26th of December

Miguel Nicolelis e o “sabe com quem está falando?”


Ao contrário do que dita a opinião popular, a ciência não depende de grandes gênios. Eles são raridades na História, servem de catalizadores e trampolins para grandes avanços, mas o progresso aconteceria da mesma forma sem eles – só levaria mais tempo. No caso de Newton, por exemplo, não acho que o progresso teria se atrasado muito se ele não tivesse existido. Temos evidência não apenas de descoberta independente do Cálculo (por Leibniz), como de que vários cientistas da época já estavam pensando em alguma força inversamente proporcional ao quadrado da distância entre os corpos sobre os quais atua, como funciona a força da gravitação universal. O mesmo vale para Darwin. Alfred Russel Wallace descobriu independentemente a evolução pela seleção natural, mesmo embora não tivesse as mesmas virtudes de Darwin, que basicamente consistiam em trabalho duro e exaustivo (obsessivo até) e criteriosa e paciente ("painstaking" como se diz na terra dele) persuasão argumentativa. São só dois exemplos de figuras importantíssimas e admiráveis da ciência sem as quais nós teríamos uma ciência não muito diferente (em termos do conteúdo das teorias) da que temos hoje. Isso está em franco contraste com várias culturas ao redor do mundo em que as pessoas têm mania de louvar autoridades individuais. No Brasil, por exemplo, magnatas como Eike Batista são louvados pelo simples fato de acumularem sozinhos um enorme poder. Parece-me que o ótimo cientista Miguel Nicolelis está acumulando sobre si esta figura cultural de "magnata" ou "coronel" ("doutor" no sentido tradicional) ao receber 33 milhões de dinheiro público para fazer um espetáculo midiático e ufanista (onde melhor que na abertura da Copa?) de um método experimental para aliviar os problemas da tetraplegia. (Ver http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,ministerio-da-r-33-milhoes-para-projeto-da-copa-do-mundo-,974237,0.htm ) Isso é não apenas um contrassenso diante do modo como a pesquisa científica de fato funciona – mesmo que Nicolelis não trabalhe sozinho, é um absurdo que apenas o grupo em torno dele receba mais que todos os outros neurocientistas brasileiros juntos. Isso é também algo que efetivamente atrasa a pesquisa. Gera conflitos egoicos que se interpõem à colaboração comunitária que é, por direito e de fato, a engrenagem principal da investigação científica. Isso só mostra que ainda somos o país do "sabe com quem você está falando?". Sei com quem estou falando: com o atraso intelectual autoritário, cientificista, ufanista, cego com um otimismo estilo Pollyanna, que acaba sendo um Judas para quem mais põe a mão na massa para fazer a humanidade ir pra frente em termos éticos e epistêmicos.

  • É o que acontece quando o Estado concentra toda a pesquisa científica. No Brasil, todos os centros de pesquisa, em maior ou menor grau são estatizados.
    O resultado é que só se pesquisa futilidades. O MCT se orgulha de dizer que a nossa produção científica está em 10.000 artigos por ano.
    Um volume invejável, mas qual é a relevância destes artigos? Como fazer micro-lâmpadas incandescentes em silício? Deposição de filmes bestas e superfícies idiotas? Programas escritos para plataformas obsoletas? Absolutamente nada que se aproveite.
    Quantos prêmios estes artigos geraram? Quantas patentes?

  • Oi Eli, tudo bem? Então, eu acho que você levou essa discussão pra um lado complicado. Vou tentar ser sucinto. Você advoga contra o personalismo mas faz uma crítica personalista. O problema não está no Nicolelis nem no trabalho que ele faz. Estaria, talvez, no modo como tudo isso está sendo usado pra fazer publicidade. Particularmente, não vejo problema nisso. Antes fazer publicidade com a nossa ciência. Porque publicidade haverá, anyway. Mas isso é questão de opinião e estou saindo do assunto. O problema que eu tenho com a sua crítica é o mesmo que eu tinha com as críticas que foram feitas ao Reuni (à época em que foi implantado). O programa tinha vários problemas, vários mesmo, mas pela primeira vez em décadas um governo tinha feito pressão pra expansão junto com oferta de recursos. Muita gente, ao invés de criticar a maneira como os recursos foram alocados, suas fontes e etc, criticou a coisa em bloco. E isso acho errado. Estamos investindo em ciência, usando ciência pra publicidade, tudo isso é bom no meu ponto de vista. Não adianta jogar a situação toda num grande conjunto "isso está errado". Talvez devêssemos separar as críticas. Mais ou menos assim: problema nenhum o Nicolelis receber tantos milhões. Só há benefícios nisso. Problema são os outros não receberem quantias parecidas. Fica uma crítica vazia quando dizemos que o problema é a distribuição dos recursos e atacamos "quem está recebendo". Parece que estamos "nivelando por baixo". E eu não gosto dessa linha de argumentação. Mais do que isso, é evidente que a ciência não caminha exclusivamente pelos seus expoentes, mas talvez haja um pouco de ingenuidade em achar que não são eles que movem grande parte das coisas como são. Nobel, grants, recursos privados no mundo (diferentemente do Brasil onde a pesquisa é quase exclusivamente financiada com dinheiro público) são dados a estes expoentes. São eles os captadores. Há muita política na ciência. E eu nem estou criticando isso propriamente. Poderia ser criticado, até aí tudo bem. Mas não dá pra fingir que não é assim que a "banda toca" hoje. Bom, foram essas minhas impressões. Desculpe a escrita embolada do comentário. Abraço!

  • Guilherme, obrigado pelo comentário.

    A resposta é que não vejo onde é personalismo mostrar uma desigualdade gritante na aplicação do dinheiro. Não é razoável cobrar que todos os grupos de pesquisa recebam o mesmo que o Nicolelis recebe do dinheiro público – a quantia para um único projeto é exorbitante e seria um assalto aos cofres públicos.

    Portanto, não tem nada de personalismo na minha crítica, nisso continua sendo, ao contrário, uma crítica ao personalismo na hora de aplicar recursos que são públicos.

    E repito: a banda não toca assim. A banda toca comunitariamente, na ciência. Certamente pesquisa não é matéria simplesmente de política ou marketing, ainda que política e marketing influencem quem recebe o dinheiro, é útil ao poder público saber que não, não é assim que a banda toca, portanto não, o que foi feito não é justo.

    Há que se falar em política e marketing, sim, mas não aceitando uma interpretação sociológica forte da pesquisa científica, como se a natureza da pesquisa científica não fosse comunitária. Isso seria negar fatos.

    Abraço.

  • Entendo seu posicionamento, mas ainda não concordo. Tenho a impressão que pra estender essa conversa a gente precisava saber a fonte dessea recursos: qual edital, linha de fomento, etc. Isso deve ser público, mas não encontrei.
    O que eu falei sobre os expoentes, acho q, no fundo a gente concorda. É claro que a ciência é um empreendimento coletivo, não estava questionando isso. Mas existe uma série de noções intrínsecas à ciência, como é feita hoje, que dá o papel dos expoentes. Por exemplo, nos diretórios de grupos de pesquisa do CNPq há o registro dos líderes dos grupos. Classificação de produção (1a, 2b, c)… E por aí vai. Mas voltando ao início, tenho a impressao q não resolveremos "nosso impasse" (rs.. ^^) sem saber a fonte dos recursos e as regras para concessão. Abraço! 😉

  • Entendo seu posicionamento, mas ainda não concordo. Tenho a impressão que pra estender essa conversa a gente precisava saber a fonte dessea recursos: qual edital, linha de fomento, etc. Isso deve ser público, mas não encontrei.
    O que eu falei sobre os expoentes, acho q, no fundo a gente concorda. É claro que a ciência é um empreendimento coletivo, não estava questionando isso. Mas existe uma série de noções intrínsecas à ciência, como é feita hoje, que dá o papel dos expoentes. Por exemplo, nos diretórios de grupos de pesquisa do CNPq há o registro dos líderes dos grupos. Classificação de produção (1a, 2b, c)… E por aí vai. Mas voltando ao início, tenho a impressao q não resolveremos "nosso impasse" (rs.. ^^) sem saber a fonte dos recursos e as regras para concessão. Abraço! 😉

  • A fonte da Folha é o Portal da Transparência.

    Que alguns cientistas produzem mais que outros é indiscutível. Mas isso não muda o que eu falei.

    Produção acadêmica não é nem de longe algo que leva alguém a ganhar respeito do tipo "coronel" no Brasil. Não que eu saiba.

    Tudo bem você discordar, mas duvidar das fontes não é propriamente uma discordância. O Estado cita o Portal da Transparência, do próprio governo.

    O que eu achei de mau gosto foi o Estado incluir fofocas difamatórias de anônimos – isso sim é uma crítica de cunho personalista.

    Mas não é de forma alguma uma crítica personalista apontar que há um desnível injustificável na aplicação dos recursos. Em que outro país, dos que tradicionalmente publicam muito, há alguma agência de fomento dando rios de dinheiro para fazer um espetáculo da evolução de um paciente na pesquisa médica, especialmente na abertura de eventos esportivos, em vez de esperar os resultados serem publicados em periódicos revistos por pares?

    Isso simplesmente não existe. Citar diferenças individuais de produtividade não muda a questão da injustiça e nem muda a questão de ser recurso público.

  • Eli, desculpe se dei a impressão que estava duvidando da fonte. Não era isso que estava pensando. O que quis dizer é que é necessário saber exatamente o tipo de edital e linha de financiamento, bem como suas regras específicas pra saber direito se é injusto ou não. Ouvi, à época de criação dos INCTs, críticas na direção de afirmar que era injusto, pra poucos, etc. Mas, como eu tenho certeza que você sabe, olhando direitinho o número de pesquisadores envolvidos e o "rateio" por laboratório, três ou cinco milhões nem é muito. É bom,mas não é muito. Precisavamos ter certeza quantos são os envolvidos nesses milhões do Nicolelis (quantos laboratorios, quantos editais, se foi edital único, se houve concorrência, se foi chamada prioritária, se foi demanda espontânea, se foi recurso que corria risco de não ser aproveitado por conta de fechamento do ano fiscal, o que eh muito comum, etc, etc, etc.
    Em resumo, o que eu quis dizer eh que tinha a impressão que estaríamos fadados a discordar até que tivéssemos essas informações todas. Com elas, dependendo do caso, eu poderia mudar de idéia. Sei que vc não tá querendo, necessariamente, que as pessoas concordem com vc, mas essas informações poderiam até reafirmar seu argumento, se for o caso. Mas, de novo, obrigado pela atenção. Um abraço.