11th of June

O que você acha das ciências humanas?


Richard Feynman dizia que ciências humanas não são ciências ‘de verdade’.

Feynman era um professor e um cientista apoteoticamente excelente, mas isso não fazia dele um filósofo. Ele se incomodava com debates de tentativa de definir a ciência, fazia piadas sobre as questões filosóficas, e ao mesmo tempo pregava um realismo ingênuo sem saber que estava fazendo metafísica ao falar certas coisas. É um ethos comum de cientistas.

Discordo dele. Ciências humanas podem ser ciências ‘de verdade’ quando adotam certos procedimentos, resolvem certos tipos de problemas e elaboram explicações atendendo a certos valores epistêmicos.

Qualquer atividade humana pode ser científica, na minha opinião, se justificar crenças de um modo característico.

Este modo característico de justificação tem atributos mínimos, que na minha opinião são:
– a capacidade de prever o comportamento e o estado das entidades naturais em particular que são objeto deste conhecimento, em generalizações simbólicas com a forma se/então. (ex: se a Terra e Marte satisfazem a teoria da gravitação, dadas certas condições iniciais então Marte será avistado no céu na posição x no tempo t)
– a falseabilidade (ex: a teoria da gravitação PODE ser falseada se for demonstrado que os corpos celestes não se atraem na razão direta de suas massas e razão inversa do quadrado de suas distâncias)
– a reprodutibilidade (faça como eu fiz e por mais cético que você seja seus resultados apoiarão o que eu disse)
– a máxima objetividade (uso de conceitos claros, uso de ferramentas matemáticas e estatísticas sempre que há possibilidade de tratamento quantitativo e amostral dos fenômenos de interesse)
– uma tendência histórica a refinamento de conceitos de forma a resolver novos problemas sem deixar de resolver os problemas que já resolvia. Ou seja, uma capacidade de crescer metamorficamente.

Não é uma lista exaustiva, mas já pode ser preenchida, imagino, por muitos programa de pesquisa em ciências humanas, principalmente alguns da psicologia e da sociologia. Não tenho a necessidade de afirmar a priori que nada do que se faz no que é chamado de "ciências humanas" é científico, porque vejo a ciência como uma atividade de justificação de crenças e resolução de problemas, e não vejo impossibilidade para teorias psicológicas e sociológicas preencherem estes nichos.

Elas não seguem o "método científico", muitos vão dizer. Mas o que é o tal do método científico? Observação, depois hipótese, depois teste, depois conclusão?

Esqueceram-se de avisar isso para Newton e para Einstein, que tinham as teorias antes das observações. Na verdade, a separação entre teoria e observação é obscura. Filósofos importantes da área da filosofia da ciência que discordavam em quase tudo concordavam em dizer que existe uma impregnação teórica da observação.

Portanto, dizer que não há ciência nenhuma nas humanidades porque elas não seguem o "método científico" é coisa ingênua de cientistas como o Feynman, que podem fazer muito bem e admiravelmente sua própria ciência, mas na hora de comparar o que fazem com o que outros fazem e julgar se é ciência ou não, morrem de preguiça e preferem falar mal dos filósofos chatos que ficam fazendo perguntas ‘bobas’.

Claro, as perguntas dos filósofos não se resolvem como se resolvem problemas sobre o mundo natural. Perguntas como "o que é ciência" e "humanidades são ciência?" não são respondidas com teorias da biologia, da física ou da química. São respondidas com filosofia. Pergunte-me qualquer coisa.

  • Curto muito os trabalhos do Feynman, mas tenho que concordar que questionar a seriedade das ciências humanas é irracional.

    Curso engenharia, mas nunca deixei de pesquisar sobre filosofia, psicologia e biologia (tá, não é de humanas, mas é fundamental, principalmente pra debates com criacionistas), apesar de muitos de meus colegas questionarem o motivo desse interesse, que eles certamente julgam inútil.

    À filosofia dedico ainda mais atenção. E a tenho em mais alta conta. Na minha opinião, a filosofia é o pilar sobre o qual todas as outras ciências se erguem.

  • Este é um problema muito sério, prezado amigo. Todo cientista precisa entender bem de Filosofia, assim como todo filósofo precisa ter noções bem amplas e razoavelmente profundas das ciências, pois, afinal, Filosofia é uma "mataciência". Físicos. Químicos, Biólogos, Geólogos ou Astrônomos que zombam das Ciências Humanas e da Filosofia (que não é uma ciência humana, na categorização usual), realmente são ingênuos.
    Por outro lado, muitos cientistas da área das humanas e sociais, tem uma certa "birra" das ciências naturais. É notória a rivalidade entre neurocientistas e psicólogos, ou entre antropologistas culturais e biológicos. Isto só contribui para o enfraquecimento da busca do conhecimento.
    O que Feynman talvez quizesse dizer é que muitas ciências humanas, como a Psicologia, a Sociologia e a Economia, não possuem um paradigma universal aceito por toda a comunidade em cada momento. Nelas existem as "escolas de pensamento", com seguidores paralelos de paradigmas conflitantes. Isto, de fato, as enfraquece como ciências que pretendam prover uma descrição da realidade em seus domínios de conhecimento. Penso que o futuro, com o amadurecimento do conhecimento em suas áreas, levará a que se tenha, a cada momento, um único paradigma de aceitação geral nas respectivas comunidades.

  • Eli, há quanto tempo! Prometo que em breve procurarei me informar melhor sobre como andam as coisas na LiHS, cuja atividade, por puro desinteresse – o qual, devo dizer, está em vias de acabar-se -, não acompanho desde sua fundação (embora eu tenha estado a par da notícia dessa fundação por meio do Orkut, quando eu frequentava comundades ateias com mais frequência)…

    Então, velho, caí no seu artigo por acaso, nas atualizações dos blogues que eu sigo, quando ia escrever um texto para o "Pensadores Libertos"! Quando vi que tratava-se de Ciências Humanas, logo me interessei, abri e li. Afinal, para informar às queridas leitoras e leitores, estou no quinto ano de História da UNICAMP e por isso a discussão sobre a "cientificidade" de nossa disciplina é ardentemente discutida nos primeiros semestres, quando tempos muitas matérias teóricas introdutórias. Por falta de tempo, conheço pouco os procedimentos da Sociologia e da Filosofia, citados por muitos aqui, já que o curso de História não tem muitas brechas para essa "intromissão", apesar de levantada a bandeira da interdisciplinaridade. Dois livros falam bem dos problemas da história como ciência, como Apologia da história (Marc Bloch) e Que é história?, de Edward Carr. Mas como li esses livros há muito tempo, falarei apenas o que tenho em minha mente.

    O problema central das Ciências Humanas é que seu objeto de análise não pode ser reproduzido em laboratório, como uma experiência química, física ou biológica, ou seja, deve-se lidar com as sociedades que já se extinguiram ou as que, em sua vivacidade, não se deixam domar facilmente pelo pesquisador. Pra "piorar", segundo a visão dialética, o sujeito não é algo que não se deixa condicionar pelas circunstâncias ou contexto social, assim cada especialista e cada cultura veem as coisas de um jeito, impedindo, assim, a uniformização teórica das Humanidades.

    Quanto à sua assimilação com as chamadas "ciências duras" (desconheço a validade desse termo), é válida quando se desejam retirar conclusões a serem transformadas em conhecimento, ou seja, seguem o esquema científico geral: formulação de hipóteses, observação, resultados, conclusão, ou coisa do tipo… Mas duas coisas são problemáticas: a primeira é postular que haja referenciais teóricos universais para as Ciências Humanas (pode haver metodológicos, porém), quando nelas trabalhamos com subjetividades, seja de pessoas isoladas, seja de povos, lembrando que não existe uma "essência humana" igual em todos os seres; a segunda é exigir delas, como está fazendo o Governo do Estado de SP de modo teconcrático e legitimador do capital, o mesmo nível de produtividade das "duras", ou seja, a mesma quantidade de artigos, participações em congressos etc., quando o ritmo de trabalho é totalmente diferente.

    Abraços, paz e sucesso!

  • Leandrus,
    concordo contigo.

    Wolf,
    excelente contribuição. Mas eu devo ressaltar que a biologia e a física não são isentas de ter "escolas de pensamento" também, especialmente nas áreas pouco estabelecidas.

    Erick,
    ótimo saber de notícias suas. Fico feliz que tenha escolhido essa carreira. É bom lembrar que o que você disse não se restringe à Historiografia – é a mesma coisa com a biologia evolutiva, que também é uma ciência histórica. Grande abraço, apareça mais.

  • Luiz C

    É eu discordo de sua posição. Ciência é uma coisa, humanas é outra. São opiniões pessoais. A humanas pode ate lançar mão de meios estatísticos para interpretar algumas coisas, mas daí a ser ciência é outro fato. Mas como eu disse é uma opinião pessoal assim como a sua também foi. E de opinião pessoal para opinião pessoal o Sr Feynman além de um bom Físico (e portanto cientista) tem bagagem de sobra para falar de ciência, vide seu prêmio Nobel. Prefiro concordar com ele (e não só por isso falo que humanas não é ciência – mas ele é um ótimo ponto de apoio sim).