5th of May

A “filosofia da ciência (psicológica)” de Silas Malafaia


Silas Malafaia é tão esperto que ele tem sua própria filosofia da ciência, que vou chamar carinhosamente de “filosofisma da ciência”.
Primeiro ele diz que evolução é “teoria, não verdade científica”. “Que sátiros é uma verdade científica?”, perguntamo-nos, coçando nossas cabeças escravas de Satã. Aparentemente, uma “verdade científica” é algo que se encontra abundantemente na – senta que lá vem a história – Bíblia. O que ele faz para definir o que é verdade científica é dizer que é uma coisa que se encontra muito na Bíblia e ninguém é capaz de refutar.
OK. Agora que entendemos (?) o que é verdade científica na filosofisma malafaica da ciência, vamos entender o papel da psicologia no profundo pensamento do pastor-psicólogo.
Para defender o projeto do aiatolá João Campos (PSDB/GO) que pretende interferir ineditamente na atribuição de uma autarquia de classe e definir por lei apenas, em vez de conformidade com publicação técnico-científica, o que os profissionais de uma área devem fazer, diz o douto psicólogo em Cristo:
“Se a Psicologia é a ciência do comportamento humano e se alguém vai a um psicólogo pedir ajuda acerca de qualquer comportamento que incomoda sua vida, esse profissional não tem outra alternativa a não ser ajudá-lo. No caso do homossexualismo, a resolução vigente diz que não pode e fecha a questão como se tivéssemos todas as respostas na ciência para o comportamento homossexual. Isso é um absurdo!”
Nós não temos todas as respostas para a homossexualiDADE, mas uma nós temos: não é doença, portanto não deve ser tratada com o objetivo de ser alterada. É a OMS e a pesquisa psicológica que dizem. Primeiro, porque esse objetivo de “reorientação”* é impossível. Relatos anedóticos de “ex-gays” não contam como evidência contra essa impossibilidade, especialmente quando não se encontra virtualmente nem um único caso em que o suposto “reorientado” não seja ou religiosamente motivado a alegar isso ou homofobamente coagido a fazê-lo. Segundo, porque abundam evidências de que na verdade o suposto “ex-gay” continua sentindo atração sexual por pessoas do mesmo gênero (ou seja, por definição não deixou de ser homossexual), e sofre ao tentar reprimir essa parte de sua personalidade. Que tipo de “tratamento psicológico” tem como resultado o aumento do sofrimento psíquico de seus pacientes? Ou seja, o que “incomoda a vida” de um homossexual é achar que ele é errado por ser homossexual, ideia que ele tira de discursos de segregação e condenação como os discursos de pessoas influentes como o Malafaia, sem contar nas inúmeras microagressões que ensinam a homofobia na mídia, na igreja, na família, em todo lugar.
Voltando à Filosofisma da Ciência malafaica, agora outra máxima que ele tirou da cartola é que o paciente escolhe se quer ser tratado. Então o paciente escolhe inclusive tratamentos que não existem, para condições psíquicas que não são doenças, e que só se tornam fonte de sofrimento por causa do preconceito de pessoas como Malafaia e de tentativas absurdas de reorientação com “fé” e com pseudo-psicologia?
Essa filosofia da ciência parece mais um sofisma de carência – carência de estudar.
* P. S.: pior que o termo “reorientação” é o termo “reversão sexual”. Reverter significa voltar a um estado anterior. Que evidência existe de que a heterossexualidade é o “padrão de fábrica” do ser humano, do qual se desviam os homossexuais ou os bissexuais? Por que o slogan “ninguém nasce gay” não vem acompanhado da consequência lógica “ninguém nasce hétero”? Heterossexualidade é tanto quanto homossexualidade algo que deve ser alvo de explicações para sua razão de ser. Orientação sexual, ao contrário do que pensa a deputada estadual do RJ Myrian Rios (que disse que ter lei para combater a homofobia é “abrir as portas para a pedofilia”), é o conjunto de todas as formas dos seres humanos adultos de sentirem atração sexual ou afetiva por outros, e não um sinônimo de “educação sexual” como ficou claro que ela pensava no mesmo discurso.