15th of November

Como é a sua ética? E o que é justiça para você?


Não a verbalizei muito, acho a interconexão entre epistemologia e ética uma das mais intrigantes na filosofia, especialmente porque num primeiro momento elas foram separadas por grandes pensadores como Immanuel Kant, e mais tarde reunidas por outros como Karl Popper.

Popper reúne ética e epistemologia quando recomenda que a resposta para ambas é o racionalismo crítico. Ele argumenta que o amor não é a resposta para a ética, mas a razão, porque pessoas que se amam podem entrar em conflito quando competem entre si para fazer a felicidade do outro e não a própria, quando fazer a felicidade do outro significa investir menos tempo em sua própria ou deixar que o outro tenha primazia na manifestação de seu amor. Se A ama B e a felicidade de B é ir ao cinema, A quer fazer B ir ao cinema. Se B ama A e a felicidade de A é ir ao parque, B tentará levar A ao parque. E isto é um impasse conflituoso que, na opinião de Popper, exemplifica que é fantasiosa a recomendação cristã de promover a maior felicidade no mundo através do amor.

Se queremos um mundo melhor, diz Popper, devemos trabalhar para corrigir erros que nos levaram antes, na história, à barbárie, à infelicidade e ao sofrimento. E o maior instrumento de que dispomos para corrigir erros é a razão. Temos de trabalhar para corrigir os erros sabendo que somos seres imperfeitos que cometem erros inexoravelmente, e não trabalhar para promover respostas prontas de como agir para ter felicidade. Cada indivíduo sabe o que é sua felicidade, seria injusto impor externamente a ele condições que presumem a priori o que fará sua felicidade.

Acho essa opinião de Popper bastante interessante, mas também acho que é liberal demais – é uma espécie de laissez-faire moral. Mas o ponto racionalista crítico de corrigir erros me parece indiscutível como uma recomendação tanto ética quanto epistemológica.

Como humanista me vejo como um consequencialista – devo julgar o que é justo pelas consequências que o justo trás ao mundo. O que é justo traz mais felicidade, o que é a máxima de Jeremy Bentham e John Stuart Mill – mas a justiça não deve ser alvo da ditadura das maiorias.

E por falar em maioria, creio que não é possível falar em ética sem falar em política, que é a aplicação prática da ética nas sociedades.

E a recomendação para a questão "quem deve governar?" é, para Popper, a democracia, a sociedade aberta.

É importante saber que democracia ideal não é ditadura da maioria.

A saúde das democracias não é medida por quantos plebiscitos fazem, mas pelo tratamento que dispensam às minorias.

Em toda a polêmica envolvendo a lei da ficha limpa, houve um comentário de um juiz do STF que me fez pensar. Ele disse algo como "se este tribunal se curvar a toda demanda popular que surgir, ele se torna inútil".

Está certo que a ficha limpa era necessária para as últimas eleições e que este argumento era mais uma desculpa para não decidir a questão, mas o argumento do juiz continua valendo: julgar não é questão de se deixar dobrar pela vontade das maiorias. Julgar deve ser decidir baseado na melhor filosofia moral disponível, em princípios de comum acordo (não princípios de MAIOR acordo). Para saber o que são princípios de comum acordo, só há um caminho: ouvindo as minorias.

Portanto, é apenas lamentável que apareçam cristãos argumentando que criminalizar o aborto é moralmente aceitável apenas porque cristãos são a maioria neste país. Usam este mesmo argumento para justificar a afronta ao Estado laico com feriados religiosos, padroeiros decretados por lei e símbolos religiosos nas repartições públicas.

Na questão do aborto, os cristãos são uma maioria falsa, porque agem hipocritamente. Católicas são as que mais fazem abortos. Ou seja, seguem uma moral diferente da supostamente pregada por sua religião. Ou seja, são tão convictas e tão confusas em questões morais como quaisquer outros mortais.

E a solução para confusões em questões morais é, na minha opinião, o julgamento pelo comum acordo, como já desconfiava Sócrates milhares de anos atrás, quando questionava como Êutifron poderia saber o que é bom confiando apenas na vontade dos deuses (e notando que Êutifron simplesmente não poderia saber o que é bom ou ruim conversando com os deuses).

Encerrando esta já longa resposta, eis alguns tópicos que considero importantes para um pensamento honesto e informado sobre a ética, junto com links de textos que publiquei por aí:

– Neuroética / neurociência da moral.
Ex.: as neurociências podem nos informar como formamos os estereótipos, tão relevantes nos problemas morais modernos. Eis uma notícia da Nature sobre a pesquisa da neurocientista Adrianna Jenkins neste assunto:
http://www.elivieira.com/2008/03/como-julgamos-os-pensamentos-dos-outros.html

– Individualismo e coletividade. Tratei da forma benigna do individualismo neste texto – "Seja individualista você também":
http://bulevoador.haaan.com/2010/04/30/seja-individualista-voce-tambem/

– O niilismo deve ser deixado de lado, como expressei no texto "Por que não sou niilista – uma resposta a André Díspore Cancian":
http://www.elivieira.com/2010/08/por-que-nao-sou-niilista-uma-resposta.html

O que é justiça para mim? É uma decisão coerente com uma teoria moral particular que efetivamente sirva para corrigir os erros humanos ao ponto de diminuir o sofrimento no mundo. Quando falo em decisão estou fazendo referência ao livre arbítrio, e não quero entrar neste complicador agora (mas acredito, sim, em livre arbítrio). Na dúvida, nos agarramos ao senso comum e à lei – com todos os inúmeros defeitos que têm, é melhor do que ficar sem chão.

Por enquanto é isso. Releve qualquer inconsistência.

Abraço,
Eli Pergunte-me qualquer coisa.