1st of May

Extremismos: nossos doidos são melhores que os seus


Se ideias pudessem ser julgadas pelos extremistas que as defendem, algumas se sairiam melhor que outras.
“Fruitcake” (bolo de frutas).
Gíria britânica para “doido”.

– Comecemos por extremistas cristãos, sem entrar no mérito de que sua versão de cristianismo é a “genuína”. Temos alguns que explodem clínicas de aborto nos EUA, outros que promovem uma cruzada fadada ao fracasso contra teorias científicas. Não esqueçamos, é claro, os que realmente cumprem o que Jesus pediu exaustivamente: dar tudo o que têm aos pobres e viver em voto de pobreza. Pode até ser benéfico para o planeta viver em voto de pobreza completa, mas é difícil acreditar que este último tipo, que deve habitar certos mosteiros, realmente vive uma vida independente e sustentável, afinal precisam se alimentar e a maior parte do alimento disponível vem da agricultura. É possível que quase metade da fotossíntese em terra seca de todo este planeta esteja no momento dedicada à produção de bens de consumo humanos (o que é assustador). E uma pessoa absolutamente pobre não consegue ter quaisquer recursos, inclusive técnicos, para melhorar a vida de outrem. Então, em suma, as consequências do extremismo cristão em geral são ou assassinatos, ou ignorância, ou parasitismo social.

– Extremistas muçulmanos. Esta categoria é bem fácil, até porque islamofóbicos de todo tipo adoram elencar todo tipo de defeito associado ao islamismo extremista (que eles tentam pintar como islamismo em geral), por mais indireto que seja. As consequências são ideias irracionais sobre política internacional, intolerâncias dos mais diversos tipos, morte, sofrimento, cerceamento injusto de liberdade de expressão, e praticamente todos os itens do cardápio de preconceitos humanos.
– Extremismo político. Temos de um lado os extremistas do liberalismo que adoram o livre-mercado como um deus e pensam que ele é a panaceia para todas as coisas, defendendo um ‘autismo’ moral que assume que todo ser humano que falhar em ser rico e garantir assim seu bem estar merece cada desgraça que lhe acontece; e de outro lado temos os extremistas estatólatras que desejam que o Estado seja sua babá em todo e qualquer problema, geralmente tendo algum político carismático como padrinho, ao qual se faz um velado culto à personalidade. Talvez o que une os extremistas políticos das mais diversas matizes é a firme convicção de que uma teoria simples de um conjunto de pensadores iluminados é a resposta para todos os problemas sociais. Problemas na Alemanha? Prendam judeus, ciganos, gays e dissidentes políticos, são todos biologicamente determinados para trazer ruína à sociedade, então melhorar a sociedade é uma questão de “limpeza étnica”. Problemas na Rússia? Sigam à risca essas ideias descritivas destes pensadores políticos, dando-as uma força normativa que não pretendiam nem merecem, e não se esqueçam de implantar na ciência as ideias que são mais coerentes com essa teoria socio-política geral, eliminando os hereges que pretendem seguir as ideias burguesas desse tal de Gregor Mendel. Problemas no Brasil? Sigamos o dogma internacional de empurrar para o crescimento de PIB, construamos obras faraônicas passando por cima da opinião de nossos povos indígenas. Provavelmente o extremismo político é responsável pelas maiores tragédias humanas do século XX, e ainda ceifa vidas direta e indiretamente no século XXI.
– Extremismo humanista. Esse se divide alguns setores. Comecemos pelo extremismo feminista. Ora, o consenso de ativistas da área é que feminismo é luta pela igualdade de gêneros, então figuras como Valerie Solanas e o movimento FEMEN, que explicitamente defendem privilégios femininos e submissão masculina, não podem ser citadas como exemplos de extremismo feminista. Extremistas feministas são aquelas e aqueles que vêem patriarcado e opressão onde eles não estão, e lutam pela promoção da igualdade onde ela já existe ou nem vem ao caso. Outros exemplos de extremistas humanistas seriam: extremistas do movimento LGBTIQ, extremistas do movimento de igualdade racial, extremistas do movimento de direitos animais e extremistas do laicismo. As consequências negativas de todos esses talvez sejam: analogamente ao extremismo feminista, ver homo/trans/lesbofobia, racismo/especismo e intolerância religiosa onde não há, e talvez exagerar em suas manifestações jogando tinta vermelha / torna na cara / ridicularizando a imagem de figuras formadoras de opinião que vêem como inimigos de suas causas. Até onde sei, não há nenhum exemplo de morte ou tortura causados por atitudes ligadas ao que estou chamando de extremismo humanista, diferente de todos os outros extremismos que já citei. Mortes causadas por supremacistas negros não podem ser citadas, pois supremacia negra não é igualitarismo racial. Pode haver algum exemplo que negligenciei em que o extremismo humanista tenha levado a sofrimento físico e morte, mas desconfio que nem se compara ao sofrimento e morte causados pelos outros tipos de extremismo. Mas isso não é motivo para estar tranquilo, mas para manter a vigilância e o pensamento crítico dentro do humanismo (secular). Em suma, no máximo as consequências negativas do extremismo humanista seriam censura injusta de expressão e desconforto moral de algumas figuras públicas.
Não acho que ideias ou cosmovisões possam ser julgadas por seus extremistas, mas este comentário visa a por em perspectiva o tipo de acusação que ativistas humanistas precisam enfrentar diariamente. É claro, extremistas de um grupo podem também pertencer a outro. Geralmente extremistas em algum campo tendem a ser extremistas em todos os outros em que atuam, e isso é importante para estudo não apenas de lógica e argumentação, mas também de psicologia e psiquiatria!
Enfim, se o debate tiver que chegar a este nível baixo, creio que podemos dizer que nossos loucos são menos perigosos que os outros.
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P. S.: Extremismo é um termo/conceito útil e mais prático que “fundamentalismo” e “radicalismo”. Nem todo radicalismo é temível, pois pode ser um radicalismo com ideias inofensivas. Então ser radical nem sempre é uma coisa ruim. Não há “fundamentalismo ateu” porque não há um cânone de fundamentos seguidos pelos ateus, mas com certeza há extremismo ateu. Talvez extremismo seja sinônimo de fanatismo, mas parece que enquanto extremismo é focado em ações e consequências, fanatismo é focado na psicologia de quem o apresenta.