9th of August

Ver e acreditar


A infindável tentativa de reconciliar ciência e religião, e por que está fadada ao fracasso.

Por Jerry A. Coyne, em The New Republic. 4 de fevereiro de 2009.
Traduzido por Eli Vieira, 8 de agosto de 2009. Este texto é uma resenha que se refere a dois livros: Saving Darwin: How to be a Christian and Believe in Evolution
[Salvando Darwin: Como ser um Cristão e Acreditar na Evolução]
de Karl W. Giberson
(HarperOne, 248 pp.) Only A Theory: Evolution and the Battle for America’s Soul
[Apenas uma Teoria: A Evolução e a Batalha pela Alma dos EUA]
de Kenneth R. Miller
(Viking, 244 pp.)

I.

Charles Darwin nasceu em 12 de fevereiro de 1809 – o mesmo dia em que nasceu Abraham Lincoln – e publicou sua obra maior, Da origem das Espécies, cinquenta anos depois. A cada meio século, então, vem um Ano Darwin: uma ocasião para homenagear sua teoria da evolução pela seleção natural, que é certamente o conceito mais importante na biologia, e talvez a ideia científica mais revolucionária da História. 2009 é um destes anos, e nós biólogos estamos nos preparando para fazer muito barulho, dando palestras e indo a um monte de DarwinFests. A parte melancólica é que falaremos mais com outros cientistas que com o público americano. Pois neste país Darwin está com uma baixa reputação. As ideias que fizeram a teoria de Darwin tão revolucionária são precisamente aquelas que repelem boa parte dos religiosos americanos, porque elas implicam que, longe de ter um papel no roteiro divino do drama da vida, nossa espécie é o resultado acidental e contingente de um processo puramente natural. E então as guerras culturais continuam entre a ciência e a religião. De um lado temos uma comunidade científica e um sistema judicial determinados a deixar as crianças aprenderem evolução em vez de mitologia religiosa, e do outro lado os muitos americanos que resistem passionalmente a esses esforços. É um fato deprimente que enquanto 74% dos americanos acreditam que anjos existem, somente 25% aceitam que nós evoluímos de ancestrais primatas. Apenas um em oito de nós pensa que a evolução deve ser ensinada na aula de biologia sem incluir uma alternativa criacionista. Entre 34 países pesquisados sobre a aceitação da evolução, os Estados Unidos ficaram na 33ª posição, acima apenas da Turquia. Em nosso país, conselhos escolares estão tentando diluir o ensino de evolução ou passar junto o criacionismo. E os oponentes do darwinismo não se limitam aos manipuladores de serpentes do Bible Belt¹; incluem algumas pessoas que você conhece. Como Karl Giberson aponta em Saving Darwin, “a maioria das pessoas nos EUA têm um vizinho que pensa que a Terra tem dez mil anos.” A polarização cultural dos EUA tem sido agravada por ataques à religião feitos pelos “novos ateus”, escritores como Richard Dawkins e Daniel Dennett, que são darwinistas irredutíveis. Líderes religiosos alarmados, associando a biologia evolutiva ao ateísmo, contra-atacaram. Essa associação afligiu teólogos liberais e cientistas religiosos, que renovaram seus esforços em reconciliar religião e ciência. A “ciência” é quase sempre a biologia evolutiva, que é de longe mais polêmica que qualquer área da química ou da física. Francis Collins, diretor do Projeto Genoma Humano, escreveu A Linguagem de Deus: Um cientista apresenta evidências para a crença²; o filósofo Michael Ruse produziu Um darwinista pode ser um cristão? (sua resposta é sim); e há livros bem quistos de teólogos como John Haught e John Polkinghorne. A Fundação Templeton faz financiamentos volumosos para projetos que buscam reconciliar ciência e religião, e dá prêmios anuais de dois milhões de dólares para um filósofo ou cientista cujo trabalho privilegie a “dimensão espiritual do progresso científico”. A Academia Nacional de Ciências, a instituição científica mais prestigiosa dos EUA, publicou um panfleto nos assegurando de que podemos ter nossa fé sem tirar Darwin:

“A ciência e a religião dizem respeito a aspectos separados da experiência humana. Muitos cientistas escreveram eloquentemente sobre como seus estudos científicos em evolução biológica não diminuíram mas elevaram sua fé religiosa. E muitas pessoas e denominações religiosas aceitam as evidências científicas para a evolução.”

Quem dera se fosse tão fácil! Verdade, há cientistas religiosos e frequentadores de igrejas darwinianos. Mas isso não significa que a fé e a ciência são compatíveis, exceto no sentido trivial de que ambas atitudes podem ser adotadas simultaneamente por uma mente humana particular. (É como dizer que o casamento e o adultério são compatíveis porque algumas pessoas casadas são adúlteras.) Também é verdade que algumas das tensões desaparecem quando a leitura literal da Bíblia é abandonada, como é feito em todas menos as mais primitivas sensibilidades judaico-cristãs. Mas a tensão permanece. A questão real é se há uma incompatibilidade filosófica entre religião e ciência. A natureza empírica da ciência contradiz a natureza revelada da fé? As lacunas entre elas são tão grandes que as duas instituições devem ser consideradas essencialmente antagônicas? A corrente incessante de livros que lidam com essa questão sugere que a resposta não é direta. A forma mais fácil de harmonizar ciência e religião é simplesmente redefinir uma para que possa incluir a outra. Podemos alegar, por exemplo, que “Deus” é apenas o nome que damos à ordem e harmonia do universo, às leis da física e da química, à beleza da natureza, e assim por diante. Este é o panteísmo naturalista de Spinoza. Seu mais famoso defensor foi Einstein, frequentemente (e erroneamente) descrito como se acreditasse num Deus pessoal:

“A emoção mais bela que podemos experimentar é o mistério. É a emoção fundamental que está no berço de toda verdadeira arte e ciência. Aquele para o qual essa emoção é desconhecida, que não pode se maravilhar ou ser arrebatado em admiração, está praticamente morto, como uma vela apagada. Perceber que por trás de tudo o que pode ser sentido há algo que nossas mentes não podem compreender, cuja beleza e sublimidade nos alcança apenas indiretamente: isso é religiosidade. Neste sentido, e apenas neste sentido, eu sou um homem piamente religioso.”

Mas o grande problema com esta “reconciliação”, na qual a ciência não se casa com a religião tanto quanto a digere, é que deixa Deus completamente ausente – ou ao menos o Deus das fés monoteístas, que tem um interesse no universo. E isso é inaceitável para a maioria das pessoas religiosas. Basta olhar os números: 90% dos americanos acreditam num Deus pessoal que interage com o mundo, 79% acreditam em milagres, 75% em céu (paraíso), e 72% na divindade de Jesus. Em seu primeiro livro popular, Finding Darwin’s God [Encontrando o Deus de Darwin], Kenneth Miller atacou o panteísmo porque “dilui a religião até o ponto de não fazer mais sentido”. Ele estava certo. Um esforço significativo para reconciliar ciência e fé deve começar reconhecendo-as como são de fato entendidas e praticadas por seres humanos. Você não pode redefinir ciência para que ela inclua o sobrenatural, como fez o conselho de educação do Kansas em 2005. E você também não pode considerar “religião” a filosofia dos teólogos liberais, que, não vendo com bons olhos um Deus pessoal, estão a um pequeno passo do panteísmo. Afinal, o objetivo não é transformar os crentes em teólogos liberais, mas mostrá-los um modo de alinhar suas crenças às verdades científicas. Os teólogos às vezes sugerem uma reconciliação através do deísmo naturalista, a ideia de que a criação do universo – e talvez das leis da física – foi feita diretamente por uma divindade que depois deixou as coisas se desenvolverem por si mesmas, nunca mais interferindo na natureza ou na História de novo. Para os crentes, isso foi ainda mais problemático que o panteísmo: não apenas nega os milagres, concepções virginais, orações respondidas, e todo o aparato cosmológico do Cristianismo, Judaísmo, Islã, Hinduísmo, e muito do Budismo, mas também levanta o problema sobre a origem de Deus em primeiro lugar. Não, uma solução apropriada tem que harmonizar ciência com teísmo: o conceito de um deus transcendental e eterno que ainda assim se envolve diretamente no mundo e presta uma atenção especial ao real objeto da criação divina, o Homo sapiens. E então temos Karl Giberson e Kenneth Miller, cientistas teístas e escritores engajados, ambos demolindo o que eles veem como uma falsa reconciliação – a teoria do design inteligente – e oferecendo suas próprias soluções. Giberson é professor de física do Eastern Nazarene College, uma instituição de ensino cristã, e escreveu três livros sobre a tensão entre ciência e religião. Ele é um ex-editor da revista Science and Spirit, publicada pela Fundação Templeton. (O livro Saving Darwin [Salvando Darwin] também foi financiado pela Fundação Templeton.) Kenneth Miller, um biólogo celular da Brown University, é um dos defensores mais ardentes e articulados da evolução contra o criacionismo. Ele também é um católico praticante. O novo livro de Miller, Only a Theory [Apenas uma Teoria], é uma atualização do Finding Darwin’s God [Encontrando o Deus de Darwin]. Ambos os livros oferecem não apenas uma crítica ácida ao design inteligente, mas também uma busca por Deus no processo evolutivo. Juntos, Saving Darwin e Only a Theory fornecem um resumo edificante das doutrinas e falhas do criacionismo moderno, o primeiro lidando principalmente com sua história e o segundo com suas alegações enganadoras. Se esses livros parassem aí, soariam um alarme valioso sobre os perigos que pairam sobre a ciência e a cultura americanas. Mas no fim seus esforços sinceros, porém tortuosos, para encontrar a mão de Deus na evolução levam-nos a soluções que são pouco distinguíveis do criacionismo que eles deploram.

II.

Como recontada por Giberson, a história do criacionismo nos EUA tem sido em si um processo evolutivo guiado por uma forma de seleção natural. Depois que cada forma sucessiva de criacionismo era derrubada pelos tribunais por violar a primeira emenda da constituição, uma forma modificada da doutrina aparecia, tirando algum conteúdo religioso e tentando se disfarçar melhor de ciência. Ao longo do tempo, o movimento mudou do claro criacionismo bíblico para o “criacionismo científico”, no qual se dizia que os próprios fatos da ciência apoiariam as estórias religiosas como a criação e a arca de Noé do livro de Gênesis, e então se transformou em design inteligente, ou DI, uma teoria completamente despida de sua pátena bíblica. Nada disso enganou os tribunais. Em 2005, um juiz federal em Harrisburg, Pensilvânia, repeliu uma tentativa de introduzir o DI em sala de aula, caracterizando a iniciativa como criacionismo disfarçado e marcando seus defensores como mentirosos. (Miller foi uma testemunha importante para a promotoria, apoiando a rejeição ao DI.) Mas, é claro, isso não resolveu a questão. Os criacionistas voltaram com apelações ao nosso senso de fair-play, exortando as escolas a “ensinar a controvérsia” – e ignore-se que a controvérsia sobre a evolução não é científica, mas social e política. O que é surpreendente em tudo isso é o quanto muitos criacionistas se aproximaram do Darwinismo. Defensores importantes do DI como Michael Behe, professor da Lehigh University (e uma testemunha de defesa no caso de Harrisburg), aceitam que a Terra tem bilhões de anos de idade, que a evolução ocorreu – parte dela causada pela seleção natural – e que muitas espécies compartilham ancestrais comuns. Na visão de Behe, o papel de Deus no desenvolvimento da vida pode ter sido meramente o de Fabricante de Mutações, ajustando as sequências de DNA quando necessário para abastecer o aparecimento de novas mutações e espécies. Com efeito, Behe aceitou quase tudo do corpo do darwinismo. Ainda outras formas de criacionismo permanecem. Muitos proponentes do DI também são “criacionistas de Terra nova”, tomando a posição bíblica de que a Terra tem cerca de seis mil anos de idade. (O Museu da Criação de 27 milhões de dólares do evangelista Ken Ham, no Kentucky, retrata um Triceratops usando uma sela!) Outros acreditam que a distribuição dos animais no nosso planeta é explicada pela arca de Noé. Outros, ainda, alegam que, enquanto algumas espécies evoluíram, muitas outras foram criadas por Deus. Compreensivelmente, os criacionistas preferem esconder essas diferenças entre si, enganosamente indicando que estão filosoficamente unidos. Mas, independente de seus pontos de vista, todos os criacionistas compartilham quatro atributos. Primeiro, eles acreditam piamente em Deus. Nenhuma surpresa nisso, exceto para aqueles que pensam que o DI tem uma base secular. Segundo, alegam que Deus interveio milagrosamente no desenvolvimento da vida, criando cada espécie do nada ou se intrometendo de tempos em tempos num processo que seria de outra maneira darwiniano. Terceiro, eles concordam que uma dessas intervenções foi a criação dos humanos, que não poderiam ter evoluído de ancestrais similares a grandes símios. Isto, é claro, reflete a visão judaico-cristã de que os humanos foram criados à imagem de Deus. Quarto, todos aderem a um argumento particular chamado “complexidade irredutível”. Esta é a ideia de que algumas espécies, ou algumas características de algumas espécies, são complexas demais para terem evoluído de uma forma darwiniana, e devem, portanto, ter sido projetadas por Deus. A coagulação sanguínea em vertebrados, por exemplo, é uma sequência complexa de reações enzimáticas, envolvendo vinte proteínas que interagem para produzir o coágulo final. Se alguma delas estivesse ausente, o sangue não coagularia. Como uma coisa tão sofisticada pode ter evoluído cegamente?
Facilmente, diz Miller. Num desmantelamento devastador do DI, ele leva a sério as alegações “científicas” do DI e as segue até a conclusão ilógica que geram. Numa prosa clara e animada, Miller mostra que complexas cascatas de reação bioquímica são remendadas a partir de proteínas precursoras primitivas que já tiveram outras funções mas foram cooptadas para novos usos. E o DI se mostra simplesmente um argumento do tipo “deus das lacunas” – a visão segundo a qual se ainda não compreendemos um fenômeno completamente devemos jogar as mãos pra cima, parar nossa pesquisa, e louvar ao Senhor. Para cientistas, esta é a prescrição para o fim da ciência, para a ignorância perpétua. Miller expõe brilhantemente o DI pelo que o DI é: uma barafunda de asserções teológicas e alegações científicas desacreditadas que foi fabricada para inocular uma visão religiosa da vida na sala de aula de biologia. Os proponentes do Design Inteligente não têm nenhum programa de pesquisa científica definido. Embora gastem grandes somas de dinheiro em relações públicas, eles não produziram um único artigo científico revisto apoiando as alegações empíricas de sua “teoria”. Miller conclui corretamente que “a hipótese do projeto é compatível com quaisquer dados concebíveis, não faz previsões testáveis novas, e não sugere novos caminhos para a pesquisa”. Um dos insights mais profundos de Miller é que o DI envolve não apenas projeto mas também criação sobrenatural. Afinal, o projetista tem de fazer mais que apenas imaginar novas criaturas; ele também deve colocá-las na Terra. E se isto não é criacionismo (um rótulo que os proponentes do DI rejeitam enfaticamente), então não sei o que é. Para Giberson, o DI não é apenas má ciência (ou, mais estritamente, ciência nenhuma), ele também é má teologia:

“O mundo é um lugar complexo, e há muito sobre o universo que nós ainda não entendemos. Estamos séculos a distância de fechar as muitas lacunas em nosso entendimento científico moderno sobre o mundo natural… Mas é tarefa da ciência fechar lacunas, e uma intuição central da teologia tem sido há muito tempo encontrar um lugar melhor para procurar por Deus… Promover o “design” [projeto] em isolamento dos outros atributos de Deus é um modo perigoso e no fim das contas autoderrotado de colocar Deus de volta na ciência.”

Em vez de reconciliar religião e ciência, então, o DI as coloca em mais conflito, danificando ambas no processo. Aí está por que muitos teólogos e cientistas testemunharam contra o DI nos tribunais.Se o DI é uma falha abissal como ciência, por que tantas pessoas continuam a pressionar por sua adoção nas escolas? A resposta óbvia é que o DI preserva nosso status como a espécie favorita de Deus, e parece imbuir o universo de propósito e significado, enquanto a biologia evolutiva não faz nada disso. Em outras palavras, o DI, como todas as formas de criacionismo, é uma extensão da religião. Isto foi reconhecido por todo juiz que julgou a questão desde o julgamento de Scopes em 1925. Curiosamente, porém, Giberson e Miller evitam essa questão quando traçam as raízes do criacionismo. Em vez de apontar a religião, eles culpam dois movimentos seculares, o populismo e o ateísmo. Para Miller, um estigma peculiarmente americano de individualismo grosseiro e desconfiança contra autoridades tem produzido efeitos conflitantes. Primeiro, produziu a superioridade científica dos Estados Unidos. Miller nota que, nas últimas três décadas, os americanos ganharam cerca de 60% de todos os prêmios Nobel nas ciências.

“Há algo no feitio americano que carregou as sementes deste conflito [da evolução contra o criacionismo] e forneceu terreno fértil no qual ele pudesse crescer? Penso que há, e isso não me envergonha. Na verdade, estou francamente orgulhoso… Os EUA são a maior nação científica do mundo… Desrespeito – esta é a chave. É a razão por que nosso país adotou a ciência tão profundamente, e por que os EUA têm servido como farol para cientistas de todo o mundo. Um desrespeito saudável pela autoridade é parte do caráter americano, e permeia nossas instituições, incluindo as instituições de ciência. Cientistas deste país, americanos de nascença ou por escolha, tiveram permissão para sonhar descobertas revolucionárias, e estes sonhos se tornaram realidade com mais frequência neste país que em qualquer outro.”

Mas esta é uma faca de dois gumes.

“Se a rebeldia e o desrespeito são de fato parte do talento americano para a ciência, então o que devemos fazer com o movimento antievolução? Uma parte da análise é clara. A solicitude americana para rejeitar a autoridade estabelecida desempenhou um papel principal no modo como ativistas locais conseguiram empurrar ideias como o criacionismo científico e o design inteligente nas escolas locais.”

Giberson concorda:

“Os americanos nunca tiveram o anseio ou mesmo a vontade de serem liderados por elites intelectuais. Um argumento simples e de senso comum vindo de alguém em quem você confia vale mais que os pronunciamentos pomposos de toda uma universidade de palermas. Os EUA são uma nação que adora cowboys, e cowboys não precisam de especialistas dizendo a eles o que devem pensar.”

Mas nós realmente devemos nossa liderança na ciência ao nosso John Waynes interior? Certamente há outros fatores – e igualmente americanos: viver livre de perseguição religiosa, e dinheiro. Nossa comunidade científica tem sido imensamente enriquecida por imigrantes recentes, especialmente judeus que fugiram dos nazistas. Mais importante, depois da Segunda Guerra Mundial nosso governo começou a financiar a pesquisa científica numa taxa vertiginosa, uma generosidade que atraiu anfitriões de acadêmicos estrangeiros. E mesmo embora tenhamos dominado os prêmios Nobel desde então, nos anos mais recentes fomos completamente eclipsados pela Europa. Até 1930, por exemplo, os americanos ganharam apenas quatro prêmios Nobel em todas as ciências, enquanto 29 prêmios foram para a Alemanha e 15 para o Reino Unido. Alemães e britânicos dificilmente podem ser acusados de “desrespeito pela autoridade”! A resistência à evolução nos EUA tem pouco a ver com o populismo. Nossos compatriotas obstinados não se levantaram contra a ideia do buraco negro ou da prova do último teorema de Fermat. É a evolução que é um objeto singular de sua ira, e para isso há apenas uma explicação. Os fatos são estes: você pode achar religião sem criacionismo, mas nunca encontrará criacionismo sem religião. Miller e Giberson se intimidam diante dessa observação simples. Sua desatenção sobre a real fonte do criacionismo não tem desculpa mas é compreensível: um livro que pretende reconciliar evolução e religião dificilmente pode culpar os crentes. Porém é aceitável, ao que parece, culpar os descrentes. Para Giberson e Miller, os principais agressores nas “guerras de ciência” são os ateus. Livros dos “novos ateus”, eles sustentam, têm inflamado os religiosos moderados que poderiam de outra forma ser simpáticos à evolução, empurrando-os para o refúgio criacionista. Em Finding Darwin’s God, Miller explicou que “eu acredito que muito do problema está nos ateus da comunidade científica que rotineiramente listam os achados materiais da biologia evolutiva em apoio [sic] suas próprias afirmações filosóficas.” E Giberson concorda:

“Os críticos do criacionismo foram muitas vezes rudes e desdenhosos e pareceram ter intenções políticas que transcendiam a verdade de várias alegações sobre a história natural da Terra… Estes críticos famosos falharam em apreender que os criacionistas também são cristãos comprometidos e muitos deles são sensatos, generosos, e motivados pela mais nobre das intenções. Cristãos pensantes sentem algo dissimulado na pilhéria malévola que acompanha o que deveria ser uma discussão civilizada sobre ciência.”

Então o obstáculo para a compreensão não é a religião, são aqueles evolucionistas ateus agressivos que não calam a boca. Mas considere isto: é Richard Dawkins quem, mais que qualquer outro, convenceu as pessoas sobre a realidade e o poder da evolução. É o cúmulo do wishful thinking alegar que se ele e seus confrades intelectuais simplesmente parassem de atacar a religião o criacionismo desapareceria. Giberson aventa outra crítica comum aos biólogos evolutivos. Muitos de nós, ele diz, vemos nossa ciência como uma religião, um tipo de adoração a Darwin que pretende explicar tudo, incluindo significado, propósito, ética, e a própria religião. “A ideia de que a ciência deveria ser em si mesma uma religião permeia como um reservatório subterrâneo pelos textos desses divulgadores, borbulhando sob a superfície e fervendo às claras toda vez que a conversa chega à fase do vejamos-o-que-tudo-isso-significa.” Sim, alguns cientistas (e escritores de ciência) se excederam na psicologia evolutiva, afirmando que o darwinismo pode explicar todas as facetas do comportamento humano. Mas nenhum cientista sério quer que a evolução se torne algo parecido com uma religião, nem mesmo uma fonte de ética e valores. Fazer isto significaria abandonar nossa principal ferramenta para entender a natureza: a resolução de afirmações empíricas com dados empíricos. Não temos “fé” no darwinismo do mesmo modo que outros têm fé em Deus, nem enxergamos Darwin como uma autoridade inatacável como o Papa Bento XVI ou o Aiatolá Khamenei. Na verdade, desde 1859 boa parte das ideias de Darwin foram descartadas. Como todas as ciências, a evolução difere da religião porque constantemente testa hipóteses e descarta aquelas que se prova serem falsas.

III.

Em Finding Darwin’s God, seu livro anterior, Miller proclamou um teísmo universal: “Lembre-se, mais uma vez, de que as pessoas de fé acreditam que seu Deus é ativo no mundo atual, onde Ele trabalha em sincronia com o naturalismo da física e da química.” Giberson claramente concorda. E onde eles encontram a mão de Deus na natureza? No aparecimento dos humanos, é claro.
Giberson e Miller asseveram que a evolução dos humanos, ou de algo bem parecido com os humanos, foi inevitável. Dado o modo como a evolução funciona, eles alegam, com certeza o reino animal produziria uma espécie que fosse consciente, altamente inteligente, e, acima de tudo, capaz de perceber e adorar seu criador. Esta espécie não precisaria ter a aparência perfeitamente humana, mas teria que ter nossa mentalidade refinada (chame-a de “humanoide”). Um dos capítulos de Miller é até intitulado “O Mundo que Sabia que Viríamos.” Giberson nota que “capacidades como a visão e a inteligência são tão valorosas para os organismos que muitos, se não todos os biólogos acreditam que emergiriam em qualquer processo evolutivo normal… Então como a evolução pode ser completamente ao acaso, se certos pontos finais sofisticados são previsíveis?”
Lendo isso, muitos biólogos se perguntarão como eles podem ter tanta certeza. Afinal, a evolução é um processo contingente. O modo como a seleção natural molda uma espécie depende de mudanças imprevisíveis no clima, de eventos físicos casuais como impactos de meteoros ou erupções vulcânicas, da ocorrência de mutações raras e casuais, e de qual espécie tem sorte suficiente para sobreviver a uma extinção em massa. Se, por exemplo, um meteoro não tivesse caído na Terra há 65 milhões de anos, contribuindo para a extinção dos dinossauros – e para a ascenção dos mamíferos que anteriormente eram dominados – todos os mamíferos provavelmente ainda seriam pequenos insetívoros noturnos, mastigando grilos na penumbra. Os evolucionistas abandonaram há muito tempo a noção de que há uma marcha evolutiva inevitável em direção à maior complexidade, uma marcha que culminasse nos humanos. Sim, a complexidade média de todas as espécies cresceu ao longo de três bilhões e quinhentos milhões de anos de evolução, mas foi assim porque a vida começou como uma simples molécula replicadora, e a única saída deste estado é se tornar mais complexo. Mas agora, a complexidade não é sempre favorecida pela seleção natural. Se você é um parasita, por exemplo, a seleção natural pode te fazer menos complexo, porque você vive dos esforços de outras espécies. As solitárias evoluíram de vermes de vida livre, e durante sua evolução elas perderam seu sistema digestivo, seu sistema nervoso, e muito de seu aparelho reprodutor. Como digo a meus alunos, elas se tornaram apenas sacos absortivos de gônadas, muito parecidas com os próprios alunos. Porém as solitárias são soberbamente adaptadas a um modo parasítico de vida. Nem sempre compensa ser mais inteligente, também. Por alguns anos eu tive um gambá de estimação, que era amável mas meio tapado. Quando mencionei este fato ao veterinário, ele me colocou no meu lugar: “Burro? Caramba, ele é perfeitamente adaptado para ser um gambá!” A inteligência custa caro: você precisa produzir e carregar matéria cerebral extra, e ajustar seu metabolismo para sustentá-la. E às vezes este custo excede o quanto a genética pode pagar. Um gambá mais inteligente poderia não ser um gambá mais apto.
Para apoiar a inevitabilidade dos humanos, Giberson e Miller invocam a noção de convergência evolutiva. Esta ideia é simples: as espécies muitas vezes se adaptam a ambientes similares por características similares que evoluem independentemente. Os ictiossauros (répteis marinhos antigos), botos, e peixes evoluíram independentemente na água, e através da seleção natural todos os três adquiriram nadadeiras e uma forma similar. Olhos “de câmera” complexos evoluíram em vertebrados e lulas. Animais do ártico como ursos polares, lebres do ártico e corujas da neve são brancos ou tornam-se brancos no inverno, escondendo-se dos predadores ou presas. Talvez o exemplo mais impressionante de convergência seja a similaridade entre algumas espécies de mamíferos marsupiais da Austrália e mamíferos placentários não aparentados a eles que vivem em outros lugares. O cusco voador é um marsupial que lembra um esquilo voador do Novo Mundo e age como um. Toupeiras marsupiais, com seus olhos reduzidos e grandes garras escavadoras, são prenúncios de nossas toupeiras placentárias. Até sua extinção, em 1936, o notável tilacino ou lobo-da-tasmânia caçava como um lobo placentário e se parecia com um.
A convergência nos diz algo profundo sobre a evolução. Deve haver “nichos” preexistentes, ou modos de vida, que incitam mudanças evolutivas similares em espécies não-aparentadas que se adaptam a eles. Isto é, a partir de ancestrais diferentes e impulsionada por mutações diferentes, a seleção natural pode não obstante moldar corpos de maneiras bastante similares – contanto que essas mudanças beneficiem a sobrevivência e a reprodução. Havia nichos no mar para mamíferos e répteis piscívoros, então os botos e ictiossauros se tornaram aquadinâmicos na forma. Os animais do ártico melhoram sua sobrevivência se são brancos no inverno. E obviamente deve haver um nicho para um pequeno mamífero onívoro que plana de árvore em árvore. A convergência é um dos processos mais impressionantes da evolução, e é comum: há centenas de casos.

Tudo o que é preciso para se defender a inevitabilidade dos humanoides é, então, alegar que houve um “nicho humanoide” – um modo de vida que demandasse grande inteligência e autoconsciência sofisticada – e que este nicho se manteve vazio até ser inevitavelmente invadido pelos ancestrais dos humanos. Mas a ocupação deste nicho foi mesmo inevitável? Miller acredita que sim:

“Mas quando a vida reexplorasse o espaço adaptativo, poderíamos ter certeza de que nosso nicho não seria ocupado? Eu argumentaria que podemos ter quase certeza de que seria ocupado – que enfim a evolução produziria uma criatura inteligente, autoconsciente, reflexiva e dotada de um sistema nervoso grande o bastante para solucionar as mesmas questões que temos, e capaz de descobrir o próprio processo que a produziu, o processo da evolução… Tudo o que sabemos sobre a evolução sugere que este processo pode, mais cedo ou mais tarde, chegar a esse nicho.”

Miller e Giberson são forçados a aceitar essa visão por uma razão simples. Se não podemos provar que a evolução humanoide foi inevitável, então a reconciliação entre evolução e cristianismo entra em colapso. Pois se realmente fôssemos o objeto especial da criação de Deus, a nossa evolução não poderia ter sido deixada para o acaso. (Pode ser relevante lembrar que, embora a Igreja Católica aceite a maior parte do darwinismo, ela faz uma exceção oficial para a evolução do Homo sapiens, cuja alma diz ter sido criada por Deus e inserida na linhagem humana em algum momento.)
A dificuldade é que a maioria dos cientistas não compartilham da certeza de Miller, e é assim porque a evolução não é um experimento replicável. Não podemos passar novamente a fita da vida de novo e de novo para ver se a consciência sempre brota. Na verdade, há boas razões para pensar que a evolução de humanoides, além de não ter sido inevitável, foi improvável a priori. Embora convergências sejam aspectos impressionantes da evolução, há ao menos um igual número de falhas de convergência. Estas falhas são menos impressionantes porque envolvem espécies que não existem. Pense na Austrália mais uma vez. Muitos tipos de mamíferos que evoluíram em outros lugares não têm nenhum equivalente entre os marsupiais. Não há versão marsupial de morcego (isto é, algum mamífero voador), ou de girafas e elefantes (mamíferos grandes com pescoço longo ou trombas que podem arrancar folhas das árvores). Mais notável ainda, na Austrália não evoluíram versões de primatas, ou qualquer criatura com inteligência de primata. Na verdade, a Austrália tem muitos nichos não preenchidos – e portanto muitas convergências não realizadas, incluindo aquele precioso nicho “humanoide”. Se a alta inteligência fosse um resultado tão previsível da evolução, por que ela não evoluiu na Austrália? Por que apareceu somente uma vez, na África?
Isso levanta outra questão. Reconhecemos convergências porque espécies não aparentadas evoluem características similares. Em outras palavras, as características aparecem em mais de uma espécie. Mas a inteligência sofisticada e autoconsciente é uma coisa única: evoluiu apenas uma vez, num ancestral humano. (Polvos e golfinhos também são inteligentes, mas não têm o que é necessário para refletir sobre suas origens.) Por outro lado, os olhos evoluíram independentemente quarenta vezes, e a cor branca nos animais do Ártico apareceu várias vezes. É difícil ser convincente quando se quer defender a inevitabilidade evolutiva de uma característica que apareceu uma só vez. A tromba do elefante, uma adaptação complexa e sofisticada (que tem mais de quarenta mil músculos!), também é uma coisa única na evolução. Ainda assim você não ouve cientistas argumentando que a evolução inevitavelmente preencheria o “nicho de elefante”. Giberson e Miller proclamam a inevitabilidade de humanoides apenas por uma razão: o cristianismo os obriga.

Finalmente, é abundantemente claro que a evolução da inteligência humana foi um evento contingente: contingente na dessecação da floresta africana e no desenvolvimento de campos de gramíneas, que permitiram que os grandes símios descessem das árvores e andassem sobre duas pernas. De fato, para sustentar que a evolução dos humanos foi inevitável, você deve sustentar que também a evolução dos grandes símios foi inevitável, que a evolução dos primatas foi inevitável, que a ascenção dos mamíferos foi inevitável, e assim por diante através de dezenas de ancestrais, cujas aparências terão de ser vistas como inevitáveis. Isso produz uma regressão de crescente improbabilidade. No fim, a questão sobre se criaturas humanoides foram inevitáveis pode ser respondida apenas se for admitido que não sabemos – e se for acrescentado que a maior parte das evidências científicas sugerem que não foram. Quaisquer outras respostas envolvem ou wishful thinking ou teologia.
Miller opta pela teologia. Embora seu novo livro não diga como Deus garantiu a chegada do Homo sapiens, Miller foi mais explícito em Finding Darwin’s God. Ali ele sugeriu que a indeterminação da mecânica quântica permite que Deus intervenha no nível dos átomos, influenciando eventos de uma escala maior:

“A natureza indeterminada dos eventos quânticos permitiria que um Deus sábio e sutil influenciasse eventos de maneiras que são profundas, mas cientificamente indetectáveis para nós. Esses eventos poderiam incluir o aparecimento de mutações, a ativação de neurônios individuais no cérebro, e mesmo a sobrevivência de células individuais e organismos afetados pelos processos casuais do decaimento radioativo.”

Em outras palavras, Deus é um Movedor de Elétrons, deliberadamente mantendo suas incursões na natureza tão sutis que são invisíveis. É desconcertante que Miller, que elabora os argumentos mais tecnicamente astutos contra a complexidade irredutível, possa no fim concluir invocando a microedição de Deus sobre o DNA. Este argumento é na verdade idêntico àquele de Michael Behe, o proponente do DI contra quem Miller testemunhou no julgamento de Harrisburg. É outro argumento do Deus das lacunas, exceto que desta vez as lacunas são minúsculas.
Miller levanta outro argumento também usado pelos criacionistas e teístas como prova do projeto celestial: a assim chamada “sintonia fina do universo”. Acontece que a existência de um universo que permite a vida como a conhecemos depende muito do valor de certas constantes nas leis da física. Se, por exemplo, a carga do elétron fosse um pouco diferente, ou se a disparidade entre as massas de um próton e um nêutron fosse um pouco maior, ou se outras constantes variassem mais que uma pequena porcentagem, o universo seria diferente em aspectos importantes. As estrelas não viveriam tempo suficiente para permitir o aparecimento e evolução da vida, não haveria sistemas solares, e o universo não teria os elementos com a química complexa necessária para construir organismos. Em outras palavras, nós habitamos o que é chamado de “universo de Cachinhos Dourados”, onde as leis da natureza são exatamente as certas para permitir que a vida evolua e prospere. Esta observação é chamada de “princípio antrópico”. À primeira vista, sua explicação parece trivial. Como Miller diz, “tomando como ponto de partida a observação de que você e eu estamos vivos, ao menos no presente imediato, é óbvio que devemos viver num universo onde a vida é possível. Se não vivêssemos, não estaríamos aqui para falar a respeito. Então, de um certo modo o fato de que vivemos num universo amigável à vida merece pouco mais que um grande ‘Dã!'”. Verdade. Mas isso levanta uma questão mais profunda: por que as constantes do universo apenas têm esses valores que promovem a vida? A resposta dada pelos criacionistas é que não é um acidente: um Deus benevolente (ou um projetista inteligente) fabricou essas leis físicas precisamente para que em algum lugar do universo a vida inteligente pudesse evoluir – vida tão inteligente que poderia descobrir as leis da física e, mais importante que isso, perceber seu criador. Essa resposta – conhecida como princípio antrópico forte – não é testável cientificamente, mas soa tão razoável que se tornou uma das maiores armas no arsenal criacionista. (É importante entender que princípios antrópicos dizem respeito às condições necessárias para a existência de qualquer vida, e não dizem nada sobre a inevitabilidade da vida complexa e inteligente.)

Cientistas também têm outras explicações, baseadas na razão no lugar da fé. Talvez algum dia, quando tivermos uma “teoria de tudo” que unifique todas as forças da física, veremos que essa teoria requer que o nosso universo tenha as constantes físicas que observamos. Alternativamente, há teorias intrigantes sobre o “multiverso”, que invocam o aparecimento de muitos universos, cada um com leis físicas diferentes; e poderíamos ter evoluído apenas em um deles cujas leis permitissem a vida. O físico Lee Smolin sugeriu uma versão fascinante da teoria do multiverso. Traçando um paralelo com a seleção natural entre organismos, Smolin propôs que as constantes físicas dos universos na verdade evoluem por um tipo de “seleção cosmológica” entre universos. Aconteceria que cada buraco negro – e há milhões deles no nosso universo – poderia dar origem a um novo universo, e estes novos universos poderiam ter constantes físicas diferentes daquelas de seus ancestrais. (Isto é análogo à mutação na evolução biológica.) E universos com constantes físicas próximas às que vemos hoje produziriam mais buracos negros, que por sua vez produziriam mais universos. (Isto lembra a seleção natural.) Eventualmente este processo gera uma população de universos ricos em constantes que têm as propriedades certas para gerar estrelas (a fonte de buracos negros), planetas e vida. A teoria de Smolin aumenta imensamente as chances de aparecimento de vida.

A ideia de múltiplos universos pode parecer uma estratégia desesperada – uma Ave-Maria soltada por físicos que têm repulsa por explicações religiosas. Mas a física é cheia de ideias que são completamente contraintuitivas, e teorias do multiverso resultam naturalmente de ideias longevas da física. Elas representam tentativas dos físicos de dar uma explicação naturalista para o que outros veem como evidência de projeto. Para muitos cientistas, multiversos parecem bem mais razoáveis do que a suposição solipsista de que nosso universo, com seus 10 000 000 000 000 000 de planetas, foi criado apenas para que uma única espécie de mamífero evoluísse em um deles 14 bilhões de anos depois.

E contudo Miller parece preferir a explicação teológica, ou ao menos tece teologicamente o princípio antrópico:

“O discernimento científico de que nossa própria existência, através da evolução, requer um universo do mesmo tamanho, escala e idade que vemos ao nosso redor, sugere que o universo, em um certo sentido, nos tinha em mente desde o começo… Se este universo foi de fato providenciado para a vida humana, então é apenas justo dizer, do ponto de vista de um teísta, que cada um de nós é o resultado de um pensamento de Deus, a despeito da existência de processos naturais que nos fizeram surgir.”

Miller equaciona a fé dos crentes religiosos com a “fé” dos físicos numa explicação naturalista para as leis físicas:

“Os crentes… estão certos em lembrar os céticos e agnósticos que uma de suas explicações favoritas para a natureza de nossas existência envolve um elemento da imaginação tão ousado quanto qualquer conto de um livro sagrado: a existência de incontáveis universos paralelos e simultâneos com os quais nunca poderemos nos comunicar e cuja existência nem ao menos podemos testar. Tal crença também requer um nível extraordinário de “fé” e o não-religioso faria bem em admiti-la como tal.”

Bem, os físicos não são solícitos em admiti-la como tal. Ao contrário da afirmação de Miller, a existência de multiversos não requer um salto de fé nem de longe tão grande quanto imaginar um Deus. E algumas explicações científicas do princípio antrópico são testáveis. De fato, algumas previsões da teoria de Smolin já foram confirmadas, o que aumenta sua credibilidade. Pode estar errada, mas espere uma década e saberemos muito mais sobre o princípio antrópico. Enquanto isso, é simplesmente errado alegar que a proposição de uma hipótese científica provisória e testável – não uma “crença” – seria equivalente à fé religiosa.

IV.


O modo mais comum de harmonizar ciência e religião é sustentar que elas são maneiras diferentes mas complementares de entender o mundo. Isto é, há diferentes “verdades” oferecidas pela ciência e pela religião que, tomadas juntas, respondem todas as questões a nosso respeito no universo. Giberson explica:

“Temo que o progresso científico nos encantou com o pensamento de que não há nada mais no mundo além do que podemos compreender… A ciência talvez já tirou do paradigma materialista tudo o que ele tinha a oferecer. Matéria em movimento, tão elegantemente descrita por Newton e aqueles que o seguiram, pode não ser a melhor maneira de entender o mundo… Penso que há modos, entretanto, pelos quais podemos começar a olhar para a criação e entender que a visão científica não engloba tudo. A ciência fornece um conjunto parcial de insights que, embora poderosos, não respondem a todas as perguntas.”

Geralmente as questões das quais diz-se estarem fora do domínio da ciência incluem aquelas sobre significado, propósito e moralidade. Em um de seus últimos livros, Pilares do Tempo: Ciência e Religião na Plenitude da Vida, Stephen Jay Gould chamou essa reconciliação de MNI, “magistérios não interferentes”: “A ciência tenta documentar o caráter factual do mundo natural, e desenvolver teorias que coordenam e explicam esses fatos. A religião, por outro lado, opera em um igualmente importante, mas completamente diferente reino de propósitos, significados e valores humanos – assuntos que o domínio factual da ciência pode iluminar, mas nunca resolver.” Gould ofereceu esta proposta não como uma visão utópica, mas como uma descrição real das razões pelas quais os reinos da ciência e da religião não se sobrepõem. Como uma solução para nossa perplexidade, ela não funciona. Num espírito de pluralismo a proposta ignora os conflitos óbvios entre as partes. Gould salvaguardou sua ideia redefinindo termos – o velho truque, novamente – taxando o criacionismo como “religião imprópria” e definindo fontes seculares de ética, significados e valores como “fundamentalmente religiosas.” A solução dos MNI desmorona por outras razões. A despeito das alegações de Gould em contrário, fenômenos sobrenaturais não estão completamente além do reino da ciência. Todos os cientistas podem pensar em certas observações que os convenceriam da existência de Deus ou forças sobrenaturais. Numa carta ao biólogo americano Asa Gray, Darwin comentou:

“Sua pergunta sobre o que me convenceria que há Projeto [Design] é um enigma. Se eu visse um anjo descer para nos ensinar bem, e eu fosse convencido por outros vendo-o de que eu não estava louco, eu acreditaria em projeto. Se eu pudesse ser convencido profundamente de que a vida e a mente fossem de uma forma desconhecida uma função de outra força imponderável, eu deveria ser convencido. Se o homem fosse feito de bronze ou ferro e não fosse de forma alguma conectado a outros organismos que já viveram, eu deveria talvez ser convencido. Mas isso é escrever como uma criança.”

Similarmente, se um Jesus de 300 metros aparecesse para os residentes da cidade de Nova York, como ele supostamente fez para o evangélico Oral Roberts de Oklahoma, e esta aparição fosse documentada convincentemente, a maioria dos cientistas cairiam de joelhos cantando hosanas. Os cientistas de fato confiam em explicações materialistas da natureza, mas é importante entender que isto não é um compromisso filosófico a priori. É, em vez disso, a melhor estratégia de pesquisa que evoluiu de uma experiência de muito tempo com a natureza. Houve um tempo em que Deus era parte da ciência. Newton pensava que sua pesquisa em física ajudaria a esclarecer o plano celestial de Deus. O mesmo fez Lineu, o botânico sueco que concebeu nosso atual esquema de organização das espécies. Mas ao longo de séculos de pesquisa aprendemos que a ideia de que “foi Deus” nunca fez progredir nossa compreensão da natureza, e por esse motivo nós a abandonamos. No começo do século XIX, o matemático francês Laplace presenteou Napoleão com uma cópia de seu grande trabalho de cinco volumes sobre o sistema solar, o Mechanique Celeste. Ciente de que os livros não continham menção alguma a Deus, Napoleão o provocou, “Monsieur Laplace, dizem-me que escreveste este enorme livro sobre o sistema do universo, e nunca mencionaste seu Criador.” A famosa e brusca resposta de Laplace foi “Je n’avais pas besoin de cette hypothese-la“, “Eu não tive necessidade dessa hipótese.” E desde então os cientistas não precisaram dessa hipótese.

Cometendo um erro comum, Giberson confunde o materialismo estratégico da ciência com um compromisso absoluto com uma filosofia de materialismo. Ele alega que “se o rosto de Jesus aparecesse no Monte Rushmore com o nome de Deus assinado em baixo, os geólogos ainda teriam que explicar este curioso fenômeno como um subproduto improvável da erosão e da tectônica.” Tolice. Há tantos fenômenos que que aumentariam o espectro de Deus ou outras forças sobrenaturais: curandeiros da fé poderiam restaurar uma visão perdida, poderia acontecer remissão espontânea apenas dos cânceres das pessoas boas, os mortos poderiam retornar à vida, poderíamos encontrar sequências de DNA com alguma mensagem que poderia apenas ter sido plantada no nosso genoma por um agente inteligente, anjos poderiam aparecer no céu. O fato de que nenhuma dessas coisas jamais foi documentada cientificamente nos dá confiança extra de que estamos certos em ficar com explicações naturais para a natureza. E isso explica por que tantos cientistas, que aprenderam a desconsiderar Deus como explicação, também o descartaram como uma possibilidade.

Isso nos traz à segunda razão pela qual a explicação de Gould não funciona. Tudo bem dizer, como ele disse, que a religião não faz afirmações sobre a natureza, mas na prática não é verdade. Das milhares de denominações religiosas neste planeta, apenas um punhado não tem adeptos ou dogmas que façam afirmações empíricas sobre o mundo. Aqui estão algumas. Jesus nasceu de uma virgem e, depois da crucificação, voltou à vida. Depois da morte de Maria, seu corpo físico foi transportado para o céu. O profeta Maomé ascendeu aos céus montando um cavalo branco. Depois da morte, todo ser reencarna em outra forma. O deus Brahma emergiu de uma flor de lótus que cresceu do umbigo de Vishnu, e, sob o comando de Vishnu, criou o universo. Deus ouve e responde a orações. Mamíferos marinhos vieram dos dedos decepados do deus inuit Sedna. Você ganhará riquezas e felicidade se mandar dinheiro para a congregação de Creflo Dollar. São dogmas. Para ver em que os crentes realmente acreditam, considere que mais de 60% dos americanos acreditam em milagres, em concepção virginal de Jesus, na divindade e ressurreição de Jesus (Giberson e Miller entre estes), em sobrevivência da alma depois da morte, na existência do inferno e de Satanás. Independente do que dizem os teólogos liberais, a maioria de nós não é de deístas nem unitaristas. E se você pensa que os americanos veem a Bíblia como mera poesia metafórica, eu o convido a visitar uma igreja evangélica em Wasilla, Alasca, ou no sul de Chicago. Muitas crenças religiosas podem ser testadas cientificamente, pelo menos em princípio. A cura pela fé é particularmente apropriada para testes. Contudo, ela falha nestes testes repetidamente. Diz-se que Anatole France, depois de ver os objetos abandonados pelos visitantes em Lourdes, comentou: “Todas essas bengalas, aparelhos ortopédicos e muletas, e nem um único olho de vidro, perna de pau ou peruca!” Se Deus pode curar o câncer, por que Ele é impotente diante da falta de olhos ou pernas? Estudos científicos recentes sobre a oração intercessória – quando os doentes não sabem se estão recebendo orações – não mostraram nem a mais tênue evidência de que funciona. Nem temos demonstrações cientificamente rigorosas de milagres, apesar de o Vaticano exigir que dois milagres sejam provados para canonizar cada santo. Relíquias sagradas, tais como o Sudário de Turim, mostraram-se nada mais que fraudes inteligentes. Não há nenhuma evidência corroborada de que alguém tenha se comunicado do além-túmulo. E o que dizer dos milagres “fundacionais” antigos, tais como aqueles supostamente realizados por Cristo, Buda ou Maomé? Não estávamos lá quando aconteceram, então não podemos testá-los. Mas ao menos podemos aplicar os mesmos critérios que aplicamos a outras alegações da Bíblia ou do Corão. Assim como Giberson, Miller rejeita uma interpretação literal da Bíblia. Depois de discutir o registro fóssil, ele sustenta que “uma leitura literal da história do Gênesis é simplesmente inválida cientificamente”, concluindo que “a teologia não pode e não pretende ser científica, mas pode reclamar para si que seja consistente com a ciência e que dialogue com ela”. Mas isso leva a uma questão difícil. Por que rejeitar a história da criação e da arca de Noé por causa de nosso conhecimento sobre os animais terem evoluído, mas mesmo assim aceitar a realidade da concepção virginal e ressurreição de Cristo, que também são coisas que estão em desacordo com a ciência? Afinal, a pesquisa biológica sugere a impossibilidade de as fêmeas humanas se reproduzirem assexuadamente, ou de alguém despertar três dias após a morte. Claramente Miller e Giberson, juntamente com muitos americanos, têm algumas visões teológicas que não são “consistentes com a ciência”.

Qual, então, é a natureza da “verdade religiosa” que supostamente complementa a “verdade científica”? A primeira coisa que devemos perguntar é se, e em que sentido, as asserções religiosas são “verdades”. A verdade implica a possibilidade de ser falso, então deveríamos ter uma forma de saber se as verdades religiosas estão erradas. Mas diferente das verdades científicas, as verdades religiosas diferem de pessoa para pessoa e de denominação para denominação. E todos sabemos de claras contradições entre as “verdades” de fés diferentes. O cristianismo afirma sem ambiguidade a natureza divina de Jesus, e muitos dizem que o caminho para a salvação depende absolutamente de aceitar esta alegação, enquanto o Corão diz terminantemente que qualquer pessoa que aceite a natureza divina de Jesus vai passar a eternidade no inferno. Essas alegações não podem ser ambas “verdadeiras”, ao menos de um modo que não demande contorcionismos intelectuais.

Asserções sobre a natureza de Deus também diferem entre as fés. Giberson explica, por exemplo, que “séculos de reflexão cristã sobre a natureza de Deus destacaram várias características de Deus: justiça, amor, bondade, santidade, graça, soberania, e assim por diante”. Mas para aqueles de outras fés, Deus pode ser vingativo, como Javé foi no Antigo Testamento. Os judeus não podem imaginar um Deus encarnado, a Palavra que se fez carne. Os hindus, como os gregos antigos, aceitam múltiplos deuses com personalidades diferentes. Para os deístas deus é apático, enquanto muitos teólogos em todas as fés monoteístas alegam que não podemos saber nada sobre os atributos de Deus. Então, qual dessas muitas caracterizações é a “verdadeira”? Qualquer coisa vendida como uma “verdade” deve vir com um método para ser refutada – um método que não dependa da revelação pessoal. Afinal, milhares de pessoas tiveram revelações ilusórias da “verdade” com consequências apavorantes.

Talvez o que queremos dizer com “verdades religiosas” seja “verdades morais”, tais como “Não cometerás adultério”. Estas regras não podem ser submetidas a testes empíricos, mas são compatíveis com nosso senso fundamentado de certo e errado. Mas para quase toda “verdade” como essa há outra na qual se acreditou com igual sinceridade, como “Aqueles que cometem adultério devem ser apedrejados até a morte”. Esta máxima aparece não só na lei religiosa do Islã, mas também no Antigo Testamento. (Parece errado, aliás, chamar essas verdades de religiosas. Começando com Platão, os filósofos argumentaram de forma convincente que nossa ética não vem da religião, mas da uma moralidade secular que se desenvolve em criaturas inteligentes e que interagem socialmente, e é simplesmente inserida na religião para citações convenientes.)

Por fim, então, há uma distinção fundamental entre verdades científicas e verdades religiosas, não importa como você as analise. A diferença está em como você responde a uma pergunta: como eu saberia se eu estivesse errado? Thomas Huxley, o colega de Darwin, reparou que “a ciência é o senso comum organizado onde muitas teorias bonitas foram mortas por um fato feio”. Como em qualquer teoria científica, há potencialmente muitos fatos feios que poderiam matar o darwinismo. Dois desses seriam a presença de fósseis humanos e fósseis de dinossauros lado a lado, e a existência de adaptações em uma espécie que beneficiassem apenas uma espécie diferente. Dado que nenhum desses fatos jamais surgiram, continuamos a aceitar a evolução como verdadeira. As crenças religiosas, por outro lado, são imunes a fatos feios. Na verdade, elas se sustentam à revelia dos fatos feios, como a ineficácia da oração. Não há como decidir entre verdades religiosas conflitantes como podemos fazer entre explicações científicas que competem entre si. A maioria dos cientistas pode dizer que observações os convenceriam da existência de Deus, mas eu nunca conheci uma pessoa religiosa que me dissesse o que a refutaria. E o que possivelmente poderia convencer as pessoas a abandonar sua crença de que a deidade é, como Gibson assevera, boa, amorosa e justa? Se o Holocausto não pode convencê-las, então nada poderá.

V.

Giberson e Miller são homens sérios e de boa vontade. Lendo-os você tem uma impressão de convicção e sinceridade ausente nas obras de muitos criacionistas, que negam flagrantemente os fatos mais óbvios sobre a natureza em favor de sua fé. Vale a pena ler ambos os livros: Giberson pela história do debate criação/evolução, e Miller por seus argumentos lúcidos contra o Design Inteligente. Porém, no final eles falham em atingir sua desejada união entre a fé e a evolução. E eles falham pelas mesmas razões pelas quais as pessoas sempre falham: uma verdadeira harmonia entre ciência e religião requer ou dispensar a religião da maioria e substituí-la com um deísmo diluído, ou poluir a ciência com alegações espirituais desnecessárias, não testáveis e despropositadas.Embora Giberson e Miller vejam a si mesmos como oposição ao criacionismo, ao conceber a compatibilidade entre ciência e religião eles por fim convergem com seus oponentes. Na verdade, eles exibem ao menos três das quatro características distintas dos criacionistas: crença em Deus, na intervenção de Deus na natureza, e num papel especial para Deus na evolução dos humanos. Eles podem até mostrar a quarta característica, uma crença na complexidade irredutível, ao proporem que uma alma não pôde ter evoluído e foi inserida por Deus.

Giberson, enquanto renuncia a um Deus interferente, mesmo assim vê projeto deliberado na Terra.

“Por que o canto [dos pássaros] é tão agradável de ouvir? Por que, por exemplo, quase toda cena de natureza virgem parece tão bonita, de lagos em montanhas a pradarias extensas? Se a evolução de nossa espécie foi moldada apenas por critérios de sobrevivência, então de onde ganhamos nosso rico senso de estética natural? … Há um caráter artístico na natureza que sempre me arrebatou como redundante de um ponto de vista puramente científico… Sou atraído pela ideia de que a assinatura de Deus não está em projetar maravilhas do mundo natural, mas na criatividade maravilhosa e profundidade estética presentes nele. Os cientistas não devem falar em Deus dessa forma, porque levanta questões que não podem ser respondidas.”

Isso é projeto estético em vez de projeto inteligente, mas ainda é projeto. E ignora explicações científicas, como a teoria da “biofilia” de E. O. Wilson, que sugere que nós evoluímos para achar lugares como lagos e pradarias atraentes simplesmente porque eles forneciam comida e segurança aos nossos ancestrais.E nem Miller nem Giberson nos dizem que circunstâncias os fariam abandonar sua crença num Deus pessoal. Giberson, na verdade, afirma que ele não pode estar errado:
This is aesthetic design rather than intelligent design, but it is still design. And it ignores scientific explanations, such as E.O. Wilson’s “biophilia” theory, which suggests that we evolved to find places like lakes and prairies attractive simply because they provided our ancestors with food and safety. And neither Miller nor Giberson tell us what circumstances would make them abandon their belief in a personal God. Giberson, in fact, asserts that he cannot be wrong:

“Como um crente em Deus, estou convencido antecipadamente de que o mundo não é um acidente e que, de algum modo misterioso, nossa existência é um resultado “esperado”. Nenhum dado dissiparia isso. Assim, não vejo a história natural como uma fonte de dados para determinar se o mundo tem ou não tem propósito. Em vez disso, a minha abordagem é antever que os fatos da história natural serão compatíveis com o propósito e significado que encontrei em outros lugares. E minha compreensão de ciência não me dissuade dessa convicção.”

Esta é pura e simplesmente uma fala criacionista. Nenhum cientista de verdade diria que suas teorias são imunes a refutação. E então a reconciliação pessoal de Giberson, por mais espiritualmente edificante que seja para ele, não deve ser nada convincente intelectualmente para o resto de nós.
Junto com seu argumento de “design estético”, Giberson oferece outra motivo para sua fé -podemos chamá-lo de argumento da conveniência.

“Por uma questão puramente prática, tenho razões que me obrigam a acreditar em Deus. Meus pais são cristãos profundamente dedicados e se sentiriam devastados se eu rejeitasse a minha fé. Minha esposa e filhos acreditam em Deus, e nós vamos juntos à igreja regularmente. A maioria dos meus amigos são crentes. Eu tenho um emprego que amo numa universidade cristã que seria forçada a me demitir se eu rejeitasse a fé subjacente à missão da universidade. Abandonar a crença em Deus seria romper com tudo isso, descarrilhando completamente a minha vida.”

Essa confissão tocante revela a triste irracionalidade de toda a iniciativa – o conflito desmoralizante entre uma necessidade pessoal de acreditar e um desespero de mostrar que esta necessidade primordial é perfeitamente compatível com a ciência.Parece, então, que não se pode ser coerentemente religioso e científico ao mesmo tempo. Essa alegada síntese exige que com uma parte de seu cérebro você aceite apenas o que é testado e apoiado pela evidência consensual, pela lógica e pela razão, e ao mesmo tempo, com a outra parte do cérebro, você aceite coisas que são insustentáveis ou até refutadas. Em outras palavras, o preço da harmonia filosófica é a dissonância cognitiva. Aceitar tanto a ciência quanto a fé convencional te deixa com um critério dúbio: racional sobre a origem da coagulação sanguínea, irracional sobre a Ressurreição; racional sobre os dinossauros, irracional sobre concepções virginais. Sem uma boa causa, Giberson e Miller selecionam e escolhem o que acreditam. Ao menos os criacionistas de terra jovem são consistentes, pois aceitam causas sobrenaturais em todos os sentidos. Com seu faro habitual, o físico Richard Feynman caracterizou essa diferença: “A ciência é um modo de tentar não se enganar. O primeiro princípio é que você não deve enganar a si mesmo, e que você é a pessoa mais fácil de ser enganada”. Com a religião, não há modo algum de saber se você está se enganando.
Então o conflito mais importante – o que é ignorado por Giberson e Miller – não é entre a religião e a ciência. É entre a religião e a razão secular. A razão secular inclui a ciência, mas também inclui filosofia moral e política, matemática, lógica, história, jornalismo, e ciência social – qualquer área que exija que tenhamos boas razões para o que acreditamos. Neste ponto não estou alegando que toda fé é incompatível com a ciência e com a razão secular – apenas aquelas fés cujas afirmações sobre a natureza do universo contradizem observações científicas. O panteísmo e algumas das formas de budismo parecem passar no teste. Mas a grande maioria dos crentes – aqueles 90% de americanos que acreditam num Deus pessoal, a maioria dos muçulmanos, judeus, e hindus, e adeptos de centenas de outras crenças – caem na categoria “incompatível”.Infelizmente, alguns teólogos com uma inclinação deísta parecem pensar que falam por todos os crentes. Esses foram os críticos que denunciaram Dawkins e seus colegas por não abordarem cada argumento teológico sutil para a existência de Deus e por não se arriscarem na complexa história da teologia. Dawkins em particular foi atacado por escrever Deus, um delírio de uma forma “mediana”. Mas essa crítica ignora o mais importante. Ele de fato produziu um livro mediano, mas precisamente porque ele estava discutindo religião da forma como ela é vivida e praticada por pessoas reais. A razão por que muitos teólogos liberais veem a religião e a evolução como harmoniosas é que eles esposam uma teologia não apenas estranha mas irreconhecível como religião pela maioria dos americanos.

As estatísticas apoiam essa incompatibilidade. Por exemplo, entre aqueles 34 países pesquisados, observamos uma relação negativa estatisticamente robusta entre o grau de fé e a aceitação da evolução. Países como a Dinamarca, França, Japão e o Reino Unido têm uma alta aceitação do darwinismo e baixa crença em Deus, enquanto a situação é revertida em países como Bulgária, Letônia, Turquia e Estados Unidos. E dentro dos EUA, cientistas como um todo são consideravelmente menos religiosos que os não-cientistas. Não se trata de dizer que tais estatísticas podem determinar a conclusão de um debate filosófico. Nem é importante se essas estatísticas significam que aceitar a ciência erode a fé religiosa, ou que ter fé erode a aceitação da ciência. (Ambos os processos devem certamente ocorrer.) O que elas de fato mostram é que as pessoas têm problemas em aceitar ambas ao mesmo tempo. E dada a essência dessas respectivas mundividências, isso não é surpresa.
Essa desarmonia é um segredinho sujo em círculos científicos. É de nosso interesse pessoal e profissional proclamar que a ciência e a religião são perfeitamente harmoniosas. Afinal, queremos ganhar os financiamentos do governo, e queremos que as crianças sejam expostas a ciência de verdade nas escolas, em vez de criacionismo. Pessoas religiosas liberais têm sido aliados importantes em nossa luta contra o criacionismo, e não é agradável aliená-las declarando como nos sentimos. Esta é a razão tática pela qual grupos como a Academia Nacional de Ciências alegam que religião e ciência não entram em conflito. Mas sua evidência principal – a existência de cientistas religiosos – está enfraquecendo quando cientistas se tornam cada vez mais barulhentos sobre sua falta de fé. Agora o Ano Darwin está aí, e devemos esperar mais livros como esses de Kenneth Miller e Karl Giberson. Tentativas de reconciliar Deus e evolução estão vindo em enxurrada da linha de montagem. E nunca param, porque a reconciliação nunca funciona.Jerry A. Coyne é professor do Departamento de Ecologia e Evolução da Universidade de Chicago. Seu novo livro, Why Evolution Is True, acaba de ser publicado pela Viking.

Eli Vieira é biólogo e responsável pelo blog Tetrapharmakos in Vitro e pela rede social Evolucionismo.

  • eli, obrigada pela tradução!
    ótimo texto :*

  • Este texto é uma excelente fonte de argumentos para qualquer discussão contra um teísta, muito bem escrito. É, sem dúvida, uma valiosa contribuição.

  • uau, é muito bom receber comentários de alguém com um blog deste! demais.

    vou virar freguesa.

    []s!

  • Thaís

    Faço de minhas palavras as de Gregory Gaboardi.

    Abraços.

  • Muito bem, Eli! Essa tradução veio a ocupar um pequeno nicho de textos com novos argumentos contra teístas e contra o design inteligente e se for ver, contra muitas coisas que não acho legais.
    O texto é realmente bom; apesar de longo foi gostoso lê-lo para despertar potenciais ideias.

    Achei muito bem feita a tradução. (Falo isso ser conhecer o original…)
    Contudo, você cometeu dois deslizes, que vou te apontar.
    Acho que está errado escrever "denovo e denovo". O certo seria separar. (Pesquise com CTRL+F no Firefox.)
    E tem uma parte em inglês que você não tirou da postagem, acho que no capítulo IV.