18th of January

Sobre cu de bêbado e o estupro no BBB


NecrophiliaNão se faz sexo com uma pessoa inconsciente. Não interessa se há 30 segundos ela disse “sim, estou muito a fim, vamos?” Se ela disse “quero experimentar uma coisa diferente, fazer sexo com você apagada de álcool”, aí talvez tudo bem, mas é uma decisão bastante estranha, dado que mesmo um masoquista, quando pede para apanhar, faz isso porque obtém prazer junto com essa dor. Até o mais bizarro caso de fetiche é acompanhado da noção de que sexo é uma coisa que dá prazer a todos que estão participando. Qualquer coisa diferente disso não é sexo, é crime. Eu posso entender que alguém ache exagero que a lei chame todo caso de sexo não consentido de estupro por haver uma gradação de ofensa muito grande entre uma bolinada numa pessoa inconsciente e uma atentado violento contra uma pessoa consciente. Mas não interessa muito o nome que se dá, interessa que no caso do BBB um homem reincidente em tentar se aproveitar de corpos de mulheres inconscientes dessa vez claramente fez isso na frente das câmeras e precisa ser punido. Só ele, Daniel, precisa ser punido, porque ele era a parte imputável ali, a parte consciente, que decidiu de forma egoísta e doentia obter prazer de um corpo inerte.
Se não é crime embebedar-se ao ponto de perder a capacidade de consentir, nosso contrato social implícito nos obriga a proteger a capacidade de consentimento em todas as situações, e não botar a culpa em quem usa de seu direito de beber num ambiente seguro em que possa perder a consciência. Se o ambiente não é tão seguro quanto a pessoa pensava, contendo por exemplo pessoas sem noção de respeito pelo consentimento de parceiros no sexo, é o ambiente que precisa mudar, e não o bêbado. Cu de bêbado tem dono sim, e é o próprio bêbado. Ninguém assina um atestado de desumanização quando bebe, para que seu bem mais precioso, o corpo, deixe de ser seu. Todos nós passamos por momentos de incapacidade de consentir todos os dias – o resto de nós tem que estar em vigília nesses momentos para nos proteger, e é isso que chamamos de sociedade. Qualquer coisa diferente disso é matilha. Todos os dias, quando desligamos a consciência, seja para dormir, seja para passar a embriaguez, só queremos fazer isso na condição de que as instituições das quais participamos estejam ali para nos auxiliar se algo de ruim acontecer enquanto estamos "fora do ar". Já que deus nenhum faz isso, contamos com a família e com o Estado.

Pensemos nisso antes de culpar bêbados pelo que outros fizeram com seus cus.