23rd of April

Risco moral


Risco moral é um conceito usado por alguns eticistas (filósofos especialistas em moral). Vou ilustrar, como o entendo, com dois exemplos que doam nos nossos calos.

1 – Usar drogas ilícitas pode ser moral ou imoral. Uma vez que uma parcela da população é viciada em certa substância, e sofre muito se parar de usá-la ‘de supetão’, existe mais risco moral em ser extremamente duro negando qualquer acesso à droga do que em fornecer pequenas quantidades para que consigam diminuir o consumo e passar do baixo consumo para consumo nenhum (política chamada de ‘redução de danos’). Há menor risco moral na redução de danos também porque corta-se o financiamento que o viciado dá ao traficante (e o traficante obviamente não está interessado em reduzir o consumo dos viciados). Assim, o Estado transforma-se num “traficante brando”, aparentemente violando sua própria regra de proibição do acesso à substância, para o bem dos viciados (diminuição de seu sofrimento em crises de abstinência com a meta de que parem de consumir no futuro).

2 – Comer carne pode ser moral ou imoral. Se nós já comemos carne (é o meu caso, exceto para a vermelha), ainda que não tenhamos dúvidas de que é certo há coisas que podemos fazer para reduzir o risco moral desse hábito, sem mudá-lo (mesmo coisas que acreditamos ser certas podem vir acompanhadas de risco moral). Há mais risco moral em comer carne procedente de um abatedouro desconhecido, que não dá nenhuma informação sobre o tratamento do animal até o abate e durante o abate, do que comer carne de procedência conhecida, com alguma garantia de que o animal não foi criado em confinamento nem submetido a requintes de tortura, e de que foi abatido com procedimentos maximamente indolores. Isso é algo que raramente passa pela cabeça da maioria dos onívoros, e raramente aparece no discurso de ativistas de direitos animais, mas é algo bastante importante que poderia fazer pessoas em posições antagônicas sobre a questão da ética da dieta finalmente colaborarem nesses detalhes pela diminuição do risco moral.

Quando digo, aqui, que uma atitude “pode ser moral ou imoral”, não quer dizer que eu pense que os argumentos pró e contra são igualmente persuasivos. Quer dizer que eu penso que pode ser útil, de vez em quando, suspender o juízo sobre as grandes conclusões e focar-se em maneiras de fazer a coisa mais correta possível no nível dos detalhes, da diminuição dos riscos de estar causando sofrimento desnecessário a qualquer ser capaz de sofrer, o que para mim orienta qualquer coisa digna de ser chamada de ética ou moral.

Não furtar-se ao pensamento ético é ter respeito por si mesmo como ser capaz de pensar.

  • Ambos exemplos vão bem na linha do que penso ser eticamente saudável. Por que os CAPS não passam a distribuir drogas a dependentes? Isso mata a corrente do tráfico. Claro que é muito complexo implementar; ignorar é muito pior. Eu já levei esta discussão num grupo gestor e quase apanhei 'vc não pode estar falando sério!'
    Na questão ética animal, acho atualmente menos nocivo comer carne bovina que suína ou aviar: os tratamentos as que são submetidos os últimos rebanhos durante toda sua vida me deixa envergonhado cada vez que como um peito de frango ou toucinho. Discussões sem preconceito são difíceis.

  • Acho esse papo de redução de danos uma furada, que só serve aos propósitos de quem quer fumar seu baseado em paz e não de quem quer se livrar das drogas.

    Eu sou contra essa ideia de repassar drogas a dependentes. Que tal ajudá-los a se livrar do vício?
    Sofre-se no início, sim, com a abstinência, mas como alguém quer parar de usar drogas sem parar de usá-las?
    Sofrer um momento de abstinência é essencial para salvar a vida de alguém das drogas.
    Se a pessoa não mudar de hábito e ambientes, não vejo como ela vai parar de se drogar… Enquanto ela continuar consumindo, mesmo que menos e fornecido pelo governo, não terá mudado sua condição.

    Outra coisa: liberar as drogas para os viciados sofrerem menos e terem a liberdade de acabar com seu vício aos poucos (como se fosse fácil se controlar) à medida que consome menores porções de droga? Tá, acho que para quem já é viciado não faz muita diferença, já que ele obtém a droga de um jeito e de outro. Mas e todas as novas hordas de pessoas que podem ter acesso facilitado à droga (tanto o acesso à substância como por haver menos repressão social)? É isso que se quer?

    Se se busca ter menos viciados, a "redução de danos" (que em geral é descriminação/legalização das drogas) não é o caminho. Ela quase não ajuda a curar já viciados (só lhes facilita a vida e a dos traficantes), e só colabora para criar novos.