1st of January

Eli, poderia me dar algumas pequenas dicas sobre: Escrita/prolixidade/lirismo, ateísmo/epistemologia/discernimento e política/anarquia/posicionamento ?


Sim: seja sucinto quando a intenção é ser objetivo e tratar de fatos;

conheça os limites de seus pressupostos e valores epistêmicos e o que dizem aqueles que pensam diferente de você;

e não seja anarquista, porque a anarquia é uma utopia que assume que o ser humano é uma tabula rasa que não precisa do Estado para organizá-lo e legislar sobre ele.

A anarquia ingênua (posso até aceitar que haja formas sensatas) é o equivalente político do "paradigma panglossiano" (parafraseando o termo de Gould e Lewontin para a biologia adaptacionista) – segundo o qual este é o melhor dos mundos pois todas as pessoas supostamente podem ser persuadidas à independência não-violenta de Thoreau (pois todos seríamos tábulas rasas, folhas em branco); tornando obsoletas concentrações de poder como o Estado.

O termo "panglossiano" deriva do personagem Dr. Pangloss, do romance "Candide", de Voltaire, um sujeito que dizia que o nariz foi feito para apoiar os óculos, e que este é o melhor de todos os mundos possíveis.

Não estou cometendo a injustiça de dizer que os anarquistas são todos Pollyannas tapadas, só estou dizendo que a ideia da tabula rasa, principalmente em política, é otimista demais e desconectada da realidade.

O Estado é necessário. Pode-se até dizer que é um mal necessário, mas é daqueles males que em muitos sentidos vêm para o bem.

Considero-me um ignorante em política, sequer sei se toda forma de anarquismo defende a extinção do Estado. Se estou enganado nisso, meu raciocínio ainda vale, com os devidos ajustes a qualquer ideologia similar.

Meu caro amigo Camilo Gomes Jr. é alguém que trata muito melhor que eu das implicações políticas e jurídicas da ideia da tabula rasa ser falsa, e também as implicações políticas e jurídicas de nós termos uma origem evolutiva. Ele mantém este blog: http://avozdaespecie.wordpress.com/

Um abraço. Pergunte-me qualquer coisa.

  • Meu grande amigo, Eli,

    Você indagou: "Considero-me um ignorante em política, sequer sei se toda forma de anarquismo defende a extinção do Estado."

    Primeiramente, até mesmo por uma questão de consonância etimológica, todo anarquismo (não importa em qual de suas subespécies historicamente surgidas)tem de partir da oposição primordial de não aceitação de um poder regulador central, o que é o principal elemento caracterizador do Estado. (Embora em não duvide que haja pseudointelectuais orkutianos que não atentem para isso e tentem estabelecer algum híbrido, com o corpo do Bakúnin e a cabeça do Stálin.)

    O anarquismo trouxe contribuições valiosíssimas para o pensamento político-filosófico, inspirou um sem número de intelectuais, artistas, escritores e filósofos, e teve notável e elogiável influência no sindicalismo moderno, nas lutas pelos direitos de várias classes sociais historicamente oprimidas (p. ex., os direitos trabalhistas e os das mulheres).

    Infelizmente, o grande pecado do anarquismo é não apenas ser utópico, mas sê-lo por depender essencialmente de que a natureza humana não seja o que de fato é. O credo anarquista depende de que a mente humana não tenha nenhum algoritmo inato, nenhuma estrutura modular cujo funcionamento imponha limites ao processamento de inpus ou confira-lhe direcionamento próprio. O credo anarquista depende, como tantas vezes já destacamos, de que a mente humana seja a tábula rasa lockiana, o quadro em branco em que outros podem escrever, para todo mundo, a mesma coisa, produzindo os mesmos outputs desejáveis.

    Isso, como sabemos, meu amigo, é um sonho de igualdade entre os humanos que, infelizmente, não se fará realizável enquanto formos o que somos.

    No mais, gostaria de terminar este comentário com uma citação de um livro delicioso, que há anos adquiri e jamais me arrependi da compra, escrito por um simpatizante do anarquismo; obra em que faz um estudo fascinante do pensamento anarquista, desde seus primeiros sintomas, lá, na Antiguidade clássica, até os tempos modernos. Trata-se de Demanding the impossible: A history of anarchism, de Peter Marshall (Londres: Fontana Press, 1992). Com as poucas devidas ressalvas, o trecho a seguinte nos sintetiza as contribuições positivas do pensamento anarquista:

    "Far from being the puerile, naïve, utopian fantasy imagined by superficial observers, anarchist thought […] is profound, complex and subtle. It is more than a doctrine of personal living. It questions and has answers for many of the fundamental concerns of moral and political philosophy. It addresses itself to many of the burning issues of the day. As a result, it remains one of the most important and stimulating intellectual currents in the modern era." (p. 664).

    Apesar de Marshall fazer uma defesa otimista do anarquismo, esperançoso quanto a um seu sucesso futuro (previsão que o conhecimento científico atual acerca da natureza humana põe por terra, inexoravelmente), como ele destaca, o anarquismo sem dúvida trouxe questionamentos e respostas muito relevantes em especial no tocante à atenção para com nossa liberdade individual, nossos direitos fundamentais como indivíduos, não importa se homem ou mulher, negro ou branco, pobre ou rico, gay ou hétero. Não é por acaso que vários intelectuais flertaram flagrantemente com várias ideias anarquistas.

    Eu, pessoalmente, acho que nós podemos achar muitas coisas interessantes no pensamento anarquista, muita coisa realmente admirável, aproveitável e praticável. Infelizmente, é o sonho final dos anarquistas, sua proposta radical de extinção do Estado que se revela, acima de tudo, seu projeto mais ingênuo e irrealizável, e seu sonho de igualidade respeitada entre humanos não regulados por nenhum poder central constitui sua idealização mais romântica, igualmente ingênua e inviável.

    Um abraço, Eli.

  • Olá, caro Camilo,

    obrigado pelos ensinamentos, sempre é bom aprender contigo. Já esperava que viesse me ajudar.

    Grande abraço!

  • Achei o post exelente, porem mais esclarecedor ainda foi o comentário do Camilo Gomes Jr.

    Vocês estão de parabens.

  • Eli,

    gostaria na verdade de comentar o post no Bule que se referiu ao anarquismo (http://bulevoador.haaan.com/2011/01/15/o-humanismo-secular-entre-a-direita-e-a-esquerda/), mas o período de comentários já passou, então comento aqui.

    Primeiro gostaria de agradecer os dois textos (este e o do Bule) que me fizeram pensar bastante, uma vez que eu discordo das opiniões apresentadas, mas sempre me questiono a respeito desta questão: se a ciência que eu conheço e estudo inviabiliza o que penso politicamente, enquanto evolucionista e anarquista.

    Sobre o debate da tábula rasa, acredito que você deve conhecer a figura de Noam Chomsky, que trouxe grandes contribuições ao atacar o behaviourismo e a própria ideia da tábula rasa numa revisão do livro Verbal Behavior de Skinner. Durante sua carreira dentro da linguística, propôs que a faculdade da linguagem é inata ao ser humano. Politicamente, Chomsky se define anarquista. Não pretendo com isso usar de um argumento por autoridade, é claro que as credenciais de Chomsky (ou de quem quer que seja) garante que suas opiniões são coerentes – mas conto isso para indicar que a questão não é tão simples como me parece que você vem tratando.

    Não é preciso reconstruir o ser humano para construir o anarquismo, embora seja necessário reconstruir a humanidade, de uma certa maneira. Uma sociedade verdadeira e completamente livre de autoridades e forças coercivas é impensável – se eu impeço meu filho de atravessar a rua quando um carro se aproxima, isso é uma utilização legítima de coerção.

    Seria complicado aqui esboçar um anarquismo possível – e não só porque o espaço é limitado, mas principalmente porque seria prepotência demais da minha parte.

    No entanto, proposições de organização social sem a presença do Estado como o conhecemos existem, e elas envolvem assembléias ou conselhos onde a gestão da coisa pública seria feita a partir da democracia direta com a livre presença de todos os interessados, seja nos espaços de trabalho ou em federações que se organizariam internamente e depois umas com as outras através de delegados em escalas maiores (podendo abranger até mesmo todo o mundo). É necessário sim aprender a se organizar desta maneira, mas não acredito que seja impossível à natureza humana de qualquer maneira.

    Caso você esteja interessado nessa discussão, além do que possamos debater aqui, sugiro da minha parte o livro "Notas sobre o anarquismo", do Chomsky, para um esboço de um anarquismo possível, ou que você converse (na sua cidade!) com algum membro da FAG, Federação Anarquista Gaúcha, uma tentativa organizada e relativamente lôngeva de debater e exercer o anarquismo. (http://www.vermelhoenegro.co.cc/)

    Obrigado Eli, e parabéns pelo blog e pelo trabalho no Bule – acompanho os dois.
    João Gabriel

  • Espero que o contexto tenha deixado claro que onde está escrito "(…) é claro que as credenciais de Chomsky (ou de quem quer que seja) garante que suas opiniões são coerentes", na verdade eu quis dizer que as credenciais NÃO garantem opiniões coerentes. Faltou uma palavra ali, falha minha.