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20th of August

Por que não sou niilista – uma resposta a André Díspore Cancian


o-grito Recentemente comentei uma entrevista do André Díspore Cancian, criador do site Ateus.net, em que ele expressava o niilismo. Desenvolverei um pouco mais aqui.
Se o niilismo (do latim nihil, nada) é meramente notar o fato de que não há um sentido para a vida, ao menos não um que seja propriedade fundamental da nossa existência ou do universo, então eu também sou niilista. Ou seja, é muito útil o niilismo como ceticismo voltado para a ética.
Porém há mais para o niilismo de alguns: não apenas notam este fato sobre a ausência de sentido na natureza que nos gerou, como também descartam de antemão, dogmaticamente, qualquer tentativa de construção de sentido como uma mera ingenuidade. E nesta segunda acepção eu não sou, em hipótese alguma, um niilista.
Há duas razões para eu não ser um niilista:
1) Vejo uma inconsistência interna, que é técnica, no niilismo:
É uma posição circular, pois parte de uma questão de fato, que é a falta de “sentido” na vida, para voltar a outra questão de fato, que é nossa necessidade de “sentido” na vida apesar de o tal sentido não existir.
A inconsistência aqui é ignorar um enorme campo, a ética, que é o campo das questões de direito.
“Sentido” é algo que pode ser construído pelo indivíduo e pela cultura, como sempre foi, porém sem o autoengano de atribuir sentido ao mundo natural que nos gerou mas ver o tal sentido como vemos uma obra de arte.
Ninguém espera que a beleza das obras de Rodin seja uma propriedade fundamental da natureza. Da mesma forma, não se deve esperar que sentido seja uma propriedade fundamental da vida.
Filósofos como Paul Kurtz e A. C. Grayling estão estre os que explicitam e valorizam a construção do sentido da vida da mesma forma que se valoriza a construção de valor estético em obras de arte.  
Como niilista, o André Cancian acha que a decisão ética diária que tomamos por continuar a viver é fruto apenas de instintos moldados pela seleção natural, e que a razão deve apenas não se demorar em tentar conversar com estes instintos, pois se tentar, ou seja, se focarmos nossa consciência no fato do absurdo da natureza (tal como denunciado por Camus e Nietzsche) cessaríamos nossa vontade de viver voluntariamente.
É um erro pensar assim, porque um indivíduo pode, como Bertrand Russell e Stephen Hawking relatam para si mesmos, construir um sentido para sua própria vida, consciente de que esta vida é finita e insignificante no contexto cósmico. É uma alegação comum que era esta a posição defendida por Nietzsche – que valores seriam construídos após a derrocada dos valores tradicionais. Mas não sou grande fã da obra de Nietzsche como filosofia, sou da posição de Russell de que Nietzsche é mais literatura que filosofia. A posição do niilista ignora também os tratados de pensadores como David Hume sobre a fragilidade da razão frente a paixões. A razão é escrava das paixões – é um instrumento preciso, como uma lâmina de diamante, porém frágil frente à força das paixões.
A razão e a âncora empírica são as mestras do conhecimento e da metafísica. Por outro lado, as paixões, ou seja, as emoções, incluída aqui a emoção empática, são as mestras das questões de direito, como indicam pesquisas científicas como as do neurocientista Jorge Moll.
A posição niilista é inconsistente ao limitar a legitimidade do pensamento ao escrutínio racional e/ou científico. Na verdade, razão e ciência são para epistemologia e metafísica (não respectivamente, mas de forma intercambiável). Ética existe não apenas como objeto de estudo destas outras faculdades, mas como todo um alicerce sustentador das nossas mentes: o alicerce das questões de direito –
– "devo fazer isso?"
– "isso é bom?"
– "isso é ruim?"
São questões com que nos deparamos todos os dias, a respeito das quais as respostas epistemológicas e metafísicas (referentes a questões de fato) são neutras.
Na entrevista no blog Amálgama, André Cancian faz questão de citar que as emoções (ou paixões), que ele chama de "instintos", tiveram origem através da seleção natural.
Esta prioridade inusitada na resposta do Cancian é exemplo da circularidade do niilismo: nada teria sentido porque as emoções vieram de um processo natural de sobrevivência diferencial entre replicadores que variam casualmente.
Frente ao fato de também a razão ter vindo do mesmíssimo processo, como Daniel Dennett argumenta brilhantemente em suas obras, por acaso isso torna a razão desimportante ou então faz dela um instrumento que só gera respostas falsas?
Esta pergunta retórica serve para exemplificar que nenhuma resposta a ela faz sentido ao menos que se separe, como fez Kant, as questões de fato das questões de direito.
É algo que niilistas como o André Cancian insistem em não fazer.
Na UnB, tive aulas com um filósofo admirável chamado Paulo Abrantes. Quando entrava na questão metafilosófica de explicar o que é filosofia ou não, ele, como a maioria dos filósofos, dava respostas provisórias e incertas. Uma dessas respostas me marcou bastante: filosofia é a arte de explicitar. Todo trabalho de tomar uma ideia cheia de conceitos tácitos, dissecá-la e explicitá-la melhor, seria um trabalho filosófico.
Quando certas formas de niilismo ignoram a importantíssima explicitação kantiana da separação entre questões de fato e questões de direito, estão voltando a um estado não filosófico de aferrar-se a posições nebulosas e tácitas.
Concluindo a primeira razão pela qual eu não sou niilista, posso então dizer que é porque o niilismo parece-me antifilosófico.
2) Não sou niilista, também, por ser humanista. Em outras palavras, o vácuo que o niilista gosta de lembrar é preenchido em mim pelo humanismo.
Aqui vou ser breve: por mais que eu tente explicar, racionalmente, razões pelas quais sou humanista, todas estas tentativas são meras sombras frente a sentimentos reais que me abatem.
O fato de existir o regime teocrático no Irã, e o fato de dezenas ou centenas de pessoas estarem na fila do apedrejamento, entre elas uma mulher chamada Sakineh Mohammadi Ashtiani, é algo que açula "meus instintos mais primitivos", parafraseando uma frase famosa no Congresso alguns anos atrás.
Sinto de verdade que é simplesmente errado enterrar uma mulher até o ombro e atirar pedras contra a cabeça dela até que ela morra.
Sinto que também é errado achar que "respeitar a cultura" do Irã é mais importante que preservar a vida desta mulher e de outros que estão na posição dela.
Porque culturas não são indivíduos como Sakineh, portanto culturas não contam com nem um pingo da minha empatia. Mas aqui são denovo minhas capacidades racionais tentando explicar minhas emoções.
Tendo isto em mente, convido qualquer niilista a pensar, agora, o que acha de dizer a esta mulher, quando ela estiver enterrada até os ombros, que nada do que ela está sentindo tem importância porque as emoções dela são instintos que vieram da evolução pela seleção natural.
Estou apelando para a emoção numa argumentação contra o niilismo? Claro. Eu construí o sentido da minha vida, aliás estou sempre construindo, com a noção de que minhas emoções – e as dos outros – são importantes sim, mesmo tendo elas nascido do absurdo da natureza. Na verdade, este batismo de sangue as valoriza. Mas falar das emoções, que são a base da ética, à luz de seu batismo de sangue é assunto para outro texto. Quem sabe usar o personagem Dexter Morgan como mote para falar disso? Não decidi ainda se será bom ou ruim.

  • https://www.blogger.com/profile/11147749761188570830 rayssa gon

    muito bom o post. de verdade. salvou minha tarde.

    basicamente concordo com vc. e engraçado ouvir esse "niilismo" saindo da boca de uma das "lideranças ateias" mais antiga da internet pq eu acabei de ler opinião parecida num blog evangelico.

    levo minha vida pensando que ela não tem um sentido intrinseco e que, justamente por causa disso, EU sou a responsável por cria-lo.

    vc escreve muito bem tbm. 😀

  • https://www.blogger.com/profile/05751814692375726552 elivieira

    Obrigado Rayssa. Sua presença abrilhanta meu blog. 😀

    Como você citou um blog evangélico, vale lembrar que o niilismo também pode ser encontrado na Bíblia, em alguns trechos do livro de Eclesiastes.

    Este livro é considerado por alguns pensadores o livro mais discrepante como resto da Bíblia (que é um emaranhado globalmente autocontraditório de outros escritos).

  • https://www.blogger.com/profile/11147749761188570830 rayssa gon

    não posso deixar de dizer que eclesiastes é o livro que mais gosto da biblia.

    amigo meu q estuda historia antiga suspeita que o livro foi especialmente editado e que a "versão original" não contava com as partes que "exaltam deus" acrescentadas posteriormente.

    obrigada pelo abrilhanta. beijo.

  • https://www.blogger.com/profile/10066479044931028928 Allan

    É incrivel como vc é simplesmente espontanea e percebe sentimentos como algo metafisico e não como simples quimicas cerebrais. Porem é apenas mais um a fugir de sentimentos indesejaveis com a ansiedade, vc escreve blogs outros tomam remedios, mas todos estamos na mesma barca. Percebe o mundo (5 sentidos) como se fosse verdadeiro, a visão, a audição, etc. Iria ser ingraçado se vc soubesse que nem todos podem ver pra ler o seu blog pq lhes falta a visão. seria seu blog real? Psicopatas não teriam pena da mulher pq simplesmente seus cerebros não dao valor a isso. Sofro de sentimentos como ansiedade e depressão pq meu cerebro é doente e preciso de remedio para equlibrar as quimicas. A mulher iraniana só estaria numa situação ruim pq seu cerebro iria está produzindo alertas de perigos iminentes, uma simples dose de heroina iria mudar toda essa situação. sentimentos são apenas quimicas, por isso tomamos remedio para evitar sentimentos indesejados como a dor. Como diz o velho Joe no segundo livro do cancian, há mais verdades em farmacias que em bibliotecas…

    Só pra pensar: Estava na ultima semana tentando imaginar qual a situação de um individuo que ficasse sego, surdo, mudo e perdesse a sensibilidade do tato e da memoria. Como ele sentiria o mundo, seria ele apenas um vegetal ou a nossa ideia de morte?

  • https://www.blogger.com/profile/01190027326913159042 Ricardo Wagner Alves Borges

    Se a filosofia abarca — e sobrepuja — todas as outras ciências ou inteligências, o niilismo se opõe, detém o "sentido" de antifilosofia, posto que deve negar a si mesmo; lado outro, se a filosofia compreende um modo de pensar "a mais" a constar do rol de saberes quantificáveis, o niilismo pode ser nomeado como pós-filosofia ou, até mesmo, metafilosofia, como conversão próxima da doutrinação ontológica do absurdo.

    No mais, por fazer-se pertinente ao ateísmo em face do seu "parentesco", o niilismo não assume uma forma unívoca vocacionada ao infragmentável, pois permite distintos focos e sua natureza rebelde os confronta. Há o ateísmo dogmático, o ateísmo agnóstico e afins — ou estarei relativizando vil e sub-repticiamente (em nome da apologética) o caráter absolutista categórico próprio de um niilismo incorruptível e impermeável?

    Hmm.
    E meus sinceros parabéns pelo blogue, caro Eli!

    Evoé.

    Ricardo Wagner.

  • https://www.blogger.com/profile/03540343486832590090 André Rabelo

    Gostei muito do seu texto Eli, parabéns! Continue escrevendo textos bons assim!

    um abraço,
    André

  • https://www.blogger.com/profile/05751814692375726552 elivieira

    Muito obrigado, André!

    Dê uma olhada neste, acabou de sair:

    http://bulevoador.haaan.com/2011/01/15/o-humanismo-secular-entre-a-direita-e-a-esquerda/

    Abraço!