído de rato roendo alguma coisa, mas na verdade era a respiração forte do rato ferido. Só mudei de cama e não fiz nada. Mataram o bicho algumas horas depois.
Quando isso acontece, podem ter certeza que não é comportamento normal de rato. Ratos são muito inteligentes e evitam proximidade com predadores. As adaptações desses roedores para escapar de predadores são tão profundas que quando um rato aprende um novo cheiro ameaçador, a aversão a esse novo cheiro pode passar para as próximas duas gerações através de marcações epigenéticas ( http://www.nature.com/neuro/journal/v17/n1/full/nn.3603.html ).
O que, então, pode fazer um rato perder o medo e se arriscar andando nas costas do meu cunhado? Lavagem cerebral! Feita por um parasita, o protozoário Toxoplasma gondii. Esse parasita altera o cérebro dos ratos e faz com que percam o medo dos predadores e até se ofereçam para eles. Por quê? Porque assim os protozoários podem infectar os predadores também. O comportamento suicida do rato é uma adaptação de seu parasita, um produto da seleção natural que permite que o protozoário tenha mais sucesso em se reproduzir e sobreviver. 
As alterações que o Toxoplasma faz nos cérebros dos ratos são definitivas: mesmo após um tratamento que mata os parasitas, o cérebro e o comportamento dos ratos parasitados permanecem alterados. ( http://www.huffingtonpost.com/2013/09/19/mice-fear-cats-infection-parasite_n_3953158.html ) É possível também que o Toxoplasma, ao infectar humanos, esteja associado a alguns transtornos psiquiátricos ( http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1560245/ ). E isso, apesar de assustador, não é tão surpreendente assim, pois nós compartilhamos muitas semelhanças com seus roedores hospedeiros intermediários. Não somos imunes a sermos vítimas da lavagem cerebral dos parasitas. 
E eu acho tudo isso muito lindo.
(P.S.: Apesar de eu ter usado apenas o nome “rato”, enquanto o espécime que me despertou provavelmente era do gênero Rattus, os experimentos laboratoriais citados são feitos com camundongos, do gênero Mus. Mas “camundongo” não é muito usado coloquialmente.)
Toda a glória do ciclo de vida do Toxoplasma.