19th of August

Vale a pena tentar transformar o mundo sabendo da possibilidade de isso ser em vão?


[Pergunta feita a mim no formspring há mais de um ano.]

Meu caro ou minha cara, todo mundo tem talento para Sísifo.

Sísifo é aquela figura da mitologia grega, que empurra uma pedra até o alto de uma montanha, e a pedra rola para baixo de novo, e ele precisa empurrar montanha acima de novo. E de novo e de novo e de novo…

Você tem que se perguntar por que você quer transformar o mundo. Eu quero. Eu quero porque eu desejo com toda a sinceridade que a Humanidade continue existindo, e quero que exista melhor, que as pessoas realmente curtam sua estadia neste planeta. Para isso é preciso ter o que comer, ter onde morar, ter para onde ir e vir, e ter uma mente em constante renovação. Meu trabalho como presidente da Liga Humanista Secular é focado neste último ponto, principalmente.

Existem ideias perniciosas que estão torturando pessoas neste planeta. Ideias obsoletas, descartáveis, plenamente falsas.

Não sou nenhum santo. Estou apenas seguindo uma inclinação que me é natural, porque fui convidado a fazê-lo por pessoas que admiro e que são meus amigos. E também porque sei o que é ser torturado por ideias que são, por incrível que pareça, tanto perniciosas quanto falsas. O que eu faço – se faço alguma coisa – é feito com a arrogância e a humildade que me são características.

Vou conseguir alguma coisa com isso? Vai ser tudo em vão? É claro que quero acreditar que não vai ser em vão. Em parte, porque já estou vendo que não foi em vão o pouquinho que já foi feito.

Já está valendo a pena para mim. Eu acredito que todas as pessoas deixam de existir quando morrem. E também acredito que a Humanidade poderá ser extinta num tempo remoto, apagando tudo o que é mais querido para mim. Se nem nisso eu consigo ver um motivo para pensar que o que faço é em vão, não vai ser numa tentativa de “mudar o mundo” frustrada que me deixarei abater pelo desespero.

Empurro minha pedra montanha acima movido por meus valores, assim como muitas outras pessoas fazem. Só peço que eu seja julgado pelos resultados. E neste julgamento, que será possivelmente feito pela posteridade (e não por personagens de ficção) prefiro ser condenado por desperdiçar minha própria vida do que por desperdiçar vidas alheias.

Todo Sísifo pensa que é um Prometeu. A maioria dos sísifos estão plenamente enganados quanto a isso. Não cabe a mim julgar a mim mesmo.

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  • eli todo trabalhado nas citação antiga.

    nesse sentido, sejamos mais com dedalus e menos com icaro, então.

  • Gostei! O comodismo é o usual; é o que todos esperam de uns aos outros; – Ah, pra que isso, pra quê aquilo, só quero seguir minha vida e que se exploda a sociedade, saiam da frente! Parem de reclamar! Vivam suas vidas se conformem com os problemas! Essa é minha panaceia! Tenha uma vida sendo refém de suas escolhas pra si…

    Eu digo, que qualquer atitude nesse sentido que dependa apenas de nos mesmos, vale a pena ser tomada.

  • É Eli, divergimos nisso. Acredito ser em vão. A humanidade não foi bem vinda, e não vai ser nunca bem vinda, afinal não estamos em homeostase. Eu ainda acredito que Rousseau estava errado. O homem nasce ruim e piora, afinal faz parte da sociedade q está inserido.
    Fora essa babosera toda, parabéns pelo excelente blog.
    Abraços