8th of November

Atropelamento, educação no trânsito, excesso de empatia


Meu ônibus atropelou uma mulher semanas atrás. Chegou a trincar o vidro da frente e danificar a lataria. Saímos do ônibus, ela estava deitada de bruços, respirando, sangue escorrendo a partir da cabeça. O SAMU chegou e levou. Eu me senti… desamparado. De botar a mão na cabeça, respirar fundo e olhar em volta, como se quisesse achar alguma coisa, sabendo que nada viria. Desamparado por saber que vivo num universo em que essas coisas acontecem e não é culpa de ninguém… exceto talvez da própria mulher, que poderia ter o hábito de atravessar na faixa em vez de cruzar a linha de ônibus. Mas nem sei se ela é culpável, Porto Alegre não teve nenhuma campanha bem sucedida de educação dos pedestres, os pedestres são na maioria muito mal educados no trânsito (eu sou pedestre). Estou comparando ao Plano Piloto de Brasília, em que houve a campanha há mais de dez anos e tem funcionado desde então. Tenho ímpeto de querer saber se ela está viva, se sobreviveu, se o provável traumatismo craniano deixou sequelas ou não. Ter visto ela conseguindo dobrar as pernas quando a viraram de cabeça pra cima me deu alguma esperança. Mas nunca se sabe se isso ainda funciona quando partes fundamentais do córtex já foram embora… Acredito que isso que eu tive se chama compaixão, e é uma forma de empatia. Por outro lado, ouvi um caso horrível de abuso infantil, dos mais revoltantes do mundo, mas me senti culpado porque não empatizei tanto assim, apesar de ter tentado demonstrar indignação (não tentei muito, porque não sou ator, e sei que ficaria ridículo nesse papel – fiquei quieto como sinal de respeito). Às vezes a gente não sente a empatia que esperamos de nós mesmos por motivos tão simples quanto este: o meio da mensagem. Me falar de tal caso em que houve isso e aquilo é bem diferente de eu estar lá como testemunha. Isso não é bom nem ruim: às vezes empatia demais pode matar, como te diria, se pudesse, aquele fotógrafo que tirou a foto de uma criança desnutrida na África, quase morta, com um urubu a observando atentamente. O fotógrafo se suicidou. Não conseguiu mais viver com esta memória, pois sofria com aquela criança todos os dias.

  • Falando de trânsito. Este é um assunto (problema) que vem consumindo uns bons minutos de pensamentos meus todos os dias.

    Desculpe, mas eu devo discordar do "ninguém tem culpa".

    No caso que citou neste post não tenho como saber os culpados, mas em 99% (número chutado, mas é algo absurdo assim) dos acidentes existe uma lista interminável de culpados, desde os envolvidos até autoridades políticas e de trânsito.

    Estou respondendo este post, pois ando extremamente estressado com o trânsito de Caxias do Sul, no último fim de semana morreram quatro pessoas aqui, mas o estresse não é exclusivamente por causa dos acidentes ou das centenas de infrações do CBT que você pode presenciar em poucos minutos andando por ai de carro, mas sim pela falta de noção e de bom senso das pessoas. Falta um pouco, com isso eu quero dizer que falta muita, mas muita, paciência, coletividade e outras coisas mais que são básicas para o convício social nas vias.

    Deviam fazer um filme (baseado em fatos reais), onde as pessoas que ao tomar o volante de algum veículo virassem zumbis desmiolados em busca de sangue, ou simplesmente atrapalhar os outros.

    Diga-me uma pessoa que respeite os limites de velocidade; dê passagem sempre que solicitado; pare nas faixas de segurança; pare nos sinais de pare; ande com atenção redobrada na frente de escolas; não abuse, mais do que o normal, da velocidade quando está atrasado; etc; etc; etc; eu gostaria muito de conhecer essa pessoa.

    A cultura do Brasileiro já não é de ser muito sociável, atrás do volante então, piora várias vezes…

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