14th of December

Oswaldo Porchat e um sintoma de falta de filosofia nos departamentos de filosofia brasileiros


No fim da década de 1990, o professor Oswaldo Porchat, experiente professor de filosofia da USP, descobriu que não havia sido um filósofo em toda a sua carreira, mas no máximo um historiador de filosofia. Também concluiu que havia formado uma parte considerável dos professores de seu próprio departamento com esta mesma impressão equivocada sobre o fazer filosófico.

Escreveu, então, com quase 70 anos, um discurso com esta revelação para os estudantes e professores da USP. Trechos a seguir.

“Errare humanum est, sed perseverare in errore diabolicum [errar é humano, perseverar no erro é diabólico], diziam os medievais. Não quero ter parte com o diabo. Quero ter, no momento em que caminho a passo acelerado para os meus 70 anos, para o momento em que serei forçado a deixar a universidade, a coragem de rejeitar duramente meus erros passados, denunciar meus procedimentos equivocados, pedir humildemente desculpas pelas consequências infelizes que possam ter deles resultado. E tentar contribuir para que se busquem outros rumos. Para que a História da Filosofia, entre nós, comece a dar lugar finalmente à Filosofia.

(…) Dever-se-ia dar também atenção especial, porém, àqueles problemas filosóficos que são problemas para nossos estudantes, questões que naturalmente os preocupam. Aliás, inseridos que estão e não poderiam deixar de estar no mundo contemporâneo, muitos dos problemas desses jovens refletem compreensivelmente parte da problemática com que estão lidando os filósofos de hoje. Parece-me, por exemplo, que os problemas de filosofia moral têm aí um lugar especial. Têm acaso sido eles objeto importante de nossos cursos e atividades de ensino e pesquisa? Temo sinceramente que não.

(…) [É] muito desejável que nossos estudantes sejam fortemente incentivados, desde o início, desde o primeiro ano, a exprimirem livremente nos seminários, nos trabalhos e nas aulas os seus próprios pontos de vista sobre os assuntos tratados. A tomarem posição, a criticarem, a ousarem criticar, se isso lhes parecer ser o caso, mesmo as formulações dos grandes filósofos e suas teses.

(…) [E]m História da Filosofia a autoridade parece contar muito, em Filosofia a autoridade não conta nada. Seja qual for a minha erudição historiográfica, minha opinião filosófica conta tanto, na esfera do saber e no domínio das verdades filosóficas, quanto a de qualquer um de meus alunos, minhas performances “magistrais” não garantem a verdade do que eu possa afirmar.

(…) Há espaço de sobra nele [no departamento de filosofia] para a crítica e para a indispensável autocrítica. Basta abrir algumas salas que estão fechadas, as salas da discussão, da polêmica, do debate, da crítica, da autocrítica. Disseram-me que vocês têm as chaves.”

Discurso completo aqui: http://www.revistafundamento.ufop.br/Volume1/n1/vol1n1-2.pdf

A “queda da graça” do professor Porchat é, como ele sugere, revolucionária, e ainda extremamente relevante por vários motivos.

As coisas ainda estão bem como ele descreve. Muitos departamentos e professores de filosofia no Brasil ainda mantém um ambiente acadêmico hostil ao racionalismo. Pois é hostil ao racionalismo ensinar aos alunos que devem apenas comentar o que Fulano disse sobre Cicrano, não tentar criticar Fulano e Cicrano ou elaborar seus próprios argumentos com base nos erros ou descobertas de ambos. É hostil ao racionalismo pensar que pesquisa filosófica é comentário de obras de arte e associações vagas ou triviais de ideias repletas de nomes importantes e palavras de baixa frequência de uso na língua portuguesa, além é claro de neologismos dispensáveis e maneirismos de escrita e demais adornos desnecessários para quem de fato tem argumentos a apresentar.

O Brasil, talvez, nunca esteve tão necessitado de bons filósofos quanto hoje. A população de baixa escolaridade, apesar de amar a erudição e sonhar em ver seus filhos estudando, transita entre ideias da grande mídia, da igreja e do senso comum, como “bandido bom é bandido morto” e “sem Deus tudo é permitido”. Quando conseguem alguma educação, quase sempre recebem ideias repletas de preconceitos como o cientificismo. E são essas pessoas que pagam as bolsas de mestrado e doutorado de estudantes que passam anos nas universidades públicas para terminar com trabalhos que muitas vezes não têm qualquer compromisso com originalidade argumentativa ou mesmo a clareza (que não implica rejeição a qualquer jargão, mas implica que o jargão usado pela comunidade tenha algum escrutínio criterioso).

Isso não é justo. E não é justo que o cidadão leigo em filosofia tenha como personalidades filosóficas famosas em seu país figuras como Olavo de Carvalho e Luiz Felipe Pondé, que vivem de regurgitar senso comum com adornos linguísticos da norma culta.

O exemplo do professor Oswaldo Porchat Pereira é um exemplo de coragem e um exemplo a ser seguido. Que outras carreiras longas como a dele não sejam gastas em exercícios historiográficos fora de departamentos de história e cultos a personalidades mal travestidos de debate crítico.

***

Publicado originalmente no Facebook da LiHS.

  • Tem mais um probleminha:

    o que ele chama de história da filosofia, que é praticada nos cursos de filosofia, não chega a ser algo parecido com história, por que simplesmente não leva em conta a passagem do tempo, ou a historicidade específica do pensamento dos filósofos famosos.

    Assim, lê-se, por exemplo, Platão, como se ele tivesse escrito seus pensamentos ontem, e não num tempo específico bastante remoto, com suas questões específicas atreladas ao seu próprio tempo – mesmo que seja possível extrapolar algo disso para significados, digamos, atemporais, ou que possam manter sentido além do seu tempo.

    Compartilho os sentimentos gerais do post com relação à relevância dos nossos departamentos de pesquisa – acho que no Brasil nós transportamos nossa tradição bacharelesca para a pós-graduação, e precisamos caminhar muito para construir uma tradição de pesquisa que faça sentido para a sociedade que paga impostos.

  • Tem mais um probleminha:

    o que ele chama de história da filosofia, que é praticada nos cursos de filosofia, não chega a ser algo parecido com história, por que simplesmente não leva em conta a passagem do tempo, ou a historicidade específica do pensamento dos filósofos famosos.

    Assim, lê-se, por exemplo, Platão, como se ele tivesse escrito seus pensamentos ontem, e não num tempo específico bastante remoto, com suas questões específicas atreladas ao seu próprio tempo – mesmo que seja possível extrapolar algo disso para significados, digamos, atemporais, ou que possam manter sentido além do seu tempo.

    Compartilho os sentimentos gerais do post com relação à relevância dos nossos departamentos de pesquisa – acho que no Brasil nós transportamos nossa tradição bacharelesca para a pós-graduação, e precisamos caminhar muito para construir uma tradição de pesquisa que faça sentido para a sociedade que paga impostos.

  • Obrigado pelo comentário, André. Eu concordo. Abraço.