31st of December

"Paradoxo da pedra"? Por favor… Criar "uma pedra que um ser onipotente não pode levantar" é tão lógico quanto criar "um planeta que gira em torno de um satélite", ou mesmo um "quadrado redondo". Você chama isso de argumento??? Fala sério…


Falo sério. Assim como outros filósofos que já trataram deste paradoxo (ex: Patrick Grim. Impossibility Arguments. In Michael Martin (ed.). Cambridge Companion to Atheism. Cambridge University Press, 2007). Ninguém está criando pedra alguma – aliás, o paradoxo é justamente esse: pode um ser onipotente criar uma pedra que ele próprio não possa levantar?

Isso é um paradoxo porque não pode receber sim ou não como resposta. Se o ser onipotente pode criar tal pedra, sua onipotência será negada pela propriedade da pedra ser imóvel. Se ele não pode criar, novamente a onipotência é negada.

Isso não tem nada a ver com pedras ou deuses, isso apenas mostra que não existe uma habilidade absoluta e perfeita sem contradições internas a ela.

A onipotência, por ser autocontraditória, é impossível. É como falar em círculo com quatro arestas ou em quadrado com infinitos vértices: só serve pra impressionar a mente através da quebra da lógica. Isso se dá porque somos capazes de construir frases sintaticamente aceitáveis com contradições internas.

Ter capacidade de fazer qualquer coisa é um atributo autocontraditório porque esbarra em consequências possíveis que negam este mesmo atributo.

Discuti este assunto com teístas e eles tentaram a escapada de dizer que criar uma pedra que não se pode mover é uma tarefa ilegítima. Mas não é. Fazer um quadrado redondo pode ser uma pseudotarefa, mas Deus criar uma pedra que ele próprio não consegue mover não tem nenhum impedimento. (O impedimento está na noção absurda da onipotência, ou seja, num atributo inventado por algumas pessoas para um ser imaginário que querem que exista.)

Não há contradição interna em um agente criar uma pedra que não consiga levantar ou uma mente conhecer um livro cujo conteúdo ignora. A contradição interna está nos conceitos de onipotência e onisciência. Tentar desqualificar as tarefas dos paradoxos como impossíveis só pode ser feito numa petição de princípio que tem a própria onipotência/onisciência como axioma.

Não se define uma pedra imóvel ou um livro incognoscível em função de nenhuma outra entidade que não seja respectivamente a pedra e o livro. Se “imóvel” e “incognoscível” fazem referência a ações de outras entidades, isso é facilmente resolvido substituindo-se “imóvel” por “fixo” e “incognoscível” por “críptico”. É apenas uma forma semântica de lembrar que essas são propriedades desses objetos imaginários, e que portanto tentar descartar sua possibilidade em função de uma suposta onipotência ou onisciência é apenas petição de princípio.

Em termos um pouco mais formais, os atributos “onipotência” e “onisciência” contêm no prefixo “omni” um quantificador universal. No caso da onipotência, este quantificador universal diz respeito ao conjunto de todas as tarefas possíveis.

Conceito de onipotência:

Capacidade tal que permite ao agente A executar qualquer tarefa T.

T é uma variável que se refere ao conjunto {T1, T2, T3, T4…}

Analisando o conjunto, podemos dizer que há tarefas que não estão contidas nele, como a tarefa de desenhar um círculo quadrado. É uma não-tarefa porque contém contradição interna.

Por outro lado, “criar uma pedra que não se consegue levantar” (T1), “conhecer um livro cujo conteúdo se ignora” (T2), são tarefas legítimas pertencentes ao conjunto T.

E também são tarefas contidas neste conjunto “mover qualquer pedra” (T3) e “conhecer o conteúdo de qualquer livro” (T4).

Um agente qualquer pode executar T1, mas nisso fica impossibilitado de executar T3. E pode executar T2, mas nisso fica impossibilitado de executar T4. Assim se dá com agentes possíveis. Agentes impossíveis são aqueles capazes de executar TODAS essas tarefas.

Portanto onipotência contém uma contradição interna, que é delegar tarefas incompatíveis para um mesmo agente. Em outras palavras, os teístas sustentam que Deus é necessariamente onipotente, em todos os mundos possíveis, a onipotência se torna autorrefutada por recrutar tarefas incompatíveis do conjunto de tarefas possíveis.

Posso até formalizar em Modus Tollens.

p = Deus pode executar toda e qualquer tarefa.
q = Deus pode criar uma pedra que não consegue levantar (absolutamente fixa).

p -> q (p implica q); ~q (negando q) conclui-se ~p (nega-se p, “não-p”)

Ou de modo completamente formal:

p->q
~q
____
~p

Para ilustrar melhor eu vou elaborar outros problemas (talvez complique, talvez solucione). A intenção é mostrar que o problema da autocontradição da onipotência é abstrato.

1) Deus pode criar uma paisagem tão bela que ninguém possa apontar defeitos nela?

Tarefas envolvidas:
1a – Criar qualquer tipo de paisagem.
1b – Criar uma paisagem perfeitamente bela.
1c – Apontar defeitos em qualquer paisagem.

1a e 1c são tarefas incompatíveis. A onipotência recruta ambas em sequência ou ao mesmo tempo.

2) Deus pode criar mundos em que sua intervenção é impenetrável?

Tarefas envolvidas:
2a – Criar qualquer tipo de mundo.
2b – Intervir em qualquer tipo de mundo.
2c – Criar mundos impenetráveis para intervenção.

2a e 2b são tarefas incompatíveis.

Poderíamos continuar ad infinitum mostrando esse tipo de incompatibilidade entre tarefas possíveis (portanto tarefas que devem necessariamente ser alvo de um ser que pode fazer tudo). Pergunte-me qualquer coisa.

  • Fiz uma objeção ao argumento no formspring, mas ela foi convenientemente ignorada. Lamentável a falta de honestidade, mas vou tentar por aqui, mesmo sabendo que pode ser perda de tempo.

    1) Seu argumento parte do princípio que um ser onipotente tem força finita, o que é um absurdo.

    2) O adjetivo (oracional) da sua frase ("pode um ser onipotente criar uma pedra que ele próprio não possa levantar?") faz uma referência explícita ao ser onipotente ("ele"), portanto não se referencia apenas à pedra, como você alega.

    Agora só me resta aguardar, pra ver se você é honesto o suficiente para não "censurar" esse comentário…

  • Olá, senhor pouco favorecido em beleza,

    você fez "objeções"? Pois eu só li ataques desesperados por lá.

    Falta de honestidade? Engraçado que para alguns teístas qualquer argumentação racional destruindo seus mitos favoritos é falta de honestidade. Sugiro pensar mais com os neurônios e menos com suas fibras musculares cardíacas.

    1 – Não, meu argumento parte do princípio de que há um conjunto de tarefas possíveis, entre as quais não está "desenhar um quadrado redondo" (não-tarefa, tarefa impossível), mas está "criar qualquer pedra" (tarefa legítima e possível) e "levantar qualquer pedra" (tarefa legítima e possível).

    O conjunto de todas as pedras possíveis tem uma pedra imóvel como membro. Ser imóvel é uma propriedade desta pedra possível (veja que não estou falando em física das pedras, mas em pedras logicamente possíveis – em postagem anterior já fiz a distinção entre logicamente possível e fisicamente possível).

    Não se pode criar qualquer pedra e levantar qualquer pedra ao mesmo tempo, porque entre as pedras possíveis se encontra a pedra imóvel.

    Já expliquei também que "que não se pode mover" ou "que ele não pode mover" são expressões sinônimas e substitutas para "imóvel" – são formas diferentes de descrever uma propriedade desta pedra.

    O que é absurdo aqui é a ideia da onipotência, é ela que gera o absurdo, ela que gera uma contradição, e portanto, seguindo a clássica lei lógica da exclusão da contradição, devemos aceitar que a onipotência é um atributo impossível para qualquer agente, seja um deus, seja um ET, e que se alguém define um deus e um ET com esta propriedade, está tornando este deus ou este ET um ser impossível.

    2 – Já respondido acima.

    Quer chorar que o titio Eli modera os comentários do blog dele? Então chore no seu próprio blog, aqui não é maternidade.

  • P. S. Quando eu disse "outros filósofos", obviamente eu não estava me incluindo na categoria. Eu não sou um filósofo. Para ser um filósofo alguém tem de fazer alguma contribuição original à filosofia, assim como para ser cientista alguém deve dar contribuições originais às ciências.

    Não sou uma coisa nem outra, sou um mero estudante.

  • Só a título de curiosidade argumentos contra o Paradoxo da Pedra :

    Do ponto de vista da análise lógica do argumento :

    http://ceticismo.net/ceticismo/ceticismo-e-a-pedra-irremovivel/

    Da perspectiva mais teológica da questão :

    http://bereianos.blogspot.com/2010/10/paradoxo-biblico-deus-e-pedra.html

    Parabéns pelo blog e continue escrevendo

  • Lugh,

    o texto que você mandou tem vários problemas. O maior deles é justamente a confusão entre possibilidade física e possibilidade lógica.

    Abraço.

  • Lugh,

    sobre o artigo ruim do Ceticismo.net sobre o que ele chama de "ceticismo filosófico" (como se fosse separado do científico),

    só posso recomendar que leia o capítulo dado como referência no começo deste post.

    Entre um livro editado por filósofos profissionais e publicado por Cambridge e o blog do André "doente de raiva", fico com o primeiro sem pestanejar.

  • Vou ignorar as provocações gratuitas e partir direto pro que interessa:

    Já expliquei também que "que não se pode mover" ou "que ele não pode mover" são expressões sinônimas e substitutas para "imóvel"

    Errado de novo. Imóvel significa "que não se move". Epic fail.

    Mas não se preocupe… Tem uma palavra pra usar nesse caso: "inamovível". Mas veja só que coisa triste: ainda não adianta mudar para "inamovível". Pra mover algo é preciso uma ação, o que impica um agente (inércia, se lembra?). Por isso o adjetivo sempre vai implicar um agente, o que acaba com o seu argumento.

    Uma última tentativa pra tentar fazer você enxergar o óbvio: http://despertaibereanos.blogspot.com/2009/02/deus-e-pedra-imovel.html

    Have a nice life!

  • Oi, Eli. Gostei muito do texto.

    O interessante é que mesmo que se aceite o argumento de que a tarefa em questão não é justa, é, então, preciso redefinir a onipotência como apenas poder fazer (tudo) aquilo que é logicamente consistente, colocado Deus em uma posição subalterna a lógica, o que no mínimo arruína o argumento de que a lógica sem Deus não é possível, já que este é coagido pela sua (suposta) criação. Um teísmo tradicional que defende um ente eterno, perfeito e imutável não resiste a isso. O que geralmente se faz aí é um apelo a nossa incapacidade de compreender os modos e desígnios de Deus.

    Este é um problema semelhante ao problema da origem da moral (do bem e do mal), discutido por Platão em Eutífron. O problema é que não se pode ter tudo ao mesmo tempo. Os diversos argumentos teístas além de não convincentes, individualmente, acabam por minarem-se uns aos outros, sobrando apenas um jogo de reformulação de premissas e definições. Isto é, retórica e sofisma, não filosofia em seu melhor. Existem problemas semelhantes quando se confronta a onisciência com a onipotência e onipresença com a transcendência, por exemplo. O problema é que ser “poderoso pra caramba” ou “inteligente pra burro” não é suficiente para as formas de teísmo tradicionais. Os furos e inconsistências começam a aparecer e a "represa não agüenta", forçando os teístas a defenderem formas mais humildes de deidades, porém, isso destrói as possibilidades de argumentar pela melhor explicação usando-se supostos 'mistérios metafísicos' como base da argumentação. Os teístas parecem não compreender que não podem ter tudo ao mesmo tempo e o preço da coerência é a inanidade dos argumentos ou a postulação de uma possível e improvável divindade muito aquém do desejado.

    Grande abraço Eli.

    Rodrigo

  • Senhor esteticamente desprovido,

    o que está ficando feio é você tentando desesperadamente se agarrar ao significado de uma palavra. O engraçado é que no link que você passou o autor também usa "imóvel". Você foi lá trollar o blog dele como está trollando o meu?

    E eu uso "imóvel" no lugar de "inamovível" justamente porque a primeira palavra passa mais a noção de propriedade do objeto do que uma referência a agentes que atuam sobre ele.

    Você pode continuar fazendo preciosismo semântico com uma única palavra, ou pode tentar refutar o cerne da argumentação, que diz respeito ao conjunto de tarefas possíveis.

    Inércia? Por que eu devo me lembrar de inércia? Estamos falando em possibilidades lógicas, não possibilidades físicas, então para que invocar a inércia, me explique? Será porque você não só não entendeu como NÃO QUER entender?

    EU JÁ RESPONDI à argumentação que está no link que você passou, que tenta construir uma impossibilidade lógica de haver pedras imóveis EM FUNÇÃO DA PETIÇÃO DE PRINCÍPIO da onipotência, ou seja, tentando enfiar a onipotência goela abaixo nos outros para depois dizer que algo é "impossibilidade lógica" em função dela.

    E eu respondi isso justamente falando sobre o conjunto de tarefas possíveis.

    Me diga, que contradição lógica interna, sem referência a qualquer outra entidade, existe na tarefa de criar uma pedra imóvel, uma paisagem perfeita, etc?

    Eu disse contradição LÓGICA. Não me venha com inércia, leis de Newton, nem nada do tipo.

    Se não sabe a diferença entre possibilidade lógica e possibilidade física, há duas coisas que você está precisando estudar: lógica e física.

    Sem mais.

    Diferente do que diz o blog que você passou, criar pedra imóvel não é uma tarefa ilegítima ou ilógica como tornar verdadeira a afirmação 2+2=5 ou desenhar um quadrado redondo.

    Como dizia Carl Sagan, não é possível convencer o crente de coisa alguma, porque ele não se baseia em motivos racionais para acreditar, mas apenas numa profunda necessidade de acreditar.

    E contra os desejos do seu coraçãozinho não há argumento que baste.

  • Caro Rodrigo,

    é como Dennett diz: quando se tem um compromisso não-racional com uma ideia, vale tudo no campo do ad hoc, por isso a palavra "Deus" mudou tanto de significado ao longo dos tempos, e vamos observar gente tentando relativizar o "omni" em "onipotente".

    A provocação de Dennett é que, se os químicos fossem emocionalmente comprometidos com todos os conceitos que produzem, até hoje estaríamos usando a palavra "flogisto" e criando "epiciclos" para mantê-la viva com uma confusão de conceitos resolvida apenas pelos eruditos mas persistindo convenientemente na massa.

    Um abraço!