13th of January

Observações sobre a genética do comportamento – entrevista completa a’O Diário


Publicaram ontem n’O Diário, de Maringá, uma entrevista minha sobre genética do comportamento, que pode ser lida aqui. O risco desse tipo de entrevista é que, no processo de edição, muitas vezes se perdem informações que o entrevistado considera importantes. Por isso, peço licença à Ana Verzola e seu editor, autores das perguntas, para publicar as respostas completas aqui. Fiquei contente com a qualidade da edição, mas não estaria fazendo meu trabalho bem se eu não reclamasse do subtítulo e do resumo que escolheram.
Ao contrário do sugerido, eu não garanto que “a maior influência vem [sempre] do ambiente”, nem que conhecimento nunca vem do DNA.
Eu não posso garantir que “a maior influência vem do ambiente” porque isso depende do fenótipo comportamental sob análise. Para uns comportamentos pode ser verdade, mas para outros não será. Eu não acho, por exemplo, que os fatores ambientais sejam preponderantes na determinação do choro dos bebês, afinal, podemos dizer que a esmagadora maioria dos bebês humanos chora, independentemente da cultura em que estão. Se o ambiente é preponderante (e posso estar errado quando a achar que não é), só poderia ser então um ambiente tão compartilhado pelos bebês quanto sua intimidade genética.
Minha objeção ao subtítulo é que eu afirmei que conhecimento não vem do DNA no contexto específico de uma resposta sobre conhecimento político. Mesmo que a grande maioria do que se chama de conhecimento tenha conteúdo puramente cultural (informação aprendida), existem alguns conhecimentos que são a priori, e entre esses pode haver alguns que vêm, sim, ao menos em parte “do DNA”. Enfim, esses são os preciosismos que eu não conseguiria dormir sem elaborar. A entrevista completa está abaixo.
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OD: O que caracteriza a genética do comportamento?

EV: A genética do comportamento pode ser vista como uma aplicação da genética de características multifatoriais ou complexas a um assunto específico que é o comportamento. Definir comportamento pode ser um pouco anti-intuitivo para alguns, porque o que profissionais da área consideram comportamentos nem sempre é o que se vê popularmente como tal. O choro de um bebê, por exemplo, é considerado um comportamento. Também o ato de sucção no peito da mãe na hora da amamentação. Muitos movimentos musculares podem ser comportamentos, mas não se pode sinonimizar comportamentos a movimentos musculares sempre: reflexos como o da rótula, quando um médico bate um martelinho no joelho do paciente, raramente são vistos como comportamentos.

OD: A genética do comportamento é, em termos, um assunto bastante recente. O que as pesquisas já avançaram nessa área?

EV: Não sou especialista, apenas trabalhei com genes associados ao comportamento humano no mestrado. Mas pelas minhas leituras, creio que a atual maior contribuição dos geneticistas do comportamento é ao debate conceitual sobre as origens do comportamento humano. Juntaram evidências suficientes de que na maior parte dos assuntos comportamentais, genética não pode ser ignorada. Nós não somos tábulas rasas, folhas em branco sobre as quais o ambiente e a cultura escrevem, mas também não somos autômatos escravos da determinação genética – não se encontram facilmente comportamentos, ao menos fenótipos típicos dignos do nome, em que tudo é determinado por um único gene. O que parece estar mais próximo da verdade é que uma rede de genes atua em cada comportamento, cada um com um efeito de pequeno a moderado sobre propensões comportamentais. Assim como um bolo é mais que a soma de seus ingredientes, porque precisa do ambiente de um forno para crescer, os comportamentos não devem ser vistos como um resultado inevitável de uma receita genética. Para dar um exemplo específico, foram encontradas algumas variantes da enzima monoamina oxidase A (MAO-A) associadas a comportamento anti-social, porém, as evidências sugerem que muitas pessoas só manifestam essa propensão genética num ambiente abusivo. Isso também pode ser verdade para alelos que predisponham pessoas à psicopatia.

OD: Muito se fala de fatores hereditários no campo de psicopatologias que podem influenciar no comportamento das gerações futuras. Isso realmente pode se confirmar?

EV: O transtorno psiquiátrico com o maior valor de herdabilidade (uma medida da participação dos genes na herança de uma característica) já encontrado é o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Isso significa que se você tem TDAH, a chance de o transtorno aparecer nos seus filhos é maior do que se você tiver um outro transtorno psiquiátrico qualquer. Não é uma sentença: é uma probabilidade. Saber desse tipo de coisa é importante porque te deixa informado sobre que tipo de educação deve dar a seus filhos, e não puni-los por coisas que podem não estar sob o controle consciente deles. 

OD: No caso da dependência do álcool ou drogas mais pesadas, há uma chance maior de que os descendentes de usuários estejam mais sujeitos a desenvolver esses vícios?

EV: Há um grupo de pesquisa em genética psiquiátrica na UFRGS dedicado a estudar a genética da drogadição. A maior parte da pesquisa desenvolvida ali, e creio que no resto do mundo, está passando de um estágio inicial de procurar por “genes candidatos” cujas variantes poderiam hipoteticamente estar associadas ao alcoolismo ou tabagismo, para um próximo estágio em que variações no genoma completo e nos genes que interagem com os genes candidatos são levadas em consideração. Alguns resultados positivos mostram um papel do sistema cerebral de sinapses baseadas em dopamina, o que é bem interessante, pois é um neurotransmissor que atua no dito “mecanismo de recompensa” cerebral, importante na sensação de prazer. Se um indivíduo é dotado de variantes que o fazem propenso a se viciar a certa substância, novamente este comportamento se manifestar nos seus descendentes dependerá do contato e da cultura que há ao redor dessa substância. É preciso lembrar que você herda 50% dos genes do pai, e 50% da mãe. Somente na herança de características de padrão de herança mendeliano dominante todos os filhos apresentam a característica de um dos pais, e esse tipo de característica é muito rara, geralmente patológica, e virtualmente a totalidade dos comportamentos não seguem padrões mendelianos de herança (dependentes de relações de dominância e recessividade entre dois alelos de um gene).

OD: O que o meio cultural vivenciado pode desencadear no indivíduo? Se retiramos uma pessoa de determinado ambiente ainda criança, é possível resgatá-la de um meio prejudicial – no caso de famílias violentas, negligência materna, entre outros fatores – ou em algum momento da vida ela poderá reproduzir aquele comportamento?

EV: Como descoberto para o caso do gene da MAO-A, certas propensões só se manifestam diante de gatilhos ambientais, então no caso de uma criança portadora de alelos associados à propensão à agressividade, o ambiente familiar faz toda a diferença. A cultura nos influencia profundamente. Há experimentos comparando, por exemplo, americanos do norte e do sul, mostrando diferenças até fisiológicas na resposta a ser insultado ou desafiado, por exemplo, que são respostas rápidas, inconscientes, e de fundo predominantemente cultural. Há uma obra famosa da literatura britânica, de Charles Dickens, que conta a história de um menino chamado Oliver Twist, um órfão que, apesar de crescer num ambiente social decrépito, desenvolve virtudes notáveis. Não se pode atribuir o sucesso de Oliver à sua genética, ou apenas a ela. Indivíduos podem decidir usar de violência como protesto, por exemplo, por viver numa situação de desigualdade social. Genes são recursos, e não mestres, do comportamento, especialmente o não-patológico (e definitivamente não se deve patologizar toda forma de violência).

OD: Uma pesquisa feita na Universidade de Louisiana envolvendo 742 voluntários que foram submetidos por cinco meses a um programa de exercícios mostrou que algumas pessoas tiveram uma melhora no condicionamento físico em até 40% a mais que os outros participantes – nenhuma das pessoas envolvidas no estudo praticava regularmente atividade física. Esse desempenho tem relação com a genética do comportamento?

EV: Não necessariamente. Isso pode ter mais a ver com variantes genéticas relacionadas ao metabolismo. As pessoas variam quanto à capacidade de ganhar massa muscular, massa adiposa, quanto ao uso de calorias. Num ambiente de carestia, quem tem metabolismo lento e queima poucas calorias por dia tem clara vantagem sobre quem tem um perfil mais atlético e ativo. Numa situação de opulência, os primeiros têm mais chances de obesidade que os últimos. Essa variação pode ser meramente de genética do metabolismo. No entanto, certos comportamentos, como o comportamento de comer mais ou menos, ceder mais ou menos à tentação dos sabores calóricos, também podem influenciar. Há poucos estudos sobre esses comportamentos na genética, mas é possível afirmar que alguns casos de obesidade são altamente influenciados pelas variantes genéticas associadas aos comportamentos em torno dos hábitos de comer.

OD: Alguns representantes religiosos – como Silas Malafaia e Feliciano – abusaram em seus discursos de justificativas “genéticas”, como você mesmo rebateu no vídeo e em uma entrevista. Malafaia disse que não há correlação da homossexualidade com o gene e Feliciano, por outro lado, disse que a violência era ainda ligada ao “gene africano”. Há uma predisposição genética para o comportamento preconceituoso?

EV: Boa pergunta! Vou aproveitar a oportunidade de demonstrar humildade científica e dizer que eu não sei, mas gostaria muito de saber. Às vezes, um comportamento é complicado demais para se delimitar numa análise de associação a variantes genéticas, então ele é quebrado em partes chamadas “endofenótipos”, que seriam mais sujeitos à influência genética. Uma revisão dos cientistas Peter Hatemi e Rose McDermott, de 2012, sugere que há alguns endofenótipos em comportamentos políticos que podem estar sob moderada influência genética. O endofenótipo mais influenciado geneticamente, cuja variação pode ser 60% da responsabilidade de genes, chamaram de “conhecimento político / sofisticação”. Se esses dois pastores tiveram azar na loteria genética relacionada a isso, nada impede que estudem um pouco mais tanto sobre política quanto sobre genética para deixar de dizer bobagem em público. Afinal, se a curiosidade por conhecimento político tem algo de genético, o conhecimento político em si é feito de livros e não de DNA.

OD: Durante as manifestações que tomaram as ruas do Brasil no ano passado, pequenos grupos tiveram comportamentos antissociais praticando atos de vandalismo, violência, entre outras ações prejudiciais à comunidade mas defendidas do ponto de vista ideológico daqueles participantes. A razão pelo qual essas pessoas agiram dessa forma era motivada somente por um impulso dito político?

EV: Na mesma revisão de Hatemi e McDermott, apontam como moderadamente influenciado pelos genes o comportamento político de “atitudes autoritárias”. Porém, apontam como muito pouco influenciado pelos genes o comportamento de “senso de dever cívico”, portanto o último é possivelmente mais moldável pela educação. Talvez se o senso de dever cívico fosse algo mais presente na formação dos policiais que as atitudes militaristas de lidar com “inimigos”, não teríamos observado aquele show de horrores. O mesmo vale para a menos importante violência dos ditos “vândalos”. Não se deve botar a culpa na genética pelo autoritarismo, pois para uma pessoa propensa a defender autoritarismo manifestar isso é preciso também o ingrediente da ignorância. Sou a favor de uma polícia desmilitarizada e menos ignorante – em ambos os sentidos que se costuma usar de ignorante (bruto e desinformado).

OD: Em uma sociedade ainda regida pelo patriarcado, além de algo enraizado e implícito na nossa cultura, existe alguma outra explicação para uma postura machista e de superioridade perante as mulheres?

EV: Homens e mulheres cis (ou seja, que se identificam com o gênero com o qual são rotulados ao nascer, ao contrário de homens e mulheres trans, e pessoas que não se sentem contempladas nessa dicotomia) têm algumas diferenças comportamentais, especialmente quanto à propensão à violência física. Mas não acredito em botar a culpa na testosterona e seus receptores e fatores de transcrição associados pelo machismo. O machismo não é uma sentença genética, é um sexismo que nasce da ignorância e da falta de reflexão ética sobre a humanidade compartilhada pelas pessoas independentemente de suas identidades de gênero. Como no caso citado acima sobre atitudes autoritárias, se houve propensão genética a certas atitudes e “endofenótipos” frequentemente associados ao machismo, isso não significa que outros comportamentos que atuem como remédio não possam ser estimulados pela cultura e pela educação.

OD: Como a genética do comportamento explica a predisposição de algumas pessoas em praticar, por exemplo, esportes radicais?

EV: As pessoas podem variar quanto a (1) alelos que influenciem na resposta ao ácido lático – mais dor ou menos dor após exercícios intensos – neste caso pode ser que a influência sobre o comportamento seja indireta, que a base genética seja puramente associada ao metabolismo, e esse metabolismo aja como um ‘condicionador’ sobre a resposta de prazer ou dor ao exercício; (2) alelos relacionados à resposta prazerosa ou desprazerosa a situações de perigo e descargas de adrenalina e noradrenalina. O papel da noradrenalina no sistema de recompensa cerebral (prazer) já foi indicado por evidências e há até sugestões de que esse sistema seja usado no tratamento de vícios químicos. Eu não diria que “praticar esportes radicais” seja algo com influência particularmente predominante dos genes (basta pensar em quantas inovações culturais foram necessárias para este hábito aparecer), mas pode conter “endofenótipos” mais claramente influenciados por genes.

OD: Algumas pesquisas mostram que praticantes de esportes radicais se expõe a um determinado risco pois a sensação da recompensa supera o medo. Isso é um fator genético ou está associado ao meio?

EV: Os métodos da genética do comportamento são populacionais. É muito difícil hoje em dia tomar casos individuais e atribuir a uma coisa ou outra. Meu palpite é que a melhor hipótese sempre será um balanço entre as duas coisas. Até porque as duas coisas (genes e ambiente) não são dois pólos opostos, mas dois rótulos simplificadores para a complexidade da realidade. O ambiente de um feto pode ser a genética da mãe. Hoje sabemos que nossa genética como populações e espécie foi mudada pela pressão seletiva de hábitos alimentares como o consumo de leite e amido. Crianças são geneticamente propensas ao aprendizado (especialmente da língua) e ao ensinamento da cultura logo nos primeiros anos de vida. Somos seres biologicamente moldados para a cultura e culturalmente moldados em nossa biologia.

OD: Que tipos de comportamento estão associados a fatores genéticos? O ditado filho de peixe peixinho é pode ser traduzido para filho de chato chatinho é?

EV: É difícil encontrar um comportamento que se possa dizer que é completamente isento de influência genética. O celibato poderia ser um deles, por razões óbvias. Mas eu poderia dizer que as pessoas variam, hipoteticamente, quanto à sua propensão genética de resistir à tentação de fazer sexo, então um celibatário de sucesso poderia estar negando uma contribuição genética que está ali. Quanto a ser “chato”, não me parece nem um pouco claro o conceito do que é ser “chato”: a chatice de um é a diversão de outro.

OD: A genética, de forma geral, tem evoluído muito, atingindo um nível de conhecimento até pouco impensável? Até onde a genética pode chegar?

EV: Não é possível mais uma única mente humana abrigar hoje o volume de conhecimento já produzido pela genética. Dificilmente o que já foi produzido em genética do comportamento, que só tende a crescer conforme as técnicas de associação a variantes moleculares e de “peneiragem” dos fenótipos e endofenótipos vão evoluindo. A genética, como toda ciência madura, é um edifício construído e mantido coletivamente. E por ser um empreendimento de humanos que pode ser sobre humanos, não pode estar ausente de discussões sobre ética. Os limites tecnológicos e os limites éticos decidirão onde a genética pode chegar. Porque “poder” tem dois sentidos: ser capaz de fazer, e ser capaz de arcar com as consequências em fazer.