8th of July

O que Darwin pensava sobre Deus


Não é raro que alguns religiosos, sedentos por encontrar autoridades científicas que compartilhem de suas opiniões religiosas, representem mal a opinião de figuras famosas das ciências. Não é raro que Einstein, que disse que a ideia de um deus pessoal é pueril, seja falsamente retratado como teísta fervoroso. O mesmo ocorre com Darwin.

Cita-se a autobiografia de Charles Darwin como uma evidência desta suposta crença, porém, ressalvas devem ser feitas quanto a este livro. A primeira delas é que, obviamente, havia pressão social vitoriana contra qualquer manifestação por parte dele que fosse contra o status quo, a mesma pressão que em parte explica a demora do naturalista para publicar suas ideias. A outra ressalva à autobiografia é bem conhecida e é dita na biografia de Darwin escrita por Desmond e Moore (“Darwin – A vida de um evolucionista atormentado”): Henrietta, filha de Darwin, censurou extensamente da autobiografia qualquer sinal de divergência com o pensamento vitoriano.

O que dizem três sociólogos (John Bellamy Foster, Brett Clark e Richard York) num livro publicado em 2008, que põe uma pedra na questão tanto quanto é possível, pois trata de um evento do ano anterior à morte de Darwin, é isto:

“Em 28 de setembro de 1881, Darwin recebeu um grupo de livres-pensadores para jantar em sua casa, Down. Edward Aveling (…) e o proeminente materialista científico alemão Ludwig Büchner estavam entre os comensais. Na discussão que se seguiu, Darwin admitiu que ele havia abandonado completamente o cristianismo com 40 anos de idade, mas que era agnóstico quanto à existência de Deus. (…)

Enquanto Darwin se focou no mundo material e nas leis fixas da natureza, reconheceu que a “história falsa do mundo” presente no Antigo Testamento e outros livros sagrados não poderia ser confiada. Ele rejeitou a revelação divina e sustentava que era irracional acreditar em milagres. Em sua Autobiografia, comentou: “Eu gradualmente vim a desacreditar no Cristianismo como uma revelação divina.” Ele achava que faltava evidência para as escrituras, e finalmente “a descrença se instalou em mim numa taxa muito lenta, mas estava por fim completa. A taxa foi tão lenta que não senti nenhuma aflição, e não duvidei nem por um único segundo de que minha conclusão estava certa.””

Critique of Intelligent Design – Materialism versus Creationism from Antiquity to the present. Monthly Review Press, 2008. Páginas 125 e 126.

  • engraçado,
    eu não vi tal censura imposta pela filha quando li a autobiografia, pelo contrário, achei bem clara a posição de Darwin:

    http://bulevoador.haaan.com/2010/05/11575/

    Abs

  • Alex,
    valeu pela dica. Depende da edição que você pegou, acho que as mais recente removeram as censuras. Há edições que colocam os trechos censurados em itálico.
    Abraço