27th of June

História do ateísmo – parte 1: Índia


Esta é a primeira parte de uma série de textos curtos para a divulgação da história do ateísmo, escritos especialmente para a Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS). Os números entre colchetes às vezes trazem complementação em notas no final do texto.  

Esboço de uma história do ateísmo

por Eli Vieira*

Introdução – pensando ateisticamente a História e pensando historicamente o Ateísmo

Que é a história, para um ateu moderno, além de uma coleção de memórias mortas para quem primeiro as formou, e vivas para o patrimônio cultural que herdamos?

Existem diferentes linhas modernas de pensamento ateu sobre a história. Por seu saliente interesse muitos marxistas devem ser citados, mas eles são apenas parte de uma comunidade bem mais diversa. Se na época de Homero aceitava-se a interferência divina sobre os fatos históricos, hoje historiadores como Bart Ehrman, além de não aceitarem interferências sobrenaturais na descrição dessa memória, não aceitam também doutrinas derivadas do teísmo, como a ideia de um povo escolhido.[1] A Historiografia moderna é notavelmente secular, e isso é conquista do pensamento racional e cético.

Karl Popper, grande filósofo da ciência, também investigou filosoficamente certas concepções de história e delegou toda uma categoria do que chamava de historicismo à chamada forma teísta, e um dos historicismos da forma teísta é a doutrina do povo escolhido. O historicismo é uma forma pobre de descrever e pensar a história, para Popper. Embora ele ressalte que seu ataque ao historicismo de forma teísta não é um ataque à religião, e lembre que existem pensadores cristãos não historicistas [2], para se detectar este historicismo basta entrevistar um teísta médio para se confirmar alguma crença na inevitabilidade do curso da história, ou seu planejamento prévio na mente divina. É uma vantagem para quem não acredita num deus como o da Bíblia que a narrativa de Edward Gibbon sobre o Império Romano, por exemplo, não se assemelhe em nada às narrativas bíblicas sobre um mundo sob a constante vigília e interferência de uma entidade divina. A era da informação, ao crescer dos papiros aos sítios eletrônicos, revelou um deus silencioso. Ehrman, ao descrever como a Bíblia foi editada através das eras [3], e Gibbon, ao descrever a queda de um grande império [4], são uma pequena amostra de um espírito secular que precisa ser adotado para uma mínima correção na descrição dos fatos históricos. Não há espaço para afirmar milagres e mágicas na História (basta pesquisar o que se diz atualmente sobre um "Jesus histórico"). Um ateu, portanto, não sofrerá prejuízo algum ignorando a existência dos deuses nos fatos históricos. É justamente isso o que fazem os historiadores acadêmicos, ateus ou não. Que podemos dizer, então, sobre a história do ateísmo? Esta posição sobre a existência de um deus ou deuses não tem uma espinha dorsal histórica definida. Ou seja, não há para os ateus nenhum livro sagrado, não há uma única fonte para suas conclusões.
Enquanto as crenças teístas dependem de um epicentro histórico para sua disseminação, o que decorre diretamente de sua incapacidade em definir qual deus é melhor ou mais plausível, ateísmos brotaram independentemente em várias mentes, alguns frutificando em escolas de pensamento, a maioria provavelmente morrendo com seus semeadores solitários.

Entretanto, existem historicismos ateus, sendo um deles o marxismo, e existem ateus afirmando coisas sobre a história que deixariam Edward Gibbon de cabelo em pé.

Espero fornecer neste artigo um panorama geral que permita inferir a largura geográfica e a profundidade cronológica do ateísmo, embora não seja meu objetivo um estudo extenso – e sim uma chamada para estudos extensos. Nas conclusões tentarei uma síntese retomando o historicismo e a correção histórica.  

Ateísmo no oriente – Índia

  Grande parte da Índia forma um corredor de migração entre continentes, uma passagem onde a presença humana pode ser traçada a dezenas de milhares de anos, como atesta a diversidade de etnias, cores e línguas daquele país. Estimativas mais ousadas de relógio molecular traçam a presença humana na região da Índia a até 60 mil anos.[5] Essas e outras condições permitiram à Índia milênios de tradição cultural, tanto em religião quanto em artes, medicina e filosofia. É errôneo pensar que a Índia é um lugar mais supersticioso que o resto do mundo, quando sua tradição filosófica envolta pelo Hinduísmo compreende até mesmo escolas filosóficas completamente ateias e materialistas. Amartya Sen, indiano prêmio Nobel de economia em 1998, comenta esse senso comum sobre seu país:

De algumas formas as pessoas se acostumaram com a ideia de que a Índia seria espiritual e religiosamente orientada. Isso deu uma colher de chá para a interpretação religiosa da Índia, apesar do fato de que o Sânscrito teve uma literatura ateísta maior que em qualquer outra língua clássica. Mesmo dentro da tradição hindu houve muitas pessoas que eram ateias. Madhava Acharya, o notável filósofo do século XIV, escreveu um livro grandioso chamado Sarvadarshansamgraha, que discutia todas as escolas religiosas de pensamento dentro da estrutura hindu. O primeiro capítulo é "Ateísmo" – uma apresentação muito forte a favor do ateísmo e do materialismo. [6]

A afirmação recorrente de que crer em deus(es) é a condição natural do ser humano cai por terra à luz de uma mínima análise do milenar pensamento indiano. O ateísmo se manifesta aqui tanto na forma de sistemas "metafísicos" quanto na forma do materialismo radical. Ateísmos metafísicos e religiosos existiram tanto em parte da ortodoxia (Āstika) quanto na heterodoxia (Nāstika) da filosofia classificada dessa forma pelos hindus. As escolas ortodoxas de Samkhya e Mimamsa, apesar de falarem em forças "espirituais" paralelas à natureza e usarem o "invisível", não viam lugar para um Ishvara (Deus, Ser Supremo) em seus sistemas. Já as três principais escolas heterodoxas também são todas ateias. O termo Nāstika, que as agrupa, deriva do sânscrito na (não) + āstika (crente, pio, especificamente crente nos Vedas, textos sagrados hindus). Estas escolas são nada menos que Budismo e Jainismo, e também o menos conhecido Cārvāka, completamente materialista.[7] Talvez mais importante que a ausência de crença em deuses no Budismo seja a exortação do Buda a favor do ceticismo, que explicitamente ia na contramão das correntes Āstika por não ver virtude na pregação das escrituras ou na autoridade da tradição.[8] No tempo em que Buda e Mahavira elaboravam as doutrinas do budismo e do jainismo, entre os séculos VI e V antes da Era Comum (AEC, ou a.C.), outros professores ensinavam outras doutrinas ateias na região da Índia, alguns deles materialistas. Embora alguma influência materialista possa ser apontada no Budismo e no Jainismo, há nesses sistemas uma forte defesa da continuidade da vida após a morte e outros conceitos não-materialistas. O Jainismo mais marcadamente defende um dualismo entre espírito e matéria, e prega o ascetismo e a penitência.[9]

Um contemporâneo do Buda, chamado Ajita Kesakambala, pregava um sistema niilista e materialista segundo o qual o homem era nada mais que a reunião de quatro elementos (terra, água, fogo e ar), que após a morte voltavam para suas respectivas "massas". Para Kesakambala, "não há fruto ou amadurecimento de ações boas ou más. Não há este ou aquele mundo. Não há mãe nem pai. Não há seres que nasçam repentinamente [deuses, céu, inferno, podem ser citados como estes seres]. (…) Tolos e sábios são destruídos e desaparecem quando o corpo se despedaça. Eles não existem mais após a morte."[9] No século IV AEC, o materialismo também se manifestou na forma de uma aparente justificativa para a remoção de escrúpulos morais que refreassem as políticas maquiavélicas do rei Chandragupta do Império Maurya. Esta teoria política similar à de Maquiavel foi elaborada pelo conselheiro e primeiro-ministro Chanakya. Também um certo Purana Kasyapa endossava esta moral materialista segundo a qual "qualquer um pode fazer ou permitir que qualquer coisa seja feita, mutilar ou deixar que alguém mutile (…) mas ele, em tudo isso, não faz nada de mau".[9]

Certamente assim apresentada a doutrina materialista era algo a ser rechaçado pelos budistas e jainistas, e isto é ilustrado enfaticamente numa história sobre um outro rei, Paesi de Seyaviyā, que não acreditava "em nenhum Deus e nem no além" e fazia experimentos com punições de criminosos para confirmar sua descrença em vida após a morte. "Estou convencido de que a alma e o corpo são o mesmo", dizia o rei, enquanto argumentava que se houvesse vida após a morte seu avô, também um rei ateu, teria voltado para avisá-lo sobre os malefícios de sua descrença. No texto, que faz parte tanto dos clássicos jainistas quanto dos budistas, este rei malvado é convertido pelos argumentos ad hoc de um monge jainista chamado Kesi.[9] Paesi chegou a mandar despedaçar o corpo de um homem para procurar pela alma, e em dois experimentos trancou homens em jarros vedados para demonstrar que morriam mesmo que não houvesse algum buraco pelo qual a alma pudesse sair, ou pelo qual as almas dos vermes pudessem entrar para consumir o corpo. Antecipando em dois milênios os experimentos dos 21 gramas de Duncan Macdougall (1907), Paesi pesou o corpo de um homem antes e depois da morte, concluindo, diferente de Macdougall, que não havia diferença no peso antes e depois da morte e que portanto a alma e o corpo eram a mesma coisa. [9, 10] O materialismo rústico desses reis, amparados por seus conselheiros, não pode ser considerado, entretanto, parte de uma escola de pensamento definida.

A doutrina materialista se torna mais elaborada em obras como a de Kakuda Katyayana, que pode ser considerado um dos primeiros indianos a elaborar uma filosofia natural materialista sistemática, no sentido de ter compromisso com explicação e não puramente justificação política.  Para ele o homem era composto de sete "massas" (kāyāh): terra, água, fogo, ar, prazer, dor e as "almas" (jivah). Esses fatores permanentes não foram criados nem gerados, eram imutáveis para Katyayana. "Quando alguém decepa uma cabeça com uma espada afiada", dizia ele, "ninguém rouba a vida de ninguém. A espada passa, pelo contrário, através de espaço vazio, entre as sete massas."[9] Entretanto, nenhum materialista da Índia se compara, em termos de sistematização filosófica, à escola de Cārvāka, também conhecida como Lokāyata. O nome Cārvāka provavelmente advém do fundador da escola, sobre o qual quase nada se sabe, que teria vivido talvez no século VI AEC. O modo como os dois nomes se tornaram sinônimos é pouco claro, mas o termo Lokāyata é encontrado na literatura hindu como sinônimo de debate racional, de ceticismo em geral, e de "filosofia do povo" ou "filosofia do mundo". [11, 12]
O nome Cārvāka é dado a um vilão do famoso épico Mahabharata, e isso decorre diretamente do mal estar que esta escola filosófica causou na Índia antiga.[11] Como nas outras escolas filosóficas, os ensinamentos dos cārvākas era passado adiante através de aforismos, primeiro oralmente e mais tarde em textos. Alguns desses aforismos sobrevivem até hoje:

"Agora explicaremos a verdade." [Este aforismo se repete em outras escolas.]
"Terra, água, fogo, ar: essas são as entidades."
"Designa-se sua conexão ou combinação como o corpo, os órgãos dos sentidos e os objetos."
"Delas se desenvolve a mente ou o espírito em si."
"O conhecimento emerge como uma força do inebriante fermentado da levedura."
"As manifestações da vida (jivah) se assemelham a bolhas na água."
"E porque não há nada que continue no mundo do além, não há, portanto, nenhum mundo do além."[9]

Além de recomendar que o conhecimento seja adquirido pelos sentidos e por inferências minimalistas a partir dos sentidos, e afirmar a auto-suficiência da natureza e a emergência da mente a partir de processos naturais, os cārvākas recomendavam uma ética baseada em máximo prazer e mínima dor, que não seria um hedonismo irresponsável, mas uma temperança e moderação menos destacada dos sentidos que o caminho do meio dos budistas.

Os cārvākas negavam os deuses do Hinduísmo, os mundos transcendentes de punição ou recompensa e também a sobrevivência à morte do corpo, além de rejeitarem também o ascetismo e penitência dos jainistas e a crença budista da persistência do conhecimento através da reencarnação – que não seria possível porque o conhecimento crescia apenas nos corpos adultos e não nos embriões, que não tinham os meios sensoriais de adquiri-lo. Por isso, o conhecimento de uma suposta vida anterior não poderia renascer num novo corpo.[9]

É notável que esses céticos materialistas e ateus rejeitavam também o sistema social de castas, que chamavam de artificial, irreal e inaceitável, pois as semelhanças físicas entre pessoas de diferentes castas eram óbvias.[11]

Seus oponentes questionavam: se são os elementos da natureza que compõem a sensibilidade que só se observa nos humanos, por que coisas inanimadas como um pote ou um vaso não têm também essa sensibilidade, se são compostos dos mesmos elementos?

Erich Frauwallner relata que a resposta da filosofia Cārvāka partia da seguinte argumentação: assim como "a força da embriaguez, quando está aparecendo, pressupõe não apenas a presença de coisas necessárias – farinha, água e melaço e os ingredientes restantes, mas também o fato de que estes precisam estar numa condição particular de mistura", "também os elementos só podem produzir a sensibilidade quando aparecem num estado particular, isto é, na forma de corpo, como pele, ossos, carne e sangue. Já no cadáver, essa condição não é preservada imutável e portanto a sensibilidade dele desapareceu."[9]

Esta explicação geral tem sido confirmada com êxito pelas ciências naturais na modernidade. Os cārvākas veriam as modernas biologia evolutiva e fisiologia como um grande triunfo de sua escola filosófica. Seu recorrente exemplo da produção do álcool pode parecer ingênuo, mas é preciso: é uma organização particular dos átomos que possibilita a fermentação, e é uma organização particular dos átomos que possibilita a percepção sensorial e (como estamos ainda elucidando) a própria mente. Ter percebido que necessidade e contingência interagem a partir de elementos naturais para trazer os fenômenos observáveis à tona é um grande mérito para humildes pensadores de mais de dois mil anos atrás.

Enquanto seus pares culturais se perdiam em leis de retribuição para explicar a sucessão intermitente de alegrias e reveses da vida, os pensadores de Lokāyata apelavam para a emergência acidental de bolhas na água para ilustrar este processo.[9, 13] Além de todas essas objeções epistemológicas à ortodoxia hindu, eles muitas vezes faziam comentários anticlericais sobre os sacerdotes serem "homens sem inteligência nem energia para exercerem outra profissão"; e se perguntavam sarcasticamente: "se o animal abatido num sacrifício iria para o céu, por que o sacrificador, então, não mata seu pai para despachá-lo para o céu?"

Para os cārvākas os autores das escrituras (Vedas) eram trapaceiros, vis, e mentirosos que tentavam passar sua "tagarelice ininteligível" por "palavras de homens sábios". Por essas razões ninguém deveria se preocupar em acreditar nas escrituras, e sim em ser feliz, pois a vida não tem retorno "uma vez que o corpo se torna cinzas".[9]

A manifestação do ateísmo materialista e não materialista através dos milênios da cultura indiana indica que, se há algo inevitável no pensamento humano, é a pura busca de respostas, e não uma convergência universal para o teísmo como resposta absoluta. Os adeptos de Samkhya eram religiosos sem precisar de nenhum deus, os budistas explicavam a continuidade da memória sem precisar de uma alma, e os cārvākas pregavam a felicidade sem necessidade de almas, deuses ou reencarnações, se importando apenas com o perceptível e diretamente inferível, ao ponto de notarem que a separação da sociedade em castas era algo absurdo, coisa que apenas disparates supersticiosos poderiam sustentar.
Madhava Acharya, o filósofo do século XIV citado por Amartya Sen, fez uma enfática defesa da ética secular adotada por estes materialistas séculos antes:

A única finalidade do homem é o deleite produzido pelos prazeres sensoriais. Não podes dizer que tais não podem ser chamados de finalidade do homem por serem sempre imiscuídos com algum tipo de dor, porque é nossa sabedoria desfrutar o prazer puro tanto quanto pudermos, e evitar a dor que inevitavelmente o acompanha… Não é, portanto, por nós, através de um medo da dor, rejeitar o prazer que nossa natureza instintivamente reconhece como agradável.[14]

Veremos adiante que este pensamento de desvincular a ética de autoritarismos divinos ou de supostas leis inevitáveis de "carma", e associá-la à vida cotidiana experimentada pelos sentidos, foi importante também para descrentes da China e do ocidente.
A escola filosófica de Lokāyata/Cārvāka desenvolveu independentemente este e outros fundamentos para os quais convergem os ateus e céticos modernos.

Na história moderna esta escola (juntamente com outras) caiu em esquecimento para o grande público, sendo lembrada por estudiosos acadêmicos e intelectuais como Amartya Sen. Muitos dos famosos gurus indianos da modernidade, apesar de suas pregações sobre o sobrenatural, fizeram questão de confirmar em suas atitudes o que disseram Acharya e os  cārvākas sobre as finalidades hedonistas do homem.

Por exemplo, quando os Beatles romperam relações com o guru indiano Maharishi Mahesh Yogi, a razão foi que, apesar de seus ensinamentos transcendentais, o guru tinha revelado interesses muito terrenos ao tentar estuprar uma seguidora.

John Lennon [15] escreveu uma música inspirado por este momento em que Maharishi revelou sua "finalidade": esta canção, que num primeiro momento receberia o nome Maharishi, é Sexy Sadie (1968), que diz:

"Sexy Sadie, o que você fez?
Você fez todo mundo de bobo
Sexy Sadie, você quebrou as regras
Você expôs para todos verem
Sexy Sadie, como você sabia?
O mundo estava só esperando por você
Sexy Sadie, você ainda vai levar a sua
Não importa o quão grande você pensa que é"

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Notas, referências e leituras adicionais

1 – Bart D. Ehrman. Debate com William Lane Craig. 2008.

2 – Karl Popper. A sociedade aberta e seus inimigos. Ed. da Universidade de São Paulo, 1987. 3 – Bart D. Ehrman. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Editora Prestígio, 2006. 4 – Disse Edward Gibbon, em "A História do Declínio e Queda do Império Romano" (apudWikipédia , 2009):

"Mas como deveremos perdoar a negligência indiferente do mundo pagão e filosófico que foram apresentadas, não para seu julgamento mas para os seus sentidos? Durante a época de Cristo e seus apóstolos, e dos seus primeiros discípulos, a doutrina que eles professavam era confirmada por inúmeros prodígios. Os coxos caminhavam, os cegos viam, os doentes eram curados, os mortos ressuscitavam, demónios eram esconjurados e as leis da Natureza eram frequentemente suspensas em benefício da igreja. Mas os sábios de Roma e da Grécia desinteressaram-se deste horrível espetáculo e, prosseguindo as suas ocupações normais da vida e do estudo, pareciam inconscientes de quaisquer alterações na moral e no governo material do mundo. Sob o reinado deTibério, o mundo inteiro, ou pelo menos a celebrada província do Império Romano, estava envolvido na obscuridão sobrenatural. Mesmo este evento miraculoso, que deve ter apelado à curiosidade e devoção da humanidade, passou sem grande notícia numa época de ciência e de história. Aconteceu durante a vida de Séneca e de Plínio o Velho, que devem ter experienciado os efeitos imediatos ou recebido a informação mais privilegiada do prodígio. Qualquer um destes filósofos recolheu detalhadamente os fenómenos da natureza, tremores de terra, cometas e eclipses que a curiosidade infatigável pode recolher. Quer um quer outro omitiram uma menção ao maior fenómeno que algum mortal testemunhou desde a criação do globo."

5 – Kumar, Vikrant et al. Y-chromosome evidence suggests a common paternal heritage of Austro-Asiatic populations. BioMed Central, 2007. 6 – California Magazine, julho/agosto de 2006. University of California – Berkeley. apud Wikipedia, 2009. 7 – Atheism in Hinduism. Wikipedia , 2009. Ver também Enciclopédia Mirador, verbete "Ateísmo". 8 – Disse Siddhartha Gautama, o Buda, em Anguttara Nikaya (apud Pharyngula , 2009):

"Não se deixe enganar por relatos ou tradição ou opinião comum. Não se deixe enganar pela proficiência nas escrituras, nem pela especulação e conclusões, nem por teorias atraentes ou ideias favoritas, nem por impressões de méritos pessoais (do professor) e nem pela autoridade de algum mestre. Mas antes, Kalamas, quando discernirdes: essas coisas são inúteis, essas coisas são condenáveis, essas coisas são repreendidas pelo sábio; essas coisas, quando cumpridas e realizadas conduzem ao infortúnio e à dor, então deveis certamente rejeitá-las. (…) E quando discernirdes: essas coisas são úteis, essas coisas não são condenáveis, essas coisas são enaltecidas pelo sábio; essas coisas, quando cumpridas e realizadas conduzem à boa fortuna e à felicidade, então deveis certamente aceitá-las."

Outro partidário do Budismo, o filósofo Dharmakirti, influenciado pelo sistema Cārvāka, escreveu no século VII da Era Comum (na obra Pramanvartik, apud Wikipedia , 2009):

"Acreditar que os Vedas são esteio (santos ou divinos), acreditar num Criador do mundo,

Banhar-se em águas sagradas para ganhar punya [mérito budista], ter orgulho (vaidade) sobre sua casta,

Fazer penitência para absolver pecados,

São os cinco sintomas de ter-se perdido a sanidade."

9 – Erich Frauwallner. History of Indian Philosophy, vol. 2. Motilal Banarsidass, 1975. 10 – John E. Cort. The Story of Paesi: Soul and Body in Ancient India: A Dialogue on Materialism. The Journal of the American Oriental Society, Oct-Dec, 2003.

11 – Cārvāka. Wikipedia, 2009.

12 – John M. Koller. Skepticism in Early Indian Thought. University of Hawaii Press, 1977.

13 – Para ilustrar a contingência do surgimento da mente no texto "Opiniões, mentes e peixes" (Tetrapharmakos in Vitro, 2009) também usei bolhas na água, o que é uma feliz coincidência.

14 – Acarya. Sarvadarsanasamgraha.apud John Longeway. The Emergence of Philosophical Debate. University of Wisconsin, 2009.

15 – Sexy Sadie. Wikipedia, 2009. * Eli Vieira é biólogo, mineiro, tem 22 anos, publica suas opiniões no blog Tetrapharmakos in Vitro e divulga a Biologia Evolutiva no portal Evolucionismo.