5th of October

Sobre o privilégio de esquecer


Van Gogh – Barcos no mar, Saintes-Maries-de-la-Mer. 1888
Em 1992, minha avó paterna se matou. Tenho certeza de que meu pai e meus tios ainda pensam bastante no assunto, 21 anos depois. Eu penso. Apesar de ter apenas cinco anos, lembro-me do dia. Lembro-me da minha mãe falando sobre isso ao telefone. Lembro do meu pai chorando, do caixão, do cemitério, da atmosfera pesada de comoção.

Não tenho medo de falar sobre isso (já falei antes: http://www.elivieira.com/2010/06/o-que-voce-pensa-do-suicidio.html ) . Esse horror familiar, assim como os horrores da História, precisa ser conhecido para diminuir a chance de que se repita. É por isso que nós somos tão obcecados com o Holocausto feito pelo dito Terceiro Reich.

Não tenho medo de falar disso, inclusive, com pessoas que passam por crises e me dizem que querem morrer. Há algumas pessoas que eu amo que frequentemente já pensaram em morrer. Felizmente, nenhuma delas seguiu o caminho da minha avó. Tento entender por que estão assim, e não acho que qualquer delas seja irracional por isso. Tenho certeza que, se me faltassem todas as coisas que me dão propósito, prazer e sentido na vida, eu não estaria imune de considerar esta última saída. É por isso mesmo que trabalho para conservar tudo o que me dá propósito, prazer e sentido na vida, e estou perfeitamente consciente de que posso fazer isso, tenho este privilégio. Sou, ou melhor, estou, uma pessoa feliz.

Mas existem algumas pessoas que sofrem do que vou chamar de arrogância feliz. Que elas jamais cogitariam esta saída porque têm Deus, ou a literatura, ou cônjuge, ou qualquer outra coisa, causa ou pessoa a quem se ancorar. A verdade, assim me parece, é que escolhem algo que pode até ser importante, mas está longe de ser tudo o que precisam para viver. E é normal que façam assim, porque nossa atenção é limitada e não conseguimos, a cada instante, quantificar tudo o que está nos fazendo sentir que está valendo a pena, naquele dado momento, estar vivo. Não temos acesso à miríade de processos fisiológicos se passando nos nossos corpos, sem os quais estaríamos em dor ou desconforto.

Você se deita no seu sofá para ver Breaking Bad, cobre-se, e durante o episódio esquece o sofá, a temperatura, a estabilidade política que impede sua casa inteira de ser tomada por quem quiser e puder. São como as coisas funcionam.

Algumas pessoas não têm o privilégio de esquecer. Mulheres, quando saem na rua, não têm o privilégio de esquecer que são mulheres. Têm que ser lembradas que algum ser gostaria de inspecionar suas cavidades, porque o ser faz questão de direcioná-las a palavra sem ser convidado para deixar suas intenções bem claras. São educadas a lembrar que são mulheres quando estiverem na rua, e não apenas que são portadoras de dinheiro ou bens de valor.

Lésbicas e homossexuais não têm privilégio de esquecer o que são, também. Especialmente se tiverem cônjuge. Quando não estão preocupados com o que pode acontecer à pessoa amada se trocarem uns beijos e carícias em público, estão pensando em outros LGB’s que não podem esquecer quem são nem dentro de casa, em famílias intolerantes, que os expulsarão para a rua se ousarem esquecer o que são. Para uma pessoa simular que é heterossexual, ela não pode se esquecer em nenhum momento de quem ela é. Precisa observar o seu próprio jeito de falar, se vestir, andar, para não se encaixar nos estereótipos pejorativos de sexualidade mal vista. Já pessoas negras, raramente podem se esquecer que são negras em lugares onde seu tipo de cabelo é sinônimo de feiúra e sua cor de pele é tida como motivo para ser tratado diferente em lojas, escolas, mídia, etc.

Mas quem tem menos privilégio de esquecer são as pessoas trans. É comum crianças trans ferirem a si mesmas. É porque nem quando estão tomando um banho podem olhar para si mesmas e esquecer que estão dentro de um corpo no qual não gostariam de estar. (Isto é chamado de disforia, não afeta necessariamente todas as pessoas trans, mas uma parcela substancial.) Não podem esquecer que são trans quando vão ao banheiro público – nem em lugares sujos e mal cuidados, como banheiros públicos costumam ser, podem se sentir bem-vindas o suficiente para nem perceber por que vão àquele banheiro e não ao outro, coisa que o resto de nós faz de forma automática sem precisar pensar, podendo esquecer. Muitas vezes trans não podem esquecer que são trans nem quando alguém diz seu nome, escrito no documento de identidade – documento daquela identidade que não sentem ser a sua. Trans não podem esquecer de tomar o hormônio (quando optam pela terapia hormonal para tratar disforia), o resto de nós nem nota suas próprias glândulas trabalhando para manter nosso corpo como ele está.

Muitas vezes, quando estamos tristes, aquela boa amizade diz, com toda a boa intenção do mundo: “ah, esquece isso!” Bem, pessoas clinicamente deprimidas não conseguem esquecer sua tristeza tão fácil. Minha avó não conseguia, e tentou partir 11 vezes até conseguir. E algumas pessoas não conseguem esquecer porque o mundo ao redor não deixa.

Então quando uma delas se mata, vem uma onda de gente dizendo que não podemos divulgar, porque vai estimular outros a tentar. Ou seja, pedem para que nós, os privilegiados felizes, esqueçamos mais ainda, para aumentar o volume de coisas que temos o privilégio de esquecer. Pois está na hora é de a gente lembrar. Lembrar, conversar, apoiar, prevenir. Porque quem tirou a própria vida na tentativa de esquecer serve de um belo tapa na cara para a gente acordar do sonho do privilégio de esquecer.

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Em memória de Tiffany/Oséias Alves. Ela usava os dois nomes, se preferia um deles agora jamais saberemos… ela publicou uma carta de despedida no Facebook… e uma foto da arma que usou.