29th of December

Mistérios


Há ao menos duas formas de pensar em mistérios. Uma é a forma mística. Consiste em contemplá-los pelas emoções que incitam, geralmente boas emoções. As emoções são boas porque o místico, ainda que alegue o contrário, pensa saber algo sobre o mistério sem esforço algum para desvendá-lo. É assim porque somente com algum tipo de conhecimento, ou pretenso conhecimento, alguém pode se sentir edificado por algo que é, ao menos no rótulo, desconhecido para a maioria das pessoas. A segunda forma de se pensar em mistérios é a forma genuinamente curiosa. Pouco importa se o mistério é "edificante" – aliás, aqui, sequer faz sentido falar em mistérios edificantes. Como alguém poderia se sentir edificado por não saber alguma coisa? O curioso tem a possibilidade de se sentir bem ao desvendar um mistério: o que geralmente não é fácil, a dificuldade pode até ser mínima (procurar no Google, por exemplo), mas existe. Mas ter um mistério flutuando na mente pode até ser incômodo. Curiosidade incomodada é algo mais ou menos parecido com aquela vontade de ter uma coisa inacessível, aquela saudade do que não se tem. Machado de Assis não nos conta se Capitu traiu Bentinho com Escobar porque queria nos incomodar. Queria incomodar a todos os leitores para sempre. E isso agrega valor à obra dele, pois incômodo cola nas memórias e chama a atenção. Adultos inteligentes não costumam gostar de obras de ficção que apenas tentam afagar sua psicologia – gostam de suspense, terror e drama. Quando você olha ao seu redor (olhe aí), vê um monte de coisas aparentemente banais. Vejo aqui, por exemplo, calças dependuradas, um cartaz, um guarda-chuva fechado. Todas essas coisas contém mistérios, alguns são mistérios para mim, outros são mistérios para muitos, e outros são mistérios para a humanidade inteira – e um subgrupo deles serão mistérios para sempre. Há quanto tempo usamos roupas? Cerca de 80 mil anos é o que eu acredito com base em algumas fontes que julguei confiáveis. Para alguns essa aproximação é um mistério, um milhão de anos seria um palpite igualmente bom para esses. Do que são feitas as tintas no cartaz? Sei que muitas cores diferentes são obtidas de metais oxidados, outras de compostos orgânicos como os carotenoides, mas não faço ideia do que é popular na centenária indústria de tinturas (deve ser quase tudo inorgânico), não tenho ideia de que tipo de tinta é mais provável de ser usada nesse tipo de material. Então, coisas bem básicas sobre o cartaz são mistério para mim. Entre todas as chuvas durante um ano, qual é a frequência média de chuvas para as quais esse guarda-chuva serve? Chuva horizontal deve ser rara num ano, mas não sei o quão rara por aqui. Mais mistérios. Fica evidente que, tanto para a abordagem mística quanto para a abordagem curiosa, há filtros de que tipo de mistérios chamam a atenção. Esses filtros variam de pessoa para pessoa, comunidade para comunidade, e cultura para cultura. Eu sei que o mistério da ressurreição de Jesus é a preferência para o misticismo de muitos brasileiros do século XXI, por exemplo. Mas não é um mistério que atiça minha curiosidade, e para mim o que é de fato um mistério é como essa crença pode ser tão popular. Quem prefere a abordagem curiosa dos mistérios e quer se debruçar sobre este em particular, não vai ter muitos elementos com que trabalhar, vai acabar tendo que partir para inferências probabilísticas duvidosas e terminar com uma imensa falta de saciedade da pulsão curiosa (e, espera-se, um ceticismo sobre as respostas mais populares). Mas o tratamento místico desse mistério geralmente vem acompanhado da crença de que isso realmente aconteceu, tem uma significância existencial e até ética, portanto seria um mistério digno de atenção. Eu não estou dizendo que os dois tipos de tratamento de mistérios não podem existir numa só pessoa, nem que um é exclusivo da religião e outro exclusivo dos empreendimentos seculares. Muita gente trata de forma mística os mistérios narrados por Stephen Hawking n’O Universo numa casca de noz. Já conheci gente para quem as quatro equações de Maxwell são um mistério (porque assim como eu não as estudaram nem as compreendem), mas isso não as impedia de ter admiração mística por elas. Também conheci quem tivesse legítima curiosidade pelas psicografias do Chico Xavier ao ponto de investigá-las a fundo, levando em conta todo tipo de relato e evidência – inclusive os negativos. A forma curiosa de abordar mistérios tem suas vantagens. Aponte-me qualquer coisa que, por mais que eu seja ignorante sobre ela, vou poder dizer ao menos um mistério a respeito dela – de preferência os mistérios que não são apenas mistérios para mim na minha ignorância, mas mistérios para todos nós. Posso errar miseravelmente nisso, mas é justamente nisso que tenho oportunidade de perscrutar meu nível de ignorância sobre esta coisa, e ainda ter a oportunidade de julgar se os mistérios que ela parece ter são dignos da minha atenção, se me interessam profissionalmente, se me interessam intelectualmente, se vou abrir a Wikipédia e ler dois parágrafos ou se vou comprar um livro e botar na fila de leituras de curto, médio ou longo prazo. No fundo isso é uma prospecção sobre o nível de incômodo que cada um desses mistérios me dá, e se é um incômodo suficiente para me impulsionar com velocidade de escape da atração gravitacional da minha preguiça, indolência e desinteresse. Por isso eu concordo plenamente com Paulo Freire quando ele disse que ser um bom professor é, no fundo, causar mal estar intelectual nos alunos. Quanto à forma mística de observar mistérios, não estou certo de que ela é recomendável – se é, deve ser para algum tipo de terapia psicológica, pois ser fortemente curioso sobre coisas demais pode incomodar ao ponto de atrapalhar a vida, então "adorar" certos mistérios para os quais se favorece sua hipótese favorita sem crítica pode ser algo terapêutico. Acho que todo mundo tem ao menos um mistério que trata dessa forma. Mas muitas coisas sobre mistérios são mistérios para mim. Outras são mistérios para todos. E talvez um subconjunto dessas serão mistérios para sempre.