18th of October

Coisas que não aguento mais nestas eleições


dilma_e_serra– Demonização da Dilma Rousseff (pintando-a como terrorista, comunista, chamando-a de “Dilma Hussein”), como se ela não tivesse mérito algum. Tem sim. Aqui em Porto Alegre ouvi pessoas da direita que trabalharam com ela e reconhecem que tem competência. Tem uma personalidade dura e pouco carismática, incompetente não é.

– Demonização de José Serra. Não, o país não vai pro inferno se ele virar presidente. O que vai acontecer é a diminuição do Estado, a venda de algumas estatais. A previsão de alguns é que isso pioraria o país. Outros argumentam que a privatização salvou o Brasil. Eu estou com os primeiros, por isso voto em Dilma. Não cabe botar a culpa em Serra por todos os problemas de São Paulo – o governo não é onipotente. Ele só pode ter responsabilidade por aquilo que estava a seu alcance e não fez ou fez errado, exatamente como Dilma.

E também voto em Dilma porque, aproveitando o clichê, nunca antes na história deste país a revista científica Nature, a de maior impacto em todo o mundo, elogiou o crescimento da ciência brasileira, que tem tudo a ver com o investimento do governo nas universidades federais. Ciência brasileira é concentrada nas universidades. Eu estou no ambiente universitário federal desde 2005, primeiro em Brasília e agora no Rio Grande do Sul. Não há disputa: o governo do Lula melhorou a situação da ciência e das finanças das federais.

Não sou comunista, tampouco sou liberal, e também desconfio que esta separação entre direita e esquerda é um coisa ultrapassada da época da revolução francesa, que só deve estar de pé pela complexidade dos objetos tratados pela política.

Vi esquerdistas dogmáticos e estúpidos no movimento estudantil, e também vi o que chamam de “reacionários”.

Opto pelo pragmatismo.

Não posso deixar de lembrar que todo o incentivo à descriminalização do aborto e ao casamento gay no Brasil partem da chamada “esquerda”. Isso é fato. A dita direita é em alguns aspectos a mesma da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, de 1964, e isso é digno da atenção dos ateus. Casamento gay e aborto descriminalizado são dois temas importantes porque representam avanços em direitos humanos. É estressante e perigoso ver a Folha de São Paulo, Veja, Estadão & cia inventando o factóide de que estão sob ameaça de censura, quando dizem tudo o que dizem e publicam tudo o que publicam. É interessante a assimetria com que tratam os dois candidatos, considerando a denúncia da revista Carta Capital (pró-Dilma, é verdade, mas com fontes checáveis) de que esses e outros órgãos de imprensa foram distribuídos às escolas do governo Serra em São Paulo, sem licitação, ganhando milhões de reais com isso: abril_veja_serra Que isenção têm estes órgãos de imprensa para propagar o medo de censura país afora? Outra coisa que não aguento mais é o exagero dos petistas, como Tarso Genro, insinuando que a histeria religiosa está adentrando o caminho que precedeu o golpe de 1964. Não há razão para pensar nisso, o momento é outro. Se o PT acredita mesmo nas causas que aprova em convenções, deveria incentivar a defesa das posições que desagradam os religiosos mesmo que isso significasse perda de votos. Sobre o Bolsa Família, é um investimento econômico como reconhece o Banco Mundial. Incentiva o microcrédito, ideia que já levou o Nobel da Paz. Embora incentive a educação como o plano original de Cristovam Buarque, os indicadores de qualidade do Brasil estão deploráveis. Isso só mostra que, tão importante quanto obrigar os pais a colocar as crianças nas escolas, é ter escolas de qualidade para recebê-las. Se continuar essa margem pífia de investimento do PIB em educação, a qualidade não virá. Também não basta enfiar dinheiro, tem que ser bem planejado. Trabalhei em meu estágio didático da licenciatura com um professor de biologia ex-funcionário do MEC, e ele me dizia como a livre-iniciativa de profissionais da educação por lá é muitas vezes frustrada. Muitos se qualificam como profissionais da educação para acabarem atrás de escrivaninhas atolados em burocracia. Ele, por exemplo, tinha planos ótimos para a educação de crianças com necessidades especiais (dei aula para adolescentes surdos sob a orientação dele). Teve pouco ou nenhum incentivo do MEC para implantá-los. A qualidade da educação não virá, também, se continuar o preço exorbitante dos livros no Brasil. Este tema tem sido sistematicamente ignorado. Educação não é só na escola, educação está num país de adultos leitores. Nenhum de nós tem memória infinita para se lembrar de tudo o que viu na escola. Educação não é treinamento, é exercício. Quem não exercita conhecimento, esquece. Por isso livros baratos e TV educativa são tão importantes. Ainda que você ache que estou sendo parcial e estou enganado em pensar que a Dilma é melhor para o Brasil, os pontos a seguir não são pontos de disputa: – Se o Estado é laico, toda especulação sobre quais são as opiniões religiosas dos candidatos são irrelevantes e deveria estar fora das campanhas. A disputa por votos baseados em religião gera a hipocrisia dos candidatos, e se você estivesse no lugar deles, provavelmente faria a mesma coisa porque o eleitorado é majoritariamente cristão e conservador. A solução para um Estado laico são campanhas seculares. – Não estamos escolhendo entre biografias, estamos escolhendo entre comunidades de poder e ideologias de gestão pública. A presidência é uma instituição, não uma pessoa. – Pensar que alguém é bom ou ruim por apoiar PT ou PSDB é fazer exatamente como o Datena, que pensa que acreditar ou não em Deus é determinante para alguém ser moral ou imoral. Se o PT teve Dirceu, PSDB teve Paulo Preto. Se o PT teve Marina Silva, PSDB teve Ruth Cardoso. *** Eli Vieira é bacharel e licenciado em biologia pela Universidade de Brasília e mestrando em genética e biologia molecular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.P.S.: Recomendo fortemente, para os indecisos, este texto de Ricardo Lins Horta.

  • Eli! Tudo bem? Fico honrado em ser talvez o primeiro a ler este artigo fresquinho.

    Dá-me felicidade saber que entre os ateus ainda há alguns com ótimo esclarecimento político, e que no meio de tanta polarização e tanta baixaria, permanecem as opiniões equilibradas e ponderadas.

    Gostei bastante do artigo, e tenho que confessar que por causa de motivos racionalistas parecidos com os seus, também sou Dilma. Não sou um petista convicto, claro: concordo com você que deve prevalecer o pragmatismo. Mas também levo em conta que, entre os problemas que o Serra "deixou escapar", estão a precarização da educação pública de São Paulo, da creche às universidades. Até mesmo na capital, dirigida pelo DEMocrata Gilberto Kassab, as coisas estão cem vezes melhores.

    Se me permite mais uma vez sondar sua opinião, gostaria de esclarecer dois pontos que não me ficaram óbvios no texto:

    1) Você acha que no nosso país o crescimento dos setores laicos e irreligiosos deve prevalecer contra a ascensão pentecostal? É exagero dizer que corremos o risco de tornarmo-nos um Irã evangélico?

    2) Você acha que as religiões ainda hoje atrapalham o desenvolvimento e o enraizamento efetivos de nossa educação? Ou as duas coisas são independentes?

    Abraços cordiais de seu amigo e admirador!

  • Olá Erick, muito obrigado pelo comentário e pela gentileza. Sei que estou devendo respostas a outras perguntas que fez no post sobre aborto. Até comecei a escrever as respostas uma vez, mas me distraí.

    Bem, aqui vão as respostas para as perguntas neste post:

    1) Não acho que corremos o risco de nos tornarmos um Irã. Os evangélicos linha-dura são 6% do eleitorado, o que é mais ou menos o mesmo tamanho do eleitorado sem religião.

    Não digo que podemos esperar movimento "irreligioso" tomando força, mas é possível perceber avanços do secularismo, principalmente entre os jovens que usam a internet. A maioria dos blogueiros e tuiteiros que fazem sucesso entre adolescentes hoje é de ateus ou sem religião.

    Religião já é vista como uma coisa "not cool" entre boa parte dos adolescentes, na minha percepção. E isto é algo a comemorar, por que não é "cool" mesmo! Hehe.

    2) A Débora Diniz da UnB mostrou que o ensino religioso facultativo é usado para doutrinação em pleno espaço público, como era de se prever:

    http://bulevoador.haaan.com/2010/06/22/ensino-religioso-no-brasil-estimula-o-preconceito-e-a-intolerancia/

    Para piorar, foi aprovada a lei geral das religiões, que pode piorar este quadro.

    Felizmente já existe ação direta de inconstitucionalidade contra o ensino religioso.

    Eu seria favorável ao ensino religioso, como já expressei até em vídeo, se fosse de fato um ensino sobre as religiões, em vez de uma desculpa para doutrinar os alunos no cristianismo.

    Se é assim que vai ser feito, botar as mãos em profissionais sem preparo e com ganas de doutrinar os alunos, então que seja extinto como inconstitucional, coisa que é mesmo, não importa se é benéfico ou maléfico.

    Grande abraço,
    Eli

  • Eli,

    Só tenho uma coisa para lhe dizer sobre esta sua última postagem: eis o texto mais lúcido sobre política que li nos últimos anos. (Não que eu esperasse menos, vindo de você.)

    Um forte abraço e obrigado por essa oportunidade de ler algo tão sensato.

  • Camilo,

    como sempre, muito obrigado. Mande mais notícias, saudades!

    Abraço

  • Olá, Eli! Obrigado pelas respostas! E desculpe pela ausência prolongada, fiquei um tempo sem ler os blogues de que gostava, e também a conta com que fiz a pergunta nem existe mais 😛 Li sua resposta só agora, é que não devo ter clicado na opção de acompanhamento 🙁 Mas fico feliz mesmo assim!

    Em breve vou voltar a frequentar a blogosfera secularista (pra usar seu termo :P), inclusive o blogue da LiHS: férias, mais tempo né…

    Mais uma vez obrigado e abraços!

  • Erick,

    seja bem vindo de volta!

    Abraço! 🙂