22nd of June

Pensamento crítico é irreleFante


O pensamento crítico é como um elefante: todos acham majestoso e bonito, querem ter em casa e mostrar para os vizinhos, mas não querem que pise em seus calos, não querem ter o trabalho de alimentá-lo nem de limpar a bagunça que faz. Sem falar em dar-lhe a liberdade que ele precisa e sem a qual fica doente ou morre.
Queremos que nossos filhos aprendam na escola a elaborar bons argumentos, dizem. Que aprendam a fazer análises afiadas e incisivas, a usar a razão para resolver problemas e responder a paradoxos, para trabalhar com a estética e criar obras que nos apeteçam.
Mas quando nossos filhos usam as mesmas ferramentas intelectuais para questionar nossas crenças religiosas, para denunciar nosso nacionalismo bon vivant, nossas fobias e preconceitos, queremos mais é que essa tal de crítica fique bem longe das escolas.
Não queremos propaganda dessa opção intelectual nas nossas escolas, queremos, presidenta?
Vamos fazer um trato: se você não quer ninguém lembrando que sua fé assistiu impassiva à barbárie durante a História, e que não apenas não evitou nada disso, como na verdade muitas vezes foi tão eficaz para promover a paz e o amor quanto jogar querosene é eficaz para apagar o fogo; não finja que quer ver as crianças aprendendo a pensar criticamente.
Se você acha que recomendações genéricas são suficientes para livrar minorias discriminadas do estigma, se pensa que não apenas é desnecessário dizer o nome que essas minorias têm, como fazê-lo piora as coisas para elas; não finja que quer ver seus filhos exibindo o brilhantismo intelectual de um Einstein.
No mundo da maturidade intelectual, nenhuma ideia é imune ao exame, então se quer mesmo estimular o pensamento crítico, confira se sua sala tem a estrutura necessária para abrigar um elefante.
Para quem não pratica o que prega, pensamento crítico é o elefante na sala.
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P.S.: Apontamentos aleatórios
– Este post pode ser considerado uma parte da série de analogias animalescas secretadas pelo meu cérebro que começou em dezembro de 2007.
 
– Um membro da LiHS brincou que ele pratica a ideologia do elefantismo: tudo é “irrelefante”. Devo a ele o título deste post, mas esqueci o nome dele, então devo também desculpas.
– Concluí que chamar vândalo de vândalo é xenofobia e chamar cínico de cínico é deturpação. Isso fica de lição para quem exagera na importância que dá a termos em detrimento à importância que têm de fato os conceitos.
– Este post foi escrito num momento de procrastinação, que me envergonha, e me delicia, da forma que só algo errado pode envergonhar e deliciar.
  • Pois é Eli. É um elefante mesmo. De longe é imponente, mas de perto fede, e dá um trabalho "paquidérmico" para cuidar. Eu tenho percebido isso desde que adotei de vez o ceticismo e confesso que muitas vezes não sei o que fazer com ele. Mas é fato que não o tiro mais da sala. Os assuntos mais incômodos para mim ainda são a liberação das drogas e principalmente a pena de morte. Já me vi flertando com um lado e com outro de cada uma dessas questões, e confesso que ainda não tenho opinião firme, mas várias discussões que vêm acontecendo no Bule tem me feito pensar bastante, principalmente aquela sobre o episódio do Osama X Obama.

    Enfim, o elefante pode incomodar muito, mas ele tem que fazer parte da mobília 😉

    []s