19th of February

Os alquimistas da Rosacruz estão chegando


rosacrucianismo_cucoHoje, uma pessoa adepta do rosacrucianismo, muito simpática, me adicionou no MSN. Elogiou meu trabalho no Bule Voador e minhas preocupações humanistas, efusivamente.
A conversa durou pouco mais de uma hora. Pediu-me discrição, para não publicar a conversa na internet, o que nem precisava ter pedido. No entanto, não creio que falar sobre a conversa, sem citar o nome da pessoa (nem mesmo revelando seu gênero) transgrida esse pedido. Muito menos divulgar a natureza do que a pessoa me falou.
Dito isto, vamos ao relato. Vou chamar a pessoa de “HW”.HW me perguntou se eu concordava que o universo e o conhecimento científico sobre ele é algo fascinante e adorável. Concordei, com a ressalva de que eu não usaria a palavra “adoração”, pois me parece transmitir um sinal de “subserviência e aprovação absoluta” a tudo o que está associado a isso. Adoração não é desejável, pois claramente o universo pode ser um lugar terrível. Supernovas varrem mundos inteiros, muitos provavelmente dotados de vida, já dizia Carl Sagan em “Variedades da Experiência Científica”.A conversa foi daí para algo que eu temia desde o momento em que HW revelou ser adepto da ordem Rosacruz. Disse para eu considerar a possibilidade de haver uma ciência “mais avançada” do que a que eu conheço. Uma ciência que “utiliza outros métodos, não divulgados na mídia cientifica, ou em artigos academicos atuais”.HW partiu daí para tentar me convencer de que, por ter sido uma “filha” da alquimia, a química de hoje herdou os feitos dos alquimistas. Ao menos se eu tivesse uma mente aberta, insinuou HW, eu poderia aprender que conhecimentos foram gerados pelos alquimistas desde que química se separou da alquimia – a alquimia, supostamente, hoje é muito mais que a “mãe” da química. Os alquimistas estão chegando, são discretos e silenciosos.
Um resumo do que respondi:- Delimitar o que é ciência é tarefa da filosofia da ciência. As teorias filosóficas que fazem isso são conhecidas como critérios de demarcação. Dos critérios de demarcação que conheço, nenhum aprovaria as crenças do rosacrucianismo. Não é fácil propor um critério de demarcação. Filósofos como Popper, Kuhn e Lakatos levaram carreiras inteiras propondo e defendendo seus critérios. Então, é irrelevante se em reuniões ultrassecretas e excitantes os rosacrucianistas aleguem que sua doutrina é uma ciência, pois não basta falar a palavrinha mágica “científico” para transformar alguma ideia em científica.- Apesar de HW alegar que é indiscutível que a alquimia é a mãe da química, respondi que na verdade é bastante discutível. Se adotamos uma interpretação refutacionista da ciência, parte do motivo da química ter se tornado uma ciência foi justamente sua rejeição do pensamento mágico dos alquimistas – uma rejeição de altas esperanças dogmáticas como a pedra filosofal e o elixir da imortalidade. Certos conceitos que não eram propriamente alquímicos, como o flogisto, também precisaram ser rejeitados. Rejeição de ideias à luz de novas observações e teorias é algo muito natural na ciência. Se a química é filha da alquimia, é uma filha muito rebelde, para dizer o mínimo.- “Não tenho intenção de ser hostil”, eu disse. “Mas é supérfluo alegar que o rosacrucianismo é uma ciência.” Perguntei se HW tinha lido este texto do Alex Castro, e se ele não via nenhum paralelo entre o que ele estava fazendo e o que é descrito pelo Alex. HW respondeu que tinha lido, sim, e gostado, mas que não via a semelhança.Aí veio a crème de la crème da discussão: HW pediu que, sob promessa de sigilo absoluto, eu fosse a uma reunião da Rosacruz, onde ele me mostraria……seres de aparência humana com 15 centímetros de altura.Eu disse que eu já sabia que esses seres existem, e nós chamamos de “fetos”. HW respondeu que eram seres que se comunicavam e andavam. Eu trepliquei que seria inútil pedir o meu sigilo, pois na presença de tais seres eu não poderia evitar publicar sobre a existência deles, pois seria um escândalo científico maior que a descoberta do Homo floresiensis – seria impossível evitar que eu quisesse descrevê-los,  nomeá-los e posicionar seu parentesco entre as outras espécies de primatas da família dos hominídeos.Expressei o desdém absoluto que tenho para com sociedades secretas como o rosacrucianismo, que misturam o elitismo quase-eugenista da Mensa com o exclusivismo religioso da ordem DeMolay. Para mim todos esses clubes do bolinha sobrenaturalistas só têm a utilidade de qualquer outro agrupamento humano: o contato social que nos é tão imprescindível quanto o alimento.Conhecimento confiável é conhecimento aberto, aquele que se deixa criticar, aquele que se deixa democratizar. Os únicos “iniciados” de que o conhecimento precisa são os iniciados na arte da curiosidade. Nada mais.O secretismo de grupos como Rosacruz só serve para mostrar que a falsidade se evapora à luz da investigação independente como Drácula ao sol do meio-dia.Fazer parte de uma espécie falível como a nossa obriga qualquer racionalista a adotar uma certa heurística: considerar falsa qualquer proposição, inclusive as feitas pelo rosacrucianismo, até justificação racional, incluindo evidências, que convença pensadores independentes e ideologicamente diversos de que a proposição é verdadeira. De preferência às claras, pois só a luz da investigação independente pode mostrar os defeitos por trás da maquiagem que damos às nossas hipóteses favoritas.Sem esperar por uma explicação mais detalhada de por que não se deve usar a palavra “científico” como se fosse uma palavra mágica para tornar crenças científicas, HW saiu da janela, tão respeitosamente como entrou, logo depois de eu propor uma descrição objetiva dos Pequeninos.
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Os Pequeninos (The Borrowers): Série exibida pela TV Cultura. Adaptada do livro de Mary Norton. Uma família de quatro pessoas minúsculas vive das sobras dos “gigantes” que moram em uma velha mansão, o casal Joe e Victoria Lender (Aden Gillett e Doon Mackichan), e seu filho Peter (Bradley Pierce). Peguei aqui.
  • 35 anos atrás eu caí nessa do "conhecimento avançado e secreto" que ofereciam. Depois de um tempo nós (eu e o Daniel) nos demos conta de que nos induziam a comprar coisas e também a conseguir mais adeptos e nos afastamos. Mas foi o início de 20 anos de "busca" para mim, até que eu cheguei a uma conclusão bem semelhante à sua, de que qualquer conhecimento realmente revolucionário seria amplamente conhecido e investigado se fosse válido.

  • Pois é! Eu também já participei de uma "organização secreta" sob a promessa de começar a ver o mundo sob um novo olhar com o conhecimento que lá seria revelado. O que conclui? Era apenas mais uma seita cristã, dogmática, ainda que uma grande entidade filantrópica. O conhecimento que me foi apresentado lá? Nenhum, nada de mais, nada que não esteja nos livros. Pior: alguns conhecimentos já estava até ultrapassados.

    Eli, fico só pensando se esse tipo de gente REALMENTE acredita no que diz a ponto de, como vc falou, lhe convidar para ir lá e relevar todo um "conhecimento secreto"… parece tão infantil isso…

  • CK

    Muito interessante suas proposições e concordo com elas.
    Também tentaram me recrutar para os rosacruz, mas essa coisa de sociedades secretas e conhecimento secreto não me agrada.

    Eu sou cientista da área de Humanas e devoto da Umbanda, a qual me aproximei por um viés empirista de estudo das sensações e evidências sensíveis que encontrei. Concordo que ainda me falta trazer maior rigor para minhas observações participantes em termos de registro, anotação e mensuração, sem o que não posso definir como científico o meu enfoque. Mas, pelo menos, é um centor aberto a qualquer um que deseje observar, questionar, testar etc.

    O humanismo e o viés ético trazido pelos agnósticos e ateus é fundamental para a manutenção do Estado democrático pluralista e desejo-lhe boa sorte em sua jornada.

  • Sempre olhei para estes ultra secretas sociedades com bastante ceticismo.

    Não me agradam, nunca agradaram. Conhecimento ter que ser livre e acessível e não confinado ao pó.