16th of December

Por que não faço parte do Movimento Zeitgeist


O email abaixo, que mandei para a lista da diretoria da LiHS meses atrás, explica por que eu não acredito no Movimento Zeitgeist.
592px-Rubens,_Peter_Paul_-_The_Fall_of_Icarus
Peter Paul Rubens – A queda de Ícaro (1636)
Muito pouco cético e científico, pelo que estou vendo. Não se esqueçam que é o autor da série Zeitgeist, aquela do monte de falácias.
No dia em que humanismo secular depender de uma pregação dogmática como a do Zeitgeist eu pulo fora.
” Nossa missão é alcançar um sistema social que funcione sem dinheiro ou política, ao mesmo tempo em que permita que a superstição desapareça por conta própria conforme a educação avança. Ninguém [EXCETO OS FILMES ZEITGEIST, APARENTEMENTE] tem o direito de dizer aos outros em que acreditar, pois nenhum ser humano tem a compreensão completa de nada. Entretanto, se prestamos atenção aos processos naturais da vida, vemos então como podemos nos alinhar com a natureza e assim nosso caminho fica mais claro.”
Utopia de anarquista. O mal do anarquista é pensar que ideias fechadinhas vão ser digeridas e aceitas por todos os seres humanos da mesma forma, que todos vão mudar pela linda arte da persuasão, e que então vão largar suas crenças antigas e ultrapassadas, inclusive comportamentos nocivos, sem precisar de nenhum tipo de Estado.
Na cabeça utópica do anarquista, a motivação natural vai levar à realização de tudo o que precisa ser feito no mundo. A ‘novidade’ é: muitos trabalhos são insuportavelmente difíceis e cansativos, e nada melhor substitui o dinheiro (esta “ficção” útil de poder alcançar mais que os outros mortais) para fazer esta motivação ir até onde ela não iria naturalmente. O dinheiro é uma promessa de mais liberdade e poder que encontra resposta num anseio das pessoas, e isso, quer queiram os zeitgeististas ou não, é algo provavelmente inato no ser humano.
Se eles pensam que podem mudar isso, isso faz deles eugenistas.
“o crescimento populacional é tão ruim assim? A resposta é: de uma perspectiva científica, o planeta pode suportar muito mais pessoas se necessário, desde que façamos uso da alta tecnologia. 70% da superfície do nosso planeta é coberta por água e as cidades no mar (um dos muitos projetos de Jacque Fresco) são o próximo passo.”
Projetos que podem demorar séculos para gerar cidades viáveis, e no percurso trazer inúmeras mortes por falhas da tecnologia.
Muito, mas muito mais fácil mesmo, é admitir que o crescimento populacional É SIM um problema já HOJE, e é um problema maior ainda para a riqueza de espécies no planeta. Para resolver isso, vai bastar dar mais educação às pessoas (isso os zeitgeististas sugerem), legalizar o aborto, e oferecer a elas carreiras que atendem a seus anseios – sejam estes ter apenas mais dinheiro, ou (como no meu caso) saber mais sobre algum assunto por pura curiosidade, ou construir uma família, ou simplesmente ter uma ordem na vida que preencha a rotina antes que a morte venha.
Seres  humanos lutaram por séculos antes que essa luta incessante por interesses em conflito fosse feita com menos sangue. A resposta para este problema foi batizada de dinheiro, não de “ouça minha filosofia e veja como é sensata”. O Irã ouve o Brasil porque tem relações comerciais, e não porque está interessado nas nossas filosofias morais.
Ninguém foi convencido a ser capitalista. O capitalismo é o único sistema econômico que não precisou de teórico para surgir. Até morcegos e macacos medem a troca de favores e punem quem não arca com suas dívidas. Macacos, inclusive, não gostam de observar um outro recebendo mais comida – e eu andei lendo no livro de “orientação ao ativista” deles que eles alegam que a inveja é puramente cultural e passada por doutrinação.
É melhor guiar o capitalismo para que seja menos nocivo, sendo realista de que ele provavelmente surgiu de um misto entre necessidades inatas e sistemas culturais, do que aparecer com mais um sistema dogmático tentando converter a humanidade, como fez Marx, e como está fazendo o Zeitgeist pelo visto, dizendo que o futuro é a linda anarquia tecnológica apolítica.
Enfim, o vídeo do Movimento Zeitgeist sobre as Eleições 2010 ( http://www.youtube.com/watch?v=hBSiuwM4kuc&feature=player_embedded ) é um chamado a escolher o tal do “método científico” para guiar a sociedade, e extinguir a “política” porque os políticos supostamente são inúteis.
Em primeiro lugar, a existência dessa coisa chamada método científico é bastante questionável*. Os conhecimentos científicos são julgados, no fim, pelas previsões que fazem (o que inclui tecnologia), mas todas as tentativas filosóficas do século XX falharam em estabelecer que há um critério único de se fazer ciência, uma tábua da lei da ciência. Um dos maiores desafios a dito método científico é que a observação pura, sem impregnação de teoria, simplesmente não existe. Como diz o filósofo Elliott Sober, para observar se uma galinha está morta, é preciso já ter uma teoria sobre o que é uma galinha e uma teoria sobre o que é a morte. Ciências são conhecimentos que resolvem problemas fazendo previsões, e, neste sentido, pode-se dizer que a política é uma ciência e o sistema de leis e fiscalizações que o Estado mantém e os zeitgeististas acham tão inútil pode ser uma “teoria científica do melhoramento social”.
Esta nova ideologia dos ateus-anarquistas-apolíticos-ambientalistas-zeitgeististas me parece sofrer dos mesmos problemas do cientificismo, da eugenia e do futurismo. Bertrand Russell, no livro Icarus, critica algumas dessas ideologias.
O vídeo que passei acima é de uma ingenuidade monumental. É fácil frustrar as altas esperanças dos zeitgeististas: é só lembrar que os cientistas também não têm respostas para boa parte das perguntas que eles notam tão alegremente que os políticos não sabem responder. Ser cientista não significa saber lidar com problemas complexos de gestão social, e extinguir a classe política não cria a sociedade perfeita que eles criaram em suas animações 3d.
Ser cientista significa saber quais perguntas podem ser feitas hoje, para as quais é possível dar soluções, previsões, modelos. Isso se aproxima, de algumas formas, à atividade dos filósofos, que usam à exaustão suas capacidades analíticas e racionais para saber que respostas e soluções a filosofia pode oferecer.
Se eu estiver errado quanto a tudo o mais, ainda assim o movimento Zeitgeist estará errado por sua megalomania apressada. O prazo mínimo para conseguirem certas coisas que pregam é não de dez ou vinte anos, mas de 100, 200, 500 anos. Ser pessimista em matéria de prazo para implantação de novidades científicas funciona para coisas com a magnitude de construir cidades inteiras sob a água para compensar pela falta de espaço em terra. Basta lembrar do quanto erraram pessoas como Arthur C. Clarke em algumas previsões que fizeram (2001 com robôs com capacidades cognitivas por exemplo).
Sendo estes os prazos efetivos para a implantação das transformações que pregam, resta perguntar: a simples motivação altruísta, que dizem que será a substituta perfeita para a “cenoura pendurada” do dinheiro, será suficiente para manter as pessoas trabalhando conscientemente para extinguir a classe política e implantar a sociedade do método científico, mesmo estas pessoas sabendo que morrerão sem ver resultado significativo  no prazo de suas vidas?
Eu, que sou um cientista em formação, tenho noção de que poderei morrer sem ver algumas das respostas mais relevantes na minha área de atuação. Para isso não ser motivo para me desmotivar, persigo assumidamente os atrativos que a minha profissão tem a oferecer: alguma saciação para a curiosidade que sempre me acompanhou, desafios no lugar de tédios, prestígio social, e algum dinheiro (provavelmente não muito) que poderei usar para acumular coisas quaisquer que me interessem. Não estou fingindo ser o baluarte da pesquisa desinteressada, sou um curioso ganhando dinheiro pra trabalhar nas perguntas que mais atiçam a luxúria de saber. Sem a luxúria ou sem o dinheiro, não estaria fazendo nada disso.
O que se pode inferir do discurso do Movimento Zeitgeist é que esperam eliminar as luxúrias e invejas das pessoas, por alguma coisa que eles muito dificilmente admitiriam que se parece com a eugenia cientificista, convencendo quem eles pensam ser tábulas rasas a fazer o maior dos sacrifícios para eles, que é dedicar toda uma vida a uma promessa que não estaremos aqui para ver se concretizar.
Eu também quero as futuras gerações vivendo em lindas cidades tecnológicas e ecologicamente sustentadas, em que tudo funciona tão perfeitamente que leis e políticos não são necessários. Não significa que o que eu quero é possível, muito menos que será atingido através de filmes na internet.
Abraço,
_______
Eli

* Para um resumo sobre o fracasso em estabelecer um conjunto de regras que valessem para todas as ciências, ou seja, um método científico, sugiro: ler “Breves considerações sobre a natureza do método científico”, de Antonio Augusto Passos Videira, em “Estudos de História e Filosofia das Ciências” – Cibelle C. Silva (org.), 2006, pp. 23-40.

  • Texto interessante, parabéns. Mas cuidado ao comparar o comportamento de animais ao nosso e sugerir que o capitalismo tem, em parte, origem na essência de qualquer organismo vivo. Não se esqueça que da mesma forma, existem muitos organismos 'socialistas'; talvez cupins sejam os únicos que tiveram sucesso em instalar o socialismo.

    Abraços

  • Scopus,

    obrigado.

    Nós somos mais aparentados aos macacos do que às formigas. Isso basta para te responder.

  • Seguindo nessa ótima grandes revoluções sociais como o iluminismo não foram inspirados e forjados durante anos, as pessoas pegaram armas e fizeram uma revolução armada, a conscientização e percepção do ambiente (político e econômico) veio por simbiose, e em tribos indígenas ou sociedade antigas em que não existe sistema monetário todos são vagabundos e morrem de fome de preguiça de realizar alguma atividade..
    O sistema político hoje manipulado por lobistas, atendendo a banqueiros e grandes multinacionais não é real, é o mal necessário (establishment), razão pela qual perpetuamos este sistema que não está defasado, temos uma mídia ótima e liberdade para falarmos e expormos oq quisermos na internet, opa, acho que não..
    A escravidão moderna pela dívida também é tão aceitável quanto a escravidão por questões de etnia a alguns anos atraz, isto não é sinal de uma evolução moral.. Sem a esperança e esforços estamos fadados a perpetuar um sistema que dá privilégio a poucos e cobra de muitos, mesmo tendo tecnologia e recursos em abundância no planeta não poderos construir continentes inteiros sustentáveis, eliminar combustíveis fósseis e ampliar o uso de energias renováveis, isto não deve ser fomentado hoje, devemos deixar tudo a deriva da "mão invisível" do mercado, que em breve irá resolver as questões ambientais, por exemplo, como a captura de carbono (cap & trade), que acreditamos, de acordo com o establishment, ter fins ambientais e não econômicos..
    Após breve comentário se pertinente podemos entrar em tópicos específicos de seu texto para reavaliarmos, realmente concordo com alguns pontos porém no geral ainda há muito preconceito.

    Grande abraço.

  • Bom, antes de tudo acho legal poder ver um contra argumento colocado na mesa de maneira clara e direta.

    Utilizar um outro filme anterior, que não tem vínculo algum com o comentado pelo fato de ter o mesmo diretor não vejo como uma abordagem necessária.
    O primeiro filme não tem vínculo algum com o Movimento.

    É como dizer "O filme do Senhor dos Anéis é uma porcaria porque o Peter Jackson foi também o diretor de Fome Animal."

    A meu ver, existe uma impressão comum dada no filme "Zeitgeist: Addendum", visto que a maioria das pessoas tem a impressão da proposta querer ditar no que se deve acreditar.

    Não sei se foi feita aí uma análise do restante dos materiais, porém nas palestras apresentadas não só pelo diretor do Movimento, mas por todos os outros membros, é deixado bem claro o seguinte (E se não estiver claro, estamos aí pra esclarecer agora!):

    " O Movimento Zeitgeist não tem a missão de convencer as pessoas de que os problemas existentes são reais, e nem convencer as pessoas de que a solução apresentada é a única saída. Apresentamos estudos, pesquisas e informações estatísticas mostrando informação relevante aos problemas sociais que nos afetam. Cabe ao espectador decidir se é necessária mobilização pessoal, e não necessáriamente através do Movimento. "

    Entendo que o filme possa dar essa impressão, mas a abordagem do Movimento é outra. É inegável que a abordagem do filme seja agressiva.

    Existe um estudo feito a respeito da ciência da Motivação:
    http://www.youtube.com/watch?v=rrkrvAUbU9Y
    Não é mais controvérsia, é estudado: Dinheiro como motivador principal é de fato, decremental a atividades minimamente cognitivas.

    É inegável também: O crescimento populacional hoje é um problema SIM. Em função da tecnologia utilizada, não em função da capacidade do Planeta.
    Se continuarmos a usar as mesmas tecnologias, população torna-se um problema real.
    Se utilizadas outras tecnologias mais eficientes, deixa de ser.
    Estas tecnologias existem hoje? Sim:
    http://www.youtube.com/watch?v=M2nxCp9Hwxs

    Em relação a guiar melhor o capitalismo: Não é "pregado" pelo Movimento que é algo "ruim." É uma ferramenta que funcionou muito bem. Funcionou MUITO bem até a revolução industrial. Agora não virou algo "do mal," apenas uma ferramenta obsoleta. (Aliás, é sempre bom lembrar: Existe diferença entre o sistema monetário, e o capitalismo.)
    Existe uma perspectiva interessante, pelo Sérgio Lessa:
    http://vimeo.com/5783852

    Como é colocado: "O capital é incontrolável."
    Foi estudado por anos, não tem como guiar o Capitalismo pra algo menos nocivo. Criar leis e regulamentações não garante de maneira alguma, que estas sejam cumpridas.

    Por fim, é sempre legal colocar também que não é algo que se tornaria "Perfeito" da noite pro dia.
    Aliás a idéia nem é essa, mas é uma direção legal a se seguir. É como dizer "Já que não é possível termos uma sociedade estável, vamos desistir de trabalhar na construção de uma mesma."
    Não aconteceria uma extinção da Classe Política de repente: Através da implementação -gradual- de tecnologias, a política seria cada vez menos necessária.
    Não aconteceria uma extinção repentina de leis: Elas tornariam-se gradualmente cada vez menos necessária.

    Enfim, como foi colocado: Ninguém é forçado a trabalhar nessa direção, a não ser que deseje.
    Acredito que algo seja unânime: Todos gostariam de ter uma vida em cidades Ecologicamente sustentáveis, livres de estresse e violência.

    Porém existem três abordagem em relação às coisas aparentemente impossíveis.
    Aliás, coisas que foram dadas como impossíveis no passado:
    http://forum.movimentozeitgeist.com.br/viewtopic.php?f=13&t=807&start=0

    Uma, é acreditar que ela sempre vai ser impossível, e não mobilizar-se.
    A outra, é acreditar que ela vai vir sem mobilização: "Se eu continuar minha vida normal, eventualmente vai acontecer."
    E a outra, é trabalhar naquela direção, e tornar a coisa possível.

    E aí? Qual a escolha de cada um?

  • Na boa, Eli! Não coube a quantidade de caracteres que refutaria toda a sua linha de raciocínio. É uma pena, mas não considero que perdi tempo com isso.

    Então, para se fazer um resumo de tudo aquilo que gostaria de ter dito, é o seguinte:

    Antes de julgar qualquer coisa, falando de um determinado assunto, é de fundamental importância o dever de se informar adequadamente sobre a questão. Mas principalmente, mais no que se diz respeito ao aprofundamento do contexto da palavra: atualizar-se!

    Pois, munido de desconhecimento é muito mais provável que uma pessoa cometa injustiça. E, um dia, possivelmente a História também poderá julgar-lhe por isso.

    Sempre atualize-se e recicle-se. Mas principalmente, tente nunca estabeleça qualquer personalidade. Todas elas são falsas! Nunca siga, a risca, a ideia de qualquer pessoa que seja. Seja sempre você mesmo, autêntico, raciocine com seu próprio cérebro e exponha suas ideias, mas: metamorfoseie-se constantemente!

    Pois, a "verdade" do amanhã passou pela mentira do hoje que foi a verdade do ontem.

    Desejo-lhe o bem!
    E um abraço.

    Atenciosamente
    Dragão de Fogo

  • Muito bom texto, embora eu não conheça a fundo o Zeitgeist. Mesmo que as opiniões reais deste possam não ter sido bem reproduzidas, as críticas que você faz às ideias que você mesmo colocou são muito boas!

    Este texto veio em momento oportuno, pois já há algum tempo eu também vinha pensando se uma sociedade regida pela ciência, e não pela política, não seria mesmo melhor e mais eficaz para todos. Pensava eu que a ciência poderia substituir a política sem maiores problemas. Entretanto, vejo agora (mas estimulado não só pelo seu texto) que a compreensão e explicação da política e, por que não, da religião são algo complexo demais para se tratar com instrumentais pré-fabricados, e que devemos preparar-nos, por meio de constate barganha e negociação, para convivermos com eles ainda por longo tempo.

    Fiquei longamente pensando na sua afirmação de que "o capitalismo é o único sistema que não precisou de um teórico para surgir", e ainda não cheguei a nenhuma conclusão. Mesmo assim, paira sobre minha cabeça sobretudo John Locke, que baseou grande parte do que grosso modo conhecemos hoje por capitalismo. Além disso, desde as grandes navegações, esse tal "capitalismo" teve várias diferenciações, e em cada época surgiram intelectuais para legitimá-las, ou mesmo criar propostas que seriam aplicadas mais tarde.

    Na mesma linha, a análise do "socialismo" é mais complexa ainda. Em primeiro lugar, Marx fez acima de tudo uma teoria da sociedade burguesa (que baseou, aliás, a maior parte das ideias que temos hoje sobre o capitalismo) e só então uma proposta de intervenção, por sinal, não caída do céu, mas adaptada por essa teoria; e, seguindo a lógica dialética, ambas poderiam modificar-se mutuamente, e por isso nem Marx fez um prognóstico fixo, nem manteve seu pensamento inalterado ao longo de sua vida.

    Em segundo lugar, boto "socialismo" entre aspas porque ele não surgiu com Marx, mas com outros autores que vieram antes e lhe serviram de base; e também porque não há apenas "um" socialismo; há matizes que vão desde os vários comunismos até, segundo alguns, o próprio anarquismo.

    E em terceiro lugar, Marx sequer vislumbrou que sua teoria da sociedade burguesa pudesse ser transformada numa pseudorreligião: esse processo teve germes entre os social-democratas e só ganhou verdadeiro fôlego com Stálin, que dizem ter sido influenciado pelo seu passado de seminarista.

    No mais, a qualidade sempre crescente de suas produções só me faz tornar-me cada vez mais um admirador seu e um frequentador mais ou menos regular do blogue!

    Abraços e sucesso!

  • Meu comentário sobre Zeitgeist (Projeto e Movimento) sai em forma de poesia:

    Cidade Prevista

    "Guardei-me para a epopéia
    que jamais escreverei.
    Poetas de Minas Gerais
    e bardos do Alto-Araguaia,
    vagos cantores tupis,
    recolhei meu pobre acervo,
    alongai meu sentimento.
    O que eu escrevi não conta.
    O que desejei é tudo.
    Retomai minhas palavras,
    meus bens, minha inquietação,
    fazei o canto ardoroso,
    cheio de antigo mistério
    mas límpido e resplendente.
    Cantai esse verso puro,
    que se ouvirá no Amazonas,
    na choça do sertanejo
    e no subúrbio carioca,
    no mato, na vila X,
    no colégio, na oficina,
    território de homens livres
    que será nosso país
    e será pátria de todos.
    Irmãos, cantai esse mundo
    que não verei, mas virá
    um dia, dentro em mil anos,
    talvez mais… não tenho pressa.
    Um mundo enfim ordenado,
    uma pátria sem fronteiras,
    sem leis e regulamentos,
    uma terra sem bandeiras,
    sem igrejas nem quartéis,
    sem dor, sem febre, sem ouro,
    um jeito só de viver,
    mas nesse jeito a variedade,
    a multiplicidade toda
    que há dentro de cada um.
    Uma cidade sem portas,
    de casas sem armadilha,
    um país de riso e glória
    como nunca houve nenhum.
    Este país não é meu
    nem vosso ainda, poetas.
    Mas ele será um dia
    país de todo homem.
    "

    Carlos Drummond de Andrade

    —————————————
    "…Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível…" Albert Einstein

    —————————————

    The Revolution is Now!

  • Eli, meu irmão,

    Seu texto foi de uma precisão cirúrgica no tocante ao assunto. Enquanto eu lia, perdi a conta das vezes em que disse a mim mesmo: É isso mesmo! Exatamente!

    O fato é que o Movimento Zeitgeist é, como você mesmo pontuou, mais um grupo de crentes na tábula rasa da mente.

    Eles ignoram, por exemplo, que, como outras operações que o cérebro humano foi geneticamente desenhado para executar, o estabelecimento de um "sistema de crenças" foi vital, no curso de nossa evolução. Afinal, para processarmos dados mais eficientemente, era e continua sendo preciso eliminar o "ruído de fundo", todo o input ambiental que se refere a coisas com as quais já estamos acostumados. Sempre foi importante filtrar as informações processadas, de modo a otimizar o próprio processamento de dados.

    Como não somos projetos de nenhum Designer onisciente, essa vantagem adaptativa é também um problema, pois, um sistema de crenças é uma visão particular de mundo que estabelecemos pela experiência e que passa a servir de paradigma para nosso processamento de informações. E nem precisa traduzir o que factualmente é no mundo; tem apenas de ser um modo pragmaticamente funcional de interpretá-lo, que redunde em outputs, em respostas cognitivo-comportamentais, que se revelem relativamente vantajosas à sobrevivência. Acreditar que há um demônio dentro de uma caverna profunda e perigosa, pode não estar factualmente correto, mas produz um comportamento temeroso que acaba evitando que se arrisque a própria vida, aventurando-se num local assim.

    Assim, nossa propensão universal a sermos resistentes a mudar de opinião sustenta-se no fato de que, no ambiente ancestral, não seria nada vantajoso ficar mudando o modelo contra o qual confrontar os dados processados para fins de filtragem de informação. Ou seja, no ambiente ancestral, ser "cabeça-dura" até que tinha a sua função: mantinha as pessoas menos inclinadas a agir contra sua visão de mundo, o que, em meio a incontáveis riscos à sobrevivência, levava mais a resultados positivos (quanto à autopreservação e o sucesso reprodutivo) do que a negativos. Mas isto está longe de ser um projeto inteligente e impecável, como destaquei.

    Ou seja, nossas crenças distintas a respeito do mundo, bem como nosso zelo passional por nossa visão de mundo particular, são naturalmente esperadas.

    Eis o grande problema dos que pensam ser possível manipular as crenças das pessoas, fazendo todas dizerem "Amém!" a quaisquer novas crenças impostas. Há um motivo pelo qual tanto uma comunidade igualitária anarquista, sem Estado, quanto o Estado mínimo capitalista radicalmente liberal, quanto também o Estado máximo, totalitário, socialista, estão todos condenados ao fracasso: cada um destes é um modelo cujos traços característicos colidem com alguns aspectos da natureza humana que não podem ser manipulados a bel-prazer. Há sempre aqueles que não se ajustam à regra que outros tentam impor como geral.

    O relativo sucesso histórico de sociedades capitalistas de Estado moderado (nem mínimo nem máximo) e a inexistência de qualquer comunidade humana sem alguma forma de poder centralizado já nos apontam para o fato de que é preciso modelos de sociedades que permitam que diferentes pessoas, com distintas personalidades, possam conviver.

    E é só isso que podemos tentar: conseguir a boa convivência dos diferentes. Que não me venham com essa de teoria salvadora, formatadora da mente, condicionadora do conteúdo de sistemas de crenças humanos e de comportamentos sociais. A natureza humana não é feita de massinha de moldar. Eis o que o Movimento Zeitgeist menospreza ignorantemente.

    Um forte abraço, meu amigo!

    E me desculpe pelo comentário prolixo. É que são poucos os textos que leio hoje em dia que me deixam tão animado. Você foi nos pontos fracos precisos do movimento em questão. Excelente!

  • Eli, meu irmão,

    Seu texto foi de uma precisão cirúrgica no tocante ao assunto. Enquanto eu lia, perdi a conta das vezes em que disse a mim mesmo: É isso mesmo! Exatamente!

    O fato é que o Movimento Zeitgeist é, como você mesmo pontuou, mais um grupo de crentes na tábula rasa da mente.

    Eles ignoram, por exemplo, que, como outras operações que o cérebro humano foi geneticamente desenhado para executar, o estabelecimento de um "sistema de crenças" foi vital, no curso de nossa evolução. Afinal, para processarmos dados mais eficientemente, era e continua sendo preciso eliminar o "ruído de fundo", todo o input ambiental que se refere a coisas com as quais já estamos acostumados. Sempre foi importante filtrar as informações processadas, de modo a otimizar o próprio processamento de dados.

    Como não somos projetos de nenhum Designer onisciente, essa vantagem adaptativa é também um problema, pois, um sistema de crenças é uma visão particular de mundo que estabelecemos pela experiência e que passa a servir de paradigma para nosso processamento de informações. E nem precisa traduzir o que factualmente é no mundo; tem apenas de ser um modo pragmaticamente funcional de interpretá-lo, que redunde em outputs, em respostas cognitivo-comportamentais, que se revelem relativamente vantajosas à sobrevivência. Acreditar que há um demônio dentro de uma caverna profunda e perigosa, pode não estar factualmente correto, mas produz um comportamento temeroso que acaba evitando que se arrisque a própria vida, aventurando-se num local assim.

    Assim, nossa propensão universal a sermos resistentes a mudar de opinião sustenta-se no fato de que, no ambiente ancestral, não seria nada vantajoso ficar mudando o modelo contra o qual confrontar os dados processados para fins de filtragem de informação. Ou seja, no ambiente ancestral, ser "cabeça-dura" até que tinha a sua função: mantinha as pessoas menos inclinadas a agir contra sua visão de mundo, o que, em meio a incontáveis riscos à sobrevivência, levava mais a resultados positivos (quanto à autopreservação e o sucesso reprodutivo) do que a negativos. Mas isto está longe de ser um projeto inteligente e impecável, como destaquei. A verdade é que nossas crenças distintas a respeito do mundo, bem como nosso zelo passional por essa nossa visão de mundo particular, são naturalmente esperadas.

    Eis o grande problema dos que pensam ser possível manipular as crenças das pessoas, fazendo todas dizerem "Amém!" a quaisquer novas crenças impostas. Há um motivo pelo qual tanto uma comunidade igualitária anarquista, sem Estado, quanto o Estado mínimo capitalista radicalmente liberal, quanto também o Estado máximo, totalitário, socialista, estão todos condenados ao fracasso: cada um destes é um modelo cujos traços característicos colidem com alguns aspectos da natureza humana que não podem ser manipulados a bel-prazer. Há sempre aqueles que não se ajustam à regra que outros tentam impor como geral.

    O relativo sucesso histórico de sociedades capitalistas de Estado moderado (nem mínimo nem máximo) e a inexistência de qualquer comunidade humana sem alguma forma de poder centralizado já nos apontam para o fato de que é preciso modelos de sociedades que permitam que diferentes pessoas, com distintas personalidades, possam conviver.

    E é só isso que podemos tentar: conseguir a boa convivência dos diferentes. Que não me venham com essa de teoria salvadora, formatadora da mente, condicionadora do conteúdo de sistemas de crenças humanos e de comportamentos sociais. A natureza humana não é feita de massinha de moldar. Eis o que o Movimento Zeitgeist menospreza ignorantemente.

    Um forte abraço, meu amigo!

    E me desculpe pelo comentário prolixo. É que são poucos os textos que leio hoje em dia que me deixam tão animado. Você foi nos pontos fracos precisos do movimento em questão. Excelente!

  • Caríssimo Camilo, como sempre comungamos das mesmas conclusões. Grande abraço, feliz natal e feliz ano novo!

  • Gostaria de saber o motivo de voce não responder comentários como o do "A. anonimo" e do "Den", que tem argumentos muito bons e, se voce tem tanta certeza do que fala, merecem ser discutidos. É muito fácil apontar erros e dizer que nunca vai dar certo. Ninguém disse que o projeto venus é perfeito, porém é inegavel que a implantação de uma economia baseada em recursos como defende o zeitgeist movement seria muito melhor do que essa sociedade consumista, enganadora e gananciosa em que vivemos. Se hoje em dia temos tecnologia e recursos para dar comida de graça a todo mundo, por que o nosso sistema defende a escassez em prol do lucro? Porém não focarei nos probemas do capitalismo, e sim na sua argumentação sobre o ser humano ter naturezas difíceis de ser mudadas. Concordo com voce que o ser humano tem uma espécie de egoísmo natural, vontade de ter mais que o outro, porém em um sistema onde ter sempre mais dinheiro é quase como uma religião, esse egoísmo natural é incrivelmente incentivado. Esse nosso ego pode muito bem ser incentivado com quem tem mais conhecimento, ou quem faz a musica melhor, quem joga futebol melhor, quem cria novas tecnologias para a sociedade. Esses seriam os incentivos da sociedade proposta pelo zeitgeist. Acho que você poderia debater mais com pessoas do zeitgeist e rever seus conceitos. Gostaria de dizer que essa é somente minha opinião, e como sempre pode ser alterada.
    Abraço

  • Só um comentário de um economista de profissão. A visão Zeitgeist apresentada nos filmes é pueril em termos econômicos, ao menos até onde as diferentes teorias são ensinadas nas esolas. Em 1º lugar, o dinheiro só abundou na Europa após a conqusta das américas, que inundou a Europa de meio circulante. O sistema de poder feudal dava pouca importância ao dinheiro: a posse da terra e do seu produto era a base do feudalismo. Então o capitalismo, potencializado com a revolução industrial, é fenômeno recente. Valem como humanas as teorias de relações hierárquiquas de poder, que hoje são manifestas na posse do diheiro, e, como sempre, das armas. Não é àtoa que os EUA gastam trilhões de dólares anuais no sistema de dominar o mundo imperialmente hoje.

  • Temos uma série de noções erradas tanto no texto como nos comentários, primeiramente vamos partir de conceitos corretos:

    1 – Não existe nenhum modelo perpétuo, imutável e universal de sociedade humana. Nenhum modelo social é inerente a natureza humana. Desde que o ser humano surgiu na Terra, dezenas de modelos sociais foram praticados dos mais diversos.

    2 – O capitalismo puro jamais foi praticado em lugar algum do mundo, mesmo nos países mais liberais sempre houve controle estatal de parte da economia, as vezes isso foi bom, as vezes desastroso.
    Assim como também jamais existiu um estado total, mesmo nos mais fechados tipos de socialismo. Todas as políticas praticadas no mundo é um misto das duas coisas em maior ou menor grau.

    3 – O controle estatal da economia na maior parte das vezes foi mais desastroso do que benéfico, basta ver o desempenho dos países mais liberais em relação aos menos liberais. Políticos dizem ter a solução para o desemprego, para as crises, etc. mas ninguém jamais conseguiu explicar estas soluções.
    O fato é que políticos não tem capacidade tecnica de resolver problemas. Nossos problemas só são solucionados através da ciência, da tecnologia e na melhor das hipóteses pelo mercado que é a representação mais perfeita que temos das necessidades e anseios da população em relação a disponibilidade de recursos.

    4 – O que o movimento zeitgeist propõe é o uso de tecnologias da informação para substituir o nosso atual sistema de mercados e preços. Através de uma rede poderíamos captar em tempo real as necessidades das pessoas e equiparar a disponibilidade de recursos. É uma proposta interessante embora ainda exista o problema proposto no post: a falta de incentivo. É difícil imaginar todos trabalhando em prol do bem comum sem nenhum incentivo. Mas a proposta do movimento zeitgeist é que o trabalho seja ao máximo automatizado e máquinas não precisam de incentivos.

    Enfim, acho uma proposta que tem lá seu mérito e é inédita, bem diferente de todas as formas de anarquismo, marxismo, etc. propostas até hoje. Acho que muita coisa pode sair daí, eu mesmo só comecei a abrir a minha mente para as complexas relações políticas e econômicas no mundo depois de assistir o documentário.
    Demorei muito tempo para entender a proposta do movimento, não porque ela é complexa, mas porque meus preconceitos impediam (talvez seja o que acontece com o autor do post associando com o anarquismo e outros movimentos).

    Hoje não sou defensor do movimento, mas sou menos ainda defensor do stabilishment que tem falhado miseravelmente em todos os sentidos: social, ambiental, economico, etc. Temos milhares de pessoas morrendo de fome todos os dias enquanto temos a capacidade de alimentar toda a população com fartura. Utilizamos combustíveis fósseis a mais de um século, não é possível que com todo o nosso progresso somente em uma área tão critica tenhamos estacionado dessa forma.

    Alguma coisa está muito errada com o mundo e o movimento zeitgeist começou a me dar as primeiras pistas.

  • Acho interessante quando alguém argumenta que, atualmente, temos "recursos e tecnologia para alimentar toda a humanidade". Porque "alimentar toda a humanidade" é relativo. Vai alimentar toda a humanidade com um prato de arroz com feijão? talvez role. mas a "humanidade" vai se contentar com feijão com arroz? improvável.