11th of July

Falácias, dissonâncias cognitivas e contradições: réplica a Eliel Vieira


Aqui no Tetrapharmakos in Vitro eu já dei meu tchau para o Eliel Vieira. Um tchau não é um adeus, então vamos dar ao Eliel o benefício da cortesia social e responder à sua visita, agora que está batendo à minha porta novamente. E o Eliel vem bater à minha porta alegando ter respostas para meu argumento exposto no texto “Opiniões, mentes e peixes”. Entre evangélicos como ele reconheço que o Eliel é alguém acima da média, com ao menos interesse em debater racionalmente, coisa raríssima entre seus correligionários, que geralmente se dividem entre líderes proselitistas e seguidores cegos. (Algo facilmente percebido no caso do pastor que usava o oráculo do orkut [orkáculo? orákuto?] para fazer revelações ‘milagrosas’ aos seus fiéis.) No título da resposta Eliel batiza meu argumento como “argumento da contingência contra a existência de Deus”, e sobre este argumento ele diz:

Eu sinceramente não me recordo de ter visto esta objeção contingencial (se é que posso chamá-la assim) sendo exposta por outros ateus além de Eli. Apesar dela levar em conta algumas idéias propostas por Dawkins em Deus, um delírio, a formulação de Eli é original. Acho que ele merece todos os créditos por esta objeção que, reconheço, é interessante.

É curioso este tom elogioso vindo do Eliel, porque mostra como ele pode ser vítima de suas próprias contradições. Quando ele anunciou finalmente uma resposta ao meu texto pelo twitter, pedi aos meus colegas para dar uma lida e me dizer o que achavam. O Pedro Almeida achou no texto do Eliel a conhecida falácia do espantalho (também conhecida como strawman ou homem de palha), citada por Carl Sagan no livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios”. Eu achei a mesma coisa no texto, independentemente do Pedro: Eliel é falacioso ao dizer que assumo o ateísmo nas premissas, quando apenas assumi, corretamente e de acordo com as pesquisas científicas modernas sobre a mente humana, que a mente humana é fruto da evolução biológica, tanto quanto os pulmões, o coração e os rins. Portanto, dizer que assumi ateísmo é nada menos que criar um espantalho mais fácil de bater: aí está a falácia. Mas a contradição está na reação irritadiça do Eliel quando achamos a falácia que ele usou: agora ele diz que meu argumento não existe. Isso depois de ter dado um nome para meu argumento e ainda ter dito que era um argumento original e interessante. eliel_contradicao Acho que o Eliel é tão bom em evitar contradições quanto o livro sagrado dele. Mas talvez seja injusto mostrar essa contradição do Eliel, quando o que ele pode estar fazendo é pedir, formalmente, quais são as exatas premissas e conclusões do meu argumento. Meu argumento é diferente dos argumentos que os filósofos logicistas costumam elaborar. Acho fútil expor este argumento da forma formalizada que os logicistas tanto gostam, pela razão simples de que não consiste numa mera dedução, mas numa racionália, cientificamente fundada, com elementos dedutivos e indutivos interagentes. Não ser fácil de apresentar em lógica formal não signfica que é um argumento fraco. Significa que é um argumento complexo que necessita de conhecimentos prévios do interlocutor. Aliás, alego que todos os argumentos que envolvam a existência de entidades no mundo exterior são dessa mesma natureza, por isso é comum encontrar premissas não justificadas, que o proponente deseja introduzir sem ter o trabalho de explicitar as séries anteriores de premissas tácitas que resultam na premissa problemática. Abaixo, exponho algumas premissas, e entre colchetes premissas das premissas. Estou seguro, entretanto, de que todas essas premissas são aceitáveis, e quem não as aceita simplesmente não sabe o bastante sobre elas. Premissas: 1 – [Dadas as questões do ceticismo clássicas na filosofia,] Nenhuma certeza pode ser afirmada.
2 – [Dadas as sínteses filosóficas sobre supostas entidades do mundo natural,] Conhecimentos devem ser expostos em termos probabilísticos, não em termos absolutos, com base em justificação fundada em inferências hipotético-dedutivas contendo induções.
3 – [Dado o estado da arte das pesquisas biológicas e das ciências cognitivas,] É provável que a mente humana seja resultado de contingências históricas, sendo ela mesma contingente.
4 – [Dadas as previsões bem-sucedidas já feitas deste modo,] A probabilidade de algo existir deve ser fundada em conhecimentos anteriores sobre entidades correlatas.
5 – [Dado o que está em textos sagrados, sermões e testemunhos,] Deus é proposto pelos teístas como entidade dotada de mente e necessária, cuja existência é aferida com certeza. Conclusões: A – Sendo [5] contradita por [1], a certeza dos teístas é falsa.
B – Dado [2] e [4], deve ser levado em conta que [3], o que invalida a alegação de necessidade para a mente divina, e também torna a mente divina improvável segundo a mesma premissa [2], fazendo a proposição em [5] uma crença sem justificação, e, portanto, um falso conhecimento. Este resumo não substitui a argumentação fluida e coerente do texto original. Por ser um argumento de hierarquia superior a argumentos subjacentes, a tradução para a formalidade é previsivelmente problemática. Não menos problemática, entretanto, que as alegadas provas de existência de Deus, como a oferecida pelo próprio Kurt Gödel, que faz saltos muito maiores ao omitir as premissas de suas premissas ou ainda motivações mais basais no que é postulado. Voltando ao Eliel, ele diz que estou “implorando por pressupostos”. Como visto acima, nada nas minhas premissas implora pela aceitação do ateísmo, mas apenas a sensatez de aceitar teorias científicas tão bem estabelecidas quanto a gravitação universal. Eliel faz uma caricatura do meu argumento e neste afã comete a falácia do espantalho, e isto é demonstravelmente verdadeiro para qualquer um que leia meu texto sem um anseio apressado de tentar estabelecer seus mitos confortadores. O maior desafio que se pode fazer a teístas como o Eliel é perguntar como exatamente eles sabem que o Deus deles tem estados mentais como eles tacitamente assumem ao descrever seu mito de ressurreição, planos de salvação e outras historietas irrelevantes. Eles simplesmente não têm resposta. Pulam para o abismo da fé e fazem sua prosopopeia da mente divina ignorando qualquer critério racional de justificação de crenças (que faria dessas crenças conhecimentos), da mesma forma que uma criança pequena ignora as regras dos adultos quando está sozinha e se atira aos deliciosos doces proibidos. Eu não assumo que a mente é material por causa de meus compromissos metafísicos com o naturalismo. Não é minha culpa que a única maneira que existe de se obter conhecimento sobre a origem da mente humana é observando a óbvia relação entre mente e cérebro, como fazem todas essas ciências cuja importância estou levando em conta ao elaborar o argumento. Resta ao Eliel exibir qualquer relevância científica do dualismo. E outra coisa, resta ao Eliel o conhecimento de que o dualismo não é a única alternativa para tornar o livre arbítrio compatível com um universo governado por leis determinísticas como as leis de Newton. O compatibilismo é amplamente aceito entre filósofos da mente e cientistas cognitivos. Também não é minha culpa que a maioria deles não é mais dualista nem tem esperanças de afirmar espíritos ou mentes fantasmagóricas como existentes no mundo externo. Meu naturalismo é, ao contrário, o resultado disso tudo, e não a premissa, como bem foi mostrado acima. Especulo que a razão do Eliel não enxergar essas coisas simples é, além da pura ignorância sobre essas áreas, a dissonância cognitiva. A dissonância cognitiva é facilmente detectável em pessoas cujas crenças são incoerentes com outras crenças que possuem – Eliel diz que eu tenho um argumento depois diz que não tenho um argumento, Eliel diz que aceita a relevância científica do que eu digo sobre evolução, mas não está disposto a seguir as implicações subsequentes, preferindo inventar um espantalho. Decida-se, Eliel. Aceita ou não aceita a evolução biológica? Uma hora diz que aceita, outra hora diz que há controvérsias e flerta com criacionistas ingênuos e patéticos como William Lane Craig. Sobre a “origem” do Universo não ter mentes, não pergunte para mim, Eliel. Pergunte para quem estuda o assunto, como Stephen Hawking. Aponte para mim a necessidade de uma mente anterior à nucleossíntese, quando as únicas mentes que conhecemos surgiram após a nucleossíntese. Eliel diz que a noção de mente divina é uma mera analogia. Bem, e qual é a justificação para isso? Por que sua analogia da mente divina – eu diria sua prosopopeia irracional e injustificada – precisa envolver até mesmo algo tão caracteristicamente humano quanto a moralidade? Como eu disse, teístas como Eliel não têm respostas para isso. Simplesmente saltam no mundo fantasioso em que o que querem que seja verdade automaticamente se transforma em verdade absoluta: o mundo da fé. Você está certo Eliel, cristãos não acreditam num olho físico de Deus que a tudo observa. Mas acreditam LITERALMENTE que a entidade mitológica em questão é dotada da capacidade psicológica de observar. Sua alegação de que o antropomorfismo da mente divina é meramente instrumental não está de acordo com as evidências. Quais evidências? As orações, por exemplo, que assumem que ALGUÉM (uma mente) é capaz de “ouvir” e ainda responder. Você alega um Deus inefável e abstrato na sua argumentação, para o qual o antropomorfismo seria supostamente instrumental, e poucas horas depois fala com ele esperando que ele tenha uma mente capaz de entender o português ou a semiótica particular dos seus pensamentos! Dissonância cognitiva, rogai por nós. Sobre as citações do livrinho mitológico, dispenso, tanto quanto dispenso o Corão ou os Vedas. Eles são tão bons para amparar uma argumentação ou justificar um conhecimento quanto a Bíblia. O teísmo já sofreu sua obsolescência no mundo intelectual. A maioria dos cientistas e filósofos acadêmicos é avessa à ideia de uma mente divina que criou o universo. Eliel foi criado num ambiente cultural doutrinador que o fez acreditar que uma mente é necessária para a existência dele e do mundo exterior aparente que o cerca. Poderá Eliel vencer a explícita dissonância cognitiva pela qual está acometido, ou Eliel vai continuar seu blog de mal disfarçada pregação para confortar seus codogmáticos correligionários que necessitam alimentar suas pequenas certezas que o Blues da Piedade de Cazuza tão bem descreveu? Eliel continuará batendo à minha porta, depois de ouvir muitos tchaus, apenas para me trazer mais falácias e expressões contraditórias de uma mente cognitivamente dissonante que tem profunda esperança emocional de encontrar uma “analogia” de si acima do próprio Universo em que vive, não se dando ao trabalho de estudar este Universo pelas teorias científicas que melhor o descrevem? Cenas dos próximos capítulos, se esta novela não terminar agora mesmo neste ponto.

leibniz

Leibniz (1646 – 1716):

ele também propôs um argumento contingencial relacionado a Deus, contudo, sua conclusão foi de que Deus necessariamente deve existir. É claro que vamos ignorar que ele tendia fortemente ao deísmo e achava o teísmo intervencionista de Newton uma grande ingenuidade, e vamos ignorar que ele tinha, como dito por Bertrand Russell (“A History of Western Philosophy”), duas filosofias: uma particular, metafisicamente complicada (vide mônadas), e outra “popular” para agradar às ideologias vigentes em seu tempo. E também vamos ignorar que Leibniz é anterior a todas as ciências que estudaram as origens e a natureza da mente humana. Tudo isso para nossos coleguinhas teístas olharem para a cara de Leibniz e terem mais uma autoridade anacrônica para ampararem sua prosopopeia injustificada da mente divina. Ad verecundiam, rogai por nós.

  • O Eliel tem muito caminho pra percorrer se ele for seguir teu conselho, estudar a filosofia da mente de verdade. O dualismo de substâncias está morto, enterrado: http://www.youtube.com/watch?v=mg3hDzkmPww

    O dualismo, de maneira geral, está morto na maioria dos centros acadêmicos, restando somente defensores suspeitos dentro de estudos estritamente filosóficos.

    A única posição bem fundamentada é o 'dualismo naturalista' de David Chalmers que, na opnião de muitos, é um monismo neutro e não-reducionista, panprotopsiquista ou dualista de propriedades. Mas Chalmers é estritamente agnóstico nessas questões, restringindo-se apenas em aceitar o naturalismo como base ontológica eficiente e mais confiável.