24th of July

Mayr afirma que a falsificação de Popper é impossível ser aplicada a biologia evolucionista, você concorda? Estranhamente ele mostra-se muito satisfeito por isso


Antes de dizer se concordo ou não, vou passar a visão de Elliott Sober, grande filósofo da biologia, expressada por ele na segunda edição do livro Philosophy of Biology (Westview Press, 2000).

A falseabilidade, como você sabe, é um critério de demarcação proposto por Karl Popper para distinguir proposições científicas de proposições não científicas. As científicas “dão a cara a tapa”, ou seja, fazem previsões sobre o mundo que podem ser checadas por observação. As não científicas protegem-se dessa checagem com coerência interna e ajustes periféricos.

É importante que não se confunda ser falseável com ser falso. Uma teoria falseável pode ser verdadeira, uma teoria falsa é uma teoria falseável que não passou no teste da observação de suas previsões.

A crença em um deus criador não seria falseável, em princípio, porque para qualquer estado das coisas no mundo ela é compatível, bastando que se diga que ele escreve por linhas tortas.

Sober dá outros exemplos de teorias não científicas de acordo com o critério da falseabilidade:

“Popper também pensa que a teoria psicanalítica de Freud não é falseável. Não importa o que o paciente diga, o psicanalista pode interpretar o comportamento do paciente de forma que seja compatível com as ideias psicanalíticas. Se o paciente admite que odeia o pai, isso confirma a hipótese freudiana do Complexo de Édipo. Se ele nega que odeia o pai, isso mostra que ele está reprimindo suas fantasias do Complexo de Édipo porque elas são ameaçadoras demais.

Popper tem a mesma opinião sobre o marxismo. Não importa o que aconteça em sociedades capitalistas, o marxismo pode interpretar estes eventos de forma que sejam compatíveis com a teoria marxista. Se uma sociedade capitalista é acometida por uma crise fiscal, isso mostra que o capitalismo está ruindo sob o peso de suas contradições internas. Se a sociedade não está em recessão, deve ser porque a classe proletária ainda não se mobilizou o suficiente ou porque a taxa de lucros não caiu o suficiente.”

Popper chegou a dizer a mesma coisa sobre a teoria da evolução, porém mudou de ideia e alegou que a teoria da evolução é falseável, diferentemente do que ele havia pensado antes.

Sober ensaia um ‘teorema’ lógico da falseabilidade de Popper, enfatizando que só funciona se houver uma distinção clara entre teoria e observação:

“A proposição P é falseável se e somente se P implica dedutivamente ao menos uma sentença observacional O.”

Eis os problemas que Sober apresenta para este critério:

1) Observações são impregnadas de teoria. Para checar se “a galinha está morta”, é preciso ter uma teoria para o que é galinha e o que é morte. Não existe observação pura.

2) Problema do alinhavo (tacking problem): se uma proposição S é falseável, uma conjunção desta proposição S com uma outra proposição qualquer N deve ser também falseável. Isso abre uma porta para alinhavar proposições não falseáveis às falseáveis, e o problema é que se N não é aceitável como ciência, S+N não deveria ser também.

3) O problema da relação entre uma proposição falseável e sua negação. Se a proposição P diz “todos os A’s são B’s”, sua falseabilidade está na possibilidade de encontrar um único A que não seja B. Uma negação de P seria “existe um objeto que é A e não é B”. Esta negação não é falseável. O problema então é: se uma proposição é científica, sua negação também deveria ser científica. Isso pode mostrar insuficiência da falseabilidade em estabelecer o que é científico ou não.

4) O problema de teorias científicas fazerem previsões testáveis apenas quando em conjunto com uma hipótese auxiliar (esta ideia é chamada de tese de Duhem). Por exemplo, a teoria de que um meteoro matou os dinossauros não prevê sozinha que uma camada de irídio deve ser encontrada no estrato geológico do Cretáceo. Isso é feito por hipóteses auxiliares sobre meteoros terem mais irídio que a Terra e sobre camadas geológicas corresponderem ao período da extinção dos dinossauros (não todos, aves são dinossauros).

5) Enunciados de probabilidade não são falseáveis. Dizer que uma moeda honesta tem 0,5 de probabilidade de exibir “cara” quando jogada é compatível com qualquer resultado observacional. Este problema foi reconhecido pelo próprio Popper.

Sober conclui sua crítica da falseabilidade como critério de demarcação dizendo que a testabilidade deve ser sim uma característica essencial das proposições científicas, mas que ela acontece em função das hipóteses auxiliares. O criacionismo pode fazer previsões testáveis a partir de teses auxiliares – acontece que até hoje essas previsões falharam.

A tese “Deus criou os seres vivos” pode ser acompanhada da hipótese auxiliar “se Deus criou os seres vivos, então eles devem ser perfeitamente adaptados aos seus ambientes”.

Esta hipótese auxiliar pode ser considerada científica, tanto quanto a hipótese da Terra ser um disco achatado. Fizemos observações que contradizem isso, é por isso que os criacionistas modernos não dizem mais que os seres vivos são perfeitamente adaptados a seus ambientes – o que era feito por criacionistas de séculos anteriores.

O erro de Popper teria sido a ambição de estabelecer se uma tese é científica apenas a partir de sua configuração lógica. Popper partiu de uma assimetria logicamente estabelecida entre modus tollens e modus ponens na inferência dedutiva – em resumo, que é impossível provar dedutivamente que uma proposição é verdadeira, porém é possível provar que é falsa. Acontece que a ciência trabalha largamente com proposições não-dedutivas.

O acerto de Popper teria sido perceber o comportamento anticientífico de aderentes do marxismo, da psicanálise, do criacionismo e até certos defensores de teorias científicas estabelecidas. Mostrar que um comportamento dogmático e refratário a críticas é anticientífico não é, todavia, a mesma coisa que mostrar que as proposições do dogmático não são cientificamente testáveis.

É plenamente testável a afirmação de que os seres vivos são perfeitamente adaptados a seus ambientes. Foi testado e visto que não é o caso.Também é testável a afirmação de que a Terra tem forma de pizza. Se mesmo depois do suor do trabalho de testar e desconfirmar essas teses ainda existem pessoas defendendo-as, isso é um problema da psicologia delas (incluso aqui o contato que tiveram com a literatura e evidências relevantes), e não da lógica interna dessas proposições.

É possível que Mayr se mostre satisfeito com a impossibilidade de aplicar o critério de Popper à biologia evolutiva (ou, se procedem as críticas, a qualquer ciência) porque ele (Mayr) percebeu que a falseabilidade é mais uma Vênus intocável de um modelo idealizado de racionalidade filosófica – ou seja, uma recomendação de conduta cética para a epistemologia – do que uma receita de como fazer ciência na prática ou ainda como pensar cientificamente.

O desenvolvimento posterior da filosofia da ciência é onde eu buscaria respostas mais sofisticadas para um critério de demarcação entre ciência e não-ciência. Uma conciliação entre o pensamento de Thomas Kuhn (particularmente o pensamento de Kuhn reformado após as críticas ao “Estrutura das Revoluções Científicas”, como pode ser visto no posfácio à segunda edição deste livro) e a teoria da ciência de Imre Lakatos é um ponto de partida.

Estes dois filósofos percebem a cientificidade como um processo histórico, de acúmulo de resolução de problemas, de refinamento e lapidação de um programa de pesquisa com âncora empírica.

Também é preciso levar em conta a influência da probabilidade nas ciências, principalmente nos tratamentos estatísticos comumente empregados pelos cientistas.

A biologia evolutiva é justamente um programa de pesquisa assim. Por não termos todas as respostas prontas, trabalhamos para respondê-las. Nossas hipóteses auxiliares se refinam e se complementam, dando um status de plausibilidade à teoria evolutiva, mais do que uma mera verossimilhança.

Uma tese criacionista que diga “Deus criou os seres vivos como são hoje de tal forma que aparentam enganosamente compartilharem ancestrais comuns e serem aparentados a espécies extintas” é tão verossímil quanto a teoria evolutiva.

Note, porém, que para ter a mesma verossimilhança da teoria da evolução, esta tese criacionista precisa parasitá-la.

É isto o que eu vejo tanto no comportamento dos criacionistas quanto nas teses auxiliares que propõem hoje: parasitismo.

Mostrei antes por aqui que criacionistas brasileiros se comportam exatamente assim, parasitando a pesquisa dos biólogos:

– Enézio de Almeida vive de críticas cínicas a novos artigos publicados em biologia evolutiva, sem nunca apresentar novas pesquisas em “design inteligente”.

– Adauto Lourenço faz a mesma coisa e chega a mentir sobre as conclusões de novos trabalhos publicados na área.

– Michelson Borges e Marcos Eberlin, repetindo os mesmos erros dos criacionistas do passado (como a argumentação de William Paley), exemplificam a estagnação e a degeneração do criacionismo como programa de pesquisa – não há nada novo sob o sol.

Não representam ameaça alguma em qualquer debate sobre o assunto simplesmente porque nunca botam as mãos num único ser vivo para testar implicações de suas crenças.

Os criacionistas são notavelmente desinteressados em pesquisar os seres vivos sobre os quais têm tanta pressa em fazer afirmações. Isso explica de forma plausível a escassez de biólogos entre eles (e não uma conspiração global das desunidas universidades em doutrinar os alunos de biologia, como gostam de alegar – ainda que isso também seja verossímil).

Voltando a Popper e à sua pergunta: sim, concordo com Mayr e com Sober – o critério de Popper não é suficiente nem aplicável para dizer que uma teoria é ciência ou não.

O marxismo, a psicanálise e o criacionismo podem, em tese, fazer previsões testáveis de acordo com hipóteses auxiliares, tanto quanto a biologia evolutiva.

A biologia evolutiva é ciência não apenas por “dar a cara a tapa” para testes, mas por avançar em suas pesquisas, fazer perguntas que ampliam o conhecimento do ser humano sobre os seres vivos e sua origem. Ou seja, é ciência porque é um programa de pesquisa ativo em que novas hipóteses auxiliares são constantemente formuladas e suas previsões testadas, em que novos problemas são encontrados e solucionados na medida do possível para uma atividade falível e incompleta como a ciência. Isso torna o panorama geral da origem das espécies algo em constante construção com respostas mais plausíveis ou menos plausíveis que subjazem a uma explicação geral verossímil.

Se outras proposições não fazem nada disso, não devem ser consideradas científicas e, como disse Elliott Sober, se passaram tempo demais sem gerar nada novo então devem ser consideradas parte do “lixão” da história das ideias.

P.S.: Não pretendo tirar as mesmas conclusões sobre o marxismo e a psicanálise porque isso demanda um conhecimento do que essas duas tradições fazem hoje, do qual prescindo. Pergunte-me qualquer coisa.

  • "O problema então é: se uma proposição é científica, sua negação também deveria ser científica."

    Isso não é verdadeiro.

    P.e., claramente para Popper, a hipótese "deus fez tudo" é uma negação de que "a vida surgiu por processos naturais". Popper não considerava: "deus fez tudo" como uma hipótese científica.

    *A* negação de "todo A é X" é "não todo A é X". Há um número infinito de opções: "Nenhum A é X", "Exatamente 1 A é X", "Exatamente 2 As são X", "Exatamente 3 As são X"… Ou podemos transformar isso em termos probabilísticos ou proporcionais. E caímos exatamente nos testes de hipótese estatísticos.

    []s,

    Roberto Takata

  • Quando mencionou o top four dos desonestos, vc deveria têlo transformado em um "top five" acrescentando o Naor Neves.

    Não sei como naquele debate o Pinna se manteve equilibrado, fazendo aquela cara de "Oh coitado!!!" cada vez que o Naor falava uma idiotice.

    http://www.youtube.com/watch?v=MIUDG3JC8kk

    abraço