31st of October

Uma ameaça ao ceticismo chamada CREDULIDADE POLÍTICA


Existe uma certa minoria de militantes ateus que eu encaixo na categoria de crédulo político. É um tipo de ateu que não aprendeu nada com as lições do ceticismo de Carl Sagan, Bertrand Russell e Richard Dawkins.
Geralmente demonizam posições políticas à esquerda ou à direita. No Brasil é comum serem leitores de Veja que demonizam o Partido dos Trabalhadores, e também há os que atribuem todo o mal sobre esta terra ao Fernando Henrique Cardoso e seus aliados. Apesar de se distribuirem no espectro político, o que os une, como já indicado, é a credulidade.
Se uns são incapazes de atribuir qualquer mérito ao governo Lula pela consecução de programas que salvaram milhões da fome (eu não sei como algum ateu poderia não achar bom que algumas pessoas tenham a oportunidade de botar a cabeça para trabalhar depois de deixar de se preocupar se vai ter 2000 kcal para manter seu próprio corpo no dia); outros fecham os olhos para a campanha de conscientização científica que FHC está fazendo sobre a política antidrogas.
Esta história de exigir que o Lula trate seu câncer no SUS é só mais um resultado da tal credulidade política. Primeiro, atribui-se os problemas da saúde a uma única pessoa, e numa imensa insensibilidade quanto a seu estado de saúde e incapacidade de se colocar no lugar dela, exige-se que ela pague por essa suposta culpa não demonstrada por evidências. Segundo, ignora os méritos da saúde pública, méritos que são negados ao cidadão comum nos EUA. Duas semanas atrás o ônibus em que eu estava atropelou uma mulher, em menos de 2 minutos lá estava a unidade SAMU para atendê-la e salvar-lhe a vida. Se eu me guiar pela opinião de alguns aqui, o que eu vi ali foi ilusão de óptica, a viatura do SAMU nunca apareceu, e o SUS que funciona, ao menos que apenas localmente, deve ser fruto da minha fértil imaginação.
Enquanto isso o professor da UFRGS Marco Idiart (do Coletivo Ácido Cético) me disse que nos EUA teve que pagar 3 mil dólares por um tratamento trivial que se faz em qualquer posto de saúde por aqui.
Da última vez que eu chequei, o tal Luís Inácio tinha 9 títulos de doutor honoris causa dado por universidades ao redor do mundo, e dizem que até cotado para ser secretário geral da ONU. Me parece um certo reconhecimento por alguma coisa que ele tenha feito, e neste caso eu prefiro acreditar no julgamento das universidades do que na opinião preguiçosa de ativista de Facebook sem estatísticas reais sobre o estado da saúde no Brasil.
Me parece que não passar fome pode talvez contribuir para a saúde de quem há 8 anos atrás não tinha o que botar no prato.
Não preciso estar filiado ao PT, muito menos ser fã do Lula ou negar erros que ele tenha cometido quando presidente para reconhecer isso. Tanto quanto não preciso estar filiado ao PSDB nem ser fã do FHC para saber que a privatização pode ter sido uma ótima ideia para a telefonia, e para saber que os argumentos do FHC sobre descriminalização da maconha têm sólida fundamentação científica.
Desconfiem bastante de quem tem um zelo excessivo em simplificar a política, inclusive tornando-a bipartidária ou um conflito pessoal entre a pessoa do Lula e a pessoa do FHC, ou entre a redação da Veja e a redação da Carta Capital. Não é preciso ser gênio para saber que política é uma área complicada em que todas as decisões são subótimas, muitas vezes é necessário tomar decisões sobre tratamento de doenças que a ciência compreende muito mal.
Câncer é uma dessas doenças. Palestrantes de pesquisa aplicada em oncologia vêm ao meu departamento relatar que uma substância que faz um tipo de câncer regredir pode fazer outro tipo se tornar mais agressivo. Certos tratamentos são consagrados para certos tipos de câncer, e são, sim, oferecidos no SUS, mesmo com os problemas de fila, lentidão, falta de verba – e o acúmulo de qualquer problema não torna menos verdade que ter SUS é melhor do que ter nada, e que quem usa o SUS quando poderia usar outro serviço está tirando vagas de quem está no nada.
Já outros tratamentos, talvez a maioria deles, de maior eficácia, depende da iniciativa privada, dos grandes centros de pesquisa privados ou das universidades. Esse tipo é inviável de ser oferecido no SUS, até porque muitos estão em fase de testes, e os pacientes com formas agressivas se oferecem como cobaias com a esperança numa mão e a vida na outra.
A pesquisa médica depende dessas pessoas para usar como amostra. Quem já leu “Por um fio” de Drauzio Varella sabe que certos tratamentos são liberados para uso mas que toda aplicação acaba sendo um novo teste de eficácia.
É falta de ceticismo, de contato com a realidade da pesquisa médica, achar que o SUS pode oferecer esses tratamentos de ponta para todos, ainda mais diante do fato de que esses tratamentos não têm eficácia comprovada e podem ser um verdadeiro desperdício de recursos públicos se forem comprados para milhares de cidadãos com câncer de algum tipo específico como o do ex-presidente.
E se a ciência médica não tem tratamento com eficácia comprovada para o câncer X, ou não tem evidências suficientes para afirmar que o tratamento Y sendo testado na rede privada é eficaz contra o câncer X, isso é problema da nossa ignorância sobre a realidade, não um problema do SUS, nem um problema do Lula, e o SUS não deve oferecer tal tratamento até que ele passe por uma bateria de testes.
Se o tratamento Y passa nos testes e se mostra eficaz contra X, e o SUS não oferece à população, e essa falta de oferta é culpa específica do ex-presidente da República (não do ministro da saúde, nem da votação do orçamento nos parlamentos, nem de qualquer outra figura intermediária entre o presidente e a aplicação de políticas de saúde pública); e se o ex-presidente adquire o tal câncer X, ainda assim não temos motivos para obrigá-lo a se submeter ao sistema que ele supostamente é responsável por ter sucateado, porque, caso alguns não saibam, não vivemos mais sob a lei de Talião defendida pela Bíblia, de que olho se paga com olho, dente com dente, e vida com vida.
Estamos em outra era e quem é crédulo político ficou para trás, não só quanto às evidências para o esquema conspiracionista de um voluntarismo absoluto (em que todos os problemas podem ser atribuídos a más intenções, nunca à ignorância ou a outras limitações involuntárias); mas também quanto a uma ética humanista que é a defendida pelas figuras mais academicamente respeitáveis do ateísmo moderno.

Um exemplo de um vídeo feito por um crédulo político:

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